"Enquanto a Laudato Si’ convoca à construção de uma ecologia integral, que una justiça social e justiça ambiental, a ética de Santo Agostinho oferece os fundamentos filosófico-teológicos dessa integração: uma visão hierárquica e ordenada da realidade, onde o uso das coisas (uti) deve ser sempre orientado pelo amor verdadeiro (caritas) e pelo respeito à ordem da criação (ordo naturae)", escrevem Silmara Veiga de Souza Calestini Montemor e Maria da Penha Vasconcellos.
Silmara Veiga de Souza Calestini Montemor é mestre e doutora em direito ambiental internacional pela Universidade Católica de Santos. Advogada, membro da comissão do Clima da OAB-SP.
Maria da Penha Vasconcellos é professora Associada MS 5, Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Doutora e livre docente pela Universidade de São Paulo. Orientadora dos Programas de Pós-Graduação em Saúde Pública e em Ambiente, Saúde e Sustentabilidade, na Faculdade de Saúde Pública - USP. Membro da Associação Internacional de Ciências Sociais e Humanas em Língua Portuguesa- AILPCSH. Integrante do Programa Cidades Globais do Instituto de Estudos Avançados da USP.
“Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar que se dilata e se difunde… interroga todas essas realidades. Todas te respondem: contempla-nos, somos belas. Sua beleza é um testemunho. Estas belezas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo que não muda.” — Santo Agostinho, Sermão 241
Neste artigo articularemos a ética de Santo Agostinho, refletindo sobre a relação do ser humano com o mundo material e seu pensamento em que a natureza se constitui em expressão da criação.
Este artigo parte da hipótese de que a ética agostiniana, centrada na interioridade e na ordenação do amor (ordo amoris), oferece fundamentos antropológicos e uma visão profunda para a construção de uma nova racionalidade ecológica, especialmente quando colocada em diálogo com a proposta da encíclica Laudato Si’ e com os saberes dos povos e comunidades tradicionais do Brasil. A investigação busca demonstrar que a convergência entre esses três núcleos — a ética clássica de Santo Agostinho, a ecologia integral do Papa Francisco e as práticas territoriais dos povos da floresta — pode constituir um horizonte promissor para uma ética ambiental integral, teologicamente fundamentada e culturalmente enraizada.
A metodologia adotada é de natureza qualitativa, baseada em revisão bibliográfica de fontes primárias (como as obras de Agostinho e a Laudato Si’) e secundárias (pesquisas teológicas, jurídicas e filosóficas), além de elementos extraídos da tese de doutorado da autora, intitulada Povos e comunidades tradicionais do Brasil: aspectos sob o direito ambiental internacional [1]. Utiliza-se também o método hermenêutico para interpretar as categorias agostinianas em chave contemporânea, buscando sua relevância no contexto atual da crise socioambiental global.
A justificativa da pesquisa assenta-se na urgência de se repensar a ética ambiental a partir de uma análise mais profunda e integral, superando os limites das abordagens meramente técnicas e propondo uma visão do mundo que recoloque a Terra e tudo que nela habita, no centro da experiência religiosa, política e ecológica da Igreja contemporânea.
E estrutura-se o artigo dessa forma a fim de demonstrar numa linha de raciocínio que ao contrário do que se pode imaginar, o pensamento agostiniano não somente é convergente no sentido de uma transformação ecológica, como pode significar um estudo aprofundado de tais questões. Enquanto o Papa Francisco criou a encíclica Laudato Si baseado nos ensinamentos de Francisco de Assis, o padroeiro da ecologia; um Papa Agostiniano, ordem que se baseia num dos Doutores da Igreja, um teólogo, um filósofo, pode vir a estudar profundamente e buscar fundamentar tais questões. Enquanto o Papa Francisco trouxe os Princípios ordenadores da Ecologia na Laudato Si, o sucessor pode com suas bases organizar e sistematizar o pensamento, por exemplo, em uma futura bula.
O pensamento agostiniano aproxima-se do meio ambiente à medida que se fundamenta na ideia de que há um sentido último para todas as coisas, e que o ser humano deve orientar sua vida para esse fim último: Deus. A natureza, enquanto criação divina, não é um fim em si mesma, mas expressão do criador, e por isso deve ser respeitada e contemplada como sinal do transcendente. A ética, nesse sentido, se ancora em uma ordem natural superior, que aponta para a necessidade de domínio das paixões e de uso racional e responsável das coisas do mundo.
