Sínodo sobre a sinodalidade: “Não há alternativa real para a Igreja e o mundo de hoje”. Entrevista com Arnaud Join-Lambert

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21 Setembro 2021

 

Quais são os desafios deste sínodo sobre a sinodalidade? O que podemos esperar dele? Por que seria uma boa ideia se interessar por ele? Como cumprir os prazos? Enquanto a fase diocesana deve começar em um mês (com duração de seis meses. Na sequência, virá uma fase continental, de 2022 a 2023, e depois um sínodo universal romano, em outubro de 2023), Arnaud Join-Lambert, teólogo especializado em sinodalidade e professor na Universidade Católica de Louvaina, na Bélgica, nos responde... sem rodeios.

 

A entrevista é de Marie-Lucile Kubacki, publicada por La Vie, 14-09-2021. A tradução é de André Langer

 

Eis a entrevista.

 

Um dia, um padre me disse: “Os sínodos não despertam muito interesse, porque basicamente nada de muito novo sai deles”. Você sente que isso está mudando?

Essa é uma excelente pergunta! Este sínodo romano é especial porque seu propósito não é produzir documentos. Isso está escrito em preto e branco nas várias instruções. Mas há um paradoxo, porque enquanto a intenção explícita do Papa não é mudar as coisas formalmente de um ponto de vista estrutural, o tema toca em grande parte as estruturas. É que a intenção do Papa é muito boa: seu propósito é demonstrar que não podemos mudar efetivamente as estruturas sem transformar o modo de viver e habitar nelas.

É por isso que a noção de “estilo” aparece com frequência nos documentos preparatórios. Trata-se de escutar uns aos outros e de dialogar sobre um assunto que diz respeito a toda a Igreja, esperando que esta mesma experiência suscite uma mudança de comportamento que dê lugar a uma mudança de estrutura. Na comissão de metodologia, vemos que esse é um problema real e muito difícil.

 

Em quê?

Nos dois sínodos romanos sobre a família, houve uma consulta universal, mas algumas perguntas eram fechadas. Aqui, as perguntas são abertas. A proposta feita às dioceses, como primeiro passo, é reler as experiências da sinodalidade, para traçar os limites e as forças.

A afirmação deste padre que você citou há pouco, e que também ecoa coisas que eu ouço, não é falsa: um certo número de sínodos diocesanos, de conselhos pastorais e mesmo presbiterais, deram a impressão de não necessariamente serem úteis, porque os membros talvez não tivessem entrado nesta mentalidade ou nesta espiritualidade de levar todos juntos toda a Igreja. Ao reler as práticas, talvez consigamos fazer isso emergir.

 

A sinodalidade, em suma, é reaprender a falar uns com os outros e a trabalhar juntos – inclusive e principalmente com aqueles que não concordam conosco!

Certamente. No entanto, questões muito específicas surgem de um ponto de vista estrutural. No documento preparatório aparecem três níveis de sinodalidade: a vida cotidiana, as estruturas e os acontecimentos, e não podemos basear tudo no estilo cotidiano e na maneira de viver entre cristãos.

Essas questões estruturais, aliás, já começam a aparecer, e continuarão surgindo, provavelmente mais durante a segunda fase, a fase continental, que é verdadeiramente nova. Talvez a experiência vivida durante a primeira fase e a releitura das práticas ou de não práticas sinodais que surgirem no final deste período permitam colocar questões estruturais a nível continental.

 

Gostaria de voltar a essa questão do “estilo”, muito presente nos documentos... Como isso é uma novidade?

O vocabulário é novo porque a noção na teologia e na pastoral é recente. No magistério, é ainda mais recente. Mas a imitação de Cristo é medieval e ela pode ser vista como a essência dessa questão do estilo! Assim, essa é uma novidade e, ao mesmo tempo, não é propriamente uma novidade. No mundo francófono, estamos mais acostumados a isso graças ao trabalho de Christoph Theobald e Gilles Routhier (ambos são membros da comissão teológica do sínodo romano) que o desenvolveram de forma convincente, mesmo que a noção ainda seja debatida entre os teólogos. Refere-se ao modo de ser e de fazer como reveladora da fé, em uma lógica da encarnação da fé, contra uma lógica de fé mais teórica ou abstrata.

