Enfrentar a crise climática é inadiável. “O ecocídio é também um suicídio”, avalia Diniz Alves

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Por: Jonas Jorge da Silva | 18 Mai 2021

 

“O horizonte do apocalipse ecológico está estimado para 2050 e deve impactar fortemente a geração do milênio (“Millennials”). Os jovens que nasceram ao redor do ano 2000 e adiante estão sentindo que recebem uma herança ambiental de Terra arrasada. Se houver agravamento do aquecimento global rumo à Terra estufa e o prosseguimento do 1º evento de extermínio em massa das espécies - Ecocídio - haverá uma aniquilação da vida futura”, avaliou José Eustáquio Diniz Alves, em artigo publicado em setembro de 2019, ressaltando a dimensão emergencial da crise climática que assola o mundo e a disposição de jovens do mundo todo em agir.

“As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade”, também nos alerta a carta encíclica Laudato Si, assinada pelo Papa Francisco no dia 24 de maio de 2015.

Justamente às vésperas da Semana Laudato Si, que acontece de 16 a 24 deste mês maio, organizada pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Integral do Vaticano e promovida pelo Movimento Católico Global pelo Clima, em colaboração com cerca de 150 organizações, o CEPAT debateu, no dia 15, o tema Emergência Climática: causas, consequências e interpelações, terceiro encontro da série de debates Crise sistêmica, complexidade e desafios planetários.

 

José Eustáquio Diniz Alves, no debate "Emergência Climática: causas, consequências e interpelações"

A iniciativa conta com a parceria e o apoio de diversas instituições: Instituto Humanitas Unisinos - IHU, Núcleo de Direitos Humanos da PUCPR, Conselho Nacional do Laicato do Brasil - CNLB, Comunidades de Vida Cristã - CVX, Observatório Nacional Luciano Mendes de AlmeidaOLMA e Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Estadual de Maringá.

Nosso debatedor, José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e pesquisador em meio ambiente, mantém um intenso trabalho de estudos e divulgação científica, fortalecendo as instituições, organizações e movimentos sociais preocupados com as diversas expressões da crise socioambiental.

Antes de mais nada, após reconhecer o efeito devastador da crise sanitária atual, fez um paralelo com a mudança climática, prognosticando que “a crise sanitária vai passar, mas a emergência climática continuará”. Em sua avaliação, a emergência climática e ambiental mata muito mais. Lembrou, por exemplo, que mais de 8 milhões de pessoas morreram, em 2018, em conexão com a poluição de combustíveis fósseis.

A extensa e rica análise estatística dos dados relacionados à mudança climática apresentados por Alves não deixa dúvidas de que as próximas décadas podem ser fortemente impactadas por desastres socioambientais e que, inclusive, podem levar a um colapso da forma como até agora as sociedades se organizaram e viveram. São dados que rebatem as teses negacionistas, muito em moda nos dias atuais. O avanço do aquecimento global e de suas consequências é, na verdade, uma ameaça existencial à civilização humana.

Se até o final deste século o aquecimento global ultrapassar os 2 graus, já serão enfrentadas consequências catastróficas. Contudo, há cenários ainda piores, que projetam, em caso de total inação de governos e sociedades civis, um aumento de 4 graus nas temperaturas. Segundo Alves, a contínua aceleração do aquecimento global pode ser evidenciada, por exemplo, pelo fato de os últimos 7 anos terem sido os mais quentes de todo o Holoceno.

Desde os anos 1970, a humanidade convive com uma evolução contínua do aquecimento global. A cada década, a temperatura vem aumentado. Para citar um elemento sensível aos olhos de todos, Alves se referiu ao florescimento precoce da flor de cerejeira japonesa. Conforme registros, em 2021, o pico de floração ocorreu no dia 26 de março, em Kyoto, o mais precoce desde o ano de 1953, início da coleta de dados pela Agência Meteorológica do Japão.

Alves apontou que se vive algo inédito com esta crise climática, que contrasta radicalmente com os últimos 12.000 anos de grande estabilidade climática vivida no mundo. Trata-se da maior temperatura e concentração de CO2, em 5 milhões de anos. Esta é a implosão que conflagra o que se passa a considerar a era do Antropoceno. Vive-se a maior concentração de CO2 da história humana.

Jonas Jorge da Silva, do CEPAT, e José Eustáquio Diniz Alves, no debate "Emergência Climática: causas, consequências e interpelações"

Se a tendência continuar, a humanidade se direcionará para uma situação de permanente colapso, com regiões inteiras inabitáveis, acidificação e elevação do nível dos oceanos, ondas letais de calor, guerras por razões climáticas e por recursos naturais cada vez mais escassos, entre outros fenômenos socioambientais. Para Alves, “o ecocídio é também um suicídio”.

