16 Abril 2026
"Sem dúvida, quando Lucas escreve seu Evangelho o movimento de Jesus já começa a se estruturar e organizar, e neste momento as mulheres começam a ser relegadas a um segundo plano — algo que continuará na história da Igreja nos séculos seguintes, aprofundando essa situação"
O comentário às leituras do 3º Domingo de Páscoa — Ciclo A — At 2,14.22-33; 1Pd 1,17-21; Lc 24,13-35 — é de Eduardo de la Serna, publicado por Religión Digital, 13-04-2026.
Eis o comentário.
Leitura dos Atos dos Apóstolos (At 2,14.22-33)
Num característico sumário do ministério de Jesus, sua morte e ressurreição, Lucas desafia a Igreja a ser fiel ao espírito e à sua vocação de ser testemunha do ressuscitado.
Como é habitual nos domingos de Páscoa de todos os ciclos, a primeira leitura corresponde aos frequentes "sumários" dos Atos dos Apóstolos, presentes nos habituais discursos dos apóstolos, nos quais narram aos seus destinatários as coisas "ocorridas", das quais eles são "testemunhas".
No presente discurso é Pedro quem fala junto com os restantes Onze e se dirige aos judeus presentes na festa de Pentecostes — portanto, não só os judeus originários da terra de Israel, mas também os provenientes da diáspora. Por isso recorre a uma série de textos da Bíblia hebraica (Jl 3,1-5; Sl 16,8-11; 132,11; 110,1; o primeiro e o último omitidos no texto litúrgico).
A chave de todos esses discursos — e o motivo pelo qual é incorporado nas leituras do tempo pascal — está em que "a este Jesus que (breve apresentação de sua vida)... vocês o mataram... e Deus o ressuscitou" (vv.22.23.24). Nesse caso, isso ocorre em cumprimento das Escrituras citadas.
Nessa ocasião, Pedro apresenta Jesus como profeta (algo frequente em Lc-At) ao destacar seus "sinais e prodígios" (v.22), mas em continuidade com Davi, que também é apresentado como "profeta" (v.30). A citação dos Salmos 16 e 132 destaca que Deus não abandona à morte o descendente de Davi. Assim reitera o que já foi dito: "Deus o ressuscitou" (v.32), reforçado por "e de tudo isso todos nós somos testemunhas".
O texto culmina fazendo referência ao dom do Espírito Santo doado em Pentecostes, que "vocês veem e ouvem", com o qual todos os presentes se tornam, por sua vez, testemunhas do que está ocorrendo. Em paralelo com seu Evangelho, Lucas apresenta o envio do Espírito no começo do ministério (de Jesus, da Igreja), o cumprimento das Escrituras e o testemunho dos presentes. O Jesus profeta e a Igreja, que deve também ser profeta, acompanhada e guiada pelo Espírito dos profetas, começam seu ministério.
Leitura da primeira carta do apóstolo São Pedro (1Pd 1,17-21)
Num marco típico da liturgia pascal do Êxodo, "Pedro" apresenta Jesus como Cordeiro libertador que move os destinatários a uma vida diferente daquela que levavam, sabendo que são tratados como estrangeiros pelo meio ambiente, mas movidos a essa vida pela fé e pela esperança.
Após o prólogo ou introdução da carta (1,3-12), esta exorta os destinatários a viver a esperança da qual já havia falado. A celeridade com que isso deve ser vivido se expressa com uma imagem da páscoa ("a cintura cingida", cf. Ex 12,11). A característica vida libertina dos pagãos no Império Romano deve ter ficado para trás; a vida de "sobriedade" caracteriza a "vida pascal" do cristão. Essa sobriedade é manifestação da esperança unida à graça (v.13).
A santidade à qual convida os destinatários tem sua origem no "povo santo de Deus". Se os destinatários — pagãos — não eram povo, agora o são e devem viver coerentemente com essa "santidade", isto é, separar-se do modo de vida que levavam antes (v.14; cf. 2,5.9). A isso o chama "filhos da obediência": é a resposta à escuta da Palavra de Deus, supõe uma resposta concretizada numa vida nova. Isso supõe viver essa santidade (1,2.15-16; 2,5.9; 3,5.15). Mas não se trata de algo ritual, ou de sair ("separar-se") do mundo, e sim de uma vida concreta no mundo atual.
