O Sínodo em um mundo pós-moderno. Artigo de Vinicio Albanesi

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28 Setembro 2021

 

"O sujeito da missão da Igreja é o povo, com todas as variáveis que ele representa. Se não parecesse como uma heresia, somos chamados a nos tornarmos propositores de cultura, antes que de religião", escreve Vinicio Albanesi, professor do Instituto Teológico Marchigiano, presidente da Comunidade de Capodarco desde 1994 e fundador da agência jornalística Redattore Sociale e, junto com o Pe. Luigi Ciotti, da Coordenação Nacional das Comunidades de Acolhida (CNCA) da Itália, em artigo publicado por Settimana News, 27-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

O discurso do Papa Francisco à diocese de Roma no sábado, 18 de setembro de 2021 (aqui) ajuda a abordar o coração da sinodalidade no mundo que já se tornou pós-moderno, no qual está imersa a vida das paróquias: daquelas fortes e organizadas das cidades, até às periféricas e rurais.

 

O sujeito consumidor

 

A reflexão torna-se obrigatória porque envolve a escuta de culturas que, no curto espaço de algumas décadas, mudaram profundamente.

O povo de que fala Francisco está transformado, pelo menos no mundo ocidental. Relendo a análise das mudanças nos últimos quarenta anos, é preciso tomar consciência de que a síntese cultural de nossas pessoas é diferente.

Ao ouvir análises pertinentes e embasadas cientificamente, o sujeito moderno é considerado e estruturado como simples consumidor.[1]

Foram desarticuladas as referências e as sínteses cristãs, marxistas e liberalistas da pessoa, para se traduzir em um consumismo cujo poder está nas mãos de poucos grandes grupos de intermediação que, por meio da publicidade, induzem à compra obsessiva de bens e mercadorias, sem outras referências. A própria publicidade, com os meios de comunicação, distorce a realidade, tornando-a simplesmente uma visão distante e irreal.

Os conceitos de pessoa, comunidade, dignidade desapareceram. Saltam à memória as palavras da Carta de Tiago recentemente lida na Missa dominical: “Vocês cobiçam coisas, e não as têm; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês vivem a lutar e a fazer guerras!" Uma análise datada de dois mil anos atrás!

Sem entrar nos detalhes de complexos estudos sociológicos, é comum a experiência de registrar as dificuldades que a proposta religiosa encontra em nossas paróquias para sugerir a escuta e o diálogo.

O Papa está convencido disso: “Se a paróquia é a casa de todos no bairro, não um clube exclusivo, recomendo: deixem as portas e as janelas abertas, não se limitem a levar em consideração apenas aqueles que frequentam ou pensam como vocês - serão 3, 4 ou 5%, não mais. Permitam que todos entrem ... Permitam-se ir ao encontro e se deixar questionar, que suas perguntas sejam as de vocês, permitam caminhar juntos: o Espírito lhes guiará, confiem no Espírito. Não tenham medo de entrar no diálogo e se deixem provocar pelo diálogo: é o diálogo da salvação”.

Disso deriva a proposta de uma entrega ao Espírito para que traga de volta a sabedoria.

A questão do que fazer permanece intacta. Ter confiança significa ser testemunhas de um Deus que doou à terra e à humanidade as ocasiões para a visão beatífica do reino de Deus.

 

Paramos em 50 anos atrás

 

A nossa organização eclesial está essencialmente parada nos anos 1950: a liturgia, a catequese, a caridade, a piedade popular permaneceram as mesmas. Diante das transformações, aprofundaram-se os temas da secularização, da nova evangelização, da redescoberta da catequese batismal: tentativas que se revelaram insuficientes na realidade que anulou antigas sínteses.

Não percebemos a velocidade das transformações e - para sermos sinceros - não foi entendida sua envergadura. Por duas razões: a primeira consistiu em não ter instrumentos de leitura, a segunda em permanecer fiéis ao que a liturgia, a moral, a teologia nos haviam sugerido no pós-guerra. O verdadeiro problema é uma nova visão do mundo que está enormemente distante dos comportamentos passados.

A distância entre a síntese religiosa e o mundo social tornou-se enorme.

Para além da obra do Espírito e da confiança em Deus, uma indicação da carta do Papa Francisco que pode ser lida nas suas palavras: “Antes de iniciar este caminho sinodal, o que vocês estão mais inclinados a fazer: a cuidar das cinzas da Igreja, isso é da sua associação, do seu grupo, ou a cuidar do fogo? Vocês estão mais inclinados a adorar as vossas coisas, que fecham - eu sou de Pedro, eu sou de Paulo, eu sou desta associação, vocês da outra, eu sou um padre, eu sou um bispo - ou vocês se sentem chamados a cuidar o fogo do Espírito?”.