José Eustáquio Diniz Alves se mostrou muito preocupado com a forma como a humanidade vem ultrapassando a capacidade de carga do planeta, ou seja, com o aumento exponencial da pegada ecológica. Citou, por exemplo, que a humanidade nunca experimentou um crescimento demoeconômico tão grande como nos últimos 250 anos (1769-2019). Ao mesmo tempo em que se vivenciou, de um modo geral, um período de grandes avanços na qualidade material da vida humana, houve um enorme impacto ambiental que ameaça as bases ecológicas do planeta.

Nesse sentido, pode-se dizer que foram ultrapassados os limites da resiliência do planeta e que não é mais razoável consumir e gastar uma herança finita como são os combustíveis fósseis, as florestas e outros. Se tal depredação seguir no mesmo ritmo, avizinha-se um colapso de grande envergadura.

Na avaliação de Alves, o Protocolo de Kyoto colocava toda a responsabilidade pelas emissões de carbono nos países ricos, mas que agora, a partir do Acordo de Paris, frente ao avanço da crise ecológica, todos os países passam a ter responsabilidades e precisam contribuir para controlar suas emissões de CO2. Quanto maior for a inação, maiores serão as consequências. Nesse sentido, os esforços para a redução das emissões de CO2 precisam ser cada vez mais reforçados. Por exemplo, mesmo que fossem efetivadas as metas mais ambiciosas da Cúpula de Líderes sobre o combate às Mudanças Climáticas, convocada por Joe Biden, ocorrida no dia 22 de abril de 2021, a temperatura poderia chegar a 2,4 graus no final do século, ou seja, ainda estaria aquém das metas prognosticadas por cientistas.

Mais ao final do debate, Alves fez menção à volta da fome no mundo, que voltou a crescer a partir de 2015 e que, agora, piorou ainda mais. Há uma tendência de aumento no preço dos alimentos e com os padrões do atual sistema alimentar, não é possível acabar com a fome de todo o mundo. Também enfatizou que, de acordo com a análise dos especialistas, sempre que há aumento no preço dos alimentos, aumenta as revoltas pelo mundo. O Brasil passa por um momento de escalada no preço dos alimentos e não está fora de cogitação que se torne o epicentro da fome e das consequentes revoltas sociais, a exemplo de outras nações.

Para Alves, organizações e movimentos sociais vêm despertando para a necessidade de uma desaceleração econômica dos setores que provocam a crise socioambiental, daí a proposta do decrescimento. Reconhece que já está havendo um decrescimento forçado pelas circunstâncias socioeconômicas, como é o caso do Brasil, mas que é necessário um planejamento desta tendência, em favor de uma melhor qualidade de vida para as pessoas e o meio ambiente.

 

José Eustáquio Diniz Alves, e Darli Sampaio, do Núcleo de Direitos Humanos da PUCPR, no debate "Emergência Climática: causas, consequências e interpelações"

No material que apresentou durante sua exposição, estão citadas diversas maneiras de decrescer:

- Decrescer a produção e o consumo de combustíveis fósseis e crescer a produção de energias renováveis para descarbonizar a economia;

- Decrescer os gastos militares e os instrumentos de guerra e aumentar os investimentos em atividades de engrandecimento da solidariedade nacional e internacional;

- Decrescer a produção e o consumo de fertilizantes químicos e agrotóxicos e aumentar os investimentos na agricultura orgânica;

- Decrescer as áreas de pastagem e a produção e o consumo de proteína animal, promovendo a transição para uma dieta vegetariana e vegana;

- Decrescer a produção e o uso de carros particulares e aumentar os investimentos em transporte coletivo e no compartilhamento de automóveis elétricos;

- Decrescer as desigualdades, o consumo conspícuo, os bens de luxo e investir em bens e serviços que permitam a universalização do bem-estar;

- Decrescer as áreas ecúmenas e aumentar as áreas verdes, etc.;

- Decrescer a economia material e aumentar a economia imaterial, a produção de bens intangíveis e a sociedade do conhecimento, da solidariedade e do compartilhamento.

Por fim, apresentou a perspectiva da economista Kate Raworth, que no livro Economia donut: sete formas de pensar como um economista do século XXI defende uma economia regenerativa e circular.

Durante o debate com os participantes, Alves foi muito franco frente ao colossal desafio histórico apresentado pela crise climática. “Normalmente, sou muito pessimista. Tenho dificuldade em ver o mundo todo se mobilizando”. “É difícil, mas é possível reverter. Acho que ainda dá tempo, mas é difícil”, ponderou. Nem sempre se enxerga a esperança nas palavras de alguém, mas naquilo que faz. É muito difícil não a enxergar em alguém como José Eustáquio Diniz Alves, que quase diariamente, por meio de análises e artigos, escancara a problemática socioambiental e chama as pessoas para a mudança.

Eis a íntegra da exposição e do debate.

 

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