A partir daqui começa o texto litúrgico, relacionando a vida concreta e a relação com Deus ao qual "chamam Pai". O que destaca de Deus é que "não faz acepção de pessoas" — evidentemente se poderiam ter dito centenas de outras coisas ao falar de Deus como "Pai". Essa característica (frequentemente destacada para assinalar que Deus trata o pobre, o desprezado, do mesmo modo que o que outros qualificam de "importante"; cf. Dt 1,17; 10,17; 2Cr 19,7; Jó 34,19; Sir 35,13; At 10,34; Rm 2,11; Gl 2,6; Ef 6,9; Tg 2,1) está dita em função da "peregrinação" (paroikía). O estrangeiro é o que habita num país que não é o seu. Refere-se (cf. 2,11) aos cristãos que são tratados como tais. Não deve ser lida em sentido "espiritual", como se pensasse que os cristãos são "cidadãos do céu" e por isso estão "no mundo" como "estrangeiros". Essa leitura é totalmente alheia ao texto. Os cristãos são tratados como menos (desprezados) na sociedade em que vivem; mas a fé e a esperança lhes dão uma identidade nova, um âmbito de pertença.
Esse modo de vida tem uma motivação cristológica (1,18-21). O sangue do Cordeiro sem mancha (novamente o contexto é pascal) "resgatou", "libertou" os cristãos. A referência à páscoa (Ex 12,1-14, o cordeiro sem mancha) e ao pagamento não em ouro ou prata (Is 52,3, Deus é o salvador poderoso que libertará os israelitas). O marco é claramente político: libertação do Egito e libertação da Babilônia enquadra a obra salvadora de Cristo e o modo de vida dos cristãos no contexto do Império Romano, onde são tidos como "bárbaros", desprezados como "estrangeiros". Estão chamados a uma vida nova que nasce da regeneração mediante a ressurreição de Cristo.
O texto conclui com uma referência expressa a Cristo, com certa semelhança a um hino (vários autores supuseram que o autor recorre aqui a um hino primitivo), destacando Jesus desde o começo até o final da história ("antes da criação... nos últimos tempos", v.20), mas ao mesmo tempo imerso em nossa história ("Deus o ressuscitou dentre os mortos..."). Esse sangue libertador derramado é, por sua vez, vida recobrada pela ressurreição, e é isso que dá "encarnadura" à nossa fé e esperança, que estão postas "em Deus" (v.21).
Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 24,13-35)
No único dia da ressurreição, Lucas apresenta as aparições do ressuscitado nas cercanias de Jerusalém. Uns peregrinos que voltam a Emaús não reconhecem o peregrino que caminha com eles até que — à mesa — "parte o pão" (expressão claramente eucarística), com o que se lhes abrem os olhos, o conhecem, e então Jesus já pode desaparecer. Vê-lo já não é necessário se há a Eucaristia.
O relato dos peregrinos de Emaús tem uma série de elementos importantes para entender a intenção de Lucas, e outros elementos importantes para compreender bem a unidade literária.
Para começar, destaquemos que em Lucas (não assim nos Atos, o que é interessante de aprofundar, mas não é este o momento) todas as cenas de aparições do ressuscitado, da primeira à última, ocorrem no mesmo dia: o domingo da ressurreição. Evidentemente isso faz parte da intenção do autor. De fato, o texto começa afirmando precisamente isso: "naquele mesmo dia iam dois deles" (notar o plural masculino, do qual diremos algo ao final deste comentário).
Outro tema a ter em conta, e que é próprio da teologia de Lucas, é que todas as aparições ocorrem nas cercanias de Jerusalém. A aldeia de Emaús, por exemplo, está mencionada em relação à cidade ("sessenta estádios de Jerusalém", aproximadamente uns 10 quilômetros).
