A crise da intelectualidade brasileira, a interdição do debate e a imposição de padrões de comportamento e pensamento. Entrevista especial com Raphael Tsavkko Garcia

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Por: Patricia Fachin | 15 Dezembro 2017

A situação política do Brasil é “desesperadora e com poucas possibilidades de vermos uma luz no fim do túnel”. O que se vê no âmbito público, especialmente na classe política, são “extremos raivosos fazendo teatrinho para agradar militâncias fanatizadas que, nos bastidores, dizem amém ao mercado e buscam manter a salvo os interesses das mesmas oligarquias — e, de quebra, afundar a Lava Jato”, diz Raphael Tsavkko Garcia à IHU On-Line. A direita e a esquerda, frisa, “apostam em censura, intimidação, fanatização e radicalização de discursos que, na prática, não diferem muito”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Garcia critica parte da “intelectualidade” brasileira que “seguiu a maré e mantém-se fiel ao PT e suas narrativas, mesmo que para isso sejam forçados a prostituir-se academicamente”. Segundo ele, “é notório que teses sobre a classe média — a demonizando e a culpando por todos os males — foram pinçadas para se adequar às narrativas do PT de que seria perseguido por fazer o melhor para os pobres”.

Na avaliação dele, a crise brasileira não é só política, mas intelectual, e se expressa particularmente nas redes sociais e nas universidades, através do comportamento dos “justiceiros sociais”, que têm impossibilitado o debate político e discussões sobre gênero e racismo. “São pessoas, muitas delas lideranças, integradas ao movimento negro, feminista e LGBT, que têm como agenda não a superação do preconceito/machismo/homofobia, mas a imposição de um isolamento, de safe spaces, da construção de realidades e histórias alternativas sem tração com a realidade, enfim, muitas vezes pregam ódio para, dizem, combater o ódio”. Esse grupo, afirma, “substitui pautas universais ou universalistas de justiça social, de combate ao preconceito em todas as suas vertentes, igualdade etc. por outras questões de cunho mais pessoal/personalista e microlutas que acabaram por ser entendidas de forma independente de grandes lutas. Por exemplo, a luta contra o racismo ou pelos direitos das mulheres passou a ser compreendida não como o desdobramento ou continuação de grandes lutas, mas como algo isolado, um fim em si mesmo — existindo mesmo dentro de escalas de opressão em que cabe a membros dos movimentos escolherem a cada momento qual é mais importante sem absolutamente qualquer critério”.

As consequências disso, adverte, já podem ser vistas hoje, com “interdição do debate, imposição de padrões de comportamento e pensamento visando à negação da diversidade e imposição de pensamento único”.

Raphael Garcia | Foto: Arquivo Pessoal

Raphael Tsavkko Garcia é graduado em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero e atualmente cursa doutorado em Direitos Humanos na Universidad de Deusto, na Espanha.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é sua análise sobre a situação política do Brasil?

Raphael Tsavkko Garcia - Uma situação desesperadora e com poucas possibilidades de vermos uma luz no fim do túnel no curto e médio prazo. Extremos raivosos fazendo teatrinho para agradar militâncias fanatizadas que, nos bastidores, dizem amém ao mercado e buscam manter a salvo os interesses das mesmas oligarquias — e, de quebra, afundar a Lava Jato.

Junho de 2013 e a Lava Jato abalaram as estruturas do poder, e as elites que se revezam no controle do Estado estão tentando se reestruturar enquanto apostam por uma imensa polarização para manter a população ocupada demais em atacar e se atacar ao passo que costuram acordos para enterrar qualquer resistência(s).

Ambos apostam em censura, intimidação, fanatização e radicalização de discursos que, na prática, não diferem muito. É improvável que no curto prazo surjam novas lideranças e movimentos capazes de apresentar algo novo e que não sejam meros cavalos de troia das estruturas dominantes atuais.

Falência da direita e da esquerda

Na direita temos a total falência ideológica de partidos como o PSDB ou o PMDB, envolvidos até o pescoço em corrupção, coalhados de lutas internas e com reprovação nas alturas. Na extrema-direita temos Bolsonaro, que dispensa comentários, seria o verdadeiro apocalipse (mesmo com suas tentativas de provar ser mais comedido e palatável, mesmo "liberal", uma roupagem que não lhe cabe). Na esquerda temos o PT — cujo discurso de golpe agora foi substituído pelo do perdão aos golpistas para que possam voltar a ser aliados — e o resto que orbita ao seu redor e que não são muito diferentes, incapazes de propor algo novo.

Notável é o PSOL, nascido como uma alternativa ao PT, mas que espera vergonhosamente que Boulos, notório lulista, decida se irá concorrer contra seu ídolo. É desmoralizante. Espalhado, temos movimentos que orbitam em torno dos partidos tradicionais ou que tentam propor algo novo aventando candidaturas que soam como piada, caso de Luciano Huck.

Toda aquela efervescência de Junho de 2013 parece, pela esquerda, ter ido pelo ralo. Na direita, MBL e demais grupos viraram ponta de lança de Temer e suas reformas impopulares. Para onde olhamos apenas enxergamos um buraco negro.

IHU On-Line - Muitos avaliam que há uma crise na esquerda brasileira. Qual seu diagnóstico? Quais são as razões da crise?