 

Durante a fase diocesana, as Igrejas locais são convidadas a consultar todos os batizados, mas também a ir às periferias e às pessoas que não estão habituadas a participar das estruturas e dos debates da Igreja... em 6 meses. Não é um prazo um pouco curto?

Na verdade, é m prazo muito exíguo. Alguns reclamam, com razão, com o risco adicional de que, para outros, isso se torne uma desculpa para não abordar o assunto. Em algumas dioceses [da França], a equipe sinodal já foi nomeada em junho. Outras, ainda, já fizeram um trabalho de releitura, como a diocese de Clermont, que sai de dois anos de reflexão sobre a sinodalidade, vinte anos após a celebração do seu último sínodo diocesano.

Nem todos se encontram no mesmo ponto e a dificuldade é que esse atraso não permite que quem não tem experiência de sinodalidade a implante no tempo previsto. Mas é preciso entender que o contexto francês, ainda que desigual, é um dos mais promissores: quase 2 milhões de franceses participaram direta ou indiretamente de um sínodo diocesano desde 1983, o que é muita gente. Sem falar das equipes e conselhos paroquiais.

Na França, portanto, parece-me possível fazer as releituras em seis meses, mesmo que o desafio, dentro desse período, seja ser prospectivo e propositivo. Existem países onde pode ser mais difícil. De qualquer forma, a intenção maior é ir e encontrar o que aí existe, e fazer germinar e para poder seguir em frente, porque não existe alternativa real para a Igreja e o mundo de hoje.


Por que é importante procurar pessoas que normalmente não participam da reflexão?

A peculiaridade da sinodalidade na Igreja em relação a outras formas laicas de considerar a governança, seja em ambientes políticos, econômicos ou associativos, é que ela não está situada em uma lógica onde é tendência obter a maioria para fazer triunfar suas ideias. O desafio é dar lugar à voz pequena, à voz marginal, porque a história da Igreja e da Bíblia ensina que ela pode ser profética, e que não é necessariamente a massa que tem razão.

Os batizados afastados da Igreja, em situações marginais, frágeis e vulneráveis, obviamente não podem ser todos consultados. E é claro que não se pede para reiniciar o processo Diaconia (em Lourdes em 2013), mas que é importante poder fazer contatos entre si. O documento preparatório retoma uma citação da regra de São Bento, da qual o Papa gosta muito, que acredita que a sabedoria pode vir do último a chegar. Talvez seja esta uma oportunidade para relançar contatos que se apagaram um pouco ou para dinamizar as equipes que participaram do processo para fazer uma avaliação. Pode ser bastante produtivo e dinâmico.

 

De que forma este sínodo poderia concretamente transformar, converter, a Igreja, a instituição, em termos de eclesiologia e de governo, mas também as pessoas e os modos de fazer as coisas?

Em primeiro lugar, no modo de viver em Igreja, trata-se de entrar em sintonia com este estilo e com esta natureza sinodal da Igreja, que é o desdobramento das decisões e das intuições do Vaticano II: todo batizado e confirmado tem algo a dar, mesmo que ele não suspeite, porque o batismo, além do perdão dos pecados e da promessa de salvação, supõe também o dom dos carismas pelo Espírito Santo.

Portanto, o sentido da Igreja para o mundo hoje é que todos os batizados possam desenvolver esses dons e carismas ali onde estão, e para a Igreja. Em termos de governo, estamos no “todos quais, mas alguns” têm ministérios, funções e responsabilidades específicas. Logicamente, penso, determinadas decisões concretas deveriam reformar alguns artigos do direito canônico sobre questões de governo na Igreja.

 

Como?

Os teólogos que trabalham neste assunto fizeram muitas hipóteses. Isso pode afetar a própria organização do sínodo romano. Mas falta fazer isso, e a hora da Igreja Católica não é a hora do mundo, por isso prefiro ser prudente. Um exemplo, porém: um importante texto de acordo ecumênico entre católicos e anglicanos sobre o assunto (Walking Together on the Way: Learning to Be the Church – Local, Regional, Universal) foi publicado em 2018, sobre a questão dos poderes deliberativos dos leigos, homens ou mulheres, em instâncias eclesiais.

