República da África Central, 30 anos para trás? O desabafo de um bispo

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Por: Jonas | 04 Abril 2013

“Tenho aqui, sobre minha mesa, quatro cápsulas de bala que recolhi outro dia dentro da catedral de Bangui, cápsulas exatamente iguais as que poderia ter recolhido na pediatria de Bangassou”, desabafa dom Juan José Aguirre (na foto com as crianças), bispo de Bangassou, em artigo publicado no sítio Religión Digital, 03-04-2013. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

No dia primeiro de abril, o autoproclamado presidente da República da África Central, Michel Djogotia (primeiro presidente muçulmano na curta história do país), apresentou a lista dos ministros e participou, na catedral, da missa da luz do Sábado Santo às 15h00s (há um toque de recolher muito rigoroso), talvez para agradar o arcebispo que presidia a missa, pois seus soldados haviam entrado na catedral e disparado ao teto, com suas metralhadoras, para roubar as chaves dos carros dos fiéis, que estavam estacionados fora... algo que seria gravíssimo se alguém tivesse realizado numa mesquita.

Se não estou enganado, a palavra perdão aparece centenas de vezes na Bíblia, mas não aparece no Alcorão, onde Deus é, sobretudo, misericordioso. Isto homenageia a milhares de muçulmanos misericordiosos que há espalhados pelo mundo.

Entretanto, aqui, desde o Domingo de Ramos, dia do golpe de Estado, todos os dias e noites os roubos continuam, a qualquer hora. As pessoas não fogem apavoradas, mas choram por conservar o pouco que tem em cada bairro e que a qualquer momento alguém pode entrar e roubar com metralhadoras, ou rebeldes da Seleka ou alguém vestido de rebelde.

Roubaram os carros de muitas casas de religiosos/as. Cada um dos espiritanos foi viver numa casa ou onde há amigos, pois duas noites seguidas foram acordados com machados e facões. padre René, há tantos anos aqui, não quer voltar para Bangassou e prefere tirar férias porque está farto. No momento, volta para o Camarões. Nas casas de religiosas quiseram até levar algumas delas, para o que vocês imaginam, como nas dominicanas colombianas do bairro de Bimbo. O saqueio é generalizado e as autoridades se sentem impotentes.

O presidente anuncia “tolerância zero” para os saqueadores, mas estes saem de suas próprias hostes. Os rebeldes Seleka são, muitos deles, ou chadianos e sudaneses “janjaweeds”, ou jovens recrutados na última hora para engrossar a tropa. Alguns deles muito jovens, como dizia um jornal outro dia, mas são menos. O certo é que a nenhum dos dois grupos o país interessa, a não ser a pilhagem. Muitos de nossos carros já estão no Chade, nosso querido país vizinho onde dois de seus bispos são combonianos e choram comigo o que está acontecendo aqui.

A pediatria em Bangassou foi vandalizada e a farmácia também. Irmã Julieta, franciscana de Montpellier, chora em silêncio porque conhece de cara a muitos ladrões e os curou mais de uma vez. Tenho aqui, sobre minha mesa, quatro cápsulas de bala que recolhi outro dia dentro da catedral de Bangui, cápsulas exatamente iguais as que poderia ter recolhido na pediatria de Bangassou. Entretanto, os pobres que nós tratamos todos os dias não têm culpa dos ataques desses desalmados sem o sentido comum. Eles são os mesmos que sexta-feira que seguiu ao ataque não deixaram de ir rezar na mesquita de Bangassou, quando alguns deles haviam estuprado duas crianças, num bairro, durante essa mesma noite.

Em Rafai, tiveram um Tríduo Pascal muito agitado. Cristo ressuscitado triunfa, mas sempre ensina suas chagas aos apóstolos. Cerca de 20 bandidos disfarçados como integrantes da coalizão Seleka tomaram o povo e a missão. Não houve desgraças pessoais, mas os muçulmanos da região interviram exigindo que esses 20 varridos fossem embora.

No domingo, eles se foram com os carros do padre franciscano, das freiras, de um caçador da região e com o caminhão Unimog, da missão. Falar de perdão e perdoar de coração, buscando a paz, será complicado, embora quem a Deus tem, nada  falta e Deus pode tudo. Já nos tiraram 22 carros e muitíssimas outras coisas da diocese e pertences pessoais. Porém, isto será sempre menos em relação a qualquer família de refugiados do Congo, que fugiram da LRA e estão em Zemio e Obo, ou se comparado a qualquer refugiado de Damasco, evadido no Líbano, que se foi e vive num campo de refugiados.

Hoje, meu irmão me escrevia que uma canção diz que “Deus o fez martelo e do céu envia-lhe cravos”. Chegará um dia em que, ao invés de cravos, choverão esperanças e ares de paz, ARV para nossos enfermos terminais e horas de estudo para nossos alunos, em paz e harmonia, como sempre foi...

Penso que, após este massacre que se estendeu por todo o país, há muitos desafios que se preparam no horizonte, pois estamos sendo despojados de muitas coisas e deveremos viver mais pobres, esperando não cair doentes como já aconteceu com alguns de nós. É mais válido estar do que não estar. E o melhor de tudo é estar sabendo que quem a Deus tem, nada falta. O que Deus tem desejado de nós com tudo isto? Precisaremos refletir longa e extensamente, com tempo, se meu coração suportar e não estalar outra vez, como no ano passado, com o infarto...

Algumas missões tem sorte de precisar apenas estender a mão para agarrar um pescado, pois estão à beira do rio Oubagui. Outros têm isto mais cru. Em Gambo, em plena savana, a carne é rara. E o coração não está sempre 100% cheio, pois a tentação do desalento está à beira do caminho. Em Tokoyo, a segunda paróquia de Bangassou, não resta nenhum carro, nenhuma moto e existem 40 capelas. Padre Augustin, recém-ordenado em agosto, foi a pé (60 km) para Zabe, na Páscoa, com uma das irmãs de Salvador... Enquanto tiverem saúde, poderão continuar. Enquanto houver estrelas, poderemos caminhar, inclusive, à noite. Mais do que nunca a união de orações.

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