31 Julho 2026
Sai, pela Editora Perspectiva, obra multiautoral sobre a crise civilizatória e seus distintos aspectos. Livro lança alertas, mas vai além. Último capítulo reúne ensaios analíticos sobre as experiências que questionam o capital e apontam saídas
O artigo é de Gustavo Falcón, publicado por Outras Palavras, 29-07-2026.
Gustavo Falcón é professor aposentado da Universidade Federal da Bahia, Doutor em história, sociólogo e escritor. Autor, entre outros, de Do Reformismo à Luta Armada, a Trajetória Política de Mário Alves e Os Coronéis do Cacau.
Eis o artigo.
Sai, pela Editora Perspectiva, obra multiautoral sobre a crise civilizatória e seus distintos aspectos. Livro lança alertas, mas vai além. Último capítulo reúne ensaios analíticos sobre as experiências que questionam o capital e apontam saídas.
Livro: A Vida Por um Fio. Capitalismo Devastador e Resistências Libertárias
Organizadores: Soleni Biscouto Fressato, Nicolas Oblin, Carlos Alberto Rios Gordillo, Patrick Vassort e Jorge Nóvoa
Editora Perspectiva
328 páginas
A Editora Perspectiva acaba de colocar à disposição do público A Vida Por um Fio, cujo subtítulo, Capitalismo Devastador e Resistências Libertárias, sintetiza magnificamente o projeto de seus autores. Um livro impactante, que trata do caos vivido pelo planeta nas últimas décadas como consequência de um modelo econômico que, dominando a Terra, os recursos naturais e submetendo a ordem mundial aos seus valores, apresenta agora sinais incontestáveis de desagregação e representa grave ameaça à sobrevivência da humanidade.
A Editora Perspectiva é conhecida pela qualidade editorial de suas publicações. Tem no seu catálogo autores renomados na área de Ciências Humanas e História, nacionais e estrangeiros. A Vida Por um Fio, agora publicado, é um amplo painel das difíceis condições históricas por que passa o mundo contemporâneo, sob o olhar crítico de pesquisadores atentos e amparados em bibliografia atualizada. Eles discutem sob a ótica marxiana questões públicas que interessam não só ao mundo acadêmico, mas a todos que, tentando entender o caos que perpassa a atualidade de várias sociedades e países, buscam uma compreensão mais acurada dos fatos. Merece destaque, além do projeto gráfico da publicação, a capa e as surpreendentes ilustrações do artista plástico francês Roland Cros.
Trata-se de uma coletânea com onze ensaios de autores de vários países, brasileiros, latino-americanos e europeus, organizada em três partes. A primeira trata da natureza atual do capitalismo, com o foco na análise totalizante do que muitos estão compreendendo como "policrise" para designar o fenômeno de uma "crise total" que desemboca nos impasses do capital, de seu sistema mundial e das possíveis saídas para sua crise estrutural. O termo, que passou a ser usado por figuras como Emmanuel Macron, presidente da França, é, na verdade, criticado por expressar uma ideologia conservadora, que pensa ser possível uma saída por dentro do capitalismo. A segunda parte se debruça sobre as guerras contemporâneas e seus efeitos sobre a humanidade face aos avanços mortíferos da tecnologia militar. E a terceira volta-se para o caminho da superação, discutindo experiências comunitárias e exemplos históricos da reação dos oprimidos frente à expansão do que os ensaístas chamam de capitalicídio. Isto é, um capitalismo cuja dinâmica acelerada e incontrolável se volta contra a natureza e os seres humanos, estabelecendo o primado da economia como esfera dominante da vida. E por isso mesmo, ameaçando o fio do seu curso que é também e, sobretudo, o fio da história humana e a do próprio planeta.
