19 Abril 2026
"O encontro de Emaús ensina que é imprescindível abrir os olhos e o coração para perceber o que vai além do tempo, da finitude: "Amar o perdido/ deixa confundido esse coração (...)/ Mas as coisas findas,/ muito mais que lindas,/essas ficarão" (Carlos Drummond de Andrade, 1902-1987)", escreve Chico de Alencar, deputado federal - PSOL-RJ, comentando Lucas, 24, 13-35, lido na liturgia deste domingo.
Eis o comentário.
Emaús - que quer dizer "lugar de água quente" - era um povoado a 12 km de Jerusalém. Ele está "georeferenciado" no lindo episódio narrado por Lucas (24, 13-35), celebrado nesse domingo e carregado de significados.
Há os caminhantes da estrada - caminhar é preciso! Há desencanto e tristeza neles, pois seu Mestre tinha sido crucificado, e prevalecia a sensação de que a morte tinha a última palavra - esse luto que tantas vezes chega em nossas existências e nos abate.
Mas há um "estranho" que se junta a eles no trajeto até o vilarejo. O Outro, que nos completa e pode ser nosso céu...
Há a hospitalidade: anoitecia, e os discípulos de Emaús convidam o forasteiro para pernoitar com eles: "Fica conosco!" (29).
Há o escuro lá fora, mas, na casa simples, há bem mais que a luz da vela: a iluminação e o encantamento do Ressuscitado, reconhecido no partir do pão.
E não só nisso. Também na palavra de ânimo, ainda que percebida tardiamente: "não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?" (32).
Se foi assim, assim será: caminhar, ouvir e entender, acolher, repartir, comungar. Acreditar, reesperançar, tornar o impossível possível. "Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé, manda essa tristeza embora" (Xande de Pilares e Grupo Revelação). É assim que temos procedido?
O encontro de Emaús ensina que é imprescindível abrir os olhos e o coração para perceber o que vai além do tempo, da finitude: "Amar o perdido/ deixa confundido esse coração (...)/ Mas as coisas findas,/ muito mais que lindas,/essas ficarão" (Carlos Drummond de Andrade, 1902-1987).
O que aquece nosso coração? Em que direção caminhamos? Vivenciamos, de fato, a partilha do pão? Qual nossa bússola para a travessia da vida? No que acreditamos, pra valer?
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