Tornar-nos estrangeiros. Artigo de Chris Hegdes

Foto: Ravi Sharma/Unsplash

Mais Lidos

  • OpenAI: a história do ataque hacker descontrolado à IA também preocupa a China

    LER MAIS
  • Milhares de pessoas saem às ruas protestando contra as reformas de Milei: "Hoje, o salário mínimo da Argentina é o mais baixo da América Latina"

    LER MAIS
  • Como o Imposto de Renda favorece altas rendas e penaliza trabalhadores

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

24 Julho 2026

“Estamos nos tornando estrangeiros. Estrangeiros em nossos próprios países. Estrangeiros no mundo. Os valores que prezamos, as liberdades que antes considerávamos garantidas e a possibilidade de um futuro democrático estão desaparecendo. As comunidades onde encontrávamos significado e propósito estão sendo estraçalhadas. O punho de ferro do fascismo está se consolidando. O ataque de décadas às instituições democráticas em nome do neoliberalismo – mais conhecido por seu nome menos ameno, capitalismo desenfreado – está colhendo seus frutos sombrios”. A reflexão é de Chris Hedges, em artigo publicado por The Chris Hedges Report, e reproduzido por Voces del Mundo, 21-07-2026. A tradução é do Cepat.

Chris Hedges é escritor e jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer. Foi correspondente internacional do New York Times durante quinze anos. É membro do Nation Institute e autor de vários livros, entre eles, War is a Force That Gives Us Meaning.

Eis o artigo.

Em Nation of Strangers: Rebuilding Home in the 21st Century (Nação de estrangeiros. Reconstruindo o lar no século XXI), Ece Temelkuran baseia-se em seu exílio da Turquia – como fez em seu livro anterior, Como perder um país. Os 7 passos da democracia à ditadura (Temas e Debates, 2000) – para nos preparar para um futuro que não queremos, mas que seremos forçados a suportar.

Nação de estrangeiros é escrito como uma série de 40 cartas, que começaram a ser escritas em junho de 2022 e terminando em abril de 2025. Cada carta é endereçada ao “Querido Estrangeiro”, fazendo-nos perceber gradualmente que nós, como ela, em breve nos tornaremos estrangeiros, forasteiros. Primeiro em nossa própria terra e, depois, para alguns de nós, no exílio.

Livro "Nation of Strangers: Rebuilding Home in the 21st Century " de Ece Temelkuran

Ela zomba da nossa obsessão com a esperança, da nossa crença ingênua de que nossas instituições vazias e corruptas podem reverter a maré fascista.

“Eu não acredito na esperança, mas em determinação, em ter fé e em fazer o que for possível para sobreviver quando não há esperança”, escreve.

Temelkuran era uma proeminente romancista, ensaísta e jornalista turca. Ela escrevia uma coluna amplamente lida e apresentava um programa na televisão nacional. Ela também era uma figura controversa para o governo de Recep Tayyip Erdoğan, especialmente após a publicação do seu livro de 2016, Turkey: The Insane and the Melancholy (Turquia: os insanos e os melancólicos).

Ela deixou a Turquia depois de ser alvo de uma campanha implacável de difamação e ataques por parte da mídia controlada pelo governo, quando seus colegas começaram a ser presos, as ameaças de morte se tornaram “comuns demais para serem ignoradas” e perdeu o emprego.

Temelkuran ligou para sua mãe em 6 de novembro de 2016, de Zagreb, Croácia: “Mãe, não vou voltar para casa”.

“Foi uma ligação de um minuto, explica. Metade desse tempo foi silêncio. Mas foi tudo o que bastou, no outono de 2016, para eu me tornar uma sem lar”.

Ela tinha 43 anos.

“A realidade do sistema neoliberal – a desigualdade extrema – anula a promessa fundamental da democracia – a igualdade – e é por isso que a ideia de proteger a democracia significa cada vez menos para as pessoas”, escreve.

Nós ficamos sem um lar não apenas por causa daqueles que estão no poder – sejam Vladimir Putin, Narendra Modi, Benjamin Netanyahu, Donald Trump ou Erdoğan –, mas também por causa de um liberalismo falido e de uma oposição farsante escravizada pelos mesmos mestres corporativos e oligárquicos.

“Como a nossa indignação política é considerada irrelevante pelos bastiões convencionais da realpolitik – os antigos partidos políticos –, nos encontramos também sem um lar político, aponta Temelkuran. Não sabemos mais por quais meios políticos podemos unir nossas vozes para que aqueles que nos governam nos ouçam. Como refugiados, buscamos refúgio em lugares temporários: tendas de protesto, tendas improvisadas do Occupy ou tendas de greve. Seja no frio ou sob o sol, imaginamos e reimaginamos um novo lar político; como um exilado que sabe ser impossível retornar ao seu antigo lar, mas que, mesmo assim, anseia por um lar”.

A essência do fascismo é a demonização do outro, do estrangeiro.

Até 2050, mais de um bilhão de pessoas estarão “em risco de deslocamento” devido a “mudanças ambientais, conflitos e distúrbios civis”. Até 2070, entre um e três bilhões de pessoas poderão ser “excluídas das condições climáticas que serviram bem à humanidade nos últimos 6.000 anos”.