Desigualdade e precarização do trabalho, fragmentação dos laços sociais, financeirização da vida e adoecimento do indivíduo, devastação da natureza, exploração irresponsável dos recursos naturais, difusão da criminalidade e precarização do trabalho a par dos avanços tecnológicos, são alguns dos aspectos tomados pelos pesquisadores. As mais de 300 páginas, produzidas por eles, são marcadas pelo exame crítico da evolução do sistema que já dura meio milênio e de suas contradições. A par do progresso científico e tecnológico, sua mundialização colocou a humanidade diante de uma situação histórica totalmente nova: a possibilidade de sua autodestruição. A obra é uma importante contribuição não apenas aos interessados na atualidade do mundo, mas também àqueles que, em diferentes graus de compromisso, se colocam frente aos temas sociais de maneira crítica. Desejosos de mudanças, cheios da esperança transformadora dos que pensam numa vida melhor, mais saudável, menos opressiva e calçada em valores coletivos, os autores deste livro se mostram responsáveis eticamente.
Em que pesem imagens aterrorizantes dos ensaios, como aquelas que revelam um Congo esburacado e possuído pela loucura da busca insaciável de terras raras, ou áreas comunitárias totalmente controladas por milícias; regiões e países dominados pela violência insana das guerras, do envenenamento de rios e oceanos pela exploração desenfreada de minerais e do agronegócio, do louco digitalismo que, para continuar progredindo e facilitando a vida mercantil, está secando os aquíferos, escavando a terra e comprometendo a vida em todo o planeta; apesar do avanço das forças políticas de extrema-direita que abrem caminho e reforçam essa corrida desesperada para o abismo; apesar desse nó aparentemente impossível de ser desfeito, há um fio de esperança que se anuncia em lutas comunitárias, em experiências periféricas e marginais, cuja lógica e desenvolvimento escapam aos mecanismos de acumulação capitalista. Os textos levam em conta uma memória ancestral, ou um levante popular por autonomia, ou ainda experiências históricas milenares, assim como movimentos sociais inovadores que podem apontar um caminho para a superação dos impasses atuais.
A Vida por um Fio, que tem entre seus organizadores e autores um velho amigo, o historiador Jorge Nóvoa, é uma iniciativa coletiva indispensável no debate de temas relevantes das Ciências Sociais contemporâneas. Jorge, de quem fui editor na publicação da coletânea História à Deriva, em 1993, tem se destacado nesse tipo de trabalho, tendo sido um dos responsáveis também por outro livro com a proposta sempre abrangente de discussão de grandes estruturas: Soou o Alarme. A Crise do Capitalismo Para Além da Pandemia, também publicado pela Perspectiva em 2020.
Ao lado de Soleni Fressato, Nicolas Oblin, Carlos Alberto Rios Gordillo e Patrick Vassort, Nóvoa nos apresenta agora esse vivo painel de reflexão sobre esse primeiro quarto do século XXI, cujo mérito é apontar com clareza onde chegamos e levantar com consistência a discussão sobre o nosso futuro próximo. Tudo sem perder a perspectiva da velha questão da emancipação, que ocupou a atenção do jovem Marx e que, desde a antiguidade, inquieta o ser humano.
Quanto a mim, devo dizer que fiquei perplexo com o dramático quadro apresentado pelo livro e confesso que me causou forte impressão por analisar de forma muito franca a gravidade da situação atual da humanidade. Não apenas recomendo como considero leitura obrigatória para todos os que não perderam a esperança de um mundo melhor.
Um cenário estonteante
Abre a coletânea um ensaio do professor Jorge Nóvoa, doutor em Sociologia pela Universidade Paris VII (e aposentado da Universidade Federal da Bahia), dedicado a uma visão geral do cenário da crise. Destaca-se no texto a urgência de resolver a questão ecológica e uma interpretação das guerras, cerca de 50 atualmente, que fustigam a humanidade. Nos diz o autor: "Hoje, existe um primeiro problema que afeta todas as pessoas: a desregulamentação climática e ecológica. Ela atingiu níveis terríveis! As atividades humanas, especialmente aquelas concentradas desde a segunda metade do século XX, são as principais causas das mudanças climáticas."
Segue a apresentação de elementos que, nas várias regiões da Terra, exemplificam a calamidade. Às guerras, o autor dedica um olhar especial, considerando seu papel de destruição e seu potencial poder de implodir o planeta em consequência das tecnologias hoje disponíveis e do grau de avanço das armas nucleares. No seu ensaio intitulado "Um Odor de Pólvora", Nóvoa faz uma leitura em diagonal do cenário econômico mundial, apontando os limites estruturais da reprodução do capital no presente, das transformações que levaram ao ressurgimento do chamado nacionalismo pós-globalista e dos desdobramentos da crise que apontam para o fortalecimento da ultradireita e do "fascismo". Vejamos: "A crise da modernidade capitalista pela qual a humanidade está passando é profunda e, portanto, multidimensional. Ela também é política, afetando as conquistas da democracia formal."