Peregrinos que voltam a seus lugares depois das grandes festas de peregrinação (como era a Páscoa) eram frequentes, de modo que não deve resultar estranho aos dois que um terceiro se incorpore, a quem não reconhecem. Eles vão "trocando palavras mutuamente" e o terceiro pergunta do que falam. Um deles é mencionado: Cleofás; o "outro" permanece anônimo ao longo de todo o relato. É ele que toma a palavra respondendo à pergunta do desconhecido que se incorpora — o fazem com "mau semblante", compungidos. O contexto parece indicar que "todos" em Jerusalém falam do "caso Jesus", já que era muito reconhecido pelo povo e sua morte foi vivida como uma injustiça; todos os "estrangeiros" (paroikeîs) sabem disso. Os responsáveis por esse crime são "os sumos sacerdotes e as autoridades", e Jesus é qualificado — como é próprio de Lucas — de "profeta". É "poderoso" em "obras e palavras diante de Deus e de todo o povo"; algo que nos Atos se afirma também de Moisés (cf. At 7,22), com o que esse "profeta" Jesus, que se assemelhava a Elias no Evangelho, também é comparado a Moisés, o profeta esperado (cf. Dt 18,18).
Como tantos dos seguidores de Jesus, sua morte acabou com as suas expectativas. O que esses esperavam era que Jesus "livrasse" (lytrôsêtai, cf. 1Pd 1,18 [segunda leitura]) a Israel. Habitualmente se afirma que Deus liberta Israel (Ex 6,6; Dt 21,8; 2Sm 7,23; 1Cr 17,21; 1Mc 4,11; Sl 25,22; 130,8; Sf 3,15; Is 41,14; 44,23), mas o há obrado na história com a ajuda de alguns mediadores como Moisés e Davi. Assim como Moisés foi o instrumento de Deus para libertar Israel do Egito, os peregrinos esperavam que o "profeta" Jesus livrasse Israel de seus opressores.
Ante a intervenção de Cleofás, responde agora o peregrino desconhecido — que nós, os leitores, sabemos ser Jesus. Seus olhos estavam "retidos" (kratéô, vazios, tapados) e não podiam "ver". Por um lado, qualifica os dois peregrinos de "insensatos" (ignorantes; o termo costuma ser usado agressivamente, cf. Gl 3,1.3; 1Tm 6,9; Tt 3,3; aqui é sinônimo do que segue: não compreendem) e "tardos de coração" — o coração, a sede das decisões e da compreensão, é "lento" (bradeîs). Por outro lado, recorrendo aos profetas, mostra-lhes que "era necessário" (deì, refere a algo previsto por Deus, em sua vontade, em seu plano de salvação) que "o Messias padecesse isso e assim entrasse na sua glória".
O narrador toma a palavra sintetizando que lhes mostrou "o que havia sobre ele nas Escrituras", começando por Moisés e seguindo por "todos os profetas" (cf. 16,29.31). A referência a Moisés pode ser entendida no sentido profético mais que legislativo, com o que Jesus se situa no contexto da tradição profética. A sorte dos profetas ilumina o sentido da sorte de Jesus (Lc 6,23; 11,47.49.50; 13,34), como ele mesmo já havia anunciado (18,31).
O diálogo entre eles termina aqui. Os peregrinos chegam à casa e o companheiro de caminho — que não é de Emaús — deve continuar. Os peregrinos o convencem a passar a noite com eles, o que é razoável dada a importância da hospitalidade no mundo antigo. A chave de todo o relato se encontra no v.30: o peregrino — já à mesa — faz a fração do pão, o que provoca que "se lhes abram os olhos". Curiosamente, abrem-se os olhos e deixam de vê-lo.
