A porta aberta para mudança. Uma avaliação da viagem do Papa à África. Entrevista especial com Giuseppe Caramazza

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19 Dezembro 2015

“No Quênia, o governo aceitou o chamado para a mudança. Se isso vai ser seguido, ainda veremos. Em nível popular, os quenianos já são pessoas capazes de diálogo; porém, têm um problema sério com etnicismo negativo”, destaca Giuseppe Caramazza, sobre a visita do Papa à África.

Foto: Foto Rádio Vaticana

Um dos momentos mais comentados da visita do Papa Francisco ao continente africano, em novembro, foi quando abriu a porta sagrada da catedral de Bangui. O ato foi interpretado como um prelúdio da abertura do Jubileu da Misericórdia, que oficialmente ocorreu em dezembro com a abertura da porta da Basílica de São Pedro, no Vaticano. Entretanto, o missionário comboniano Giuseppe Caramazza, que atua no continente e acompanhou parte da viagem, entende que o momento mais significativo foi o encontro de Francisco com jovens e com os moradores de favelas do Quênia. “Papa Francisco falou abertamente do que as pessoas são chamadas a fazer na sociedade. Ele pediu aos jovens que façam escolhas éticas e rejeitem a corrupção, do corpo e da mente”, recorda.

Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Caramazza ainda destaca que a passagem do pontífice pode ser interpretada como um chamado para mudança. “Se isso vai ser seguido, ainda veremos. Certamente, o presidente (do Quênia) Uhuru Kenyatta ficou profundamente comovido com as palavras do Papa. Em nível popular, os quenianos já são pessoas capazes de diálogo. Eles, porém, têm um problema sério com etnicismo negativo. As pessoas agora estão mais conscientes disso”, destaca. “Esperamos também que a consciência se transforme em novo estilo de relacionamento entre os diferentes grupos étnicos”, completa.

Aliás, mudar a realidade desse continente é um dos grandes desafios atuais. Caramazza reconhece todo o território como extremamente conflituoso em decorrência das guerras. Entretanto, para ele, o desafio ainda vai além de superar a guerra. “Eu vejo o grande conflito em algumas áreas: a migração humana para a Europa em busca de um futuro. Isso significa que os governos locais não foram capazes de oferecer um futuro viável para as novas gerações. A outra área é o crescimento do islamismo radical. Contrariamente à tradição de diálogo e moderação do Islã local, a nova onda do Islã vem com estudantes africanos levados para a Arábia Saudita, Iêmen, Irã para estudar e radicalizar sua crença”, analisa.

Giuseppe Caramazza nasceu em Verona, na Itália, em 1960. É missionário comboniano e foi um dos fundadores do Serviço Católico de Informação para a África - CISA, uma das mais importantes agências de notícias da África, com sede em Nairóbi. Publicou vários estudos antropológicos sobre o povo Masai e outros temas relacionados com a África. Atuando também como jornalista, Caramazza é conhecido no mundo da política africana, especialmente por seu trabalho na China e na África. Em janeiro de 2010, fundou a southworld.net, web-magazine que trabalha com notícias e análises sobre a África, Ásia e América Latina. A revista é sediada em Londres. Atualmente, Caramazza leciona na Universidade Tangaza em Nairobi, Quénia. Ele também está preparando uma pesquisa sobre a influência da religião na decisão ética dos políticos no Quênia.

Confira a entrevista.

Foto: lh3.googleusercontent.com

IHU On-Line - Quais são os principais conflitos que ocorrem hoje no continente africano e quais são as suas razões?

Giuseppe Caramazza - Se por conflitos queremos dizer guerras, então o conflito é a guerra civil no Sudão do Sul. Há também muitos locais que não querem desistir de sua pouca influência política e financeira em favor do crescimento da nação. Diferente é a guerra civil na República Centro-Africana, onde a milícia muçulmana mantém a nação em crise.

O grande conflito, no entanto, não são as guerras. Eu vejo o grande conflito em algumas áreas: a migração humana para a Europa em busca de um futuro. Isso significa que os governos locais não foram capazes de oferecer um futuro viável para as novas gerações. A classe média tem crescido muito, mas os pobres são mais pobres do que antes. Sair da pátria é uma decisão difícil, mas muitos não têm escolha.