Raphael Tsavkko Garcia - A crise é óbvia e as razões várias, mas em especial centra-se no PT, ou melhor, na insistência da esquerda em ter o PT como sua salvação. Por anos o partido hegemonizou a esquerda, pequenas rusgas e dissidências como o PSTU ou o PCO (e posteriormente o PSOL) não foram capazes de alterar essa centralidade. O PCdoB sempre ficou confortável com seu papel de hegemonizar o movimento estudantil (à custa de fraudes, intimidações e uso da máquina, claro), deixando a política de gente grande para o PT e comendo pelas beiradas.

No fim, décadas de hegemonia petista custaram caro à esquerda, pois quando a população saiu às ruas em 2013 (originalmente com pautas progressistas e de esquerda) o movimento foi esmagado pelo PT, PSDB e demais aliados.

O PT se aliou e deu força aos conservadores (e aos banqueiros, empreiteiros etc.). Quando a esquerda tomou as ruas em 2013, muitos petistas e aliados gritaram “vai PM”, engrossando o caldo dos que chamavam os que protestavam de "vândalos" — e no período subsequente o governo criou uma máquina repressiva e de marketing para derrotar Junho tanto na narrativa quanto fisicamente.

Junho de 2013

Um dos aspectos cruciais da narrativa do golpe é a de que Junho de 2013 seria o ponto de inflexão que levou a um recrudescimento do conservadorismo no Brasil. Junho se iniciou como um movimento francamente de esquerda, atrelado ao MPL e ao direito ao passe livre e contra a privatização dos transportes e o aumento das tarifas.

Uma revolta popular que foi tomando força e se espalhando pelo país. Tinha tudo para ser mais uma da série de mobilizações sociais de esquerda que têm seu momento (ou momentum) e depois desaparecem, tendo conquistado algum avanço ou ao menos imposto uma pauta.

O ano de 2013 se mostrava um fio de esperança — e também se inseria em um "momento global" de lutas e revoltas — não só para a esquerda, mas para setores progressistas da classe média e até para setores de uma certa direita liberal com pautas sociais mais progressistas. O seu esmagamento pela força da repressão policial acabou por radicalizar à direita setores menos politizados que adotaram um discurso (fácil) de ódio ao PT e que foram abraçados por figuras já estabelecidas da extrema-direita brasileira, como Bolsonaro, Feliciano (este que foi aliado do PT), dentre outros.

A violência política absolutamente inaceitável que se seguiu às manifestações acabou por amplificar as mobilizações que, uma vez vitimando pesadamente jornalistas, fez com que a maré virasse e mesmo a mídia ficasse ao lado dos que se manifestavam. A violência foi o divisor de águas e foi usada indistintamente por governos tucanos, petistas e por aliados de ambos.

Mudança da maré

Mudada a maré, os protestos, que já possuíam um caráter difuso, acabaram por ver suas pautas alargadas e mesmo apropriadas por diversos grupos que passaram a ir às ruas. A partir deste ponto não havia mais controle. Setores de direita passaram a participar das manifestações, culminando em episódios de violência, como em São Paulo, em que membros de partidos de esquerda foram agredidos pela turba.

Em resumo, Junho foi um momento único, difuso, de múltiplas pautas e, em que pese ter sido iniciado e mantido pela esquerda, foi também apropriado por outras tendências políticas. Mas não pode, de forma alguma, ser responsabilizado pelo resultado das urnas. Tenho insistido no caráter progressista, que foi hegemônico nas manifestações e que em muitos lugares acabou sobrevivendo por pelo menos um ano e desembocou nos protestos anti-Copa pelo país. Tivemos contradições, sem dúvida, mas o caráter progressista foi dominante.

Como pensadores do naipe de Bruno Cava, Moysés Pinto Neto, Giuseppe Cocco, Pablo Ortellado e outros já repetiram tantas vezes, 2013 foi o momento de inflexão. Nada foi mais o mesmo depois.

A crise da esquerda é a crise do lulismo

Junho prenunciou ou desvelou um tremendo cansaço da população com a política tradicional, mas o problema vai além. O PT se tornou em muitos lugares partido de caciques, no Rio conta com milicianos e por lá o partido passou anos apoiando a máquina trituradora do PMDB. Não podemos esquecer do apoio do PT a candidatos de partidos aliados (Kátia Abreu, Collor etc.), assim como coligações com partidos duvidosos, além de um esgotamento natural do lulismo, que não conseguiu ser sustentando por Dilma, tanto por questões econômicas quanto por sua total falta de carisma e habilidade política.

A crise da esquerda é a crise do lulismo, do desenvolvimentismo, da repressão à própria esquerda e, finalmente, da incapacidade e mesmo falta de vontade da esquerda em se reinventar — e em se separar do PT. Para muitos, seguir na barra da saia do PT é suficiente. Voto crítico, contra o "mal maior", enfim, argumentos batidos que seguem sendo usados enquanto o novo não nasce (pois foi esmagado e pelo visto tem pavor de voltar).

IHU On-Line - Segundo sua análise, a crise brasileira não é só política e social, mas intelectual. Quais são as causas disso e como essa crise se expressa nos dias de hoje?

