Deus não prefere um único povo. Entrevista com Vito Mancuso

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16 Junho 2026

"Jesus nasceu em Nazaré, Cristo em Belém." "Jesus tinha quatro irmãos e um número não especificado de irmãs. Cristo era filho único." É um tapa nas certezas dos cristãos a nova e monumental obra, Gesù e Cristo, publicada pela Garzanti, que o teólogo e filósofo leigo Vito Mancuso apresentou na quinta-feira, 11 de junho de 2026, no Castello degli Ezzelini em Bassano del Grappa, no primeiro dia do festival "Resistere".

A entrevista é de Piero Erle, publicada por Il Giornale di Vicenza, 11-06-2026. A tradução de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista. 

Professor Mancuso, a questão fundamental é aquela que o título resume naquele "e", que diferencia Jesus de Cristo. Mas quem era Jesus, então?

Vito Mancuso – Jesus era a figura histórica, real, de um judeu de 2.000 anos atrás, cuja história pode ser reconstruída pela leitura crítica do Novo Testamento e de fontes da época. Na minha opinião, ele foi um profeta escatológico e apocalíptico: aguardava a revelação final do Reino de Deus com a transformação completa da história, um momento de julgamento para toda a humanidade que ele esperava muito em breve.

Mas o Cristo é algo completamente diferente?

Certamente. Em primeiro lugar, não é um nome próprio, mas um título como "rei", que define a importância histórica da pessoa em questão. Ele é "o ungido", precisamente o Messias esperado por Israel. Mas, por essa razão, é preciso diferenciá-los: Jesus não era o Messias esperado, um rei vitorioso que estabeleceria a independência de Israel. O cristianismo, por sua vez, o vê como "o cordeiro de Deus", predestinado a dar a vida na cruz. Eu apresento uma visão diferente.

O senhor escreve que o livro é para "os duvidosos". Mas, aos crentes, diz: sua fé em Cristo, mais que de Jesus, nasce de Pedro e Paulo, que são os que dão a verdadeira direção da mensagem que acabou sendo transmitida aos cristãos por milênios.

Isso mesmo. É claro que Pedro e Paulo não poderiam ter dito nada sem a existência histórica de Jesus. Eles não o "inventaram", mas interpretaram a história de Jesus de uma maneira original. Tenho certeza de que Jesus não queria morrer na cruz, ser sacrificado. O Evangelho de Marcos, e Mateus o copia, diz que ele morreu em desespero, com um forte grito: ele não queria morrer. Os Evangelhos subsequentes mudam. Pedro e Paulo queriam entender por que Jesus, tão bom, havia morrido. E assim, lendo a Bíblia hebraica, descobrem passagens de Isaías, os Salmos e os Profetas, e se dão conta que "Jesus tinha que morrer e sofrer para a expiação dos nossos pecados": para eles, a cruz não é um acidente, mas uma necessidade prevista desde o princípio, "segundo as Escrituras". Ele, por outro lado, pregava a revolução do Reino de Deus — razão pela qual os romanos decidiram matá-lo — mas tudo é lido como uma vontade superior. E Paulo, além disso, acrescenta que a explicação reside no pecado original de Adão, que precisava ser expiado.

Mas não poderia ser que os discípulos, ao relerem o Antigo Testamento, em vez de "reinterpretarem tudo", tenham encontrado uma ajuda para entender o que realmente haviam vivido e visto com seus próprios olhos ao estarem com Jesus, ele, que se deixa matar na cruz mesmo tendo o poder de reagir e realizar milagres?

Nunca o saberemos; não temos acesso direto aos acontecimentos reais: estão em jogo as interpretações. Eu também creio em Deus e na imortalidade da alma, mas não que a alcancemos pela redenção que vem da morte e ressurreição de Jesus, mas sim pelo bem e a justiça que se pratica concretamente. E acredito que o Jesus histórico, aquele real, pensava da mesma forma: vinculava a salvação à observância dos mandamentos, à prática da justiça. Argumento essa explicação detalhadamente no livro.