Podemos dizer que uma ética agostiniana aplicada ao meio ambiente poderia propor: moderação no uso dos recursos; renúncia ao consumo desordenado (domínio das paixões); e redirecionamento do olhar humano do materialismo para a transcendência.
Ao considerarmos o atual Papa — vindo da ordem agostiniana — ele poderá resgatar uma visão contemplativa da natureza, baseada não na dominação técnica, mas na reverência à criação (entendida como a Terra e tudo que nela habita), como manifestação do divino.
Assim, com a eleição de um novo Papa proveniente de tal ordem eclesiástica, renova-se na Igreja Católica a possibilidade de aprofundamento de uma ética que compreende o mundo não como fim, mas como sinal do transcendente. Nesse contexto, o pensamento de Santo Agostinho — estruturado na busca pela verdade, na centralidade de Deus e na ordenação dos afetos — oferece uma chave valiosa para repensar a relação entre humanidade e natureza.
Na visão agostiniana, a criação é expressão do Criador: deve ser contemplada com reverência, usada com moderação e jamais instrumentalizada de forma desordenada. Há, portanto, um chamado à interioridade ética que antecede qualquer política ambiental. Cuidar do mundo é, antes de tudo, ordenar o coração.
Este texto propõe resgatar, à luz da ética agostiniana, uma reflexão sobre o meio ambiente como campo ético e espiritual. Inspirado em fragmentos inéditos da pesquisa de doutorado em direito ambiental internacional que dialoga com filosofia e direito ambiental, o ensaio busca oferecer um prognóstico: o novo pontificado pode vir a incorporar, de modo mais profundo, uma espiritualidade ecológica enraizada nos valores da tradição cristã agostiniana — em sintonia com os clamores da “casa comum” e as urgências do nosso tempo.
Santo Agostinho concebe a realidade como um reflexo da ordem divina. Em sua ética, o bem maior é Deus, e todas as coisas devem ser ordenadas segundo esse fim último. A natureza, por ser criação, não existe para ser explorada sem medida, mas para ser usada com responsabilidade, moderação e contemplação.
O cuidado com o meio ambiente, portanto, nasce da necessidade de dominar as paixões, ordenar os desejos e reconhecer os limites do mundo material. Não se trata de idolatrar a Terra, mas de respeitá-la como sinal do Criador.
Em tempos de crise climática, a proposta agostiniana convida a humanidade a voltar-se para dentro: “Não queiras sair de ti; volta a ti mesmo: no homem interior habita a verdade” [2]. Esse convite à interioridade é também uma crítica ao consumismo, ao desperdício e à ilusão de controle sobre a natureza.
Seguindo nesse pensamento pode-se concluir que a crise ecológica que vivemos não é apenas técnica ou política — é, sobretudo, moral. Nasce da desordem dos afetos, da perda do sentido de limite, e da incapacidade de contemplar o mundo como dom. A ética agostiniana propõe, assim, um caminho de conversão interior: ordenar os desejos, dominar as paixões, superar o egoísmo e reencontrar o sentido de pertença à criação.
Esse olhar interior ressoa fortemente com a proposta da Laudato Si’, do Papa Francisco, que define o mundo como um “mistério alegre a ser contemplado com jubilosa gratidão” [3]. Inspirado por São Francisco de Assis, o Papa Francisco propôs uma ecologia integral, na qual fatores ambientais, sociais e espirituais estão entrelaçados. A ética agostiniana pode enriquecer essa proposta ao oferecer uma fundamentação teológica profunda: a natureza, enquanto obra do Criador, deve ser respeitada porque remete ao próprio Deus. Há, portanto, uma espiritualidade do uso moderado, do cuidado, da reverência.
Essa intuição ética encontra respaldo em estudos contemporâneos. Pesquisas recentes realizadas na China e nos Estados Unidos demonstram que a consciência ambiental é um fator decisivo para práticas de consumo mais sustentáveis e para a formação de políticas públicas eficazes.
Um estudo abrangente publicado na revista Land analisou dados do China General Social Survey (CGSS) de 2003, 2010 e 2021 para avaliar a evolução da consciência ambiental dos cidadãos chineses. Os resultados indicam um aumento significativo na consciência ambiental, especialmente em valores, conhecimento e preocupação ambiental. Esse aumento está correlacionado com comportamentos mais sustentáveis, como o consumo de produtos ecológicos e práticas de reciclagem. O estudo conclui que a consciência ambiental é um fator crucial para a melhoria do comportamento ambiental na China [4].