Raphael Tsavkko Garcia - Em grande parte a intelectualidade seguiu a maré e mantém-se fiel ao PT e suas narrativas, mesmo que para isso sejam forçados a prostituir-se academicamente. Não citarei nomes, mas é notório que teses sobre a classe média — a demonizando e a culpando por todos os males — foram pinçadas para se adequar às narrativas do PT de que seria perseguido por fazer o melhor para os pobres (ironicamente aqueles do PT não envolvidos em corrupção endêmica, em especial tais acadêmicos, são notórios representantes da terrível classe média, quando não são parte da elite propriamente dita).

Outras teses como as de que o problema não é a corrupção endêmica já citada, mas que é a escravidão que define a sociedade brasileira, embarcam num discurso que chega a ser risível — e que faz par com justiceiros sociais e suas pautas identitárias, que tratarei mais adiante. Não que a escravidão e o racismo não sejam marcas da formação da sociedade brasileira, o problema aqui é sua instrumentalização para tentar justificar a corrupção do PT no poder, e que é o cerne da militância justiceira.

Ao embarcar na corrupção, ao se recusar não apenas a reconhecer e se desculpar, mas a mesmo negar os fatos em que pese fartura de provas, o PT impôs o neodiscurso do "rouba, mas faz" (não à toa Maluf foi por anos aliado do PT, havia uma simbiose ideológica). Chegamos no ponto em que Lula discursa em defesa de corruptos condenados, minimizando os males da corrupção, e não faltam militantes que chegam ao ponto de defender o roubo de patrimônio público com a desculpa de que isso ajuda o país, que é parte do jogo.

Saldo petista

Parte considerável da intelectualidade penhorou o rigor acadêmico para defender um partido francamente corrupto (não que seja exclusividade de tal partido, lógico), para isso demonizando a elite e a classe média das quais são parte e louvando a imagem idealizada do pobre — este que pôde comprar geladeira, TV e carro, mas cuja ascensão social efetiva foi em grande parte fictícia ou interrompida pela crise criada pelo próprio PT no poder.

A crise da intelectualidade é a mesma crise da esquerda como um todo: falta vontade para se desvencilhar das narrativas do PT, da força hegemônica. E, acima de tudo, falta à esquerda a capacidade da autocrítica para entender quando recuar e admitir que errou — a insistência de amplos setores da esquerda e da intelectualidade no apoio ao regime de Maduro, a Cristina Kirchner, e até mesmo Putin, deixam isso absolutamente claro. Em muitos momentos parece que temos à nossa frente um abismo e nos jogamos de cabeça.

O saldo de 13 anos de PT foi de cooptação e neutralização de movimentos sociais. E o preço a ser pago é alto. CUT, MST e UNE sumiram do mapa, novos movimentos surgem, como os secundaristas, mas são incapazes (ainda?) de ocupar tantos buracos deixados. A criminalização dos protestos em 2013 e durante a Copa do Mundo denunciaram de forma inequívoca a completa falência do PT enquanto aglutinador de lutas populares - pelo contrário, mostrou o PT como apenas mais um dos inimigos, mas com um poder maior de cooptação.

Com Dilma não restou absolutamente nada das pautas de esquerda do PT de outrora, mas apenas rescaldo de péssimas decisões passadas, aliado à incapacidade política total e à prisão imposta pelas alianças feitas ao longo dos anos. O PT não apenas abandonou as pautas de esquerda, apostando apenas em assistencialismo e incentivo ao consumo ao contrário de cidadania, como também engessou e mesmo neutralizou movimentos de esquerda, como o MST, a UNE, UBES e sindicatos e centrais, como a CUT, que há muito deixaram de ser movimentos e organizações populares e classistas e se resumem a marionetes do PT.

IHU On-Line - Em seus textos você tem falado de “justiceiros sociais”. Quem são eles, como atuam e quais são seus discursos?

Raphael Tsavkko Garcia - Justiceiros sociais são fanáticos que se comportam como seita em "movimentos identitários", dizendo defender causas sociais, mas que se limitam a buscar holofotes e a espalhar ódio — ao mesmo tempo em que prejudicam diversas causas ao afastar aliados e transformar a todos em inimigos. São pessoas, muitas delas lideranças, integradas ao movimento negro, feminista e LGBT, que têm como agenda não a superação do preconceito/machismo/homofobia, mas a imposição de um isolamento, de safe spaces, da construção de realidades e histórias alternativas sem tração com a realidade, enfim, muitas vezes pregam ódio para, dizem, combater o ódio.

Em geral apostam por teses importadas dos EUA, uma realidade bastante diferente da brasileira, sem tradução ou reinterpretação, tentando impor patrulhamentos sobre palavras, ações, vestimenta e até pensamento, tendo como armas linchamentos virtuais, bullying, patrulhas, intimidação, escrachos etc.

Universalismo X personalismo

Trata-se de um grupo que substitui pautas universais ou universalistas de justiça social, de combate ao preconceito em todas as suas vertentes, igualdade etc. por outras questões de cunho mais pessoal/personalista e microlutas que acabaram por ser entendidas de forma independente de grandes lutas. Por exemplo, a luta contra o racismo ou pelos direitos das mulheres passou a ser compreendida não como o desdobramento ou continuação de grandes lutas, mas como algo isolado, um fim em si mesmo — existindo mesmo dentro de escalas de opressão em que cabe a membros dos movimentos escolherem a cada momento qual é mais importante sem absolutamente qualquer critério.