A outra área é o crescimento do islamismo radical. Contrariamente à tradição de diálogo e moderação do Islã local, a nova onda do Islã vem com estudantes africanos levados para a Arábia Saudita, Iêmen, Irã para estudar e radicalizar sua crença. Os numerosos conflitos que eles criam – desde o Boko Haram na Nigéria até o Al Shabaab na África Oriental – só conseguem mesmo é matar pessoas inocentes. Esse não é o Islã da paz, mas de violência e desrespeito contra a vida humana.

IHU On-Line - Como avalia a visita do Papa Francisco ao continente africano?

Giuseppe Caramazza - Papa Francisco veio para a África e foi recebido na forma tradicional. Todos queriam vê-lo e ouvir sua mensagem. Nos dias anteriores à sua vinda, todos – muçulmanos e hindus também – buscavam oportunidade para estar presentes em alguma das muitas aparições públicas. Foi uma visita bem-sucedida, da qual Quênia, Uganda e República Centro-Africana podem se orgulhar.

“O encontro com os jovens e aquele com os moradores de favelas foram o ápice de sua visita no Quênia

 

IHU On-Line - Quais os momentos mais significativos da passagem do Papa pela África?

Giuseppe Caramazza - O encontro com os jovens e aquele com os moradores de favelas foram o ápice de sua visita no Quênia. Papa Francisco falou abertamente do que as pessoas são chamadas a fazer na sociedade. Ele pediu aos jovens que façam escolhas éticas e rejeitem a corrupção, do corpo e da mente.

IHU On-Line - Dentro da África, como foram as reações às falas e passagem de Francisco?

Giuseppe Caramazza - As pessoas estavam extremamente felizes, e os católicos, orgulhosos da visita.

IHU On-Line - Segundo o Papa, o objetivo central de sua visita à África foi "diálogo com aqueles que são diferentes". Esse objetivo foi alcançado?

Giuseppe Caramazza - Certamente, o Papa mostrou o caminho para o diálogo. Ele teve um importante encontro ecumênico com representantes de todas as religiões em Nairóbi.

IHU On-Line - Que efeitos podem ter a mensagem de paz, reconciliação e diálogo inter-religioso levada por Francisco aos três países africanos que visitou, os quais historicamente enfrentam um contexto de violência e desrespeito aos direitos humanos?

Giuseppe Caramazza – No Quênia, o governo aceitou o chamado para a mudança. Se isso vai ser seguido, ainda veremos. Certamente, o presidente Uhuru Kenyatta ficou profundamente comovido com as palavras do Papa. Em nível popular, os quenianos já são pessoas capazes de diálogo. Eles, porém, têm um problema sério com etnicismo negativo. O tribalismo continua orientando as escolhas de muitos. As pessoas agora estão mais conscientes disso. Esperamos também que a consciência se transforme em novo estilo de relacionamento entre os diferentes grupos étnicos.

IHU On-Line - O que representa o gesto do Papa em ter antecipado, mesmo que de forma simbólica, a abertura do Ano da Misericórdia ao abrir a Porta Santa da Catedral de Bangui, na República Centro-Africana?

Giuseppe Caramazza - Isto foi sentido como uma honra especial para a África. Ao mesmo tempo, eu não vi que isso tenha gerado muito entusiasmo. As pessoas ainda não enxergam a importância dos anos de jubileu, e só as Igrejas falam sobre isso. O fato de o Papa ter vindo acabou ofuscando todos os demais eventos.

“No Quênia, o governo aceitou o chamado para a mudança. Se isso vai ser seguido, ainda veremos

IHU On-Line - No que a postura de Francisco difere de seus antecessores na relação com países africanos e territórios que têm contexto conturbado?

Giuseppe Caramazza - Papa Francisco é muito mais capaz de empatia e diálogo. Mesmo quando falou em espanhol e foi traduzido, as pessoas naturalmente se sentiam em comunhão com as suas palavras e comunicação. Papa Bento certamente tinha ideias claras, mas não era capaz de uma relação tão direta com os fiéis.

Por Leslie Chaves e João Vitor Santos | Tradução de Walter Schlupp

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