"O Papa Leão se encontrará com Trump para pôr fim a essa guerra". Entrevista com Raymond Leão Burke

Foto: FoToArtist/Canva

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

21 Agosto 2025

"O resultado do encontro entre Trump e Putin foi positivo. Chegar-se-á a um diálogo entre Leão XIV e Trump: conversarão para alcançar a paz", afirma o cardeal estadunidense Raymond Leão Burke, figura de referência no Vaticano da frente conservadora global, signatário dos "dubia" sobre a comunhão dos divorciado e recasado, autorizada por Francisco, da liderança tanto da Igreja dos EUA (St. Louis) quanto da Cúria (Assinatura Apostólica). No último conclave, Trump o queria como papa por ser um "grande defensor dos valores tradicionais da Igreja".

A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publicada por La Stampa, 18-08-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Esperava algo mais da cúpula do Alasca?

Mais do que a propaganda midiática, o que importa são os fatos, as dinâmicas profundas postas em movimento. Os frutos do encontro se revelarão positivos; veremos nos próximos dias. O Alasca é um lugar simbólico, uma ponte natural entre o leste e o oeste. Rezei muito pelo sucesso das negociações de Anchorage. Elas trarão efeitos positivos para a paz, ao pôr fim à horrível guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

O que ficará do encontro?

Seu significado é o retorno do espírito de diálogo entre Ocidente e Oriente, como nas cúpulas EUA-URSS durante a Guerra Fria. Encontrar-se já é um resultado. Estamos mais uma vez embarcando no caminho do confronto Washington-Moscou. Isso é algo positivo, e acredito que Trump e Putin continuarão a dialogar. Sempre fui guiado pelo profundo desejo de João Paulo II de visitar a Rússia e ter uma ligação direta com o Leste. Hoje, mais do que nunca, seu empenho em forjar laços com as comunidades orientais é um modelo. E agora é Leão XIV quem está renovando o diálogo oeste-leste que nos levará à paz.

Qual a importância dos católicos no governo dos EUA?

A presença de católicos como J.D. Vance, Marco Rubio e outros é muito importante. Os Estados Unidos sempre foram predominantemente protestantes. Sempre houve um preconceito contra católicos, especialmente em cargos governamentais. Hoje, esse preconceito foi em grande parte superado. O mais importante é que esses católicos sejam fiéis aos ensinamentos morais da Igreja. Se isso continuar, trará grande ajuda em todo o mundo para uma boa política em benefício dos povos e das nações. Minha impressão sobre isso é positiva.

Leão XIV oferece o Vaticano como lugar de mediação.

Encontrar-se já é um passo positivo. Uma trajetória começou no Alasca, e a bem fundamentada esperança é que o diálogo continue até que os chefes de Estado encontrem caminhos de reconciliação. Construir pontes é sempre possível, como demonstra também a figura de Kateri Tekakwitha, a primeira santa nativa estadunidense. As sementes da preparação evangélica as encontramos em civilizações que não conheciam o cristianismo. Um sinal de que em cada um existe uma alma imortal que pode ser orientada à busca da verdade plena na Igreja. Na atual época de relativismo ético, é preciso recomeçar precisamente a partir de valores não negociáveis: casamento, família, liberdade religiosa.

Concluíram-se os primeiros 100 dias de pontificado. O senhor esperava um Papa do seu país?

Não, foi uma surpresa para mim também. Pensei que, depois de três papas não italianos, um papa italiano pudesse retornar. Ou a novidade de um papa africano ou asiático. Leão XIV é estadunidense porque nasceu e cresceu em Chicago, mas é membro de uma ordem presente em todo o mundo, os agostinianos. E ele foi seu Padre Geral, portanto, tem experiência da Igreja universal e se identifica com ela. Por trinta anos, foi missionário no Peru e bispo muito querido da diocese de Chiclayo. Prestou longo serviço na América Latina e é bem conhecido entre os bispos latino-americanos. Em certo sentido, ele é um deles. Sua figura é autenticamente internacional, global mais que estadunidense.

Que tipo de Igreja é a estadunidense?