Não há mais luta de classes, ou se há, ela é um pano de fundo em que o problema real é o negro contra o branco, o homem contra a mulher, as desigualdades específicas de grupos, enquanto o resto passa a ser relegado. Não se trata de negar que existam disparidades de gênero e raça, pelo contrário, mas de denunciar que se abandona a pauta ampla por, muitas vezes, picuinhas, por um suposto "protagonismo" em que é mais importante aparecer do que efetivamente tratar das questões colocadas.

E essa mudança de pauta faz total sentido dentro da realidade brasileira pós-2013 e pós-impeachment de Dilma Rousseff, afinal como você vai falar de classe ou mesmo de esquerda e suas bases quando seu melhor amigo é o PMDB e os banqueiros? Precisaram de nova pauta, o identitarismo caiu como luva.

Identitarismo

Identitarismo entendido como pautas de grupos identitários que abandonam, por exemplo, uma agenda de luta operária pela agenda do operário negro, da operária mulher negra, da operária mulher negra e lésbica, e daí em diante, sempre buscando o mais micro, o mais específico e, no processo, demonizando quem não se encaixa e tratando a todos fora do círculo como inimigos.

Cheguei a escrever há algum tempo sobre o tema e a ligação carnal entre militância identitária e o PT ainda no poder:

Esse movimento identitarista não vem do nada, [...] tomou corpo e ganhou força com o petismo e, em especial, pós-2013, o que reforma sua ligação carnal com o governismo e com o PT. Ambos se retroalimentam, por mais contraditório que pareça - já que o governismo em geral promove o contrário do que, em tese, tais grupos defendem. O ponto central para entender o raciocínio deles é que o interesse real é o de que grandes lutas não avancem, o que os faz casar perfeitamente com o PT, que abandonou toda e qualquer luta histórica da esquerda e substituiu por um pastiche, por uma colcha de retalhos de paliativos. A união destes dois é confortável.

O abandono de grandes narrativas serve aos interesses do PT, que não é incomodado, deixando pequenas lutas, muitas vezes meras picuinhas, para serem "tratadas" pelos justiceiros. É o espaço que resta, é o confinamento de movimentos sociais. No fim, esta aliança de ocasião serve aos interesses imediatos de ambos. Isso vem junto com o consumismo impulsionado pelo partido. A meta é criar mercado consumidor, é garantir poder de compra, logo, o cidadão passa a ser mero consumidor e, como sabemos, o consumidor tem sempre razão.

No fim não se trata de emancipação, muito menos de combater efetivamente as causas que levam ao racismo, machismo e homofobia endêmicos, mas tão somente de aparecer, "lacrar", se tornar mercadológico, ganhar cliques e "likes", sempre dentro dos limites impostos pelo partido (e aqui entendemos o PSOL como uma mera continuidade do PT, não algo a parte). Uma espécie de mercado de protagonismo.

Vale notar que o maior problema (nesse momento) não é que esses grupos identitários sejam capazes de impor suas pautas e efetivamente intimidar e constranger para além das redes sociais e espaços universitários (ainda que no longo prazo possam ter maior influência, dado que são próximos e influenciam formadores de opinião), e sim que os seus discursos afastam aliados, forçam ativistas a abdicarem de sua militância ao não concordarem com seus métodos de censura e controle e, no fim, são incapazes de construir pontes com o resto da população.

Um dado curioso: antes de o PT deixar o poder via impeachment, não se encontrava menção a Rafael Braga, o único preso e condenado pelos protestos de 2013 (sem sequer participar destes), entre a militância lacradora ligada ao PT. Não lhes interessava. Após perderem o poder passaram a tentar se apropriar de sua imagem para fingir que efetivamente se importavam. Rafael Braga se tornou uma mercadoria vendável para a militância identitária, já não representava mais perigo para a narrativa do PT.

IHU On-Line - Por que os justiceiros sociais prejudicam as pautas de esquerda, na sua avaliação?

Raphael Tsavkko Garcia - Não se faz luta social ou busca-se justiça social fechado em guetos autoimpostos e considerando que todos fora da bolha são inimigos a serem combatidos. Os justiceiros sociais se negam a qualquer diálogo, não há espaço para discordâncias ou para qualquer argumento fora da cartilha do grupo (cartilha esta que em geral muda de acordo com a vontade das autointituladas lideranças).

Qualquer tentativa de diálogo encontra um muro de chavões e palavras de ordem vazias, como "lugar de fala", "protagonismo", "apropriação cultural" — são termos que historicamente têm validade, mas foram esvaziados ao ponto da neutralização de seu valor — ou o uso de termos como "branco" e "homem" (ou melhor, "omi") como se fossem pejorativos. Ao invés do combate das razões pelas quais algumas categorias são consideradas "normais" ou a norma, a ideia é combater pessoas. Um branco racista não é problemático apenas por ser racista, o é por ser branco. O homem machista, da mesma forma, não é problema por ser machista apenas, mas por ser homem. É uma lógica da qual não se pode escapar, mesmo que alguns fundamentalistas da justiça social ainda concedam a possibilidade de "desconstrução" — sempre com limites insuperáveis.