Outros estudos, especialmente em relação a impactos econômicos e modos de consumo, também demonstram que as preferências dos consumidores têm um papel vital na promoção de práticas agrícolas mais sustentáveis. Um estudo conduzido no Missouri, EUA, revelou que os consumidores estão dispostos a pagar um pouco mais caro por tomates cultivados com 50% menos pesticidas em comparação com os convencionais. Isso indica uma demanda crescente por produtos que equilibram preço e segurança, incentivando os produtores a adotarem práticas agrícolas mais sustentáveis [5].
Esses estudos reforçam a ideia de que mudanças significativas em direção à sustentabilidade não dependem apenas de políticas governamentais ou avanços tecnológicos, mas também de uma transformação na consciência coletiva. Quando os indivíduos reconhecem a importância de suas escolhas e ações, ou seja, quando há um aumento no nível de consciência dos indivíduos, há uma tendência natural à adoção de comportamentos mais responsáveis e sustentáveis.
E a ética agostiniana se conecta com tudo isso à medida que sustenta a reforma íntima do indivíduo, afirmando que a mudança começa dentro de cada um. Ou seja, não é só um discurso religioso ou moral, mas uma filosofia comprovada pela realidade social e econômica.
A crise ecológica que enfrentamos hoje não pode ser compreendida de forma isolada ou setorial. Como destacou o Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, estamos diante de uma única e complexa crise socioambiental, que exige uma transformação profunda das estruturas econômicas e culturais, mas também — e talvez sobretudo — uma conversão interior. Nessa chave, podemos traçar um rico paralelo entre a espiritualidade ecológica proposta pela Laudato Si’ e a ética agostiniana, fundada na ordenação dos afetos, no uso moderado dos bens e na centralidade do Bem Supremo.
Traçando um paralelo, — a verdadeira conversão ecológica — como propõe a Laudato Si’ — não será apenas técnica, mas espiritual, no que aqui preferimos dar o nome de uma mudança de nível de consciência dos indivíduos em relação ao meio.
E a ética agostiniana pode ajudar o novo Papa a reforçar essa dimensão contemplativa da criação. A encíclica Laudato Si’ trouxe uma espiritualidade ecológica inspirada em São Francisco de Assis, padroeiro da ecologia. Com um Papa agostiniano, essa espiritualidade pode ganhar contornos mais filosóficos e teológicos, centrados no conceito de ordem da criação, moderação no uso dos bens e respeito à hierarquia do ser.
Enquanto a Laudato Si’ convoca à construção de uma ecologia integral, que una justiça social e justiça ambiental, a ética de Santo Agostinho oferece os fundamentos filosófico-teológicos dessa integração: uma visão hierárquica e ordenada da realidade, onde o uso das coisas (uti) deve ser sempre orientado pelo amor verdadeiro (caritas) e pelo respeito à ordem da criação (ordo naturae).
E ao passo que Francisco de Assis aponta para a fraternidade universal com toda criatura, a ética agostiniana parte de um princípio fundamental: o bem supremo é Deus, e tudo o mais deve ser amado e utilizado em conformidade com essa ordem. Em sua obra De Doctrina Christiana, Agostinho distingue entre “fruir” (frui) e “usar” (uti): devemos fruir apenas de Deus, e usar com responsabilidade os bens da criação.
Agostinho nos ensina que apenas Deus pode ser plenamente fruído (frui); tudo o mais deve ser usado com responsabilidade e em função de um bem maior. Isso implica, no plano ecológico, uma ruptura com a lógica contemporânea do consumo ilimitado, do descarte e da idolatria do progresso. Para Agostinho, o uso desenfreado das criaturas sem a devida reverência ao Criador leva à desordem, ao sofrimento e à perda da liberdade interior. Essa crítica ressoa com a denúncia da Laudato Si’ à “globalização da indiferença” e ao modelo tecnocrático de desenvolvimento que transforma a natureza e o ser humano em objetos descartáveis.
Ao mesmo tempo, enquanto a ética franciscana presente na Laudato Si’ enfatiza a fraternidade cósmica, a ética agostiniana acrescenta um aspecto mais ontológico e introspectivo, voltado à interioridade como espaço sagrado de encontro com a verdade e de reconciliação com a criação. A ecologia, nesse olhar, não se resume a práticas sustentáveis, mas se enraíza na alma que contempla, ordena, ama e serve. Como afirma Francisco: “O mundo é mais que um problema a ser resolvido; é um mistério alegre que contemplamos com jubilosa gratidão” [6].
