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Por: Patricia Fachin | 26 Abril 2017

Embora o fenômeno da migração e dos refugiados seja mundial e exista “desde o início da história da humanidade”, a proporção de pessoas que são forçadas a deixar os seus países de origem é enorme. “Falar de refugiados atualmente é falar de algo em torno de 65 milhões de pessoas que são deslocadas de seus países por conta de guerras e conflitos, ou seja, é um número extremamente alto. E, ao falar de migração, estamos falando de um número ao redor de 250 milhões de pessoas que se deslocam de um lugar para o outro ao redor do mundo”, informa Paolo Parise, missionário scalabriniano da Missão Paz à IHU On-Line.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone, Parise comenta a situação dos refugiados, especialmente daqueles que têm fugido da Síria e ido em direção aos países europeus. Sobre a situação deles, Parise é enfático: “O conflito da Síria está se arrastando há muito tempo e provocando muitas mortes. Temos que compreender que o ideal seria as pessoas permanecerem em seus países e terem a livre escolha de sair dele ou não, mas diante do conflito que existe, a saída tornou-se uma questão de sobrevivência. Hoje, contabiliza-se que mais de cinco milhões de sírios saíram do seu país, indo em direção à Turquia, Alemanha, Líbano e outros países. Entendo esse fenômeno como uma questão de sobrevivência: as pessoas estão saindo porque suas vidas estão sendo ameaçadas”.

Na avaliação dele, a resposta europeia à situação dos refugiados está permeada por um conflito de “compreensão”, porque muitos confundem os refugiados com terroristas. “Os atentados que aconteceram nos últimos anos fizeram com que muitas pessoas na Europa acreditassem que entre os refugiados se escondem potenciais terroristas. Por isso os europeus estão assustados. (...) Diante dessa situação, é preciso ter a capacidade de distinguir: uma coisa são os terroristas, outra coisa são os migrantes e refugiados; eles não coincidem, não há uma equação entre ambos”, pontua.

A melhor maneira de tratar a questão dos migrantes e dos refugiados, avalia, deve considerar duas vias: o enfrentamento da consequência e o tratamento das causas, ou seja, de um lado, é preciso acolher os estrangeiros e possibilitar formas de integração e, de outro, “ajudar a solucionar as causas desses processos migratórios, que podem ser causados por conflitos, misérias, regimes totalitários, violações de direitos humanos”. E conclui: “Imagino que devemos trabalhar nesses dois níveis e ter uma nova visão, a nível mundial, semelhante à que está sendo despertada no campo da ecologia. Na ecologia, em nível mundial, percebemos que as consequências de uma decisão em um país repercutem em outros lugares. Por exemplo, se a China e os EUA não querem diminuir tudo o que provoca poluição, isso gera consequências em outros países. A mesma coisa ocorre em relação à migração: temos que ter essa visão de que o que acontece em um lugar do mundo tem repercussão em outros”.


Padre Paolo | Foto: TV Câmara SP

Paolo Parise é mestre em Teologia e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, e missionário da Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos, uma comunidade internacional de religiosos, que atua em 34 países acompanhando migrantes das mais diversas culturas, crenças e etnias.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como o senhor está analisando o fenômeno da migração e dos refugiados contemporaneamente? Trata-se de um mesmo fenômeno que sempre ocorreu ou não?

Paolo Parise – De um lado, falar de migração e de refugiados significa que estamos falando de um fenômeno mundial que existe desde o início da história da humanidade. Por outro lado, as proporções de migrantes e refugiados hoje em dia são enormes. Portanto, falar de refugiados atualmente é falar de algo em torno de 65 milhões de pessoas que são deslocadas de seus países por conta de guerras e conflitos, ou seja, é um número extremamente alto. E, ao falar de migração, estamos falando de um número ao redor de 250 milhões de pessoas que se deslocam de um lugar para o outro ao redor do mundo. Diante desse quadro, alguns países estão mais interessados que outros em tratar dessa questão.

O Brasil continua sendo um país com baixa proporção de imigrantes em relação à sua população

No caso do Brasil, reparamos um aumento no ingresso de imigrantes entre 2013 e 2015, mas, apesar desse aumento, o Brasil continua sendo um país com baixa proporção de imigrantes em relação à sua população, chegando a 0,5% a 0,7% da população brasileira; a média mundial é 3%. Por isso, apesar de tudo, o Brasil ainda é um país com pouco fluxo migratório, apesar do crescimento dos últimos anos.

