A consciência de uma juventude que se vê como parte e solução dos problemas globais. Entrevista especial com Karina Penha

Jovens | Foto: Fernando Frazão - Agência Brasil

Por: João Vitor Santos | 18 Maio 2019

É nas transformações, físicas e comportamentais, que acontecem na vida dos adolescentes que reside a potência da vontade de mudar. “Os jovens são fortes, ligados em tudo que acontece no mundo e têm uma energia incrível. Quando eles decidem que querem algo, eles vão até o fim. Levar a voz da juventude e toda a sua diversidade para os espaços de diálogo e tomada de decisão é permitir que os protagonistas do hoje falem sobre as suas próprias vivências e histórias e garantir que eles sejam ouvidos”, sintetiza Karina Penha. Ela começou a se envolver com o que podemos chamar de causas globais desde muito cedo e pode ser tomada como um exemplo entre tantos jovens que, assim como a sueca Greta Thunberg, elevam o tom e chamam para si a responsabilidade de lutar por um mundo melhor. “A maioria dos meus amigos é envolvida em alguma causa ou demonstra ter interesse em se envolver”, observa. E completa: “a juventude está entendendo cada vez mais sobre como ser parte da solução para os problemas que nos cercam e nos atingem diretamente”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Karina revela um pouco do que passa pela cabeça dessas novas gerações. “Temos que atuar em todos os setores, e se as grandes conferências ainda são os espaços onde as grandes decisões sobre o futuro do clima no planeta são tomadas, nós temos que estar lá e também temos que estar nas audiências públicas nas nossas cidades. E sim, também temos que criar alternativas, como já fazemos”, destaca.

Entretanto, ela, que cresceu na periferia, reconhece que o engajamento juvenil não pode ser visto com uma candura idealizadora, pois há muitas realidades que assolam as juventudes. “Muitos jovens das periferias nem conseguem imaginar um ‘amanhã’. Eles estão muito ocupados com o hoje, mas o hoje significa tentar conseguir um emprego para ajudar nas despesas de casa, ter que estudar duas vezes mais para tentar entrar em uma universidade já que os pais não têm dinheiro para pagar um cursinho”, acrescenta. Mesmo assim, acredita que “eles vão se engajar bastante para tentar construir um mundo menos difícil para as próximas gerações”, mesmo que apenas a sobrevivência os absorva. Para Karina, essa também é uma resistência transformadora.

Karina Penha (Foto: Arquivo pessoal)

Karina Penha tem 23 anos, é estudante de Ciências Biológicas na Universidade Federal do Maranhão e vive em São Luís do Maranhão. Apaixonada pelo campo, diz que sempre quis ser ambientalista e por isso acabou se associando à ONG Engaja Mundo, uma organização de liderança jovem feita para jovens que buscam atuar em causas globais. Nessa organização, coordena o Grupo de Trabalho de Mudanças Climáticas.

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que levou você a se envolver na luta por causas globais? Por que, entre tantas causas globais, as lutas relacionadas ao meio ambiente lhe despertaram interesse?

Karina Penha – O que gerou em mim o interesse e envolvimento na luta por causas globais foi o fato de entender de forma muito particular, através de momentos de troca e aprendizados pessoais e coletivos, o real sentido de “agir localmente, pensando globalmente”. Em que cada pequena ação, podemos gerar um grande impacto no mundo e que somos nós quem decidimos se esse impacto será positivo ou negativo.

Desde pequena, as causas ambientais sempre me despertaram interesse e chamaram a minha atenção. Mesmo quando eu nem tinha noção da grandiosidade do mundo, ainda muito pequena, já dizia aos meus pais que quando crescesse eu seria ambientalista. E isso nunca mudou, até que eu entrei na faculdade de Biologia. O desmatamento na Amazônia e o aquecimento global sempre foram assuntos os quais eu procurava discutir na escola e até mesmo em casa.

IHU On-Line – Você se diz apaixonada pelo voluntariado. Por quê? E qual o papel do voluntariado na sociedade de hoje?

Karina Penha – Eu costumo dizer que sou apaixonada pelo voluntariado porque realmente sou (hahaha). Sou voluntária desde os 12 anos de idade, já tendo atuado em vários projetos e ações que vão desde trabalho com crianças que vivem na periferia da minha cidade, até projetos missionários e limpeza de rios e praias. Sempre adquiri aprendizados valiosos nos momentos em que pude doar um pouco do meu tempo e colocar a mão na massa com ou por outras pessoas, sem esperar nada em troca por isso.