Assim, a eventual ascensão de um pontífice de perfil agostiniano pode enriquecer essa espiritualidade ecológica com novos contornos: menos pastorais e mais filosófico-teológicos, mais voltados à cura do desejo humano e à reintegração do ser humano na ordem divina da criação. Não se trata de abandonar a linguagem poética de São Francisco de Assis, mas de complementá-la com a linguagem rigorosa do discernimento ético e da moderação dos afetos.
Aplicada ao campo ambiental, isso implica um olhar cuidadoso e respeitoso para com a natureza — não como objeto de consumo desenfreado, mas como meio para alcançar uma vida boa, justa e espiritualmente orientada. Inclusive, o próprio conceito de desenvolvimento sustentável prega justamente isso, somos usuários dos bens ambientais, devendo preservá-los para as presentes e futuras gerações.
Essa convergência entre Agostinho e Francisco — entre interioridade e fraternidade, entre hierarquia do ser e igualdade de destino — aponta para um caminho promissor: o de uma espiritualidade ecológica integral, que acolhe tanto a contemplação silenciosa quanto a ação comprometida, tanto a mística da criação quanto a ética do cuidado concreto. É uma espiritualidade que também ecoa nas tradições dos povos originários e comunidades tradicionais, que, à sua maneira, praticam há séculos essa sabedoria do limite, da reverência e da comunhão com a Terra.
Diante do desafio ético da COP30 que será realizada neste ano de 2025 no mês de novembro na cidade de Belém do Pará, esse encontro entre duas grandes éticas — a franciscana e a agostiniana — pode representar um salto qualitativo na construção de uma nova racionalidade ambiental: uma que não apenas salva florestas e espécies, mas ressignifica o próprio modo de ser humano no mundo.
O novo pontificado pode, de fato, inaugurar uma virada ética mais interiorizada, capaz de responder às crises ambientais contemporâneas a partir de fundamentos antropológicos e teológicos mais profundos. Nesse sentido, a espiritualidade de Santo Agostinho oferece à Igreja uma herança ética que dialoga com a atualidade, especialmente quando associada às experiências concretas vividas pelos povos e comunidades tradicionais no Brasil.
A ascensão de um Papa imerso na tradição agostiniana pode representar mais do que uma continuidade pastoral: pode inaugurar um novo horizonte para a ética ambiental da Igreja, em diálogo com os clamores ecológicos do século XXI. Trata-se de uma oportunidade singular de articular a interioridade cristã com os saberes territoriais, unindo o rigor filosófico de Agostinho à espiritualidade encarnada dos povos tradicionais.
A ética agostiniana parte do princípio de que o amor deve ser ordenado: Deus deve ser fruído, as coisas devem ser usadas com prudência e moderação. A desordem moral e espiritual, para Agostinho, é fruto da inversão dessa lógica — quando as coisas são usadas como fins e o Criador é esquecido. Esse diagnóstico se mostra ainda mais atual diante da crise ecológica global, que revela uma civilização marcada pela idolatria do consumo, pela exploração ilimitada da natureza e pelo esvaziamento da dimensão contemplativa da existência.
Santo Agostinho propõe uma ética da interioridade ordenada, como explicado anteriormente, baseada na distinção entre frui (fruir de Deus) e uti (usar o mundo). Em sua visão, a criação deve ser usada com discernimento, e jamais adorada ou instrumentalizada. A degradação nasce, para Agostinho, de uma desordem dos afetos: quando o ser humano ama as coisas criadas mais do que o Criador, transforma o mundo em objeto de posse, e não de reverência.
Essa crítica agostiniana ao desvio afetivo — ou seja, ao uso desordenado das coisas — encontra eco na atual crise ecológica, marcada pela tecnocracia, pela mercantilização da natureza e pelo distanciamento espiritual. O novo Papa, imerso na tradição agostiniana, pode reforçar o valor do cuidado e da contemplação como atitudes essenciais à conversão ecológica proposta na Laudato Si’.
No centro desse colapso ético está o que a Laudato Si’ chama de paradigma tecnocrático — uma lógica instrumental que transforma tudo em recurso, inclusive a própria vida. Ao retomar a ética da interioridade agostiniana, o novo Papa poderia oferecer à Igreja um caminho de resposta não apenas pastoral, mas também ontológica: um retorno à ordem da criação como reflexo da sabedoria divina.