Também podemos pensar nos questionamentos sobre a relação no sínodo diocesano entre o bispo e a assembleia. A questão dos conselhos pastorais diocesanos ainda é muito interessante porque pouquíssimas dioceses descobriram como organizá-los de uma forma verdadeiramente satisfatória. Muitas não o têm ou já não o têm mais, porque não é obrigatório no Código do Direito Canônico, mas suscita dúvidas, porque não é porque não se consegue fazer que não se deveria fazer. A saída mais fácil geralmente é considerar que é melhor um sozinho decidir! Assim, o conselho diocesano busca a si mesmo há 50 anos, não necessariamente porque os bispos estão relutantes, mas porque não funciona.

 

Por quê?

Porque ainda não entramos em uma nova forma de compartilhar, discernir e decidir na Igreja. Isso também é verdade nas paróquias. Em alguns lugares, as experiências não foram satisfatórias, provavelmente porque a espiritualidade, a substância, não existia: tentavam-se coisas, mas sem esta conversão pastoral e missionária desejada pelo Papa Francisco.

Por falta de motivação dos batizados ou por terem passado pela experiência de não terem sido ouvidos várias vezes, preferiram envolver-se em outros lugares, mas não mais nas estruturas eclesiais – este segundo ponto é um fato muito bem documentado. A passividade pode ser a origem ou o resultado do fracasso ou das frustrações.

 

A questão do voto dos leigos – e, portanto, das mulheres – é cada vez mais premente. Pode ser aberta?

Sim, ela pode ser aberta. Um dos exemplos que acho interessantes é o do sínodo comum das dioceses alemãs em Würzburg nos anos 1970: eles conseguiram chegar a um acordo sobre uma maneira de agir que funcionou. A assembleia tinha feito um trabalho comum e os bispos alemães tomaram posição ao declarar que esse trabalho era deliberativo, mas com um poder de veto.

Imagine a situação em um sínodo diocesano. Isso significa que as decisões da assembleia são válidas, a menos que o bispo, exercendo seu discernimento episcopal, se oponha a elas. E outra coisa é deixar a assembleia trabalhar, organizar suas ideias e então decidir por conta própria. Parece-me que existem muito mais possibilidades do que se possa imaginar. Do ponto de vista teológico, trata-se de manter a especificidade dos ministérios ordenados da governança, repensando-os para o nosso tempo.

 

Podemos imaginar que a fase continental visa desenvolver conferências episcopais continentais mais estruturadas, como o Celam (Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe), tão cara ao Papa Francisco?

Penso que isso vai sobretudo fazer ressaltar a consciência de que as Igrejas regionais têm funcionamentos muito diversos no nível cultural: a África, o Oriente Médio e a Ásia, por exemplo, são muito diferentes da Europa, do ponto de vista dos sistemas sociais, da cultura patriarcal e eclesial...

Isso já havia surgido em questões muito específicas durante o Sínodo sobre a Família, onde havia abordagens culturais muito diferentes. E é provável que isso volte com mais força durante este sínodo. Talvez, nesse momento, a Igreja Católica descubra um pouco mais a relevância dos direitos particulares.

 

Alguns temem o fim da catolicidade... A explosão da Igreja!

A coisa mais difícil na Igreja Católica é articular os particularismos culturais e espirituais e as especificidades em termos de estilo, e o universal. O Concílio Plenário da Austrália está fazendo essas perguntas precisamente agora, e eles realizaram uma grande consulta sobre o tema. E muitas vezes surge a pergunta: é possível fazer coisas na Austrália que não seriam possíveis em outro lugar?

A questão do universal e do particular surge particularmente sob este pontificado. Esta é uma das maiores tensões que surgiram durante o Sínodo sobre a Amazônia: podemos fazer algo específico para a Amazônia – e, portanto, que não seja universalmente válido? A Igreja ainda não percorreu este caminho. Este ponto diz respeito ao governo. Que autonomia é possível para as dioceses?  E para as conferências episcopais ou continentais? Este é um debate teológico bastante antigo.

Joseph Ratzinger pronunciou-se há muito tempo sobre este assunto dizendo que não haveria uma natureza propriamente teológica das conferências episcopais; mas a questão permanece muito discutida pelos eclesiólogos. O Papa Francisco deixou transparecer várias vezes que elas constituem um verdadeiro magistério. Esta questão, sem dúvida, aparecerá mais durante a fase continental. São questões macro, diferentes daquelas que acontecem nas paróquias. A sinodalidade micro também apresenta grandes desafios, mas são diferentes daqueles da sinodalidade macro.

 

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