Fratelli Tutti conjuga coragem, cuidado e ternura. Entrevista especial com Faustino Teixeira

A Encíclica de Francisco é marcada pela tonalidade do evangelho, diz o teólogo

Reprodução da obra de Giotto em que ele retrata São Francisco de Assis

Por: Patricia Fachin e João Vitor Santos | Edição: Ricardo Machado | 09 Outubro 2020

Francisco, o papa, parafraseia Francisco, o de Assis, no título de sua mais recente encíclica, Fratelli Tutti, em que recupera a fraternidade como valor central das relações não somente entre os humanos, mas entre os humanos, todas as demais espécies e o planeta. Nesse sentido o documento é, ao mesmo tempo, o testemunho de um mundo ferido e uma lúcida proposição de caminhos para enfrentarmos os dilemas contemporâneos a partir de uma visão que tem o amor e o cuidado aos mais vulneráveis como pano de fundo. 

 

Em entrevista por e-mail à IHU On-LineFaustino Teitexeira descreve a encíclica como um documento que "convoca-nos a olhar para o alto, pedindo forças para enfrentar com coragem esses tempos sombrios, de escuridão, solidão e dor. Como no evangelho, há uma cristalina opção pelos mais pobres".

 

Faustino Teixeira (Foto: Arquivo Pessoal)

Faustino Teixeira é professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais - PPCIR-UFJF. É doutor e pós-doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma. É autor de Caminhos da mística (São Paulo: Paulinas, 2018), Em que Creio Eu (São Paulo: Terceira Via, 2017), Finitude e Mistério. Mística e Literatura Moderna (Rio de Janeiro: Mauad, 2014). Também organizou, entre outros, Nas teias da delicadeza (São Paulo: Paulinas, 2006), As religiões no Brasil: continuidades e rupturas (Petrópolis: Vozes, 2006), este em parceria com Renata Menezes, e As orações da humanidade (Petrópolis: Vozes, 2018), em parceria com Volney Berkenbrock.

 

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Para discutir o novo documento papal, o Instituto Humanitas Unisinos - IHU promove a palestra virtual Encíclica Fratelli Tutti: uma leitura francisclariana, com Prof. Dr. Ildo Perondi - PUCPR e Prof. Dr. Luiz Carlos Susin - PUCRS, na quinta-feira, 08-10-2020.

Na sexta-feira, 09-10-2020, o cardeal português José Tolentino de Mendonça ministrará a conferência virtual Pandemia, um evento global. Repensar o futuro da casa comum a partir da Encíclica Fratelli Tutti

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Qual é a mensagem central da Encíclica Fratelli Tutti e que reflexões ela propõe para cristãos e não cristãos? Quais são os três pontos que destacaria do texto?

Faustino Teixeira – Estamos diante de uma bela encíclica, marcada pela tonalidade do evangelho. Há nela a conjugação da coragem destemida, do cuidado com a casa comum e com os mais sofridos, bem como uma ternura que vem sendo um traço singular no pontificado de Francisco. Utilizando aqui uma expressão de Leonardo Boff, é uma encíclica que une vigor e ternura. É uma encíclica, que na mesma rota da Laudato si' (LS), convoca-nos a olhar para o alto, pedindo forças para enfrentar com coragem esses tempos sombrios, de escuridão, solidão e dor. Como no evangelho, há uma cristalina opção pelos mais pobres. Junto com eles, o carinho que se derrama sobre os excluídos, os mais velhos e todos que se encontram abandonados num mundo carente de solidariedade. Trata-se de “cuidar da fragilidade” (FT 188), ou seja, “assumir o presente na sua situação mais marginal e angustiante e ser capaz de ungi-lo com dignidade” (FT 188). O pontificado de Francisco será lembrado como aquele que defendeu com as garras do coração uma outra globalização, fraterna e solidária, contra todo o ritmo nefasto deste tempo do Antropoceno, ou como vem lembrando L. Boff, do necroceno, em razão da ação predatória do humano sobre a Terra. Ela agora “geme e se rebela” (FT 34).

Como arauto do evangelho, Francisco convoca a todos a uma ira santa: “Fazem falta gestos físicos, expressões do rosto, silêncios, linguagem corpórea e até o perfume, o tremor das mãos, o rubor, a transpiração, porque tudo isto fala e faz parte da comunicação humana” (FT 43). Não há por que calar-se nesse tempo de passividade e indiferença, é o que revela Francisco com a medula do evangelho. Sua dor vem acentuada com a indiferença como o mundo globalizado vem, em geral, tratando os tocados pela epidemia do coronavírus, sobretudo os velhos, rechaçados como força de produção falida. Idosos são abandonados e isolados, “sem acompanhamento familiar adequado e amoroso”. Tudo isso provoca a mutilação e empobrecimento da própria noção de família (FT 19).