Mas essa espiritualidade necessita ser territorializada, enraizada em práticas concretas de cuidado e reciprocidade com a Terra. — e é aqui que entram os povos e comunidades tradicionais. Como demonstrado na tese de doutorado intitulada “Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil, aspectos sob o direito ambiental internacional”, esses povos mantêm uma relação simbiótica com os ecossistemas, onde o uso dos recursos está intrinsecamente ligado ao respeito, à ancestralidade e à sacralidade da terra. Eles vivem, cotidianamente, o que Agostinho chamou de ordenação do amor [7].
Essas comunidades vivem, na prática, geralmente, uma ética do limite, do pertencimento e da reverência. Seus modos de vida não se baseiam na acumulação, mas na circularidade, na escuta da terra e no reconhecimento do valor intrínseco de todos os seres.
O que equivale dizer, na prática, quilombolas, ribeirinhos, indígenas, caiçaras e extrativistas reconhecem a floresta não como mercadoria, mas como casa comum, fonte de vida e espaço de espiritualidade. Seus saberes tradicionais se alinham com a ética da interioridade contemplativa agostiniana, oferecendo à Igreja e ao mundo um modelo concreto de convivência sustentável e solidária com a Terra.
Há, portanto, uma ponte fecunda entre a interioridade agostiniana e a cosmologia dos povos da floresta. Ambos partem da consciência de que o mundo não é posse, mas dom. Ambos reconhecem que o uso dos bens deve estar subordinado ao bem maior. Ambos compreendem a criação como sinal do sagrado. É nessa intersecção entre teologia e ancestralidade, entre espiritualidade e ecologia, que se pode vislumbrar uma ética ambiental verdadeiramente integral.
Portanto, este novo horizonte para a ética ambiental global pode ser iluminado por um dueto poderoso:
• A interioridade ordenada (Agostinho)
• E a experiência viva da floresta (povos tradicionais)
Além disso, Agostinho e os povos tradicionais compartilham uma dimensão sapiencial da existência: vivem à luz da memória e da escuta. Agostinho fala da “memória do coração” como espaço de encontro com Deus; os povos da floresta mantêm viva a memória dos ancestrais como orientação para o futuro. Ambos desafiam a lógica imediatista e fragmentária da modernidade, propondo um tempo mais lento, mais profundo, mais conectado com o ritmo da criação.
A Igreja, ao reconhecer esses saberes, pode ampliar sua missão profética. Já não se trata apenas de proteger a natureza como bem comum, mas de escutar os povos que a habitam. Como destacou o Sínodo para a Amazônia (2019), é urgente uma conversão sinodal que coloque os saberes indígenas, ribeirinhos e quilombolas no centro do discernimento eclesial. O novo pontificado agostiniano tem, portanto, a chance de consolidar essa escuta como eixo ético de sua missão.
Por fim, essa convergência aponta para uma ética trinitária e cósmica: uma Igreja que contempla (Agostinho), que cuida (Francisco), que aprende com os territórios (os povos da floresta). Um novo horizonte ético e espiritual pode emergir dessa aliança: a de uma humanidade reconciliada com a criação e com o Criador, capaz de ordenar os afetos, restaurar os vínculos e celebrar a beleza do mundo como sacramento de Deus.
Essa convergência nos aponta para uma ética integral — filosófica, teológica e popular — capaz de resistir ao colapso ambiental não apenas com políticas e tecnologias, mas com uma nova visão de mundo, enraizada na justiça, na contemplação e na comunhão com a Terra.
O meio acadêmico é onde surgem e são debatidas livremente as ideias, em que não há nem o compromisso e nem o peso das ordens canônicas. Portanto, temos a liberdade e a leveza de propor, e até de usar a palavra sonhar, sim, porque a Igreja com seus milhões de fiéis ao redor do globo é motivo de inspiração, então sonhamos com uma bula ecológica estratégica no cenário atual.
Como esse texto poderá ser lido por pessoas leigas, importante diferenciar o que é uma encíclica do que é uma bula.