Eu acredito que se cada um de nós decidisse doar um pouco do seu tempo corrido, repassar um pouco do que sabe ao outro, as relações humanas seriam muito mais valorizadas e isso geraria muito mais respeito, empatia e tolerância. Acho que esse é o papel do voluntariado na nossa sociedade atual.

IHU On-Line – Essa adesão a lutas coletivas é comum entre os seus amigos e em jovens de sua faixa etária? Por que acha que isso acontece?

Karina Penha – A maioria dos meus amigos é envolvida em alguma causa ou demonstra ter interesse em se envolver e é maravilhoso podermos compartilhar uns com os outros as nossas vivências em diferentes áreas. E eu acho que isso acontece porque a juventude está entendendo cada vez mais sobre como ser parte da solução para os problemas que nos cercam e nos atingem diretamente. É o que a gente defende bastante no Engajamundo [1].

IHU On-Line – Qual a importância de jovens assumirem o protagonismo na luta por essas causas globais?

Karina Penha – Os jovens são fortes, ligados em tudo que acontece no mundo e têm uma energia incrível. Quando eles decidem que querem algo, eles vão até o fim. Levar a voz da juventude e toda a sua diversidade para os espaços de diálogo e tomada de decisão é permitir que os protagonistas do hoje falem sobre as suas próprias vivências e histórias e garantir que eles sejam ouvidos.

IHU On-Line – Você cresceu no subúrbio maranhense. O que você via do mundo que a cercou? Em que medida a realidade em que estava foi significativa para que assumisse as lutas globais?

Karina Penha – Eu cresci no subúrbio de São José de Ribamar, que é um município que fica na região metropolitana de São Luís, onde ainda moro hoje. Cresci em um bairro extremamente violento, ao longo da minha infância e adolescência presenciei muitos tiroteios, sofri vários assaltos, vi muitos amigos que cresceram comigo perderem a vida para o tráfico e para as drogas. Eu, uma menina negra do subúrbio crescendo nessas condições, teria tudo para não ter grandes sonhos, mas eu decidi que comigo seria diferente, que eu poderia mudar o mundo e fazer dele um lugar melhor para se viver, nem que fosse apenas o mundo de alguém, uma outra criança que cresceu na periferia ou uma menina negra como eu. A educação, a minha fé e o incentivo e apoio da minha família, a qual não teve acesso a uma educação de qualidade, foram a chave para isso.

IHU On-Line – Como acredita que os jovens de periferia veem o mundo de hoje, especialmente a emergência de aderir a lutas como a sua, da questão ambiental?

Karina Penha – Olha, tive uma dificuldade para responder essa pergunta porque, parando para pensar, eu acho que muitos jovens das periferias nem conseguem imaginar um “amanhã”. Eles estão muito ocupados com o hoje, mas o hoje significa tentar conseguir um emprego para ajudar nas despesas de casa, ter que estudar duas vezes mais para tentar entrar em uma universidade já que os pais não têm dinheiro para pagar um cursinho. Então, com todas as dificuldades enfrentadas ou eles vão se engajar bastante para tentar construir um mundo menos difícil para as próximas gerações, ou eles nem vão ter tempo para pensar sobre isso.

Sobre as causas ambientais, é necessária uma maior sensibilização de que todos somos responsáveis pela construção do mundo que queremos. Essa sensibilização levará a uma conscientização pessoal do que cada um pode fazer, ao seu alcance.

IHU On-Line – Numa grande cidade, o que une os ideais de jovens que vivem em regiões periféricas e de outros que vivem nas zonas mais centrais?

Karina Penha – O entendimento de que as ações coletivas são de total importância para as nossas lutas e que cada vivência traz um olhar e um ponto de vista diferente, que quando reunidos e compartilhados criam um ambiente que retrata a realidade das nossas cidades e do nosso mundo. Em São Luís, nós temos o núcleo local do Engajamundo, que chamamos carinhosamente de EngajaMara. Ele é composto por jovens que vivem nos bairros mais afastados como eu, até outros que vivem nos bairros mais centrais como no centro histórico de São Luís.

IHU On-Line – Você se sente representada por fóruns e organismos internacionais que discutem as questões relacionadas a mudanças climáticas? Ou acredita que os jovens têm de criar caminhos alternativos para construir saídas para a crise ambiental?