O senhor analisa muitos milagres e eventos narrados nos Evangelhos, destacando contradições e inconsistências, depois a crucificação e, finalmente, a ressurreição. Afirma que estamos diante de um evento imponderável, que não pode ser avaliado pelos parâmetros da nossa mente.

Admitindo que tenha existido, a ressurreição não ocorreu no tempo e no espaço, mas vai além: é escatológica. Um celular em frente ao sepulcro naquela noite não teria gravado nada: não se trata de reanimação do cadáver — também Ratzinger escreve isso. E não é comparável a Lázaro e outros personagens que Jesus reanima. Jesus não morre mais: isso está além da nossa capacidade de compreensão. A esperança da ressurreição existe. Mas o fundamento é o bem, a honestidade, a solidariedade, as bem-aventuranças de Jesus: isso eu consigo entender e posso convidar meus filhos a seguirem esse caminho.

Também o Natal, o senhor escreve no livro, tem a ver com atribuir uma "lenda" ao nascimento de uma pessoa importante como Jesus.

Isso era comum no mundo antigo, como no caso de Rômulo, Zaratustra, Buda e outros. Fazia-se isso para afirmar a singularidade e a excepcionalidade do personagem em comparação com as pessoas comuns. O Evangelho de Marcos, no entanto, relata que os habitantes de Nazaré chamam Jesus não de "filho de José", mas de "filho de Maria": é inaudito e inconveniente, tanto que os outros evangelistas o alteram.

Mas também faz referência a Mateus: ao relatar a genealogia de Jesus, quer destacar que há algo específico que influenciará o próprio Jesus.

Insere na genealogia quatro mulheres de vida sexual irregular. A única explicação plausível é que em Maria também havia algo de irregular em sua gravidez, mas José, um homem justo, olha-a nos olhos, compreende o drama e a ama realmente. E acredito que Jesus procura Batista para ser batizado como os outros, porque sentia a impureza de seu nascimento, algo muito relevante no judaísmo.

Citou o judaísmo: no livro, afirma enfaticamente que não existe um "único caminho" para chegar a Deus, seja Jesus ou a Bíblia, e da mesma forma não existe um "povo escolhido" que se sinta justificado até mesmo em matar os outros. Esses conceitos são impactantes, considerando o que está acontecendo.

É verdade. Porque, se falarmos do exército israelense, também podemos estar discutindo sobre a defesa do Estado de Israel. Mas, dada a expropriação e a violência que os colonos infligem diariamente nos territórios que legitimamente pertencem aos palestinos, não há dúvida de que o fazem em nome da ideia de um "Grande Israel". Já em si mesma é insustentável a ideia de que Deus preferiria um povo em detrimento de outros, deixando-os sem terra — no Novo Testamento, Pedro diz: "Deus não faz acepção de pessoas" —, tanto que nas Escrituras eu faço distinção entre uma parte que é "judaísmo", e é sublime em sua espiritualidade, e outra que é "israelismo", inaceitável e violenta: devem ser tomadas distâncias dessas páginas. A Bíblia não é toda Palavra de Deus.

O senhor compara Jesus a outras figuras históricas que são "cristos" (Buda, Confúcio, Francisco de Assis, Etty Hillesum), que nos ajudam a compreender a realidade do transcendente. E conclui seu livro convidando-nos ao conceito de "neocristianismo".

Existem pessoas que se tornam "caminhos", "viáticos", que ajudam a transcender os interesses imediatos, a superfície, e nos colocam no caminho da transcendência: para elas, se pode usar o termo "ungido", Cristo. Como a Bíblia faz ao falar de Ciro, o rei dos persas, que não era judeu. Na minha visão, o "neocristianismo" é uma espiritualidade que não requer um evento histórico específico, mas sim leva o ser humano a compreender que, se mergulhar fundo dentro de si mesmo, abaixo de sua psique com todos os medos e sonhos que ali se encontram, vai achar uma plataforma que pode ser chamada de "consciência moral", que lhe permite tocar a eternidade. O neocristianismo é "faça o bem e viverá", porque Deus é amor, e assim se entra na lógica da eternidade.

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