Diante de um cenário perturbador, do confronto que se desenha entre as grandes economias e da ameaça nuclear, o perfume que exala não é dos mais agradáveis. O cheiro da pólvora impregna o ar, de fato. E apesar de considerar o futuro como "página em branco", o autor conclui dizendo que o que resta a todos nós é a luta pela vida. "A vitória da vida não será conquistada por humanistas eticamente idealistas, mas pela humanidade como um todo, ou não será".
O historiador Jerôme Baschet, que vive entre Paris e o México, adverte em seu desconcertante ensaio sobre o período que denomina Capitaloceno: "estamos experimentando o aprofundamento de um desastre planetário causado pela perpetuação de um produtivismo desenfreado, resultado das exigências irreprimíveis da acumulação de capital e há muito tempo indiferente às suas consequências ecológicas". Secas agravadas, ondas de calor inéditas, mega incêndios devastadores, envolvendo o holocausto de bilhões de animais, inundações cataclísmicas e outros efeitos de mudança climática, destinados a aumentar nas próximas décadas; poluição múltipla do ar, do solo, dos rios e dos oceanos; destruição dos ecossistemas e colapso da biodiversidade; multiplicação dos agentes patogênicos pelo setor agroindustrial e aumento de frequência de pandemias de origem zoonótica; expansão mortal do mercado de drogas, combinando os lucros mais exorbitantes com a mais temível submissão à lógica do dinheiro. É longa a lista de fatores que corroboram a indignação do ensaísta, para quem o caráter cada vez mais destrutivo do capitalismo, ao mesmo tempo "ecocida" e "humanocida", se torna cada dia mais flagrante, tudo apontando para um novo período geo-histórico que pode ser classificado como "capitalocênico", limite de um tempo que pode levar ao abismo.
A luta pela habitabilidade da Terra e sobrevivência da humanidade passa pela valorização de experiências comunitárias, pela desconstrução do primado da produção, formas de vida alternativa que valorizem as lutas das mulheres, dos povos indígenas e formas não coloniais de organização social, tudo isso centrado em valores anticapitalistas. Além da contribuição dos sociólogos franceses Patrick Vassort, Fabien Lebrun, Nicolas Oblin, do economista Claude Serfati, também francês, o leitor encontrará os estudos do geógrafo e historiador espanhol das Canárias, Domingo Marrero Urbin, do historiador mexicano Carlos Alberto Rios Gordillo, do jornalista e escritor uruguaio Raul Zibechi, mas também de pesquisadores brasileiros: Bruno Cezar Pereira Malheiro, Carlos Walter Porto-Gonçalves, Fernando Michelotti, assim como também de Soleni Biscouto Fressato, socióloga brasileira e organizadora do livro. Trata-se de professores e pesquisadores com larga trajetória, que assinam textos criativos e inovadores, convergindo em suas análises para uma leitura em profundidade das características mais marcantes do caos da ordem mundial, dos seus impactos no meio ambiente, nas relações interpessoais, na vida cotidiana das pessoas e nos seus efeitos danosos para a saúde física e mental dos indivíduos.
Desde já, chamo a atenção dos futuros leitores para os três últimos ensaios do livro, que tratam das experiências amazônicas, do papel da mulher no horizonte da crise (aliás, escrito pela única representante feminina da coletânea) e da inventividade do "movimento dos povos" como esperança e alternativa no rompimento do cerco ao capitalismo. Afinal, um sistema não é uma realidade imutável. O fio da história se tece pelo protagonismo dos grupos, indivíduos, dos agentes sociais, enfim, que tecem e reconstroem seus laços de convivência conforme os valores que elegem como seus. Essa advertência do livro é uma reflexão atualíssima sobre o presente e o nosso futuro imediato, cuja construção, de alguma forma, está também em nossas mãos.
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