O risco de extinção da espécie nos obriga a repensar o papel do ser humano na criação. Entrevista especial com Alexandre Martins e Felipe Mello

Na entrevista a seguir, os pesquisadores refletem sobre os limites da inteligência e da ação humana no mundo no contexto de pandemia e crises ecológicas e sociais

Foto: Reprodução | Greelane

Por: Patricia Fachin | 18 Janeiro 2022

 

O atual momento histórico, marcado pela emergência e sobreposição de múltiplas crises, leva os pesquisadores mais pessimistas a prenunciar o fim da espécie humana, especialmente por conta da crise da biodiversidade e do novo regime climático e seus efeitos. De acordo com o biólogo Felipe Mello, algumas hipóteses sobre o futuro da vida na Terra indicam que o planeta "possui nove fronteiras planetárias que, se cruzadas, podem ocasionar mudanças sem retorno e poderiam colocar em risco a existência da espécie humana".

 

A perda de biodiversidade, exemplifica, é uma delas. A pandemia de Covid-19 e as várias mutações virais, outra. "A hipótese mais aceita da origem da Covid-19 é a de que o vírus pulou de um animal silvestre para a espécie humana, o que pode estar relacionado com a perda de biodiversidade e um maior contato de humanos com animais, carregando novos vírus", relata. A emergência do novo regime climático, destaca, também é vista como uma das fronteiras planetárias, inclusive, como a que mais tem recebido atenção. "Na minha percepção, atualmente existe uma mobilização global muito maior em relação a buscar soluções para as mudanças climáticas do que buscar soluções para a crise da biodiversidade. Isso se deve, de novo, à nossa confiança de que podemos resolver nossos problemas através de tecnologias – e as mudanças climáticas oferecem muito mais oportunidades para desenvolvimento de tecnologias do que a crise da biodiversidade", adverte, na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

 

O pessimismo não brota somente entre os pesquisadores das diferentes ciências, mas se instaura também entre os teólogos e pesquisadores das religiões. "Honestamente, estou meio pessimista em relação ao nosso futuro como espécie. (...) Diria que estou passando por um processo de libertação, isto é, de não acreditar que seria possível o fim da nossa espécie, por sermos uma criação de Deus para cuidar de toda a criação, para encarar um possível fim da espécie humana como algo natural, dentro da própria liberdade da criação e suas transformações", confessou o teólogo Alexandre Martins na entrevista a seguir, também concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

 

Segundo ele, o atual cenário "nos obriga repensar o papel do ser humano na criação". É nesta direção que ele tem refletido com o objetivo de encontrar, na própria teologia cristã, respostas para enfrentar os desafios de hoje. "A teologia cristã, particularmente a desenvolvida pela tradição católica, na qual me identifico como teólogo católico, oferece uma fonte riquíssima para refletirmos sobre o momento que vivemos e reimaginarmos uma nova maneira de nos relacionar com tudo que não é humano nesse planeta que vivemos e entre nós, humanos, organizados em sociedades", afirma. Contudo, pondera, nesse processo é preciso "repensar a própria teologia" "para avançarmos de uma teologia centrada no ser humano e sua relação com o transcendente (Deus, como o chamamos na nossa tradição) para uma centrada na relação do transcendente com a criação, da qual o ser humano é uma parte de uma única natureza, na qual não somos mais ou menos importantes que tudo o mais existente na criação".

 

Na avaliação dele, a pandemia de Covid-19 exemplifica a "arrogância humana" e "o dilema que afronta a capacidade humana de agir racionalmente". Se, por um lado, sublinha, "a inteligência humana, por meio da ciência, criou vacinas, e nesse caso temos que reconhecer quão maravilhosa a ciência é, pois nunca se tinha criado uma vacina eficaz em tão pouco tempo, por outro lado, a ganância humana, materializada em pessoas com poder econômico e corporações, e a indiferença, que impede de reconhecer a necessidade do outro na sua pobreza e necessidade, fazem com que o bem desenvolvido pela ciência não seja acessível a todos, particularmente aos pobres que vivem em nações empobrecidas, sem capacidade de competir no mercado global para comprar vacinas".

 

Hoje, às 17h30min, os pesquisadores ministrarão a palestra virtual intitulada "Patógenos e a arrogância humana. O que a pandemia revela sobre nós", que será transmitida na página eletrônica do IHU, nas redes sociais e no Canal do IHU no YouTube. Na entrevista a seguir, eles refletem sobre as questões que serão abordadas no evento e também comentam o documento "Salvar a fraternidade – juntos. Um apelo".

 


Alexandre Martins (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Alexandre Martins é graduado em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção, graduado em Teologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo e pela Pontificia Studiorum Universitas Salesiana de Roma, mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade de São Paulo - PUC-SP e doutor em Bioética e Ética Teológica pela Marquette University, em Wisconsin, EUA, onde leciona ética e bioética.