 

 

Francisco adverte na encíclica sobre o empobrecimento da humanidade. Lembra que “seria bom se, enquanto descobrimos novos planetas longínquos, também descobríssemos as necessidades do irmão e da irmã que orbitam ao nosso redor” (FT 31). É o sentimento de “pertença à humanidade” que se fragiliza numa sociedade do “mínimo eu”, do narcisismo desenfreado, da defesa do particular com todo o aparato de muros intransponíveis. Francisco denuncia as “novas barreiras de autodefesa”, para que vibre solitariamente o mundo privado do eu, mas de um eu sem mundo. E as vozes que ousam contestar essa lógica perversa são caladas ou ridicularizadas, como percebemos na oposição à resistência dos povos originários (FT 17). Nos esquecemos que são essas vozes que podem nos salvar. Aliás, ninguém se salva sozinho, mas a salvação envolve o sentimento de comunidade, que vem se ofuscando a cada dia (FT 32). O papa se coloca ao lado daqueles que promovem os essenciais “gestos barreiras”, para utilizar uma expressão de Bruno Latour. São aqueles que se opõem à dinâmica em curso, e que anseiam pela “interrupção” dessa globalização. Assim como o vírus conseguiu parar por um tempo o mundo, há esperança de que os “pequenos e insignificantes gestos, acoplados uns aos outros, conseguirão: suspender o sistema produtivo” (B. Latour. Onde aterrar – 2020).

Além da defesa de uma ira sagrada contra os donos do mundo, a encíclica defende com vigor o caminho da paz e do diálogo. A busca da paz é outro dos traços novidadeiros do pontificado de Francisco. Ele sublinha que em inúmeras partes do mundo urgem iniciativas que promovam “percursos de paz”, que possam “cicatrizar as feridas”, de “artesãos da paz prontos a gerar, com inventividade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro” (FT 225). Providencial é a citação do livro dos provérbios (12.20): “No coração dos que maquinam o mal, há falsidade, mas aqueles que têm conselhos de paz, viverão na alegria” (FT 256).

 

 

Aqueles que são aquecidos pelo evangelho vivem o dom da alegria, é o que nos lembra todo tempo Francisco em sua travessia de amor pela vida. Daí sua sensibilidade à capacidade de doação e de misericórdia, que são dons absolutamente gratuitos. E os artesãos da misericórdia também estão por aí, ao nosso redor, com seus semblantes acolhedores e anônimos. Lembra-nos Francisco, “de vez em quando verifica-se o milagre de uma pessoa amável, que deixa de lado as preocupações e urgências para prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença” (FT 224). Sim, estamos diante da globalização da indiferença, é o que nos lembra Francisco a todo momento. Curioso, num tempo pontuado por tantas conexões, de velocidade louca, prevalece a surdez e a desumanidade. Diz Francisco, em pensamento lapidar e certeiro: “Hoje podemos reconhecer que alimentamo-nos com sonhos de esplendor e grandeza, e acabamos por comer distração, fechamento e solidão; empanturramo-nos de conexões, e perdemos o gosto da fraternidade” (FT 33). Como bem lembrou, “a conexão digital não basta para lançar pontes” (FT 28). Esta é a dura verdade. E o ambiente das redes vem contaminado com rancor e ira, na defesa da “solidão dos que têm razão”. Francisco nos adverte contra esta acidez social, irradiada nas redes (FT 44) e convoca a um diverso sentimento, captado na Carta aos Gálatas, de amor, alegria e paz: “um estado de ânimo não áspero, rude, duro, mas benigno, suave, que sustenta e conforta”. Isso é o que o nosso tempo mais necessita, de uma paz que leve ao conforto e ao cuidado.

Outra mensagem que a encíclica carrega, como voz preciosa, é a do diálogo. Francisco cita o poeta Vinicius de Moraes para assinalar que “a vida é a arte do encontro” (FT 215). Só através de sua ponte o mundo é capaz de encontrar uma vida melhor (FT 198). O diálogo “tem seu próprio valor”, como diz o belo documento Diálogo e Anúncio (1991). Assim também Francisco quando diz não ser necessário saber “para que serve o diálogo” (FT 198). O diálogo é, na verdade, autofinalizado. Quando Francisco fala em diálogo, está pensando no diálogo entre as culturas, mas também entre as religiões. O diálogo é um dom que preserva as belas coisas que temos em comum com os outros (FT 297). Numa sociedade pluralista, o diálogo inter-religioso firma-se como caminho essencial de ultrapassagem dos muros. As religiões são respeitadas pelo Papa na sua dignidade sagrada. Com base em passagens de discursos no filme dirigido por Win Wenders sobre o seu pontificado, Francisco sinaliza: “Entre as religiões é possível um caminho de paz. O ponto de partida deve ser o olhar de Deus. Porque 'Deus não olha com os olhos, Deus olha com o coração. E o amor de Deus é o mesmo para cada pessoa, seja qual for a religião. E se é um ateu, é o mesmo amor'” (FT 282). Lança assim um convite ao “amor universal”, que deve animar o caminho da igreja. Isso sem perder o referencial singular da pertença. O diálogo não se opõe ao amor à própria religião. Se outros bebem de “outra fonte”, também reconhecida como expressão de beleza, os cristãos são brindados com um “manancial de dignidade humana e fraternidade” fundados no evangelho de Jesus Cristo (FT 277). E todos são cobertos com o manto da dignidade do Mistério sempre maior. O diálogo requer uma pedagogia singular, que envolve um aprendizado de abertura do coração e ampliação do olhar (FT 254). A igreja vem convocada a tal gesto de desprendimento e escuta, do Mistério que está por aí.