Karina Penha – Eu me sinto representada quando vejo jovens, mulheres e pessoas do sul global ocupando esse espaço. Acho que temos que atuar em todos os setores, e se as grandes conferências ainda são os espaços onde as grandes decisões sobre o futuro do clima no planeta são tomadas, nós temos que estar lá e também temos que estar nas audiências públicas nas nossas cidades. E sim, também temos que criar alternativas, como já fazemos. Muitos governos assumem grandes compromissos ambientais mas não cumprem, mas os jovens e as ONGs atuam o tempo todo para tentar salvar o planeta, nosso presente e futuro.

IHU On-Line – O que você compreende como protagonismo juvenil?

Karina Penha – Para mim, protagonismo juvenil é a atuação ativa do jovem na busca por solucionar os problemas da sociedade da qual ele faz parte.

IHU On-Line – Qual a importância da internet, das redes sociais nas articulações e mobilizações das quais promove e participa?

Karina Penha – Hoje o acesso à internet nos faz alcançar muitos lugares e pessoas que antes seria difícil de manter contato, como por exemplo ter um indígena do Xingu participando das nossas reuniões. Muita gente ainda não tem esse acesso e cada vez mais pensamos em formas de trazer essas pessoas para perto. Conseguimos reunir e mobilizar pessoas de todas as regiões do Brasil pela internet, assim como compartilhar muitas coisas nas nossas redes sociais. Hoje em dia, a internet é o nosso principal meio de comunicação.

IHU On-Line – Você integra a equipe diretiva do Engajamundo. Nos fale desse grupo e do trabalho que você desenvolve?

Karina Penha – Eu atuo há quatro anos como articuladora no Engajamundo e há um ano como Co-coordenadora do Grupo de Trabalho sobre mudanças Climáticas, junto com a Paloma, de Brasília. Dentro do GT de Clima, nós atuamos de diversas formas, com mobilização, ativismo, formações, participação e advocacy [2], que é o ato de pressionar e influenciar os setores políticos e tomadores de decisão. Realizamos campanhas, projetos, reuniões semanais e grupos de estudo com pessoas de diversos setores ligados ao clima que são convidadas a compartilhar um pouco de seus conhecimentos com a gente, além das nossas participações nas Conferências de Clima da ONU que são as COPs [3]. O Engaja envia delegações de jovens Brasileiros desde a COP 19 que ocorreu em 2013 em Varsóvia [4] na Polônia.

IHU On-Line – Greta Thunberg [5] desafiou o parlamento europeu a pensar nas questões climáticas e sua voz ecoou por todo o mundo. Como você observa a atitude dessa garota? Ela te inspira? Por quê?

Karina Penha – A Greta é maravilhosa e também uma garota supercorajosa. A atitude dela é sim inspiradora, acredito que quando ela decidiu pegar o seu cartaz e fazer a sua primeira greve ela não imaginaria que essa mensagem pudesse alcançar o mundo. Mas foi o que aconteceu, como ela mesma diz: “se os adultos não fazem seu dever de casa por que devemos fazer o nosso?”. Os adultos não mantêm o seu compromisso com o planeta, mas ela mantém, e continua fazendo a greve todas as sextas e agora não mais sozinha, pois sua mensagem ganhou adeptos por todo o mundo e se deu início ao movimento “Fridays For Future” [6], que são as Sextas pelo Futuro.

IHU On-Line – O Engajamundo tem alguma articulação direta com o grupo de Greta? Qual?

Karina Penha – O Engaja não possui articulação direta com a Greta, mas temos vários articuladores que atuam no “Fridays For Future Brazil”, que é o movimento de greves inspirado pela Greta aqui no Brasil.

IHU On-Line – Você conhece pessoalmente ou teve algum contato diretamente com Greta? E, além da luta pelo meio ambiente, o que pode unir uma jovem sueca a uma garota maranhense?

Karina Penha – Sim, eu tive a incrível chance de conhecê-la e escutar seu discurso durante uma de suas participações durante a COP24 em Katowice, na Polônia, no ano passado, e também estar presente na mesma Marcha que ocorre todos os anos na cidade que sedia a conferência. Algumas pessoas da nossa delegação até fizeram greve durante uma sexta-feira com ela, dentro da ONU, durante a conferência.

Naquele momento, seu movimento ainda estava começando a ser conhecido e a se tornar o que é hoje, depois da Conferência ele se tornou mundialmente conhecido. Eu vejo nas ações e no discurso da Greta algo que também me questiono: “se não nós, quem?”. Acho que a ideia de que os jovens precisam mais do que nunca ser ouvidos é o que temos em comum, o entendimento da urgência de agir agora para garantir um amanhã.