 


Felipe Mello (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Felipe Mello é graduado em Ciências Biológicas e mestre em Recursos Florestais pela Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiróz", da Universidade de São Paulo - USP. Atualmente, está no último ano de doutorado no Programa de Ecologia da Universidade Marquette, nos Estados Unidos, e realiza trabalhos junto ao Instituto Smithsonian, no Panamá.

 

Confira a entrevista.

 

IHU - Como o senhor tem refletido sobre o momento que estamos vivendo à luz da teologia cristã?

 

Alexandre Martins - O momento atual tem apresentado desafios que nos obrigam a repensar o papel do ser humano na criação. A teologia cristã, particularmente a desenvolvida pela tradição católica, na qual me identifico como teólogo católico, oferece uma fonte riquíssima para refletirmos sobre o momento que vivemos e reimaginarmos uma nova maneira de nos relacionar com tudo que não é humano nesse planeta que vivemos e entre nós, humanos, organizados em sociedades. Contudo, para essa fonte ser explorada devidamente, precisamos iniciar com o próprio repensar da teologia, para avançarmos de uma teologia centrada no ser humano e sua relação com o transcendente (Deus, como o chamamos na nossa tradição) para uma centrada na relação do transcendente com a criação, da qual o ser humano é uma parte de uma única natureza, na qual não somos mais ou menos importantes que tudo o mais existente na criação. A natureza não está fora de nós, como algo que podemos explorar para nos servir. A natureza é tudo que existe no nosso planeta. Somos também parte da natureza e, como tudo mais nela, outras espécies e elementos naturais, temos uma função para manter o seu equilíbrio.

 

Ação humana

 

A questão é que nossa ação, nos colocando fora e acima da natureza, quebrou esse equilíbrio e depende de nós mudar de rota para conseguirmos restaurar o que ainda é possível para um equilíbrio que permita nossa convivência com outras espécies e elementos naturais desse planeta, de modo a não destruirmos tudo. A tradição teológica católica oferece recursos para essa transformação na perspectiva de como nos relacionamos com tudo que não é humano e entre nós mesmos. Há uma passagem da Carta de São Paulo aos Filipenses afirmando que Jesus, “existindo em forma divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano” (Fl 2, 6). Vemos a grandeza de Deus no mistério da encarnação, que se rebaixa ao nível da criação, tornando-se vulnerável. Aqui temos um ensino da humildade que nos torna vulnerável para resgatar algo que foi perdido. Penso que é a partir dessa postura cristológica que devemos nos colocar no mundo para recriar nosso papel na natureza. Porém, não creio que a teologia cristã possa fazer isso sozinha. Ela precisa dialogar com outras teologias e visões de mundo, como as dos povos originais das Américas, em um processo de aprendizado e colaboração, algo que o Papa Francisco tem se esforçado para promover.

 

 

IHU - Como o senhor tem refletido sobre o momento que estamos vivendo à luz dos seus estudos científicos, especialmente a partir de suas pesquisas na área da biologia, da ecologia e do estudo sobre comunidades florestais tropicais, sobre resiliência de sistemas socioecológicos e restauração florestal?

 

Felipe Mello - Eu tenho refletido sobre o momento que vivemos sob uma perspectiva das fronteiras planetárias proposta por pesquisadores liderados por Johan Rockström e Will Steffen (Rockström et al) [1]. Esses pesquisadores, ligados ao pensamento de resiliência, propõem que a terra possui nove fronteiras planetárias que, se cruzadas, podem ocasionar mudanças sem retorno no nosso planeta que poderiam colocar em risco a existência da espécie humana. A perda de biodiversidade constitui uma das nove fronteiras planetárias de Rockström e, nessa fronteira, já estamos bem perto de um ponto de inflexão.

Ponto de inflexão é um termo usado no pensamento de resiliência para indicar um nível de perturbação a um sistema que ultrapassa a capacidade daquele sistema de recuperar sua forma original, o que o levaria a uma nova configuração alternativa de funcionamento. No caso da perda de biodiversidade, poderíamos já estar cruzando pontos de inflexão que estariam ligados com o desencadeamento de cenários inesperados como o que estamos vivendo atualmente com a pandemia de Covid-19.

 

Pandemia de Covid-19

 

A hipótese mais aceita da origem da Covid-19 é a de que o vírus pulou de um animal silvestre para a espécie humana, o que pode estar relacionado à perda de biodiversidade e a um maior contato de humanos com animais, que estão carregando novos vírus. Há muito tempo que morcegos são conhecidos como hospedeiros de diferentes tipos de vírus, inclusive coronavírus. Diferentes espécies de morcegos convivem com diferentes espécies de vírus sem serem afetados por doenças. Uma perda de espécies de morcegos poderia acarretar uma maior prevalência de vírus em espécies comuns, que se proliferam para ocupar o espaço deixado pelas espécies extintas. Um maior contato de humanos com espécies comuns de morcego carregando potenciais novos vírus poderia ocasionar um cenário de zoonose, como o observado atualmente. Essa é uma breve tentativa de explicar como a perda de biodiversidade, que constitui uma das fronteiras planetárias de Rockström, poderia estar ligada com a mudança, que muitas vezes se sente sem retorno, que estamos passando nestes tempos de pandemia.

