O Papa na periferia de Nairóbi: vocês praticam valores que não são cotados na Bolsa de Valores

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Por: André | 30 Novembro 2015

“Na realidade, sinto-me em casa compartilhando este momento com vocês”. O Papa Francisco, no último dia de sua visita ao Quênia, percorre a pequena rua de Kangemi, uma das zonas mais pobres de Nairóbi, situada em um pequeno vale que divisa com outras zonas pobres. Ali moram mais de 100 mil pessoas sem rede fluvial e sem serviços, em casas muito humildes. O encontro acontece na Igreja São José Operário, dos jesuítas. Há muitas crianças sentadas no chão. Bergoglio saúda os doentes em cadeiras de roda.

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada por Vatican Insider, 27-11-2015. A tradução é de André Langer.

O Papa ouve as saudações de uma das moradoras da famela, Pamela Akwese, que lhe recorda que 60% da população de Nairóbi vive nestas zonas pobres, que ocupam somente 5% da área da cidade. As pessoas aqui “sobrevivem com menos de um dólar por dia. Há focos de cólera, especialmente no começo deste ano”. A irmã Mary Killeen, por sua vez, recorda que se necessita de uma maior presença de religiosos nos bairros pobres.

Francisco, quando era arcebispo de Buenos Aires, mandou muitos padres para viverem nas favelas, e está visivelmente contente: “Na realidade, sinto-me em casa compartilhando este momento com irmãos e irmãs que, não me envergonho de dizer, têm um lugar preferencial na minha vida e opções”. Mas antes de “denunciar as injustiças que sofrem” os moradores das favelas, Bergoglio fala sobre a “sabedoria dos bairros populares”, esses “valores evangélicos que a sociedade opulenta, adormecida pelo consumo desenfreado, parece ter esquecido”.

“Vocês – disse o Papa – são capazes de tecer laços de pertença e de convivência que transformam a superlotação em uma experiência comunitária onde se derrubam os muros do eu e se superam as barreiras do egoísmo”. E cita valores como “a solidariedade, dar a vida pelo outro, preferir o nascimento à morte; dar um enterro cristão aos seus mortos, oferecer um lugar para o doente na própria casa, compartilhar o pão com o faminto”, porque “onde comem 10 comem 12”, explica Francisco, citando um documento dos padres argentinos que trabalham nas favelas. “Valores que se sustentam no fato de que cada ser humano é mais importante do que o deus dinheiro. Obrigado por nos lembrarem que há outro tipo de cultura possível. Gostaria de reivindicar em primeiro lugar estes valores que vocês praticam, valores que não são cotizados na Bolsa, valores com os quais não se especula nem têm preço de mercado”.

Após ter recordado que “o caminho de Jesus começou na periferia, vai dos pobres e com os pobres para todos”, o Papa disse que não se pode “de forma alguma, desconhecer a terrível injustiça da marginalização urbana. São as feridas provocadas pelas minorias que concentram o poder, a riqueza e esbanjam egoisticamente enquanto a crescente maioria deve refugiar-se em periferias abandonadas, poluídas, descartadas”.

“Vemos a injusta distribuição do solo (talvez não neste bairro, mas em outros) – continua o Pontífice – que leva em muitos casos famílias inteiras a pagarem aluguéis abusivos por moradias inadequadas. Também sei do grave problema do monopólio de terras por parte de ‘empresários privados’ sem rosto, que querem apropriar-se até do pátio das escolas de seus filhos”.

Um problema grave, destaca Francisco, é “a falta de acesso às infra-estruturas e serviços básicos. Refiro-me a banheiros, fossas, esgotos, coleta de lixo, energia elétrica, estradas, mas também a escolas, hospitais, centros recreativos”. Sobretudo, falta de água potável, “um direito humano básico, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas, e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável. Negar a água a uma família, sob qualquer pretexto burocrático, é uma grande injustiça, sobretudo quando se lucra com essa necessidade”.

Bergoglio alude também à violência que se espalha e às “organizações criminosas que, movidas por interesses econômicos ou políticos, utilizam crianças e jovens como ‘carne de canhão’ para seus negócios ensanguentados. Também conheço os sofrimentos das mulheres que lutam heroicamente para proteger os seus filhos e filhas destes perigos. Peço a Deus que as autoridades assumam, junto com vocês, o caminho da inclusão social”.

Tudo isso não é o resultado de “uma combinação casual de problemas isolados. Inclusive são uma consequência de novas formas de colonialismo que querem que os países africanos sejam ‘peças de mecanismo, partes de uma engrenagem gigantesca’. Não faltam, de fato, pressões para que se adotem políticas de descarte, como a da redução da natalidade, que pretendem ‘legitimar o modelo distributivo atual, onde uma maioria se acredita no direito de consumir em uma proporção que seria impossível generalizar’”.

Por isso, insiste Francisco, devemos “retomar a ideia de uma respeitosa integração urbana. Nem erradicação nem paternalismo, nem indiferença nem mero confinamento. Precisamos de cidades integradas e para todos. Precisamos ir além da mera proclamação de direitos que, na prática, não são respeitados, e promover ações sistemáticas que melhorem o habitat popular e projetar novas urbanizações de qualidade para acolher as futuras gerações”. O Papa faz um apelo a “todos os cristãos, em particular os pastores, para que renovem o impulso missionário, tomem a iniciativa contra tantas injustiças, envolvam-se nos problemas dos moradores, acompanhem-nos nas suas lutas”.

“Sei que vocês fazem muito”, reconhece Bergoglio, “mas peço-lhes que recordem que não é uma tarefa a mais, mas talvez a mais importante, porque – como explicava Bento XVI – ‘os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho’”. “Rezemos, trabalhemos, comprometamo-nos juntos para que cada família tenha um teto digno, tenha acesso a água potável, tenha um banheiro, tenha energia segura para iluminar, cozinhar e melhorar as suas casas… para que todo o bairro tenha ruas, praças, escolas, hospitais, espaços desportivos, recreativos e artísticos; para que os serviços básicos cheguem a cada um de vocês; para que as suas reclamações e o grito por melhores oportunidades sejam ouvidos; para que todos possam gozar da paz e segurança que merecem de acordo com a sua dignidade humana infinita”.

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