Uma Igreja vibrante, com sinais de esperança e muitos desafios. Há uma ampla busca pelo sagrado, especialmente entre os jovens. Muitos estão redescobrindo os sacramentos e a sã doutrina sobre a fé e a moral em uma sociedade altamente secularizada. Muitos núcleos numerosos como resultado da redescoberta do sentido de família. Esses são sinais encorajadores, mas também desafios a serem enfrentados com a sã doutrina e a ajuda concreta. Há o flagelo do divórcio. Um milhão de abortos por ano. A venenosa teoria de gênero que destrói a família. A questão da eutanásia e do fim da vida, com movimentos nos EUA, como na Itália e na UE promovendo um ataque à vida, que é considerada não mais produtiva e até mesmo rotulada como motivo de consumo injustificado de recursos. Uma visão completamente mundana, desprovida de respeito pela imortalidade da alma e pela dignidade humana, que não pode trazer a bênção de Deus sobre uma nação.

E as demandas à política?

Encontrei-me com o Presidente Trump, mas não tenho contato frequente com ele. Acompanho os assuntos políticos sob a perspectiva da fé, sempre lembrando a lei divina que deve ser respeitada. A lei natural é destacada por Leão e é aquela ensinada nas Escrituras e na tradição da Igreja. Devemos insistir com os líderes nesses pontos. Não somos políticos; não sou republicano nem democrata. Mas, como todos os políticos, tenho a obrigação e o direito de destacar a lei natural e divina e proclamar o Evangelho.

A Casa Branca também pode desempenhar um papel no conflito israelense-palestino?

Sim. Os Estados Unidos podem desempenhar um papel geopolítico na pacificação de Gaza: suas relações com Israel são muito fortes. O governo estadunidense demonstrará a nobreza de seu espírito insistindo com Israel para persuadi-lo e pôr fim ao massacre. Os problemas na Terra Santa são antigos, remontando ao Antigo Testamento. Com o tempo, a sensação de não poder superar essas visões opostas cresce, mas isso deve ser feito para o bem de todos. O trabalho realizado na Faixa de Gaza pelo Cardeal Pierbattista Pizzaballa é inestimável, testemunhando a fé de forma concreta, mostrando aos sujeitos envolvidos as possíveis soluções oferecidas pela fé. É inaceitável que cada geração reviva as mesmas hostilidades com ataques terríveis a civis e sofrimentos atrozes de famílias e crianças. O que está acontecendo em Gaza é inadmissível. O Papa disse não à remoção forçada de um povo de sua terra e às punições coletivas. A presença cada vez mais reduzida de cristãos na Terra Santa deveria nos angustiar como cristãos. Eles são forçados a deixar sua terra natal: é injusto e doloroso.

Leão eleito pela paz?

Eleger o sucessor de Pedro é uma grande responsabilidade, e conhecermo-nos entre nós cardeais torna a escolha mais fácil. Leão XIV nos disse que continuaremos a nos reunir frequentemente para compartilhar e discutir animadamente as questões mais importantes para a Igreja. É essencial que os cardeais falem a verdade de forma construtiva e com grande respeito pela figura do sucessor de Pedro. O pontificado de Leão XIV se distingue por seu cristocentrismo; ele sempre fala do Senhor e de sua Igreja. É importante que a Igreja não seja reduzida a uma ONG. Leão está tomando tempo para a nomeação de pessoas em condições de auxiliá-lo em suas principais responsabilidades. O ofício de papa é impossível para quem não tiver os colaboradores adequados. A própria escolha do nome, que se reporta a Leão Magno e Leão XIII, deixa claro seu desejo de ser um autêntico "padre dos padres", um verdadeiro pastor da Igreja universal. Devemos rezar por ele e ajudá-lo, cada um em nossa função.

O senhor foi especialmente próximo de Bento XVI. Que lembranças guarda dele?

Tenho muitas lembranças, como a de uma conversa durante o último Sínodo dos Bispos, presidido por ele. Um homem de imenso conhecimento teológico e da mais refinada gentileza. Mas, mais do que um encontro em particular, o que impressionava era seu caráter, oposto àquele retratado pela grande mídia, que o descrevia como uma figura distante, dura, desprovida empatia pelos sofredores. Ele foi um grande Papa.

Leia mais