Outra fronteira planetária da qual também estamos presenciando evidências de pontos de inflexão são as mudanças climáticas, que têm tornado catástrofes naturais cada vez mais imprevisíveis. Eu acredito que o trabalho de Rockström fornece um ponto de partida para uma análise de resiliência global que pode ser adaptada para realidades locais e que fornece uma base para quantificação e avaliação científica constante. A ciência vai ter que, cada vez mais, trabalhar de maneira adaptativa com as imprevisibilidades que podem surgir devido às fronteiras planetárias que estamos cruzando, assim como vimos com a agilidade na produção de vacinas para uma nova pandemia.

 

 

 

IHU - Em artigo recente, intitulado “Ômicron, natureza e arrogância humana: uma guerra entre patógenos e humanos”, o senhor disse que se continuarmos "presos à arrogância de nos vermos fora da natureza ou superiores a ela, o futuro estará entre duas tragédias: a destruição total da natureza e, consequentemente, a nossa, ou o fim da nossa espécie". Como define "natureza" e explica a relação do ser humano com a natureza?

 

Alexandre Martins - Minha definição de natureza é muito simples: tudo que existe no nosso planeta e no universo. Nós, humanos, somos parte da natureza e não algo fora dela ou superior a ela. Tenho aprendido dos povos originais da América do Sul que não há uma natureza separada de nós, a qual podemos explorar. A natureza é uma harmonia na qual todas as espécies, elementos naturais como rios, pedras e terra e os astros se relacionam em equilíbrio para mantê-la. Assim, o ser humano é tão responsável por essa harmonia como qualquer outro animal, os germes na terra, as árvores nas florestas e as estrelas no céu.

Contudo, o modelo de desenvolvimento humano, centrado em um paradigma mecanicista de raízes Cartesianas e Baconiana, concebe a natureza como algo de que o ser humano não faz parte. Este precisa conhecer seus mecanismos para poder explorá-la o máximo possível para o progresso humano. Nessa visão, que domina o nosso modelo econômico, a natureza tem a forma de recursos a serem manipulados pelo ser humano para que sirva somente a uma espécie. Deturpamos o equilíbrio e quebramos a harmonia. As consequências disso são cada vez mais visíveis. Ou mudamos de rota, ou veremos o fim: que será de todo nosso planeta ou da nossa espécie, que desaparecerá como muitas outras já desapareceram, muitas como resultado da própria ação humana. O mais irônico é que um possível fim da nossa espécie parece ser um caminho para a restauração do equilíbrio da natureza. Somos parte dela, mas ela não depende da nossa existência para existir.

 

 

IHU - A partir da biologia, o que significa "natureza" e como se compreende a relação entre ser humano e natureza?

 

Felipe Mello - A natureza é o objeto de estudo da biologia. Mais especificamente, a natureza viva é o foco principal da biologia, porém ramificações da biologia também estudam as relações com a parte considerada “não viva” da natureza (abiótico). A relação entre ser humano e natureza é tratada de diferentes maneiras em diferentes áreas da biologia, porém todas elas tentam tratar essa relação de uma maneira racional e científica (estudando seguindo o método científico), o que muitas vezes descaracteriza a humanidade e espiritualidade da relação ser humano/natureza. Em outras palavras, o ser humano é, assim como outras partes da natureza, um objeto de estudo da biologia, e as respostas em relação a nossa biologia ou como ela é afetada pelo nosso meio devem ser obtidas de maneira científica e racional.

 

 

 

IHU - O que são "patógenos" e qual é a influência deles nos ecossistemas? Que relações há entre seres humanos e "patógenos"?

 

Felipe Mello - Patógenos são agentes infecciosos que podem desencadear algum tipo de enfermidade em um organismo. Geralmente patógenos são microrganismos como vírus, bactérias, fungos, dentre outros. Patógenos são considerados importantes no controle da densidade de populações em comunidades biológicas. Quando um patógeno encontra uma população de um organismo que está em alta densidade e consegue desenvolver uma infecção naquela população, isso significa que existe bastante “recurso” para o patógeno, que pode se proliferar devido à maior probabilidade de proximidade entre organismos em populações abundantes. Esse cenário pode desencadear ondas de contágio, como o que vimos acontecer com o coronavírus, em que o recurso do patógeno passou a ser o ser humano. Porém, essa relação de patógenos pode ser generalizada para qualquer população que possua um “inimigo natural”. Por exemplo, plantios monoespecíficos, como plantios de banana, são um banquete de recursos para patógenos da bananeira, e é por isso que se utilizam técnicas para tentar manter os cultivares livres de patógenos.