O justiceiro social

O "justiceiro social" nunca está satisfeito e sempre encontrará defeito, porque senão ele se torna obsoleto. Precisam gritar contra algo e se tornam simplesmente chatos — para dizer o mínimo. São aquelas pessoas que têm no fato de discordar uma forma de obter prazer, daí o uso constante de termos como "lacrar". Não importa se o argumento é válido, mas sim a sensação de ter vencido e "lacrado". Não adianta o que você faça, já decidiram que você está errado. É bom repetir, eles não querem que qualquer situação efetiva de exclusão acabe ou se resolva. Se a situação se resolver, acaba o palanque deles. São sanguessugas que querem manter tudo como está.

A ideia central desses movimentos é a de viver em guetos autoimpostos. Negam sequer a solidariedade. Se você não for do grupo, você é inimigo. Tudo é "construção social", mas mesmo assim o opressor, o inimigo, é algo inato.

O seu gênero, a sua cor, a sua orientação sexual passam a ser mais relevantes que sua classe social, que suas opiniões e posições. Não se trata de negar o racismo, o machismo e a homofobia, pelo contrário, trata-se de criticar posições que, no fim, apenas repetem argumentos racistas, homofóbicos e machistas ao usar características inatas como forma de derrubar e negar argumentos.

Oras, se é verdade que o racista usa a raça da vítima para lhe negar espaço ou direito à fala, é igualmente verdade que uma resposta que adote a mesma prática não terá resultado muito diferente — e jamais positivo. Confrontados com a mais pura lógica gritam: "Falsa simetria!".

A esquerda sai prejudicada por se fechar ao diálogo com a sociedade. Por impor uma série de regras de comportamento (muitas inalcançáveis) sem qualquer tração com a realidade, por adotar uma postura eternamente vitimista e que retira completamente a autonomia das pessoas, dividindo o mundo entre vítimas e algozes sem qualquer tipo de matização, sem meios-termos. E, em especial, por desviar de outras questões fundamentais.

Mark Lilla, professor da Universidade Columbia, tem repetidamente comentado sobre o problema dessas "políticas de identidade", denunciando o surgimento de "uma geração de progressistas narcisisticamente desligados das questões alheias a seu grupo de referência".

Steve Bannon, guru da extrema-direita americana, concorda: "Enquanto vocês estiverem falando de políticas de identidade, nós ganharemos".

Os justiceiros e o PT

O irônico nisso tudo é que a ligação carnal entre justiceiros sociais e o PT, no fim, é prejudicial aos justiceiros (ou ao menos às minorias que dizem representar), como ficou claro com Dilma, que revogou a portaria que regulamentava o aborto e que cancelou o kit anti-homofobia, declarando que não faria "propaganda de opção sexual".

Mas, por ser mulher, era sempre defendida de quaisquer críticas, porque criticá-la era machismo e misoginia. As pautas identitárias foram magistralmente apropriadas e usadas pelo PT para tentar neutralizar críticas.

Um exemplo até anedótico seria o termo "palmiteiro", que é usado pela militância negra adepta da "lacração" para condenar relações inter-raciais (pois é), no entanto só é usado para condenar homens negros que se relacionam com brancas porque existe uma tal de "solidão da mulher negra" e, como tal, mulheres negras estão livres para se relacionar com homens brancos — estes que são necessariamente machistas por serem homens e racistas por serem brancos — e homofóbicos por serem héteros. Parece engraçado — e é —, mas é realmente a lógica que permeia o mundo da militância identitária, no fim das contas você dorme com o inimigo e este é forçado todo tempo a se desculpar por existir e a se esforçar a não ser quem ele é.

Não se trata de forma alguma de colocar o branco, o hétero ou o homem como vítimas (ao menos não em pé de igualdade com mulheres, negros e LGBTs), mas sim de apontar que tomar como inimigo/inferior/nocivo alguém apenas por suas características mais visíveis é exatamente o que fazem os preconceituosos. Não serve a qualquer propósito de construção coletiva de pautas e lutas.

IHU On-Line - Nos seus textos você também chama atenção para o que chama de “fanatismo identitário”. O que é isso e como ele tem se manifestado no Brasil?

Raphael Tsavkko Garcia - Tem se manifestado de forma muito semelhante à extrema-direita.

Tivemos os casos notórios do MBL apoiando a censura a exposições de arte, Alexandre Frota, ex-ator pornô, pregando uma agenda moralista pró-família, um ressurgimento do conservadorismo mais torpe e moralista que prega censura a tudo que saia do seu raio de compreensão e tolerância. Mas a esquerda identitária não é muito diferente.

Recentemente um filme brasileiro foi atacado com toda a força de uma santa inquisição identitária por não retratar "adequadamente" a escravidão — e não era o objetivo do filme fazê-lo. Uma jovem foi atacada por usar um turbante, símbolo que identitárias negras acreditam pertencer a elas (e a uma suposta herança exclusiva africana).

Militância identitária

Escrachos contra quem sai dos limites escassos impostos pela militância identitária são comuns, como por exemplo o sofrido pelo artista Rafucko, famoso por seus vídeos bem humorados e de ácida crítica política, que foi atacado por militantes negro(a)s ao promover a exposição "Monstruário" contra as Olimpíadas, em 2016. Por ser branco ele não teria "lugar de fala" para defender negros pobres ou criticar a violência sofrida por eles — interdita-se até a solidariedade.

