13 Janeiro 2026
A Settimana News já publicou uma reação lúcida e oportuna ao best-seller de Vito Mancuso, Gesù e Cristo (Garzanti, 2025), escrita por Andrea Grillo, em 1º de dezembro de 2025. Na sequência dessas observações focadas no conteúdo, esta contribuição do teólogo Marco Vergottini (cujo título, proposto pelo autor, é "Jesus é, ou não é, o Cristo. Uma escolha entre confiança e liberdade") aborda o texto a partir de uma perspectiva mais formal e metodológica.
O artigo é de Marco Vergottini, teólogo leigo, publicado por Settimana News, 13-01-2026.
Eis o artigo.
Uma coisa precisa ser dita desde já: Vito Mancuso é um mestre na formulação de títulos. Ele sabe como dar aos seus livros nomes que soam como declarações definitivas e um tanto ousadas (Io e Dio), fórmulas magnéticas (Il principio passione), prescrições existenciais (Questa vita, Non ti la manca mai la gioia). Até mesmo Gesù e Cristo (Garzanti, 2025) se encaixa perfeitamente nesta categoria. Nesse caso, é como se a capa dissesse: "Aqui você encontrará a solução".
Neste seu mais recente best-seller, o famoso estudioso declara seu desejo de desarmar um reflexo apologético: a ideia de que, partindo do Jesus histórico e passando pela ressurreição, pode-se chegar quase logicamente ao "Cristo do dogma".
"Gesú e Cristo", de Vito Mancuso (2025).
A intenção é compreensível: quando a fé se disfarça de demonstração, perde o seu significado e corre o risco de transformar a Páscoa num elo de uma cadeia causal, como se o evento decisivo do cristianismo pudesse ser atestado com as ferramentas da verificação experimental. A ressurreição — convém reafirmar — não é um evento "repetível", nem uma descoberta de laboratório. É um evento que ocorre dentro da história e, simultaneamente, a transcende: deixa vestígios (testemunhos, transformações, o nascimento de comunidades), mas exige interpretação e liberdade.
Mas é precisamente aqui que o livro tropeça, porque a crítica ao automatismo "pró-fé" parece ser substituída por um automatismo invertido. Para impedir que o Cristo da Igreja seja "deduzido" da história, Mancuso acaba por afirmar um critério seletivo em relação ao Jesus histórico e, com base nisso, sugerir uma ruptura estrutural entre Jesus e Cristo.
A distinção — legítima e necessária — entre história e fé transforma-se, assim, numa contradição: deixam de ser dois registros que dialogam sem se confundirem, tornando-se duas figuras e, na prática, duas religiões. Para contestar uma apologia dogmática, o autor apresenta uma contra-apologia (também dogmática!) equivalente e oposta: com a pretensão de concluir necessariamente aquilo que permanece, por sua própria natureza, uma realidade lógica e partilhável.
Em vez disso, é necessário defender — tanto para os chamados "crentes" quanto para os próprios "não crentes" — o verdadeiro espaço da fé, que não é nem irracionalidade nem dedução. Os crentes não podem "provar" a divindade de Cristo como um teorema: eles reconhecem, no testemunho da Páscoa, um "algo mais" que não contradiz a razão, mas que não é dedutível dela. Da mesma forma, os não crentes não podem recorrer a uma razão autossuficiente e apodítica capaz de demonstrar a impossibilidade da ressurreição: eles podem suspender o assentimento, propor interpretações alternativas, julgar as evidências insuficientes; mas não podem transformar essa suspensão em um veredito científico.
Mancuso reduz a fé cristã no Crucificado-Ressuscitado a uma ética inspirada e a um símbolo comunitário; enquanto a confissão cristológica acaba sendo descartada como uma superestrutura eclesial. É aqui que a proposta perde o equilíbrio: em vez de libertar a fé da apologética, acaba substituindo a fé por um critério prévio e a liberdade de crer/não crer por um veredito sobre o "verdadeiro" Jesus em oposição ao Cristo confessado.
Eis, então, a ambiguidade do livro em questão: quando, ao criticar a apologia católica, alguém afirma demonstrar que o Jesus da história não pode ser o Cristo da fé (ou que o Cristo da tradição eclesial é uma construção que trai Jesus), produz-se um dogmatismo diferente. Só é verdade aquilo que "eu" posso e quero entender!
É também surpreendente para os "especialistas" que, após mais de 700 páginas e uma extensa bibliografia, Mancuso deixe de mencionar algumas figuras-chave da teologia semirracional alemã do século XIX: Georg Hermes, Anton Günther e Jakob Frohschammer. Seria isso um simples descuido ou uma omissão significativa (um verdadeiro ato falho freudiano!), como se quisesse evitar uma genealogia intimamente ligada às próprias tensões entre razão e fé que o livro reativa?
Uma última objeção necessária. Uma publicação no Facebook atribuída a Vito Mancuso busca destacar uma suposta "inconsistência" do Cardeal Carlo Maria Martini, extraindo-a de uma página de Conversas Noturnas em Jerusalém, onde o prelado idoso confessa sua luta (teológico-espiritual) para compreender plenamente o significado do sacrifício do Filho e, ao mesmo tempo, nosso dever de morrer após sermos "salvos" por Sua Cruz.
Mas o uso que Mancuso faz do texto é metodologicamente falho. Não se pode isolar uma frase de um texto e analisá-la minuciosamente como se isso bastasse para definir a intenção e a obra do autor. Primeira regra hermenêutica: o fragmento é interpretado a partir do todo; a peça individual deve ser colocada e lida dentro do mosaico completo. E o "todo" de Martini é um continente: centenas de livros, milhares de contribuições, uma trajetória espiritual e teológica coerente, permeada por questões reais, não por contradições oportunistas.
Portanto, caro Vito, digo-te francamente e também com amizade: não transformes a sinceridade de um gigante da fé em acusação. As suas perguntas não são falhas: são profundidade mística. E assim, imploro-te: "Deixa o Cardeal Martini em paz!"
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