Em ecologia, essa relação com patógenos é considerada uma das hipóteses do porquê temos tantas espécies de plantas, por exemplo. Espécies mais competitivas, que potencialmente levariam todas as outras espécies menos competitivas à extinção, são controladas por doenças. Sempre que estas espécies atingem níveis muito altos de densidade, enfermidades desencadeadas por patógenos (e/ou esgotamento de recursos) podem surgir para controlar a densidade daquela população e oferecer recursos para que espécies menos competitivas coexistam na comunidade biológica.

A relação entre seres humanos e patógenos é provavelmente tão antiga quanto nossa própria existência. Todos os organismos estão em uma constante “luta de armas” com seus patógenos. Nós, seres humanos, temos desenvolvido cada vez mais, através da ciência, maneiras de lutar de volta quando algum patógeno aparece com alguma “nova arma”. Desenvolvemos antibióticos, antimicóticos e vacinas. Porém, os patógenos devolvem, com bactérias super-resistentes e novos vírus que podem se adaptar à nossa espécie. Temos, felizmente, desenvolvido tecnologia e vencido essa luta na maioria das vezes.

 

IHU – Por que, na sua visão, a espécie humana está perdendo a competição para as mutações virais? O que isso significa?

 

Alexandre Martins - Estamos perdendo a competição porque não estamos fazendo o que deveríamos para que vírus e outros patógenos não sofram mutações com a velocidade que presenciamos. Com a devastação ambiental e o fim de espécies que carregam certos patógenos para manter o equilíbrio da natureza, criamos um cenário de vulnerabilidade para o ser humano – especialmente as pessoas que vivem em áreas mais depredadas e sem infraestrutura social – se infectar com conhecidos patógenos, com variantes resultantes da própria ação humana, e com novos agentes infecciosos, como os responsáveis por doenças zoonóticas, que é o caso do coronavírus.

 

Mutações virais

 

A falta de uma ação ordenada no mundo, onde países e regiões mais pobres não têm o acesso devido às “armas” que criamos para combater doenças infecciosas, como as vacinas, também cria oportunidade para a mutação dos vírus. Constatamos isso com as mutações do Sars-Cov-2, o tipo de coronavírus causador da Covid-19, que surgiram em regiões com baixa vacinação ou pouca adesão a medidas de controle da difusão do vírus, especialmente antes das vacinas. Esse processo de mutações que ocorre com o coronavírus não é algo novo, mas, sim, a sua escala global e velocidade. Vemos processos semelhantes com o patógeno causador da tuberculose (TB), com o problema das variantes resistentes às drogas, isto é, aos antibióticos de primeira linha utilizados no tratamento da TB. Essas variantes multirresistentes surgem em grupos que não tiveram acesso ao tratamento de TB ou que receberam algum tratamento de forma incompleta ou inadequada. Vale lembrar que, antes da Covid-19, TB e HIV eram as doenças infeciosas que mais matavam no mundo. A ação humana de destruição da natureza e dos habitats naturais de patógenos e de muitas espécies animais, somada a respostas incompletas marcadas por injustiças socioeconômicas no acesso às vacinas e aos medicamentos, colocam os vírus e outros patógenos à frente nessa competição. Se não mudarmos nossa relação com a natureza como algo fora de nós e nosso sistema socioeconômico responsável pela desigualdade e injustiças cada vez maiores, vamos continuar perdendo.

 

IHU - Como a pandemia desafia a nossa inteligência e a "arrogância humana", conforme sublinhado no artigo?

 

Alexandre Martins - A pandemia nos desafia a reconhecer que há limites à nossa inteligência e, sobretudo, às nossas ações no mundo. O paradigma ocidental dominante que iniciou-se no renascimento concebe a natureza como um mecanismo que a nossa inteligência precisa destrinchar para entender tudo que nela existe e, dessa forma, dominá-la com a tecnologia que desenvolvemos com os recursos vindos da própria natureza. Isso criou, e de certa forma ainda sustenta, uma ideia de progresso infinito. Não há limites para o ser humano e sua capacidade de dominar a natureza. Paradoxalmente, a mesma inteligência que nos levou ao desenvolvimento experienciado hoje demorou décadas ou mesmo mais de um século para perceber que estamos, paralelamente ao progresso humano, destruindo a única fonte de recursos conhecida que temos: a Terra.

 

 

Crises e a cultura do descartável

 

A meu ver, a pandemia é um sintoma de uma crise maior (tese que defendo em um artigo publicado no periódico acadêmico Ephata, da Universidade Católica de Portugal), uma crise do nosso modelo de produção e de relação com o outro, um modelo sustentado pelos pilares da exploração, do individualismo, da indiferença, da competição, do consumismo e da “cultura do descartável”, termo acertadamente desenvolvido pelo Papa Francisco e que representa muito a nossa realidade. Dessa forma, a pandemia nos desafia a olhar para nós mesmos e reconhecer que somos natureza e, a partir daí, repensar nosso modelo de produção e relação com o outro – este, entendido como tudo que não sou eu: pessoas, espécies, a Terra e o Transcendente.