IHU On-Line - Como compreende especificamente o fenômeno das migrações do Oriente, especialmente dos sírios, para os países da União Europeia?

Paolo Parise – Infelizmente, quando há guerras e conflitos, o ser humano, obviamente, tenta sobreviver. O conflito da Síria está se arrastando há muito tempo e provocando muitas mortes. Temos que compreender que o ideal seria as pessoas permanecerem em seus países e terem a livre escolha de sair dele ou não, mas diante do conflito que existe, a saída tornou-se uma questão de sobrevivência. Hoje, contabiliza-se que mais de cinco milhões de sírios saíram do seu país, indo em direção à Turquia, Alemanha, Líbano e outros países. Entendo esse fenômeno como uma questão de sobrevivência: as pessoas estão saindo porque suas vidas estão sendo ameaçadas.

IHU On-Line – A Europa está dividida em relação à acolhida aos refugiados. Quais são as dificuldades dos países europeus em lidar com essa situação?

Paolo Parise – A Europa está vivendo um conflito por causa da compreensão: alguns acreditam que refugiados podem incluir terroristas, infelizmente. Os atentados que aconteceram nos últimos anos fizeram com que muitas pessoas na Europa acreditassem que entre os refugiados se escondem potenciais terroristas. Por isso os europeus estão assustados. Conversei com muitas famílias e amigos na última vez que estive na Itália, em dezembro do ano passado e no final de fevereiro deste ano, e pude perceber que eles realmente têm esse temor. Diante dessa situação, é preciso ter a capacidade de distinguir: uma coisa são os terroristas, outra coisa são os migrantes e refugiados; eles não coincidem, não há uma equação entre ambos. Esse discernimento tem que ser feito, mas, infelizmente, os últimos atentados têm provocado muito medo.

Outra questão é que alguns partidos, às vezes, utilizam a imigração como bode expiatório. Então, nas crises que acontecem - sociais, políticas e econômicas -, o culpado, muitas vezes, se torna o imigrante. De outro lado, o grande desafio é conseguir acolher essas pessoas. Então, embora exista essa reação de medo, existem também sinais lindos de acolhida na Europa, isto é, pessoas que não se deixam envolver por essa lógica do medo e se colocam em uma postura de abertura e acolhida.

IHU On-Line - Quais são as razões do conflito sírio e como essa questão tem sido tratada tanto no Oriente quanto no Ocidente?

Paolo Parise - Não é tão fácil entender esses conflitos que ocorrem na Síria. Muitos sírios alegam que nós não conseguimos entender o que está acontecendo no país deles, até porque há interferência de grandes potências, como Rússia e Estados Unidos. Além disso, tem todo o problema do Estado Islâmico. Então, são vários grupos, presidenciais ou contra, que estão agindo, e grandes grupos militares e superpotências que estão incentivando e se colocando a favor de um ou outro interesse. Infelizmente, parece que a solução para esse conflito ainda está longe de acontecer.

IHU On-Line – O Papa tem feito muitos discursos a favor dos refugiados. Como ele tem tratado o tema, na sua avaliação?

Antes mesmo de se eleger papa, já em Buenos Aires, Francisco atuava com essa abertura para as grandes questões sociais, inclusive defendia os imigrantes bolivianos e paraguaios que iam para a capital da Argentina

Paolo Parise – Antes mesmo de se eleger papa, já em Buenos Aires, Francisco atuava com essa abertura para as grandes questões sociais, inclusive defendia os imigrantes bolivianos e paraguaios que iam para a capital da Argentina. Agora como papa, ele continuou e ampliou o tratamento dessa questão e está provocando e conseguindo resultados em paróquias e grupos que estão se abrindo aos refugiados. Ao mesmo tempo, existem pessoas que se posicionam contra, que o criticam por essa postura.

No dia 21 de fevereiro, quando eu estava em Roma por ocasião do “Fórum Integração e Desenvolvimento: da reação à ação”, no qual ele fez o discurso de abertura, me chamou a atenção que ele utilizou quatro grandes verbos no seu pronunciamento, os quais podem até ser entendidos como um programa - os jornais europeus falavam que esse discurso era a sua Carta Magna. Os verbos utilizados foram: acolher, proteger, promover e integrar. Ele refletiu sobre cada um desses verbos num discurso que durou entre 20 e 25 minutos, tocando em questões atuais e apontando soluções muito concretas. Acredito que o Papa está sendo um dos grandes exemplos, a nível mundial, no enfrentamento desse complexo fenômeno da migração.