A imagem do fogo e das cinzas pode ajudar a apontar o caminho. É preciso coragem para tomar uma série de decisões que pertencem às cinzas, mas que na realidade escondem o fogo.

A reforma da Cúria Romana, a agregação das dioceses, as igrejas abandonadas, a reorganização diocesana, os novos grupos eclesiais, as jovens e as antigas congregações religiosas, os escândalos, o uso das propriedades eclesiásticas são temas pertinentes ao Sínodo.

 

Os garotos e as jovens famílias

 

Certamente não são suficientes; distinguir o fogo das cinzas não é fácil. No entanto, é possível focar nas migalhas que o espírito humano esconde e não esquece. Provavelmente a obra do Espírito atua naquelas migalhas.

Daí o empenho de não ter medo das circunstâncias que mudaram, mas de permanecer firmes na substância da mensagem do Evangelho. Pastoralmente, significa permanecer na verdade da fé, não enfatizando exceções e contradições.

Especialmente em dois âmbitos de empenho que permanecem significativos: os garotos e as jovens famílias. Diante dos adolescentes, os pais e os adultos ficam sem respostas. Seus filhos encurtaram as etapas de seu crescimento; se tornaram agressivos, mas também frágeis e facilmente influenciáveis. Eles são em sua maioria "nativos digitais". Circulam pelo mundo da rede e tendem a seguir mitos e tendências.

Nossos centros atraem poucos sujeitos: é preciso ir em busca dos garotos, superar sua desconfiança, entender suas linguagens e atitudes. Mostram a quem age assim, que ele têm coração, generosidade e sobretudo apreço por quem cuida deles.

 

Uma cultura antes mesmo de uma religião

 

As jovens famílias interpretam subjetivamente leis, indicações, emoções, afetos. Precisam ser acompanhadas, sugerindo responsabilidades. Sentem o seu empenho, mesmo que ainda não tenham decidido o que fazer de sua vida. Elas se prendem entre o arrependimento da juventude e a maturidade ainda não alcançada. É útil acompanhá-las, apoiá-las, tornar-se sensíveis às suas solidões.

O caminho da catequese está nos grandes temas que os jovens e os adultos percebem: trabalho, meio ambiente, ecologia, afetos, responsabilidades, mundo.

Diante do cataclismo das mudanças, uma tentação é de recolher-se em grupos selecionados, pequenos e fiéis, esquecendo "as gentes" que estão distantes.

O sujeito da missão da Igreja é o povo, com todas as variáveis que ele representa. Se não parecesse como uma heresia, somos chamados a nos tornarmos propositores de cultura, antes que de religião.

Nossa fé cristã nos ajuda a oferecer uma visão ensolarada do mundo e de suas criaturas: respeito, universalidade, perdão, fraternidade são valores que valem mais ainda no clima das aparências, da beleza, das riquezas. Não pelo empenho religioso, mas pela história das criaturas. Mesmo quem é rico, poderoso e visível, têm seus medos que, coincidentemente, se revelam ancestrais: tornar-se pobre, ter medo da morte.

O Deus cristão, revelado por Jesus Cristo, será assim procurado, encontrado, amado. É um grave erro persistir em representar a "verdade" de Jesus Cristo, sugerindo adesão. É necessário, primeiro, compartilhar as condições de cada criatura, para que a criatura se disponha a buscar respostas finais que a fragilidade das coisas terrenas não oferece.

Não se trata de moralismo, mas de um autêntico percurso catequético que parte da condição humana para encontrar em Deus a resposta sólida e pacificadora. A exigência de imortalidade que somente o Criador pode sugerir se aplacará, dissipando as ansiedades do futuro após a morte.

 

Nota:

[1] J. Baudrillard, A sociedade do consumo, Edições 70, 1995; Z. Bauman, Vidas desperdiçadas, Zahar, 200r; IDEM, Vida líquida, Zahar, 2007.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

 

De 04 de junho a 10 de dezembro de 2021, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza o XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição, que tem como objetivo debater transdisciplinarmente desafios e possibilidades para o cristianismo em meio às grandes transformações que caracterizam a sociedade e a cultura atual, no contexto da confluência de diversas crises de um mundo em transição.

 

XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição

 

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