 

Felipe Mello - A pandemia de certa forma expõe nossa condição de participantes na teia de vida que nos cerca e que habita esse planeta conosco. Ela mostra, na minha opinião, que somos governados pelos mesmos princípios naturais que governam populações de outros organismos. Somos parte da natureza e temos que encontrar uma maneira de coexistir com ela e lidar com as crises, que vão aparecendo cada vez mais frequentemente, pela nossa falta de capacidade de nos enxergarmos como parte da natureza.

 

 

 

IHU - Como interpreta a declaração de Walter Glannon: “Vacinas podem enfraquecer a virulência e liminar a difusão infecciosa de alguns vírus. Mas a emergência de novas variantes – tais como a ômicron, a nova variante do coronavírus – dá aos vírus uma vantagem evolucionária... Não podemos assumir que os vírus sempre se desenvolvem para uma condição que podemos controlá-los. Seria muita arrogância nossa ter isso como pressuposto...”.

 

Felipe Mello - Walter Glannon se refere à confiança excessiva do ser humano na nossa capacidade de lidar com problemas através do uso de tecnologia. A declaração de Walter Glannon é pragmática e o nosso modelo ocidental de sociedade, que não aceita parar e se distanciar, favorece o cenário ideal para o vírus circular e evoluir em variantes que podem eventualmente se tornar mais difíceis de serem controladas.

 

IHU - As vacinas, apesar de não estarem disponíveis a toda a população mundial, não são um indício da ação da inteligência humana - ainda que limitada - no enfrentamento da Sars-Cov-2 e das mutações virais, assim como de outros vírus que já surgiram?

 

Alexandre Martins - Aqui temos um dilema que afronta a capacidade humana de agir racionalmente. Se, por um lado, a inteligência humana, por meio da ciência, criou vacinas, e nesse caso temos que reconhecer quão maravilhosa a ciência é, pois nunca se tinha criado uma vacina eficaz em tão pouco tempo, por outro lado, a ganância humana, materializada em pessoas com poder econômico e corporações, e a indiferença, que impede de reconhecer a necessidade do outro na sua pobreza e necessidade, fazem com que o bem desenvolvido pela ciência não seja acessível a todos, particularmente aos pobres que vivem em nações empobrecidas, sem capacidade de competir no mercado global para comprar vacinas. Não adianta termos vacinas e outros benefícios criados pelas ciências se, ao mesmo tempo, criamos injustiças e pobreza, sendo indiferentes à dor do outro, marginalizado por um grupo seleto e cada vez menor de privilegiados.

 

 

Felipe Mello - Vacinas são definitivamente uma das grandes demonstrações da nossa capacidade intelectual como espécie. Nós aprendemos a controlar os patógenos através das vacinas e avançamos muito na medicina e na capacidade de viver longas vidas. Porém, ainda temos que nos perceber como uma espécie em desequilíbrio, que tem tomado espaço de muitas outras espécies que não conseguem competir com nossa crescente necessidade por recursos, e precisamos encontrar uma forma de coexistir com a natureza de maneira que não coloquemos nossa existência em jogo. Essa será, na minha opinião, a maior demonstração da ação da inteligência humana.

 

 

 

IHU - A partir das suas pesquisas científicas, como soa para você a afirmação/compreensão de que os seres humanos são superiores à natureza?

 

Felipe Mello - Em minhas pesquisas científicas, eu trato a natureza como uma coisa separada dos seres humanos. Minha pesquisa é feita em pontos remotos de floresta tropical justamente para evitar qualquer interferência de fatores causados pelo homem. Do ponto de vista dos objetivos da minha pesquisa, dentro da racionalidade científica do campo, o fato de ser humano já é um fator limitante, porque eu sou enviesado pelas minhas experiências como espécie humana, então tenho que interpretar tudo da maneira mais racional possível dentro dos fenômenos estudados. Essa separação homem/natureza da ciência ocidental pode dar uma sensação de que seres humanos são superiores à natureza, porém, principalmente devido à característica da minha pesquisa, eu pessoalmente tenho um lado espiritual no qual me vejo como parte da natureza, tão afortunado quanto qualquer outra espécie que habita esse planeta comigo neste momento.

 

 

IHU - Como o senhor tem refletido sobre o dilema existencial da sobrevivência da espécie humana, colocada em risco pela emergência climática?