Eu o encontrei no evento organizado pela Scalabrini International Migration Network – SIMN, em Roma. O Papa fez um discurso de abertura no início dos trabalhos, e participaram do evento representantes de vários países do mundo. Depois, ele cumprimentou um por um os presentes, fez questão de conversar, e a conversa pessoal que tive com ele foi bem descontraída. Disse a ele o seguinte: “O senhor tem uma grande paciência em cumprimentar cada um de nós aqui”. Ele colocou a mão no meu ombro e disse: “Deus tem muito mais paciência do que nós”, e começou a dar risada, desse modo bem descontraído; foi lindo.

IHU On-Line - Qual sua percepção de como o pontificado dele está repercutindo na Europa?

Paolo Parise – A percepção é a de que a população em geral, seja cristã ou secularizada, tem uma reação extremamente positiva ao Papa. As reações contrárias, às vezes, ocorrem dentro da própria Igreja em relação à cúpula, ou em relação a alguns bispos, cardeais e padres. Alguns partidos políticos também se sentem incomodados com os discursos do Papa, mas, em geral, a população tem uma grande admiração por ele.

IHU On-Line - Nos últimos anos aumentou o número de imigrantes haitianos no Brasil. Qual é a situação deles hoje e como estão vivendo no país?

Paolo Parise – No Brasil existem “grupos tradicionais” de imigrantes que vêm da Bolívia, do Paraguai e do Peru, ou seja, é a população de imigrantes dos países vizinhos. Esse novo fluxo de imigrações haitianas no Brasil iniciou em 2010-2011. Posteriormente, em 2013, houve um fluxo de imigrações de colombianos e de sírios. Acredito que a política brasileira dos anos de 2013 e 2014 facilitou a chegada dos sírios que ingressaram no país solicitando refúgio. Houve ainda um crescimento de imigrações de alguns países da África: Angola, República Democrática do Congo, Senegal, Nigéria, e sempre tem o fenômeno da China, que é pouco conhecido, mas que tem grande presença em alguns lugares, como São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro.

A projeção internacional do Brasil de 2011 para a frente e, ao mesmo tempo, a crise econômica de 2009 nos EUA e na Europa fizeram com que o país se tornasse um ponto de atração não só para os haitianos, mas também para outros grupos de imigrantes que vieram para cá procurar uma vida melhor. Claro, o Brasil não estava preparado para recebê-los, e quem deu grandes respostas à situação foi a sociedade civil. Também, de maneira especial, a Igreja Católica deu grandes respostas e, em um tempo muito curto, conseguiu dar sinais de acolhida aos estrangeiros, com cursos de português e de inserção no mercado de trabalho. Conseguimos dar grandes respostas em Manaus, Cuiabá, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, em vários lugares do Brasil.

IHU On-Line – Então, atualmente o Brasil recebe mais imigrantes da América Latina do que de outros locais do mundo?

Paolo Parise – Sim, eu diria que a maioria dos imigrantes é de outros países da América Latina. Entre os grupos que vêm de outros países, o que mais chamou a atenção foi o Haiti: entraram aproximadamente 98 mil imigrantes haitianos no Brasil de 2010 até hoje, mas não se consegue contabilizar os que saíram. A própria Polícia Federal não consegue dar números sobre a saída desses imigrantes. A minha percepção é de que 1/3 saiu do Brasil, e calculo que entre 30 e 40 mil já saíram, uns em direção ao Chile, onde tem mais trabalho, outros em direção aos Estados Unidos, e outros ainda retornaram ao Haiti. Essa minha percepção é baseada nas conversas que tenho com os próprios haitianos que já não estão mais no Brasil.

IHU On-Line - O que explica a saída desses imigrantes do Brasil?

Paolo Parise – A crise econômica que o Brasil está enfrentando fez com que o pessoal saísse em busca de outros lugares com mais oportunidades.

IHU On-Line - Recentemente alguns venezuelanos vieram para o Brasil. Há um fenômeno migratório de venezuelanos para o Brasil ou esses foram casos particulares?

