Porque a força também é necessária para salvar a paz. Artigo de Vito Mancuso

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24 Julho 2026

"À luz disso, a paz parece ser um processo intrinsecamente ligado à guerra. "Guerra e paz", justamente, como a obra-prima de Tolstói. E como atestam, antes dele, Homero e a Bíblia. Isso não altera o fato de que Leão esteja certo em nos chamar de volta ao ideal da paz, nutrindo a nossa necessária utopia", escreve Vito Mancuso, ex-professor da Universidade San Raffaele, de Milão, e da Universidade de Pádua, em artigo publicado por La Stampa, 22-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Desarmado e desarmante” é uma bela expressão — marcante por sua assonância —, mas é também um conceito sustentável? Na minha opinião, o título do livro de Leão XIV veicula uma tese pouco convincente e, com estas considerações, gostaria de explicar o porquê.

Expresso a essência da ética por meio desta fórmula fundamental: ética = valores + situação real.

Entendida como ação responsável, a ética sempre requer esses dois componentes estruturais: os valores a serem encarnados e a análise realista da realidade na qual serão inseridos. Sem um dos dois, sobra apenas uma política cínica ou um idealismo utópico.

Hoje, escreve o Papa, “nada menos que 103 estados estão envolvidos de alguma forma em alguma guerra”. Existem aproximadamente 200 nações no planeta (o número varia dependendo dos reconhecimentos), o que significa que a guerra afeta metade delas. O mundo enlouqueceu? Na realidade, a situação era pior no passado, pois nenhum estado era imune à guerra — nem mesmo o Estado pontifício, que em certo momento começou a se valer dos melhores soldados da época, os mercenários suíços, desde então ainda a seu serviço, embora de um modo diferente, mas de forma alguma desarmados. A guerra é uma condição permanente da humanidade? Uma verdade incômoda, porém, inegável.

Bobbio observava que "a maneira mais segura de eliminar a guerra é destruir as armas". No entanto, ele prosseguia dizendo que basta se perguntar sobre “quem” deveria destruí-las para que a situação se complique, visto que a tarefa recairia sobre os mesmos que as usam, de forma que concluía que "é como confiar a um congresso de beberrões a decisão de promulgar uma lei contra o consumo de bebidas alcoólicas". Aqueles que defendem o desarmamento estão defendendo algo altamente desejável — porém de difícil implementação. E também perigoso, se implementado unilateralmente. Anna Politkovskaya escrevia: "A KGB só respeita os fortes; devora os fracos. Já deveríamos saber disso; em vez disso, escolhemos o papel de fracos e fomos devorados". Ela mesma foi devorada em 7 de outubro de 2006. Vinte anos se passaram, e Putin continua devorando; ele faria o mesmo com Kiev, não fossem as armas e os soldados.

O desarmamento unilateral leva a ser devorados. Por amor à paz, alguém pode até aceitar esse destino, como fizeram as muitas testemunhas lembradas pelo Papa, mas não é admissível que o Estado exponha seus cidadãos ao risco de serem "devorados"; seu primeiro dever é exatamente o oposto.

Leão escreve: "A paz é, acima de tudo, uma responsabilidade", uma frase belíssima, mas que precisa ser traduzido em ações concretas. Um pensamento responsável deve saber dizer como reagir diante da ameaça e da invasão. Veja-se o exemplo da Suécia — uma nação que não conhece a guerra desde 1814.

Superando sua histórica condição de neutralidade, solicitou a adesão à OTAN em 2022 e foi admitida dois anos depois. Transformou-se de uma nação desarmada em uma nação armada. Errou? Também aumentou significativamente seus gastos com a defesa. Errou? O Papa escreve: "No último ano, o crescimento dos gastos militares no mundo, e particularmente na Europa, foi enorme. Não chamemos de 'defesa' um rearmamento que acirra tensões e insegurança, drena investimentos da educação e da saúde, desmente a fé na diplomacia e enriquece elites que não se importam com o bem comum". É lógico que as armas enriquecem quem as produz; tudo enriquece quem o produz, até mesmo os livros e os medicamentos. Mas o que é preferível à liberdade? E, quando a liberdade é ameaçada, deve ser defendida. Além das testemunhas lembradas pelo Papa, poder-se-ia recordar Teresio Olivelli, um oficial das tropas alpinas morto em um campo de concentração alemão por ter participado da resistência armada, e beatificado pela Igreja em 2018.

A Suécia não trava uma guerra desde 1814, mas hoje está se rearmando. Todos os outros países daquela região estão fazendo o mesmo, inclusive a profundamente católica Polônia. A Espanha, por estar muito distante de Putin, não sente tal necessidade. Compreendo isso; eu também não sentiria. Mas, se eu fosse a Suécia, sentiria. A ética é sempre uma ética da situação. Sempre, se não quiser despencar no moralismo. Por que a Suíça não foi "devorada" por Hitler? Porque o Führer avaliou que o exército suíço — estruturado como uma milícia popular — teria desencadeado uma guerrilha contínua e sangrenta. Eis outro exemplo de uma condição armada que é, "exatamente por isso", desarmante.

O Papa escreve com razão: "A paz se constrói com a verdade", mas a verdade só é verdade se levar em conta a concretude histórica. E não é verdade que as armas e as forças da ordem que as utilizam não garantem a paz; no máximo, é verdade o contrário, se a essência da paz é, como dizia Agostinho e recorda Leão, a "tranquilidade da ordem".

O Estado deve garantir a ordem, e a ordem se alcança também com as armas. Não é por acaso que o exército e a polícia são chamados tanto de "forças da ordem" quanto de "forças armadas". É evidente que o mundo seria um lugar melhor sem as armas, a começar pelas facas cada vez mais difundidas entre os jovens.

Infelizmente, porém, a realidade é diferente; é assim desde a Idade da Pedra, quando nossos ancestrais começaram a afiar o sílex para fabricar as flechas. Em inglês, a mesma palavra "arm" designa tanto as armas quanto os braços. Um simples acaso?

Eu nunca empunhei uma arma em minha vida; sou também contrário à caça e, se dependesse de mim, a indústria bélica fecharia as portas amanhã. Não por isso, contudo, considero os militares e as forças armadas como uma ameaça à paz, como se poderia inferir a partir do título do Papa Leão.

Não; neste contexto histórico, às voltas com uma humanidade que além de “magnífica” também é terrífica, a única verdadeira paz à qual podemos e devemos realisticamente almejar é uma paz "armada"; e, precisamente por isso, também "desarmante", no sentido de que pode neutralizar as ameaças.

Há uma grande diferença entre pedir que os Estados se empenhem pela defesa das vidas de quem se afoga no mar em busca de um futuro melhor, como Leão recentemente fez em Lampedusa, e pedir seu desarmamento. No primeiro caso, é uma solicitação viável; no segundo, não. Aliás, os exemplos das nações mais pacíficas do mundo sugerem o contrário. "A paz autêntica é aquela que se concretiza a partir da realidade", escreve Leão. Absolutamente verdadeiro. É preciso, portanto, olhar sempre a realidade na cara, sem jamais esquecer o valor. Por um lado, não se acostumar à guerra; por outro, não ignorar sua permanente existência. De um lado, manter a indignação, do outro, intervir na realidade pelo que ela realmente é.

À luz disso, a paz parece ser um processo intrinsecamente ligado à guerra. "Guerra e paz", justamente, como a obra-prima de Tolstói. E como atestam, antes dele, Homero e a Bíblia. Isso não altera o fato de que Leão esteja certo em nos chamar de volta ao ideal da paz, nutrindo a nossa necessária utopia.

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