 

Alexandre Martins - Reflito isso como possível e, honestamente, estou meio pessimista em relação ao nosso futuro como espécie. Como diz Ailton Krenak, parece que o máximo que podemos fazer é apenas adiar esse fim, mas chegamos a um ponto em que não temos como evitá-lo. Diria que estou passando por um processo de libertação, isto é, de não acreditar que seria possível o fim da nossa espécie, por sermos uma criação de Deus para cuidar de toda a criação, para encarar um possível fim da espécie humana como algo natural, dentro da própria liberdade da criação e suas transformações. Como humanidade, fizemos escolhas que romperam com o equilíbrio da natureza. Teologicamente falando, não estamos cumprindo com o dever de cuidar da criação. Assim, me parece natural um fim da nossa espécie, como já ocorreu com outras tantas, se não mudarmos a nossa rota. Apesar desse pessimismo, tenho esperança, algo que vem de uma força transcendente que me faz mover em uma direção centrada no cuidado, mesmo em um contexto adverso.

 

IHU - O que significa pensar a existência humana como uma espécie entre outras na criação? Qual é o papel da espécie humana na criação em relação às demais?

 

Alexandre Martins - Significa reconhecermos que somos não maiores que as demais espécies da criação e, como todos os outros seres, temos um papel na criação que é determinado por aquilo que caracteriza cada espécie. Assim, como seres racionais, nosso papel passa por utilizar esse dom para promover a criação e seu equilíbrio natural.

 

 

Felipe Mello - Nós, humanos, nos diferenciamos das demais espécies por nossa capacidade de pensar nossa própria existência e de mudar nosso ambiente para atender nossas demandas por recursos. Pensar a existência humana como uma espécie entre outras é reconhecer que temos aumentado a população da nossa espécie em detrimento de recursos que não estão mais disponíveis para outras que eventualmente serão extintas. Perda de biodiversidade pode levar a consequências imprevisíveis, como um aumento na frequência de novas doenças causadas por patógenos antes estranhos ao homem. O papel da espécie humana em relação às demais tem que ser de conservação e restauração de biodiversidade. Como mencionado anteriormente, a perda de biodiversidade é uma das fronteiras planetárias que estamos perto de cruzar, e precisamos, como espécie racional, preservar o que nos resta e restaurar o que for possível da nossa biodiversidade.

 

IHU - No artigo, o senhor atribui à epistemologia ocidental o fato de ter criado as crises que vivemos hoje e, especialmente, a crítica pela difusão do antropocentrismo, mas também atribui à religião judaico-cristã uma parcela na disseminação dessa compreensão. De que modo a tradição judaico-cristã contribuiu para isso?

 

Alexandre Martins - O mundo ocidental e sua epistemologia têm sua origem no encontro entre Atenas e Jerusalém, isto é, entre a religião judaica e o helenismo grego. A síntese desse encontro é o cristianismo. Essa síntese colocou o ser humano no centro da criação, um ser criado por Deus com um papel diferenciado em relação a tudo o mais existente. Ao longo da história, esse papel foi compreendido a partir de uma perspectiva na qual o ser humano estava separado do restante da criação, sendo essa a natureza inferior que precisava ser dominada pela nossa espécie. Essa visão, sem dúvida, tem sua parcela de contribuição no processo que levou à crise que vivemos hoje. Por muitas vezes, essa cosmologia impediu de ver que o papel do ser humano na criação não é dominá-la, mas, sim, contribuir para o florescimento da obra de Deus em uma perspectiva de cuidado que mantém o equilíbrio da natureza, isto é, da criação onde todas as espécies dão glória a Deus ao seu modo de existir, mantendo o equilíbrio e a harmonia da existência de tudo criado.

 

 

IHU - Que contribuições o ser humano e o restante da criação podem dar no enfrentamento das mudanças climáticas? Não lhe parece que a responsabilidade no enfrentamento desse problema é propriamente humana no sentido de que depende das ações dos seres humanos? Ou os "patógenos" são mais importantes no enfrentamento dessa questão?

 

Alexandre Martins - Seguindo a linha teológica do meu raciocínio até agora, os patógenos nunca deixaram de dar a sua contribuição para manter o equilíbrio da criação, da natureza. Como Felipe disse antes, eles até ajudam a controlar o crescimento absurdo de uma super espécie dominante para que o equilíbrio se mantenha. Nós nos tornamos uma espécie dominante que está quebrando o equilíbrio da natureza. Gosto de pensar que os patógenos e outras espécies estão fazendo a sua parte como deveriam e, assim, glorificam o Criador. A ação do ser humano, como diz o Papa Francisco na Querida Amazônia, está impedindo milhares de espécies de dar glória a Deus e não temos esse direito (no. 54).

 

Conversão

 

Temos que nos converter, conceito tão utilizado no contexto religioso, mas que cabe muito bem aqui. Converter significa mudar de direção, seguir um novo caminho a partir de um encontro com algo verdadeiro que oferece um novo sentido à vida. O ser humano tem a responsabilidade e o dever de fazer algo para enfrentar a crise ecológica que inclui as mudanças climáticas e o modelo econômico de exploração do outro. A ciência pode nos ajudar a enfrentar esse desafio. Contudo, não haverá avanço se não nos convertermos, se a humanidade não assumir uma nova direção que nos coloque dentro da natureza.

