16 Abril 2026
"O mérito mais importante desse ensaio. Desde o início da leitura, tem-se a impressão de que o livro foi escrito principalmente para expor o ponto de chegada a que o autor chegou após muitos anos de experiência existencial e de apaixonada pesquisa cristã, humana, cultural e, obviamente, teológica", escreve Franco Macchi, ensaísta e estudioso do Protestantismo, em artigo publicado por Riforma, 16-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
A apresentação que Ottavio di Grazia faz no nº 14 da Riforma (p. 17) sobre o exigente ensaio de Vito Mancuso, Gesù e Cristo, é interessante, mas, na minha opinião, não consegue focar claramente o cerne teológico que constitui a tese fundamental do livro em questão. Nas linhas finais de sua resenha, Di Grazia afirma que Mancuso merece crédito por deixar em aberto, mesmo depois de séculos, a resposta à pergunta crucial que Jesus dirigiu aos seus discípulos: "Mas, e vocês, quem dizem que eu sou?" (Mc 8,29). A pergunta certamente permanece em aberto, mas, na minha opinião, Mancuso oferece uma resposta precisa, e trairíamos sua honestidade intelectual se afirmássemos o contrário.
O Cristo em que se crê e que é proclamado pela fé cristã, sustenta Mancuso, não é o Jesus histórico de Nazaré.
Livro "Gesù e Cristo" de Vito Mancuso
A teologia cristã é uma invenção genial de Paulo de Tarso. Mancuso, utilizando com competência a vasta literatura crítica que se desenvolveu especialmente desde a segunda metade do século XIX sobre a questão do Cristo histórico e o Cristo da fé, destrói pela raiz todo o poderoso edifício teológico e eclesiológico que as igrejas cristãs construíram ao longo dos séculos sobre os pressupostos da pregação de Paulo de Tarso. O Jesus histórico foi um judeu convicto de ter a missão de anunciar a iminente vinda do reino de Deus, mas seu sonho, como o de tantas outras figuras utópicas ao longo da história, revelou-se perdedor e, dessa forma, terminou miseravelmente na cruz com ele. Assim, desmorona desde os alicerces todo o edifício da fé cristã, fundado em sua ressurreição. Mas: se Cristo não ressuscitou", escreveu Paulo, "vã é a vossa fé" (1Cor 15,17). E, para Mancuso, Jesus de Nazaré não ressuscitou, e dessa sua convicção ele extrai com coerência as seguintes conclusões:
"O cristianismo resulta triplamente infundado sob os seguintes aspectos: a) historicamente, porque Jesus não queria morrer; b) teologicamente, porque toda explicação do nexo entre sua morte e nossa salvação é inadequada; c) eticamente, porque considerá-lo 'instrumento de expiação' o priva de ser um fim em si mesmo, como prevê a dignidade de todo ser humano, e o coloca no nível dos instrumentos, tornando-o 'a vítima sacrificada para a nossa redenção' (p. 1011).
Falta de fundamento das verdades do cristianismo.
Feitas essas premissas, o autor explicita importantes consequências. Destacamos brevemente algumas delas, todas de fundamental importância.
A superação do monoteísmo judaico pela fé em um Deus trinitário é uma pura invenção da teologia cristã. Jesus não fundou nenhuma igreja estruturada nem encarregada de administrar a graça e, portanto, a salvação por meio dos sacramentos. Jesus não ensinou que a salvação acontece por livre escolha de Deus e, portanto, pela graça e pelo poder da fé, mas por ações decididas pela livre vontade humana. Mancuso também argumenta explicitamente que Jesus era um “pelagiano” ante litteram. Paulo de Tarso, não Jesus, ensinou a centralidade do pecado original, pelo qual toda a humanidade é intrinsecamente corrompida e incapaz de fazer o bem (hamartiocentrismo).
Infelizmente, essa concepção antropológica pessimista, acrescenta Mancuso, também favoreceu o enraizamento, no mundo cristão, de uma visão negativa tanto da criação quanto da existência humana, e de fato favoreceu também uma elaboração autoritária do poder político, incentivando o desengajamento social e a apoliticidade dos cidadãos. Lemos na página 729: “Embora a mensagem da vinda do reino de Deus seja potencialmente muito política, a mensagem da justificação pela fé é absolutamente apolítica”. É desejável um enxerto da universalidade paulina na ética do jesuísmo.
O jesuísmo, como Mancuso define a concepção religiosa que remonta ao Jesus histórico, e o cristianismo, a religião nascida de Paulo de Tarso, seriam então para Mancuso completamente inconciliáveis? Sim, mas é desejável que se faça um esforço para enriquecer a visão particularista e nacionalista típica do judaísmo, e, portanto, do próprio jesuísmo, enxertando nela a dimensão universalista desenvolvida por Paulo de Tarso. Vito Mancuso resume sua proposta assim: "Em outras palavras: do cristianismo trata-se de tomar a universalidade, do jesuísmo a ética. Seria lícito chamar essa perspectiva de neocristianismo?" (pp. 1013-14).
Em conclusão, o Jesus de Mancuso parece ecoar o Jesus homem, filósofo e mestre, de Karl Jaspers. Além disso, em 2013, Mancuso havia editado a publicação de um excerto da obra mais ampla do filósofo alemão, Os Grandes Filósofos (de 1957), com o título: K. Jaspers, Socrate, Buddha, Confucio, Gesù: Le personalità decisive (Fazi/Campo dei Fiori). Mas ainda mais significativo é o fato de que, em 2020, Mancuso tenha publicado o livro I quatro maestri, Socrate, Buddha, Confucio e Gesù pela editora Garzanti. De imediato chama a atenção como esse título parece ser quase uma cópia exata daquele do ensaio de Jaspers de 2013, de cuja publicação ele próprio foi curador.
O mérito mais importante desse ensaio. Desde o início da leitura, tem-se a impressão de que o livro foi escrito principalmente para expor o ponto de chegada a que o autor chegou após muitos anos de experiência existencial e de apaixonada pesquisa cristã, humana, cultural e, obviamente, teológica. Esse, na minha opinião, é o mérito mais relevante desse ensaio. Afinal, acredito que muitos leitores encontrarão analogias existenciais e problemáticas semelhantes às suas próprias experiências, mesmo que, obviamente, suas conclusões não tenham sido totalmente idênticas.
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