Ela alerta que o genocídio em Gaza é uma prévia do que está por vir, um exercício da classe dominante global para ver quanta chacina ela pode infligir impunemente.

Temelkuran descreve Gaza como “uma longa cicatriz sangrenta no mapa-múndi”, que “está se espalhando em uma gangrena mortal, devorando toda a humanidade”. Ela alerta que “novos padrões de brutalidade serão estabelecidos”, que “muitas pessoas ficarão sem lar ao final desta história, e não apenas aquelas cujas casas foram bombardeadas. E tudo começará com a perda de uma única palavra”.
“Nenhum acordo explícito será necessário, prossegue a exilada, mas gradualmente, as pessoas evitarão aquela palavra considerada ‘problemática’. Hoje, na Alemanha, é a palavra ‘genocídio’; em outros países, serão outras palavras”.

O vazio deixado pela palavra perdida “logo será preenchido com palavras inofensivas, sugeridas educadamente pelas palavras aprovadas pelo poder, como ‘guerra’, mesmo que o outro lado seja composto principalmente por civis. ‘Não vamos chamar de genocídio, mas de atrocidades’. Com o tempo, será impossível participar de um debate público sem proferir apenas essas palavras aprovadas. Elas funcionarão como sinalizadores para provar que você não está usando a palavra criminalizada. É assim que o fascismo funciona. Ele não apenas silencia as pessoas, mas também as força a falar de uma determinada maneira”.

Temelkuran relata as humilhações de superar os obstáculos burocráticos para solicitar autorizações de residência e vistos em “salas de espera sufocantes”. Ela se pergunta, junto com os outros desconhecidos, se, quando sua autorização expirar, ela será renovada ou se ela será forçada a buscar refúgio em outro lugar. O exílio a endureceu. Seu humor é sarcástico. Ela observa os refugiados da guerra na Ucrânia chegando à Alemanha, sem ideia do que os espera.

“Os ucranianos ainda não sabem, afirma Temelkuran. Eles não duvidam que a promessa feita a eles pelo mundo ocidental será cumprida. Eles ainda acreditam que serão recebidos civilizadamente e acolhidos com elegância, com sua dignidade intacta. Uma parte muito sombria e despedaçada de mim anseia soltar aquela risada repugnante. Quem dera, querida! Você nunca será bem-vinda sem antes ser esmagada. Você se desprezará, odiará tudo, desistirá, ficará insensível, e só então tudo começará a acontecer. Só será bem-vinda quando se render”.

Sua experiência como exilada desafia a imagem que o Ocidente tem de si mesmo.

“Os ocidentais ainda gostam de pensar na Europa como um refúgio seguro para intelectuais oprimidos do Sul Global, mas isso é dar muito crédito à Europa quando milhares de pessoas estão sendo jogadas de volta ao mar para morrer, insiste ela. Focar no ‘exílio’ para desviar a atenção do ‘refugiado’ funciona como uma ferramenta de gerenciamento de crises, sem mencionar uma estratégia de marketing para a própria imagem da Europa”.

Ironicamente, a perseguição do regime que força o forasteiro ao exílio não é a coisa mais difícil de entender.

“O que os ocidentais ainda não perceberam é que muitos de nós não saímos de casa por medo de um ditador, escreve. Eles continuam a fazer a distinção em suas mentes entre ‘bom’ e ‘mau’. Mas o que realmente rompe seus laços com um país é ver tantas pessoas, pessoas comuns, apoiando o regime mesmo depois de testemunhar sua maldade. Ver tantas pessoas que escolhem ser más. É aí que sua fé na humanidade vacila. É isso que nos marginaliza e nos deixa sem lar, mesmo quando estamos em casa: a sensação de estarmos sitiados pela desumanidade, pela loucura e pela brutalidade”.

O golpe final, diz Temelkuran, aquele que “verdadeiramente te destrói”, não vem do “outro lado”. Em vez disso, “vem daqueles que você considera seu povo, sua gente. Quando o sentimento de derrota toma conta do lado ao qual você pertence, a raiva ou o desgosto que você sente por estar do lado perdedor se transforma em ódio de si. O ódio coloca as pessoas umas contra as outras e, então – como aconteceu comigo uma vez, quando deixei o país para sempre – você é submetido a um ataque mais cruel do que o outro lado é capaz de infligir. Eles te dizem que você não é bom o suficiente. Não há ferida mais profunda do que essa. É precisamente nesse momento que você se torna um completo estranho em sua própria casa, quando não é o ditador, mas seu próprio povo, que rompe seus laços com o país”.

O lar, para “o abismo do eu desenraizado”, não é mais um lugar. Não é “algo do passado nem um destino a ser alcançado no futuro”. Encontra-se “nesses momentos de ser plenamente eu mesmo, uma sensação intermitente de plenitude, um sentimento raro, mas precioso, de pessoas comuns, e só existirá no aqui e agora”.

Embora o lar que deixamos para trás possa ter desaparecido, existem “novos lares em construção que nos oferecem momentos de paz quando menos esperamos”.

Isso talvez seja uma espécie de esperança, mas uma esperança acompanhada de um luto e um estranhamento que não tem fim.

Leia mais