 

 

Felipe Mello - Mudanças climáticas são também uma das fronteiras planetárias propostas no trabalho de Rockström e Steffen mencionado anteriormente. Na minha percepção, atualmente existe uma mobilização global muito maior em relação a buscar soluções para as mudanças climáticas do que buscar soluções para a crise da biodiversidade. Isso se deve, de novo, à nossa confiança de que podemos resolver nossos problemas através de tecnologias – e as mudanças climáticas oferecem muito mais oportunidades para desenvolvimento de tecnologias do que a crise da biodiversidade. Entretanto, elas também potencialmente podem desencadear ondas de patógenos, como observado em algumas infestações de pestes em lavouras durante anos com climas anormais.

 

IHU - No artigo, o senhor disse que "somos parte da criação como qualquer outra espécie e não uma espécie superior". Apesar de todos sermos parte da criação, não cabe ao ser humano a responsabilização maior pelos efeitos gerados à criação? Nesse sentido, por que ele não pode ser considerado uma espécie superior, inclusive, moralmente responsável pelos danos que causa às demais espécies?



Alexandre Martins - O que nos diferencia de outras espécies é a nossa consciência. Pensamos, escolhemos e agimos. Por isso, temos responsabilidade moral pelo que fazemos. Isso não nos torna superiores a outras espécies, porque cada uma delas existe e se desenvolve de acordo com aquilo que é próprio dela. Todas as espécies têm seus dons e seu papel na natureza. A consciência é o que é próprio do ser humano e deveríamos utilizá-la para manter o equilíbrio da natureza. Contudo, fizemos escolhas contrárias a isso, achando que nada de ruim aconteceria, pois não nos submeteríamos às leis da natureza. A nossa maior responsabilidade existe não porque somos superiores a outras espécies, mas porque temos utilizado o que é próprio da nossa espécie para destruir o equilíbrio do mundo natural, como se existíssemos fora dele, e não para contribuir para o florescimento e manutenção desse mundo.

 

IHU - No texto, o senhor também recorre à "humildade mística, que transcenda a mentalidade colonial ocidental, para acreditarmos que ainda é possível um horizonte de equilíbrio na natureza com a nossa existência". Essa humildade mística pode ser encontrada em qual ambiente? O que a tradição cristã, outras religiões e a ciência têm a nos oferecer nesse sentido?

 

Alexandre Martins - Entendo mística como uma experiência de transcendência, isto é, uma experiência de irmos para além da nossa própria realidade histórica, submetida ao tempo e ao espaço. A mística é uma experiência do instante, em que o transcender acontece e dá significado à existência ao retornar desse instante. Essa experiência não está restrita a nenhuma tradição religiosa, cultura ou qualquer outro limite. Ela acontece como um dom, uma graça dentro de um movimento de ascensão de pessoas que buscam se libertar de si mesmas para transcender. É uma liberdade imensurável que leva à humildade do menor e do mais insignificante possível. Ao mesmo tempo, leva a reconhecer a beleza da criação. Na história, somente grandes pessoas chegaram à transcendência mística, mas sua possiblidade está aí para todos e todas, pois ela é graça. E essa é a esperança para contemplarmos a beleza da criação.

 

IHU - A teologia de algum modo influencia suas pesquisas ou a formulação dos problemas científicos que investiga?

 

Felipe Mello - A teologia não influencia minha pesquisa ou formulação dos problemas científicos porque, devido à natureza da minha pesquisa, tenho que relevar todos os vieses possíveis, inclusive o próprio viés de “ser humano”. Porém, como pessoa, tenho interesse por teologia, principalmente pelo fato de minha avó ter sido professora de teologia em Goiás por muito tempo. Eu sou uma pessoa que gosta muito de conversar sobre ideias, e sempre tive boas discussões com os teólogos que encontrei pelo caminho.

 

IHU - Os estudos científicos de algum modo influenciam suas pesquisas ou a formulação dos problemas teológicos/existenciais que investiga?

 

Alexandre Martins - Sim. Trabalho com ética teológica e bioética, disciplinas que refletem sobre as ações e relações humanas entre si e com a realidade fora de si. Os estudos científicos proporcionam ferramentas preciosas para compreender questões humanas e sociais nas quais os desafios éticos aparecem. Ao mesmo tempo, a teologia auxilia a compreender e enfrentar desafios novos que surgem como decorrência do desenvolvimento de novas tecnologias que apresentam algo ainda desconhecido ou trazem consigo riscos, como é o caso de novas tecnologias biomédicas.

 

IHU- No ano passado, a Pontifícia Academia pela Vida lançou o documento "Salvar a fraternidade – juntos. Um apelo", em que convida teólogos e cientistas ao diálogo rumo à fraternidade intelectual. Quais suas impressões sobre o documento?