Paolo Parise – As crises econômica e política que a Venezuela está enfrentando provocaram uma saída de venezuelanos do país no final do ano passado, que foi se intensificando no início deste ano. Num primeiro momento, eles foram em direção a Roraima, depois em direção ao estado do Amazonas, especialmente a Manaus. Nos países vizinhos, como Chile e Argentina, também encontrei muitos venezuelanos. É interessante que eles não se espalharam muito pelo Brasil, mesmo para São Paulo vieram poucos venezuelanos: nesse tempo acolhemos só seis. Acredito que a maioria está com a esperança de que a situação melhore para poderem regressar ao seu país.

É importante observar que, em relação ao fenômeno da imigração venezuelana, há um grupo de indígenas, que é um grupo específico e, do outro lado, os venezuelanos que não estão ligados diretamente à questão indígena por descendência. Os indígenas estão acostumados a transitar, pois não têm a ideia de fronteira como nós temos, mas isso gerou questões muito delicadas na acolhida deles, porque eles estavam sem documentação, o que dificulta a acolhida legal.

IHU On-Line - Como o senhor compreende o fenômeno da imigração mexicana nos EUA, que já se estende por muitas décadas? Por que esse fenômeno acontece?

Paolo Parise – No caso do México, nós, como scalabrinianos, temos várias casas na região e uma delas, a mais conhecida, é a de Tijuana, que fica na fronteira do México. Temos acompanhado a migração do México para os EUA há décadas, ou seja, esse não é um fenômeno do último ano, do contexto da eleição presidencial, mas é algo que se estende há várias décadas: em um primeiro momento, havia a migração de mexicanos em direção aos Estados Unidos, mas depois esse fenômeno se expandiu e pessoas de toda a América Central e da América Latina passaram a utilizar o México para entrar nos EUA.

Quanto mais a política for restritiva, mais isso vai incentivar as máfias e grupos criminais que trazem imigrantes de uma maneira perigosa e arriscada

Se os Estados Unidos oferecem oportunidades de trabalho, é óbvio que as pessoas procuram isso. Tem lugares do mundo em que as condições não são favoráveis, então ocorre esse movimento natural de buscar algo melhor. Por isso milhares de pessoas migram para os Estados Unidos; basta ver como se fala espanhol ali, tamanha é a presença latina no país. Trump pode fazer afirmações contra os imigrantes e falar em construir muros, mas a migração continuará. O pior é que, em nível mundial, quanto mais a política for restritiva, mais isso vai incentivar as máfias e grupos criminais que trazem imigrantes de uma maneira perigosa e arriscada, aproveitando a situação das pessoas para fazerem dinheiro. Como diz o papa Francisco, são “os mercadores de carne humana”, aqueles que ganham dinheiro nas costas dos outros.

Os Estados Unidos têm uma economia que oferece trabalho. Se os imigrantes parassem de entrar no país, os EUA entrariam em crise, porque eles precisam dessa mão de obra. De todo modo, o fato de ter essa oferta e a necessidade de trabalho provoca esse fluxo. Eu diria que essa é uma das características fundamentais. Anos atrás, quando os imigrantes cruzaram os braços por um dia, fizeram perceber a sua importância dentro dos EUA.

IHU On-Line - O que deveria ser feito em relação aos países de origem, como o México, por exemplo, para que as pessoas permanecessem em seus países?

Paolo Parise – Em geral, a visão de todas as instituições que atuam com migrantes, assim como a visão do papa Francisco, é de que a pessoa deveria ter a liberdade de poder ficar em seu país de origem, e não ser movida pela necessidade de sobrevivência, fugindo de conflitos e da miséria no seu país. Então, o ideal é resolver os problemas econômicos e políticos dos países de origem; essa é a visão mais importante. Agora, cada país, infelizmente, tem questões históricas e interesses internacionais. Penso, por exemplo, nos congoleses - ninguém quase fala dos solicitantes de refúgio e dos refugiados que saem da República Democrática do Congo, muitas vezes em razão de conflitos incentivados por países do Ocidente que têm interesses econômicos naquela região. Então, de um lado, esses países não querem os imigrantes e, de outro lado, exploram os territórios e as riquezas naturais do lugar para enriquecerem e é claro que isso gera também a saída de pessoas. Portanto, muitas vezes há uma hipocrisia dos países, inclusive dos Estados Unidos, porque, em muitos lugares, eles estão provocando indiretamente essas migrações e, por outro lado, eles não querem acolher os imigrantes.

IHU On-Line - As declarações do presidente Trump em relação aos imigrantes têm gerado uma série de polêmicas. Como, na sua avaliação, ele tem se posicionado sobre o tema?

