O ataque à Venezuela é um golpe para toda a região latino-americana, mas também uma mostra de debilidade do processo bolivariano. O sequestro de Maduro não teria sido possível sem a colaboração interna.
O artigo é de Raúl Zibechi, publicado por El Salto, 08-01-2025.
Raúl Zibechi (1952) é um jornalista, escritor e ativista uruguaio, especializado em movimentos sociais, autor de Dispersar o poder (2006) e Territórios em resistência (2008), entre dezenas de títulos essenciais para entender a história recente da América Latina.
Segundo ele, "com a política de chantagem trumpista, pode acontecer que o Pentágono mobilize suas forças para dissuadir os povos insurretos. Esta é uma das lições mais tremendas do ataque à Venezuela. No dia 3 de janeiro, o presidente americano disparou: “O domínio dos Estados Unidos na América Latina não será questionado nunca mais”.
O ataque à Venezuela é um golpe em toda a região latino-americana, ocorrendo no momento de maior ascensão das direitas duras em várias décadas e da quase extinção de governos progressistas.
A forma como Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados, sem oferecer resistência, evidencia a fragilidade do processo bolivariano que, em algum momento, pretendeu ser uma “revolução”. Embora seja difícil chegar ao fundo da questão, alguns fatos vieram à tona.
O primeiro é que a Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) não combateu; alguns de seus comandantes — impossível saber quantos — foram comprados por agentes dos Estados Unidos e colaboraram com a invasão. O mais provável é que tenham isolado Maduro e o entregado.
A facilidade com que o fizeram, sem sequer um soldado americano ferido, é uma séria advertência para a liderança chavista que permanece no poder, mas não tem força para tomar decisões que não agradem a Trump e ao Pentágono. Tanto a nova presidente, Delcy Rodríguez, quanto seu gabinete, iniciaram uma limpeza nos comandos que não estão dispostos a se curvar a Washington e estão pedindo que a população não saia às ruas para protestar.
Para os países vizinhos, como a Colômbia, isso é mais do que uma advertência séria. Mas também o é para o México e a Groenlândia, que estão depois de Cuba na ordem de prioridades estratégicas da Casa Branca. Trump anunciou que não enviará soldados a Cuba, pois espera forçar Díaz-Canel a negociar quando a ilha ficar sem suprimento de petróleo, com um sistema elétrico colapsado e com a fome à porta.
No entanto, a possibilidade de uma intervenção na Colômbia, incluindo a inútil "decapitação" do presidente Petro, ao qual restam apenas seis meses de governo, soa como uma ameaça séria, especialmente para seu sucessor. Contra o esperado, grande parte das elites colombianas demonstrou desacordo com Trump. O jornal El Espectador intitulou seu editorial de 6 de janeiro: “Ameaçar o presidente Petro é agredir a Colômbia”. Isso é importante porque não é um meio afim ao presidente, mas opositor, e reflete a opinião de uma parte da poderosa burguesia colombiana.
O mais conservador El Tiempo desvinculou o presidente Petro do narcotráfico, apesar de manterem um longo contencioso político: “Diante das declarações do americano, que acusou o presidente colombiano de narcotraficante, é preciso ser taxativo: não existe qualquer indício que permita afirmar que o presidente Petro tenha vínculos com negócios ilícitos de drogas”.
Há muitos anos a região não estava tão dividida e tão alinhada aos Estados Unidos. Argentina, Bolívia, Equador e Paraguai, apenas na América do Sul, apoiaram a violação da soberania venezuelana, aos quais se somará o Chile quando Kast assumir em março. O único governo firme é o de Petro. Os de Lula e Sheinbaum não podem sequer ser considerados progressistas, já que o primeiro governa em aliança com a direita e o governo mexicano é sumamente “tolerante” com os Estados Unidos, país do qual depende economicamente, para além das declarações soberanistas da presidenta. No México, especula-se sobre a entrada de agentes americanos para tarefas antinarcóticos e de controle da fronteira, algo que pode acontecer a qualquer momento.
O que aconteceu nas últimas eleições argentinas revela o estado da opinião pública na região. Um mês antes das legislativas de outubro, Milei perdeu de goleada na província de Buenos Aires. Mas Milei encenou um acordo com Trump que implica a concessão de empréstimos para equilibrar a combalida economia, o que levou boa parte dos eleitores a mudar seu voto. Em síntese, a aberta intromissão de Trump no cenário eleitoral conseguiu dobrar a vontade popular a favor de Milei, que vinha em franca decadência.
Este é o novo estilo nas relações internacionais na região: a intromissão aberta, encenada nos meios de comunicação, como forma de intimidar e forçar as pessoas a pensarem se vale a pena resistir ao império, mesmo que seja através das urnas.
Doze dias antes das votações, Trump disse: “Se ele perder, não seremos generosos com a Argentina”. O secretário do Tesouro foi ainda mais claro: “O sucesso da agenda de reformas da Argentina é de importância sistêmica... e redonda no interesse estratégico dos Estados Unidos”. Não foi preciso dar um único tiro.
Após os governos progressistas e a onda de governos antipopulares — de Bolsonaro a Milei e Noboa —, os movimentos se enfraqueceram e alguns caíram diretamente na desorganização. Os progressismos implementaram programas sociais para assegurar a governabilidade, o que resultou em cooptação e na transferência de quadros dos movimentos para as instituições estatais. Os movimentos foram garantidores da governabilidade entre "os de baixo", mas o preço foi alto demais e só se tornaria visível com a chegada das direitas repressivas.
Em suma, quando a mobilização popular se fez mais necessária, foi impossível relançá-la, pois as bases estavam desgastadas e desorientadas. Imaginemos a realidade do povo na Venezuela, onde a ex-vice-presidente de Maduro passou para o lado vencedor sem qualquer pudor, assim como boa parte dos comandos militares e civis.
Agora estamos diante de um fenômeno novo. Entre o Caracazo de 1989 e o último levante indígena de 2022, houve dezenas de insurreições que derrubaram governos. Mas com a política de chantagem trumpista, pode acontecer que o Pentágono mobilize suas forças para dissuadir os povos insurretos. Esta é uma das lições mais tremendas do ataque à Venezuela. No dia 3 de janeiro, o presidente americano disparou: “O domínio dos Estados Unidos na América Latina não será questionado nunca mais”.
Parece evidente que nem as esquerdas nem os movimentos têm força suficiente para frear esta ofensiva brutal. Se o Pentágono atingir seus objetivos, a esquerda será um cadáver político se os "de baixo" não conseguirem escapar do controle e da chantagem militar. O que aconteceu nos últimos anos em um Equador militarizado é o espelho onde os movimentos podem se olhar.