Os métodos de censura da militância identitária se encontram e acabam sendo apropriados pela militância de esquerda como um todo, esta que em sua grande parte segue junto ao PT ou ao menos dando aquele apoio “crítico”.

Se o MBL censurou a exposição Queer Museu, a esquerda censurou o Cine PE para se opor à exibição de um documentário sobre o Olavo de Carvalho — porque seus realizadores compactuariam com o "golpe". Nenhuma simpatia pelo suposto filósofo, mas um filme que passaria virtualmente despercebido acabou virando sensação — para a esquerda uma vez mais buscar censurá-lo, mesmo com violência, em uma exibição na UFPE. É a teoria da ferradura mostrando que veio para ficar.

Método da esquerda identitária

Os métodos da esquerda identitária passaram a ser a regra. Trata-se da impossibilidade de se conviver com o diferente e tentar um diálogo. Um dos maiores problemas do fanatismo identitário é a completa interdição do debate.

Há inúmeros casos que acontecem em nível pessoal, como autopoliciamento ao ponto da neutralização da personalidade, muitos têm medo de debater nas universidades com receio de serem alvo de justiceiros, professores são intimidados etc. Nos EUA isso é ainda mais visível, não faltam casos onde, por pouco, identitários (ou justiceiros sociais) não partiram para a violência física — mas conseguiram a demissão de professores, por exemplo.

Há temas em que não há espaço para discordância, para diálogo, para que sequer se ouse apontar um problema. Temos o caso recente do secretário de Educação do Rio, César Benjamin, que criticou o que chama de "racialismo" por parte de elementos identitários do movimento negro. Concorde-se ou não com seus argumentos, o fato é que a resposta padrão da militância de esquerda tem sido a de passar por cima de todas as suas críticas para acusá-lo de racismo. Não há o menor espaço para que se debatam ideias, parte-se mediatamente para a desqualificação do interlocutor. Benjamin é racista por ter criticado uma pauta identitária do movimento negro, não por ter efetivamente dito ou feito algo de cunho racista.

O afinco dessa esquerda em negar qualquer debate sobre raça, gênero e orientação sexual só é superado pelo afinco em propagar a tese do "golpe" tão cara ao PT. Não é surpresa que uma das grandes lideranças do movimento negro nas redes sociais defenda suas pautas com a mesma garra que defende o PT, ou ainda podemos nos lembrar da infeliz frase do Lula sobre mulheres de "grelo duro", que dita por qualquer outra pessoa seria machismo, motivo de escracho, mas vindo de quem veio passou a ser até bandeira e slogan de campanha.

Existe uma clara intersecção de métodos e militância/militantes identitários e lulistas/petistas, quem não é petista é inimigo, quem não faz parte da minha minoria e reza por minha cartilha é inimigo. Isso, no fim, promove uma política de silenciamento e, mesmo, empurra potenciais aliados para o outro lado.

IHU On-Line - Já é possível vislumbrar, a longo prazo, quais devem ser as consequências tanto do discurso do fanatismo identitário quanto do discurso dos justiceiros sociais?

Raphael Tsavkko Garcia - As consequências estamos vendo hoje: interdição do debate. Imposição de padrões de comportamento e pensamento visando à negação da diversidade e imposição de pensamento único. Nos EUA não faltam analistas que apontam para os efeitos nefastos da política identitária: no jogo da exaltação de identidades, como se tais fossem necessariamente aquilo que define o que é bom e ruim, o que é certo e errado, e os brancos sulistas, em geral pobres, foram deixados de lado. Votaram em massa no Trump.

É a profecia que se autocumpre, fala-se tanto (e mal) de determinados grupos, afastando-os, criminalizando-os por suas características inatas que, no fim, quando estes acabam votando no "inimigo", os arautos do identitarismo se regozijam: "estávamos certos".

Retórica agressiva

A retórica agressiva de grupos identitários aliena potenciais aliados, afasta todos os que não compartilham das mesmas características. A lógica do "privilégio" adotada por estes grupos é péssima no longo prazo, pois assume que qualquer pessoa necessariamente irá se comportar de uma determinada forma ou terá sucesso (ou falta dele) exclusivamente por ser branca, por ser homem, ou por ser hétero. Os brancos, héteros ou homens que não "chegarem lá" são tratados como inimigos da mesma forma por terem nascido como tal.

Para mim, "privilégio" é um conceito ruim e sociologicamente capenga que despreza localização, situação, contexto e classe. Consegue ser ainda mais pobre e vazio de sentido sociológico que "apropriação cultural" e "lugar de fala", que até já tiveram algum sentido antes de serem apropriados e descaracterizados por movimentos justiceiros para tentar censurar e silenciar críticas (mesmo internas).

Me recordo de um artigo de uma professora da UFPE, publicado no site da Mídia Ninja, que vai pelo mesmo caminho: o homem é machista, o homem de esquerda é machista, o de direita é mais ainda, porque não ser de esquerda já é, em si, ser machista. Não tem como ou para onde escapar. Ser da cor, do gênero “errado” é suficiente para ser preconceituoso. Ao invés de combater o preconceito em si, você combate quem (em tese) não sofre preconceito.