 

Alexandre Martins - Esse documento apela à colaboração e ao diálogo entre a teologia e a comunidade científica secular. Ele segue a linha dos documentos do Papa Francisco, que sempre inicia deixando claro que apresenta uma perspectiva para o diálogo em vista da construção do bem comum. O texto sugere que o diálogo deve ter como base a abertura ao outro, a aprender com ele/ela, a ser crítico e escutar a crítica e a se comprometer com a justiça, que deve sempre estar presente na busca pelo conhecimento.

Em um mundo cada vez mais polarizado e com um individualismo exacerbado, esse documento é um convite ao diálogo fraterno e produtivo entre pessoas que pensam e operam em universos científicos diferentes, mas que se comprometem com o bem comum e a justiça. Precisamos desse tipo de apelo para lembramos que isolados não chegamos a lugar algum. Infelizmente, o alcance desse documento é muito pequeno. O desafio é como apelos desse tipo possam de fato chegar às pessoas das disciplinas científicas e humanas, como a biologia e a teologia, e como promover o encontro entre essas pessoas para que o diálogo de fato aconteça.

 

 

Felipe Mello - Eu creio que o evento sobre “patógenos e a arrogância humana”, que trouxe um biólogo e um teólogo para uma conversa, é um bom sinal de diálogo entre a inteligência da fé e o pensamento humano, mencionado no apelo. Acredito que um diálogo maior entre cientistas e a comunidade cristã poderia, sim, guiar decisões e rumos a serem tomados na ciência, principalmente neste momento em que a biologia, com destaque para a molecular, tem tomado rumos que requerem um forte debate bioético.

Eu fui criado em uma família cristã e sigo costumes cristãos por conta dessa relação familiar. Creio que por causa disso me sinto mais aberto ao apelo da Pontifícia Academia pela Vida. Porém, as ciências biológicas tentam se afastar de qualquer caráter humanístico em suas pesquisas, pois se acredita que tal interferência emocional pode prejudicar a credibilidade da rigorosidade do método científico – e, muitas vezes, aumentam os dilemas bioéticos. Devido a essa natureza racional da ciência, muitos acabam por abandonar o lado espiritual até mesmo das suas vidas pessoais, o que talvez venha de encontro com o apelo da Pontifícia Academia pela Vida. Apesar da existência de cientistas que se engajam em uma saga para contestar a fé, eu sou mais da linha de respeitar o místico e dialogar sobre ideias. Isso são princípios que levo em minha vida pessoal e creio que cientistas em geral poderiam se abrir mais para diálogos fora de suas áreas de especialização, o que potencialmente poderia levar a mais colaborações transdisciplinares.

 

IHU - Quão longe estamos do diálogo entre as ciências hoje, apesar de reivindicarmos a transdisciplinaridade constantemente nas universidades?

 

Alexandre Martins - Estamos muito longe. Acadêmicos e cientistas reconhecem a importância da interdisciplinaridade quase como algo unânime. O mesmo consenso não se vê na transdisciplinaridade, mas há, sim, um grande reconhecimento da sua necessidade. Contudo, pouco (ou quase nada) se faz para a inter e transdisciplinaridade. O mundo acadêmico e científico ainda opera de forma muito fragmentada e cada vez mais especializada, com cada pesquisador focando em objetos de estudo sempre mais específicos. Há também o problema da comunicação: geralmente conversamos apenas com outros acadêmicos da mesma área. Poucos se arriscam a sair da sua zona de conforto para dialogar com estudiosos de outras áreas. Ademais, temos dificuldade de transmitir o conhecimento produzido nas universidades e nos laboratórios para a sociedade em geral. Todavia, precisamos avançar nisso. Não temos escolha. A pandemia da Covid-19 mostra que os desafios são complexos e intersetoriais. Embora a Covid-19 seja uma questão de saúde pública, não é possível enfrentá-la apenas com as disciplinas da saúde. Isso ficou claro. Se separamos objetos de pesquisa para melhor estudá-los, precisamos reagrupá-los por meio do diálogo interdisciplinar e ações intersetoriais para avançarmos para um mundo justo e equitativo.

 

Felipe Mello - Creio que ainda estamos longe desse diálogo. Estudos transdisciplinares são necessários, porém as agências de fomento científico ainda possuem um foco muito grande em estudos especializados. Outra barreira é que uma parte mais ortodoxa da comunidade científica questiona os métodos usados para estudos transdisciplinares. Porém, tudo que é novo toma um tempo para ser aceito e ampliado. A esperança é que, com mais incentivos, mais estudos transdisciplinares possam acontecer e avançar para um conhecimento mais integral.



Nota:
[1] Citação: Rockström, J., Steffen, W., Noone, K. et al. A safe operating space for humanity. Nature 461, 472–475 (2009). (Nota do entrevistado) 

 

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