 

 

IHU On-Line – Que relações o senhor percebe entre a Encíclica Fratelli Tutti, a Laudato Si', o recente discurso do Papa Francisco na ONU e seus pronunciamentos acerca da economia e da justiça social? Nesse sentido, como esta encíclica se insere no pontificado de Francisco?

Faustino Teixeira – A Laudato Si' ocupou-se do cuidado da casa comum. É uma encíclica que faz um diagnóstico severo sobre a realidade da terra no tempo do Antropoceno, com todas as consequências nefastas de uma atitude predatória do humano com relação ao seu mundo. À luz do evangelho da criação e de uma espiritualidade do cuidado, Francisco busca sublinhar o significado mais profundo do habitar a terra com respeito, reverência e simplicidade, captando o nexo de inter-relação que dinamiza a cadência da vida. Sublinha o risco de catástrofes imprevisíveis caso o ritmo da aceleração produtivista continue no mesmo frenesi. Propõe uma “conversão ecológica” (LS 217) e uma espiritualidade do cuidado, na linha de Francisco de Assis. Na nova encíclica, Fratelli Tutti, o objeto de atenção é a fraternidade e a amizade social. Enquanto o foco da primeira encíclica centrava-se mais no campo da relação de cuidado com o ambiente, na nova encíclica o foco é mais social e político, abordando as exigências de uma fraternidade nova, distinta da “globalização da indiferença” que está em curso. São encíclicas que se complementam. A mensagem de vídeo endereçada à ONU, em setembro de 2020, vai na mesma linha de seu pensamento, presente nas encíclicas.

Retoma a ideia de uma “solidariedade baseada na justiça”, em linha de tensão com o ritmo frenético de “atitudes de autossuficiência” que desenham a plataforma de muitos governos no mundo atual. Ali aparecem sua preocupação com o mundo afetado pelo coronavírus; os efeitos tremendos que estão ocorrendo no mundo do trabalho, numa incerteza vinculada ao processo contínuo de robotização; a cultura do descarte e a violação visível dos “direitos fundamentais”. Retoma também sua preocupação social com os últimos, os desprezados do mundo, os excluídos, os migrantes e os deslocados da “música” da globalização. Aproveita igualmente a nobre ocasião para questionar o “nominalismo declamatório” da ONU, com sua escassa capacidade de cumprir suas promessas. Denuncia várias situações de devastação e flagelos, como os que vêm ocorrendo na Amazônia, acarretando graves prejuízos aos povos originários. E conclama os governos a uma responsabilidade única: “Não devemos impor às gerações futuras o fardo de assumir os problemas provocados pelas gerações precedentes”. Foi um discurso incisivo, destinado a provocar um “repensar o futuro” da casa comum.

 

 

IHU On-Line – Que saídas a Encíclica Fratelli Tutti aponta para este momento de mudança epocal que vivemos? 

Faustino TeixeiraFrancisco reconhece que o momento é difícil e o tempo da humanidade é obscuro. Ele fala que “a história dá sinais de regressão” com “conflitos anacrônicos que se consideravam superados”, bem como a ressurgência de “nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos” (FT 11). É o tempo onde pondera o egoísmo sobre a visão comunitária. Indica claramente que não há saída individual, mas uma saída dinamizada pela força da comunidade. Pontua que os caminhos de abertura envolvem o “amor à terra, ao povo, aos próprios traços culturais” (FT 143). Indica a importância de uma iracúndia sagrada contra os donos do mundo e em favor dos mais excluídos, num apelo radical de desaceleração. Reconhece que agora é “a própria realidade que geme e se rebela“. Estamos hoje diante de uma Terra que não é só mãe, mas também “intrusa”, para utilizar uma expressão de Isabelle Stengers. Está também presente na encíclica o desejo de escutar os povos originários, que viveram ao longo do tempo muitas situações-limite, e suas críticas ao progresso em curso tem uma plausibilidade bem real. São eles que carregam, com outros grupos excluídos, os sonhos necessários de um cuidado particular. Seus sonhos não são ilusões, mas “frequentemente mais humanistas que a da cultura moderna dos povos desenvolvidos” (FT 220).

 

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