IHU On-Line – Você participou das mobilizações de 15 março, que aconteceram em todo o mundo, chamando atenção para as questões climáticas [7]. Como foi essa experiência? E como as pessoas recebiam as reivindicações que levavam?

Karina Penha – Sim, eu estive presente no dia 15 de março durante o dia de Greve Mundial pelo Clima em Brasília e fizemos greve em frente ao Supremo Tribunal Federal - STF e vários núcleos do Engaja também fizeram em suas cidades. Em Brasília, o movimento foi pequeno, mas bastante significativo.

Uma mãe trouxe sua filha e seu filho, duas crianças para participar da greve. Foi lindo! Aquilo me marcou muito. E vários jovens vieram pedalando até o local do evento. O movimento da Greta nos leva a pensar que se uma pessoa for, isso já vai estar valendo. Se duas ou três forem, isso já vai ser o dobro, ou o triplo e assim cada vez mais o movimento se fortalece e a mensagem é espalhada.

IHU On-Line – Como você observa a repercussão desses movimentos de 15 de março no Brasil? Tiveram o mesmo impacto que em outros lugares do mundo?

Karina Penha – É difícil medir impacto, talvez não tivemos a mesma mobilização e adesão à greve. Lembro que no dia anterior ao evento, enquanto eu preparava junto com apenas dois amigos os cartazes que usaríamos na greve, uma amiga brasileira que mora na Austrália me mandava fotos de uma multidão de jovens, adolescentes, crianças e seus pais que marchavam pelo clima do outro lado do mundo.

Eu já esperava que por aqui não seria assim, pelo menos não na primeira, mas quantas vezes os jovens de um país desenvolvido já precisaram ir às ruas por 20 centavos nas passagens? Nos últimos tempos, os jovens brasileiros tiveram que ir às ruas por muitos motivos, vivemos realidades diferentes e por isso vemos as urgências de formas diferentes. Mas eu acredito que assim que os jovens brasileiros entenderem a urgência dessa causa, também iremos lotar as ruas pelo clima. Precisamos falar sobre isso com os nossos amigos, assim como falamos de política, até porque as duas coisas estão estritamente ligadas.

Talvez não tenhamos tido o mesmo impacto nas grandes mídias, mas ver o início dessa mobilização aqui no Brasil me fez sentir que estávamos entrando para a história, e talvez não temos noção de quantos outros jovens podemos ter inspirado através da nossa ação. Inspirar ao menos uma jovem ou uma criança já é um grande impacto.

IHU On-Line – Você estuda Biologia. Por que escolheu esse campo?

Karina Penha – Sim, estou quase na reta final do curso de Licenciatura em Biologia e amo trabalhar com educação e botânica. Na verdade, eu costumo dizer que a Biologia é que me escolheu. Não me via fazendo outra coisa. Acredito muito em propósitos e acho que a escolha desse curso que já veio muito antes de eu ingressar no sistema superior, já havia sido um propósito de Deus para a minha vida, ele sabia que eu iria precisar ter acesso a conhecimentos importantes que me trariam propriedade para lutar por essas causas. E também, claro, porque eu simplesmente amo a natureza e me sinto em casa quando estou perto dela.

IHU On-Line – Qual é seu sonho? O que você espera do futuro?

Karina Penha – Nossa, eu sou muito sonhadora. Já fui agraciada por poder realizar muitos sonhos, mas a cada sonho realizado um outro nasce e uma grande responsabilidade vem junto dele. Meu sonho é conseguir colocar todos os meus sonhos em prática, transformar a minha comunidade e fazer dela um lugar mais digno para se viver, é poder conhecer o mundo todo e aprender muito com outras culturas e povos, e ver o mundo transformado em um lugar em que todos tenham acesso à educação, saúde e justiça climática.

IHU On-Line – Quais os desafios para se pensar em alternativas para um mundo melhor?

Karina Penha – O diálogo com todas as esferas da sociedade. Nos últimos anos, não só no Brasil como no mundo, estamos nos deparando com governos que não dão a atenção necessária ou nenhuma atenção para temas importantes e cruciais, como por exemplo as questões climáticas e as energias renováveis. Isso pode ser um grande retrocesso para o mundo e um grande desafio para nós e para as futuras gerações. A gente já lutou muito para chegar até aqui, queremos avançar e não retroceder. Mas eu sei que independente disso, a juventude continuará a sua luta e o seu compromisso com o futuro. Nós continuaremos!

 

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