A bênção (eulógêsen) sobre o pão se encontra nos relatos da multiplicação dos pães (Mt 14,19; Mc 6,41; Lc 9,16) e no relato da Eucaristia de Mateus e Marcos, mas não em Lucas, que o desloca a este momento (Mt 26,26; Mc 14,22). O verbo "partir o pão" (kláô) se encontra também nos relatos da multiplicação dos pães (mas não em Lucas) e nos relatos da Eucaristia (também em Lucas, Mt 26,26; Mc 14,22; Lc 22,19) e aqui. Nos Atos o uso é igualmente eucarístico (cf. 2,46; 20,7.11; 27,35), e só se encontra duas vezes em Paulo, também em contexto eucarístico (1Cor 10,16; 11,24). Evidentemente Lucas quer dar à ação de Jesus um sentido eucarístico, e é esse fato que lhes "abre os olhos". "Abrir os olhos" é o contrário de "não compreender", de ser "tardo de coração": agora veem e compreendem (cf. Gn 3,5.7; 2Rs 6,17.20; Zc 12,4). Nesse sentido é sinônimo de "crer": antes não o "conhecem" (v.16), agora o "conhecem" (v.31). O contraste entre os dois momentos é evidente, e a causa da novidade está dada pela fração do pão; uma vez que o reconhecem e creem, já não precisam "vê-lo". Jesus desaparece.
O relato conclui com a interpretação que os próprios peregrinos dão do fato: "o coração ardia" quando lhes explicava as Escrituras. Com a explicação de Jesus, como o fogo ilumina, "arde" o coração, a sede da inteligência, e então podem compreender o que os olhos vazios não conseguiam descobrir.
"Naquela hora" esquecem que é noite, a insegurança, e saem a contar aos Onze e aos (¿e às?) que estavam com eles o ocorrido — são 10 quilômetros de volta, evidentemente. Mas ao chegar se encontram com que os Onze lhes afirmam que "o Senhor apareceu a Simão", algo de que Lucas não fala narrativamente, embora o saibamos por Paulo (1Cor 15,5). Os peregrinos, por sua vez, contam "como o reconheceram ao partir o pão". O verbo "conhecer" (ginôskô) e seus derivados desempenha um papel importante no relato: os peregrinos não o "conhecem", Jesus parece não "conhecer" o que ocorreu em Jerusalém, eles o "re-conhecem" ao partir o pão e então anunciam esse "conhecimento" aos Onze e seus companheiros.
Uma breve nota sobre "o outro peregrino". O texto não diz nada sobre o companheiro de Cleofás, e os termos utilizados se encontram no plural masculino. Mas sendo habitualmente frequente na gramática que o plural masculino esconde (invisibiliza) as mulheres presentes quando há ao menos um homem no grupo, é lícito perguntar-se se o peregrino restante não seria uma mulher. A tradução em alguns textos diz "diziam um ao outro" (v.32), mas na realidade o texto não está no masculino, e sim diz "e disseram mutuamente" (allêlous). Sendo que ambos vivem na mesma casa, não é improvável que o peregrino inominado seja na realidade a mulher de Cleofás. De fato, em Jo 19,25 é mencionada ao pé da cruz "Maria de (esposa de) Clopás", que é o mesmo nome. Não é improvável que no grupo de seguidores de Jesus o casal Cl(e)opás e Maria fossem discípulos de Jesus e partilhassem com ele — entre outros — seus últimos momentos.
De fato, Lucas, ainda que dê um lugar destacado às mulheres em seu Evangelho, também evita que apareçam em lugares de importância. Sem dúvida, quando Lucas escreve seu Evangelho o movimento de Jesus já começa a se estruturar e organizar, e neste momento as mulheres começam a ser relegadas a um segundo plano — algo que continuará na história da Igreja nos séculos seguintes, aprofundando essa situação.
Leia mais
- Caminho de Emaús: conversação que transforma. Comentário de Adroaldo Palaoro
- O Ressuscitado: uma análise teológica dos Evangelhos
- O Ressuscitado está no meio de nós. Comentário de Ana María Casarotti
- As mulheres no cristianismo primitivo. Autoridade missionária e ação profética. Artigo de Christine Schenk
- Mulheres discípulas, profetisas e diáconas do Novo Testamento. Vozes e presenças que desafiam a Igreja hoje
- Lucas. Um comentário. Artigo de Roberto Mela