As deportações nunca haviam crescido tanto como no governo de Obama

Paolo Parise – O discurso da campanha dele foi muito explícito contra a imigração. Depois, entre o discurso e a prática, ele foi acertando as suas falas. Após a campanha, ele foi se posicionando contra os imigrantes que possuíam atos criminais no seu histórico, e isso se tornou o ponto de referência ao tratar da temática. Entretanto, segundo relatam meus coirmãos que estão atuando nos Estados Unidos, Trump está deportando muitas pessoas. É importante saber que o governo anterior, do [Barack] Obama, também deportou muita gente. Às vezes se tem a impressão de que isso só está ocorrendo no governo Trump, mas também anteriormente foram feitas deportações. Inclusive, as deportações nunca haviam crescido tanto como no governo de Obama.

IHU On-Line - O que diferencia o governo de Trump do de Obama em relação às imigrações? Como foi a postura do governo Obama em relação a essa temática?

Paolo Parise – Obama teve uma postura menos de discurso e mais de fato, isto é, em nível de discurso ele não falou muitas vezes em deportação, mas em nível de política real ele deportou muita gente. Ele teve essa ambiguidade, gerando muita deportação, mas não se falou muito nisso, ao contrário, só recentemente começou a se resgatar o que aconteceu durante o governo dele.

IHU On-Line - O que é mais urgente de ser discutido nesse debate sobre migração e refugiados nos dias de hoje?

Paolo Parise – Um grande tema é a acolhida, a acolhida em um sentido amplo, que prevê a primeira acolhida, a emergencial, dos migrantes e refugiados, mas prevê também processos de integração. De outro lado, é preciso agir nas causas desses fenômenos, como estávamos falando. Então, se de um lado trabalhamos com as consequências, acolhendo os que são forçados a sair, por outro lado temos que ajudar a solucionar as causas desses processos migratórios, que podem ser gerados por conflitos, misérias, regimes totalitários, violações de direitos humanos.

Imagino que devemos trabalhar nesses dois níveis e ter uma nova visão, a nível mundial, semelhante à que está sendo despertada no campo da ecologia. Na ecologia, em nível mundial, percebemos que as consequências de uma decisão em um país repercutem em outros lugares. Por exemplo, se a China e os EUA não querem diminuir tudo o que provoca poluição, isso gera consequências em outros países. A mesma coisa ocorre em relação à migração: temos que ter essa visão de que o que acontece em um lugar do mundo tem repercussão em outros.

IHU On-Line - Como o senhor avalia a aprovação da Lei de Migração aprovada no Senado, na semana passada?

Paolo Parise – A caminhada dos últimos anos da sociedade civil e da Missão Paz foi conseguir mudar o Estatuto do Estrangeiro de 1980 para uma lei mais moderna, que respeita os princípios da Constituição e também os tratados internacionais que o Brasil ratificou. Realmente, o dia 18-4-2017 foi uma data histórica, pois no Senado se conseguiu essa importante votação, e o próximo passo será a sanção presidencial.

Óbvio que como sociedade civil queremos sempre mais avanços, mas muitos avanços já aconteceram. O imigrante, fundamentalmente, é um sujeito de direitos, é visto na sua dignidade como ser humano, e não – conforme a lei anterior - como uma ameaça à segurança nacional. Então, é eliminado todo tipo de discriminação na nova lei, há uma prevenção e um repúdio à xenofobia, e a lei em si é bem mais prática e menos burocrática em relação ao procedimento de regularização. Além disso, aprovou-se a possibilidade do visto humanitário, que se tornou algo mais estruturado, e não será mais tido como uma exceção. Então, a lei tem enormes avanços, inclusive prevê a anistia, ou seja, pessoas que estão em situação irregular há vários anos, e que não têm uma solução legal, agora poderão se regularizar no país.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Paolo Parise – Quero aproveitar este momento para divulgar o III Simpósio Internacional sobre Migração e Religião: “Fronteiras, Conflitos e os Dramas dos Refugiados”, que irá acontecer de 5 a 7 de junho de 2017 na PUC-SP. É um evento organizado pela PUC-SP através do Programa Estudos de Pós-Graduação de Ciência da Religião, pela Missão Paz e pelo Scalabrini International Migration – SIMN, de Roma. No site da Missão Paz, já está disponível toda a programação do evento.

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