Você está errado porque nasceu de uma determinada forma, sua vida, seu percurso, suas opiniões e ações não importam. No longo prazo isso acaba apenas afastando potenciais aliados, cansando a todos que não consigam ou queiram se adaptar aos padrões inalcançáveis de tal militância — ou que simplesmente tenham “nascido errados”.

Nada disso contribui para combater o preconceito em suas mais diversas formas, mas tão somente afastam aliados de causas importantes porque são tratados sempre como inimigos.

O professor Erick Felinto escreveu certa vez no Facebook:

se você apoia uma minoria, sem ser dessa minoria, é porque quer biscoito. Se não apoia é porque reforça as estruturas hierárquicas do poder societário. Em suma, entre se manifestar, arriscando-se à acusação de ‘roubo de protagonismo’ e permanecer calado, parece que hoje a segunda opção é a mais sensata”.

As suas pautas enquanto minoria passam a ser mais importantes que todo o resto — e mesmo que as pautas de outras minorias.

IHU On-Line - Como você avalia o “debate” político nas redes sociais, especialmente o que se chama de “ativismo da internet”?

Raphael Tsavkko Garcia - Não existe qualquer debate. Existe gritaria e ódio. Um lado segue sendo racista, machista e homofóbico, outro lado acredita que para combater isso você tem que tratar todos os héteros, todos os homens, todos os brancos como inimigos jurados, fazer fanfic e pregar linchamento contra quem não reza pela cartilha. No meio, a maior parte da população que fica completamente perdida, ainda recebe a fama de "isentão".

E o mesmo vale para a política para além do ativismo identitário, como a insuportável disputa entre o PT, que tenta encarnar a esquerda, e o resto, os tais "golpistas", que no fim eram e voltarão a ser aliados do PT e, segundo o próprio Lula, devem ser perdoados.

O ativismo de internet parece uma massagem no ego de militantes, mas que não leva a lugar algum, não promove nada. É o "lacrei" sem quaisquer perspectivas de mudança ou de efetivamente causar diferença. As estruturas, porém, seguem lá, imutáveis.

Não é porque aquele seu conhecido fez uma piada que você não gostou e você o forçou a se calar, que ele vai deixar de pensar daquela forma. Ele apenas não irá se manifestar na sua frente, você achará que lacrou, mas no fim criou um inimigo. Tanto a piada poderia ser inocente (e você é sensível demais) ou havia inúmeras formas melhores de abordar a situação sem criar um potencial inimigo.

Militância da internet

A militância de internet, hoje, está tomada por tentativas de "lacrar" e silenciar (sinônimos), culto à personalidade de supostas lideranças (em alguns casos beirando o risível e tosco, como a louvação de um editor de portal à sua namorada sem qualquer compromisso com a ética jornalística) e absolutamente nenhum espaço para efetiva construção coletiva, convencimento, diálogo.

Muitos e muitas que tentam ainda realizar um esforço de criar pontes, acabam desistindo pela completa impossibilidade de se respirar o ar tóxico das redes militantes.

O mesmo, repito, vale para a política em geral, b versus o resto, golpe ou não golpe, a lógica é a mesma. Ou você repudia o impeachment e o considera um golpe ou então você é um golpista. Aliás, pode mesmo discordar do impeachment, mas se não o chamar de golpe é um inimigo da mesma forma.

O processo de imposição de absolutos é invariável. Ou você é coxinha ou é petralha. Ou você defende pautas identitárias ou você é o inimigo a ser combatido (ou se nasceu com as características "erradas" nem adianta tentar). Mesmo aqueles mais afins a um ou outro espectro político encontram imensa dificuldade em tecer críticas, em propor qualquer diálogo sob acusação de fazer o jogo do outro lado, de ser traidor etc. O Pablo Ortellado captou bem esse problema em artigo para a Folha de são Paulo.

Escrevi há algumas semanas que a "internet poderia/deveria ser um espaço público (sim, mais pros lados do Habermas), mas muitas vezes é o absoluto oposto. Destrói, desagrega, nega qualquer espaço para debate e diálogo. A internet, por vezes, interdita o debate. Cauda longa, memes*, lados beligerantes, ânimos à flor da pele, o debate público não é, de fato, um debate. É uma guerra permeada por fake news para convencer a todo custo ou condenar os não convencidos/convertidos."

IHU On-Line - Como, em decorrência do modo como tem se dado a discussão política no Brasil, vislumbra que será o debate político para as eleições presidenciais do próximo ano?

Raphael Tsavkko Garcia - O ano que vem será insuportável. Não faltam memes já prenunciando o clima insuportável. Talvez o humor seja o melhor refúgio diante da inevitabilidade de um clima político sufocante. Aliás, o termo "debate" não é correto, dado que não há espaço para tal nas inúmeras bolhas formadas nas redes sociais. Como cheguei a escrever, “no fim as redes sociais promovem um grande silenciamento coletivo. São tantas vozes gritando em lados absolutamente opostos que sobra pouco espaço para qualquer coisa divergente  —  e muitas vezes o peso daqueles que gritam é superdimensionado, mas gritam alto o suficiente”.

