18 Junho 2026
A cúpula do G7 encerrou-se nesta quarta-feira com a presidência francesa comemorando o resultado dos três dias de encontros de 15 chefes de Estado em Évian, que culminaram com a volta do apoio de Donald Trump à Ucrânia na guerra contra a Rússia. Mas, para o Brasil e outros países emergentes convidados a participar do evento, o encontro ficou marcado pelas profundas diferenças de visão sobre as crises internacionais.
A informação é de Lúcia Müzell, publicada por RFI, 18-06-2026.
À imprensa, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a escolha de acomodar os nove documentos preparados durante o encontro ao gosto do líder americano. “Nós nos comprometemos a aumentar as pressões sobre a Rússia, inclusive com o reforço das nossas sanções. A volta dessa mobilização é extremamente importante”, frisou, em uma das diversas vezes em que citou os resultados em favor da Ucrânia.
Um deles, argumentou, foi o bom entendimento entre Trump e o presidente ucraniano, Volodymir Zelensky, convidado a participar. O líder americano evocou a volta de sanções dos Estados Unidos ao petróleo russo, uma vitória para os europeus.
Cobrado pelas concessões feitas a Trump em troca de apoio, que incluíram um jantar exclusivo no Palácio de Versalhes, Macron alegou que o monumento é um instrumento diplomático que representa o poder da França, e fez uma alusão à Copa do Mundo. “No fundo, eu sou como os bleus: jogando em casa ou no exterior, meu objetivo é marcar gols. Voilà.”
Para o Brasil, ar de déjà vu
Já do lado dos países emergentes, a cúpula teve um ar de déjà vu. "Está ficando um samba de uma nota só: quando os convidados chegam na reunião, os países do G7 já aprovaram os seus documentos”, lamentou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao fazer um balanço bem menos otimista sobre a cúpula do que o anfitrião do evento. Esta foi a décima vez que ele participou da reunião do grupo de países industrializados.
Dos oito textos sobre os diferentes temas abordados em conjunto com as cinco nações convidadas este ano – Brasil, Índia, Quênia, Egito e Coreia do Sul –, o Brasil assinou apenas três, sobre a proteção de menores no ambiente digital, o combate ao tráfico de drogas e ao câncer. A Índia, parceira do Brasil no Brics, também recusou a maioria dos documentos. Apenas duas das declarações foram apoiadas por todos os países não membros do G7.
Vazio ocupado pela China
Lula foi particularmente crítico ao tom adotado sobre a China nas discussões sobre os desequilíbrios macroeconômicos globais e acesso a minerais críticos. “Faz muitos anos que o Brasil faz licitação internacional e os Estados Unidos não participam. A União Europeia não participa. Quem participa? A China”, evocou.
"A China ocupou um espaço que estava vazio. Nós queremos, enquanto Brasil, enquanto América Latina e terceiro mundo, sobretudo os países africanos, é que quanto mais países estiverem interessados em fazer investimento nos nossos países, em comprar os nossos produtos e estarem dispostos a contribuírem, participando da exploração e da industrialização e do enriquecimento da área de mineração, desde que seja dentro do nosso país, sejam bem-vindos”, afirmou.
Para o presidente brasileiro, o crescimento econômico mundial, que leve ao desenvolvimento e o aumento do mercado consumidor também nos países do Sul Global, é parte importante da solução para corrigir os desequilíbrios denunciados pelo G7: em que a China produz e exporta muito para o resto do mundo, impactando as economias desenvolvidas.
“Para tentar acabar com essa discussão entre China e Estados Unidos, o mundo precisa crescer. Não adianta crescer só a Alemanha, os Estados Unidos, a França. É preciso crescer para outros países para que eles possam vender inclusive os seus produtos de maior valor agregado. Eu fiz questão de deixar claro na minha intervenção lá: é preciso vocês compreenderem que vocês precisam criar novos consumidores, que estão fora dos países de vocês. Então, façam investimentos”, argumentou Lula.
Questionado pela imprensa brasileira a respeito dessas divergências, o francês Emmanuel Macron refutou a ideia de um "G7 antichinês”. "Essa não é a posição da França. É inaceitável dizer isso”, disse. "Simplesmente queremos reduzir nossa dependência. Mas não há conflito”, frisou.
Encontro de Lula com Zelensky
Sobre a guerra na Ucrânia, a cúpula marcou uma ocasião para o presidente brasileiro voltar a dialogar com Volodymyr Zelensky, pela primeira vez desde setembro de 2025. Os dois tiveram uma reunião bilateral ao final dos compromissos oficiais do G7 em Évian.
Segundo Lula, foi "a melhor conversa" que ele já teve com o líder de Kiev. "Eu, pela primeira vez, senti o Zelensky com muita disposição de encontrar uma solução. Zelensky quer a paz e está dizendo que quer um cessar-fogo sem colocar nenhum pedido", contou Lula.
"Eu agora assumi o compromisso de outra vez fazer o que eu já fiz, ligar para todos os membros do Conselho de Segurança da ONU. Eles são os responsáveis de garantir a paz ou a guerra entre Rússia e Ucrânia”, prometeu, referindo-se aos chefes de Estado e de Governo de Estados Unidos, França, Reino Unido, China e Rússia.
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