A gritaria política brasileira impede qualquer tipo de diálogo sério sobre os rumos do país. Um lado quer censurar, o outro quer... censurar. O meio fica, nisso, perdido e sem opções. O radicalismo impera e fica difícil vislumbrar uma saída ou uma alternativa no curto prazo. Não ajuda o fato de não existir uma real renovação política, novas lideranças, novos movimentos que não sejam apenas mais do mesmo, subterfúgios de partidos carcomidos por corrupção e desconfiança.

IHU On-Line – Em que consistem seus estudos sobre nacionalismo e identidade on-line?

Raphael Tsavkko Garcia - Venho me dedicando ao estudo de identidades e nacionalismo on-line desde a graduação, quando pesquisei uma atividade conhecida como micronacionalismo, ou a formação de comunidades on-line alternativas que emulam modelos estatais através de listas de e-mails, sites etc. No mestrado me dediquei a estudar o processo de formação de vínculos e (re)construção identitária on-line através de blogs, tendo os bascos como estudo de caso. No doutorado me dedico a aprofundar o que estudei no mestrado e vou além, buscando analisar a comunicação on-line e o processo de (re)construção identitária entre bascos na diáspora argentina e no País Basco propriamente dito, tendo como foco grupos de esquerda nacionalista e sua atuação em prol de presos políticos, independência e de propagação da cultura e língua basca on-line.

Mais especificamente analiso a história de grupos militantes bascos de esquerda e nacionalistas (abertzales de esquerda) na Argentina e como estes utilizam a internet como ferramenta de propaganda, comunicação com grupos no País Basco e de (re)construção da identidade basca e diaspórica on-line.

Enfim, sempre busquei estudar a intersecção entre nacionalismo e redes sociais, a formação de comunidades imaginadas transnacionais na internet, através de listas de e-mails, facebook, blogs, twitter etc. e como diferentes membros/grupos de comunidades nacionais se relacionam.

Tenho ainda me dedicado a realizar análises comparativas sobre o uso de ferramentas de mídia social por minorias étnicas diversas (bascos, curdos, uigures, tâmil etc.) para a promoção/manutenção de suas identidades nacionais/étnicas e para engajamento político, tendo recentemente apresentado um trabalho sobre o tema, que acabou ficando em segundo lugar na premiação de melhor artigo de jovem pesquisador da conferência DMM ECREA em Bilbao.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Raphael Tsavkko Garcia - A narrativa do “golpe” é, como de costume ao PT, forma de culpar os outros pelos seus erros. O PT irá impor a narrativa do golpe e exigirá em 2018 apoio cego da esquerda ao Lula — caso ele não seja preso — para repetir os mesmos erros (que não são erros, é apenas estratégia). Para sustentar essa narrativa, teremos brados contra a "mídia golpista", a mesma que seguiu recebendo bilhões de reais nos 13 anos em que o PT esteve no poder e que jamais teve de temer uma reforma da mídia, porque tal ideia nunca passou de propaganda.

Depois de tantos anos por cima, mandando e desmandando, cooptando, comprando e desmobilizando movimentos sociais e apenas passando por cima de tudo e todos, os petistas desaprenderam a fazer política. Não conseguiram comprar uma saída, não conseguiram cooptar, não conseguiram roubar a bola, então xingaram, atacaram ameaçaram e, no fim, perderam.

Fora do poder seguem incapazes de achar soluções para seus problemas. Precisam da esquerda, mas seguem aliados à direita, ameaçam, fazem chantagem, tentam resgatar a narrativa do "mal maior", não pensam sequer na possibilidade de autocrítica. Esta, quando vem, começa sempre com "porém", com "mas", como se seus erros fossem erros dos outros, uma necessidade imposta pela realidade, algo inescapável — e menor diante de todas as maravilhosas realizações do PT.

Alternativas à esquerda

Cabe neste momento à esquerda buscar alternativas para além do PT, para além de movimentos cooptados pelo partido. Algo novo, que não tenha como foco apenas a institucionalidade, mas a vida, as ruas, os espaços comuns, a busca pelo comum através do diálogo amplo, franco e honesto.

O discurso de muitos é de que a democracia chegou ao fim em 31 de agosto de 2016, e que antes tudo estava lindo. A repressão começou ontem, antes era diferente. Os eventos de Junho de 2013 passam a ser normalizados, tratados como uma vírgula. A violência cotidiana e a total falta de democracia nas favelas (com direito a exército enviado pela “coração valente”) é mero detalhe. Foi a partir do impeachment que a democracia acabou. O golpe mudou tudo.

Ou superamos essa narrativa ou seremos superados pela direita. Ou superamos o PT ou nos tornaremos uma mera e fraca lembrança no curso da história. E o mesmo vale para outras narrativas e "discursos alternativos" impostos à militância, como é o discurso dos justiceiros sociais (ou Social Justice Warriors) que tem sistematicamente afastado a esquerda do resto da população, com a imposição de um discurso pseudouniversitário que na prática apenas busca censurar, patrulhar e policiar e que, no fim, prejudica a luta pelos direitos humanos e a favor de minorias.

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A crise da intelectualidade brasileira, a interdição do debate e a imposição de padrões de comportamento e pensamento. Entrevista especial com Raphael Tsavkko Garcia - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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