Encíclica é uma carta circular dirigida aos bispos e fiéis, tratando de temas doutrinários, morais, sociais ou pastorais; sua finalidade é doutrinária/pastoral, orientar, esclarecer ou aprofundar o ensinamento da Igreja sobre assuntos contemporâneos ou eternos da fé; público-alvo: bispos, fiéis; autoridade: alta, mas não necessariamente infalível (exceto se o Papa a declarar como parte do magistério infalível); selo papal: não; linguagem: teológica, acessível. Exemplos famosos: Rerum Novarum (Leão XIII, 1891) – sobre a questão social, Laudato Si’ (Francisco, 2015) – sobre o cuidado com a Casa Comum (meio ambiente).
Bula é um documento papal solene, com selo oficial (o bulla, de onde vem o nome), usado para atos jurídicos e administrativos de grande importância; sua finalidade é jurídica/administrativa solene, tratar de atos formais e oficiais; público-alvo: instituições eclesiásticas ou autoridades; autoridade: muito alta; selo papal: sim (selo de chumbo: bulla); linguagem: solene, jurídica e formal, começa com o nome do Papa seguido de “Episcopus Servus Servorum Dei” (“Bispo, servo dos servos de Deus”). Exemplo famoso: Inter Caetera (1493) – concedeu direitos de exploração à Coroa Espanhola nas Américas; Ineffabilis Deus (1854) – declarou o dogma da Imaculada Conceição.
Uma bula ambiental trazendo povos e comunidades tradicionais latino-americanos seria uma bula que também poderia ser compreendida no sentido de decolonização, pois significaria uma mudança radical de postura, uma espécie de revisionismo histórico de muitas coisas que foram feitas usando o nome de Deus, - seria um abraço fraterno aos indígenas, aos negros, aos povos e comunidades tradicionais.
Em nossa visão essa bula poderia ser continuidade com a Laudato Si'.
A encíclica Laudato Si’ (Papa Francisco, 2015) baseia-se no pensamento franciscano para promover uma ecologia integral, relacionando o cuidado com o meio ambiente ao cuidado com o ser humano, a justiça social e a espiritualidade. Ela é profundamente inspirada em São Francisco de Assis, que via toda a criação como irmã e expressão do amor divino. O tom é pastoral e educativo, voltado à conversão ecológica, com linguagem próxima e apelo universal.
Agora, imaginar uma bula papal como continuação e aprofundamento teológico-filosófico da Laudato Si, estruturada nos princípios de Santo Agostinho, traria um novo patamar à doutrina ecológica da Igreja: Agostinho traz uma teologia do interior e da ordem cósmica, que poderia sistematizar os princípios da criação e da relação entre humanidade e natureza em bases filosóficas, ontológicas e morais; Sua visão do tempo, da providência divina, da hierarquia do ser, do amor ordenado (ordo amoris), da interioridade e da comunhão com Deus por meio da criação poderia servir como fundamento profundo para a ecologia integral — menos como denúncia social e mais como síntese espiritual e metafísica.
A justificativa para fazer isso em formato de bula é que sendo um documento mais solene e estruturante, poderia, por exemplo: confirmar os princípios da Laudato Si' como parte do magistério ordinário da Igreja; elevar a doutrina ecológica a um nível de estrutura normativa, orientando pastoralmente a organização das dioceses, ordens e iniciativas ambientais católicas; criar diretrizes para políticas públicas inspiradas na fé cristã, como fez a Rerum Novarum com a Doutrina Social da Igreja.
Uma bula começa com “Episcopus, Servus Servorum Dei, (que significa aquele que serve os servos de Deus), depois das saudações vão se estruturando os capítulos. Nessa bula (por enquanto) inventada (existente somente no mundo da imaginação), teremos um capítulo “Os Povos da Terra e a Ecologia dos Relacionamentos”:
Santo Agostinho nos recorda que a verdadeira paz nasce da ordem do amor (tranquillitas ordinis). A ordem da criação não se limita à natureza em si, mas inclui a convivência humana justa, o reconhecimento da dignidade de cada povo, cultura e modo de vida.
Entre os mais fiéis guardiões da criação, estão os povos e comunidades tradicionais, cuja sabedoria milenar preserva ecossistemas, águas, florestas e modos de vida sustentáveis. São testemunhas de uma relação harmoniosa com a terra, marcada pelo respeito, pela escuta e pela ancestralidade.
A Igreja reconhece nesses povos um sinal profético, um chamado à humanidade para reencontrar o equilíbrio perdido.
“Os bens criados devem beneficiar a todos; a terra é de todos” – (cf. Laudato Si’, 93).
O desrespeito a esses povos é também pecado contra a Criação.
E essa bula vai além, ela também dita “O Clima como Dom e Responsabilidade”:
O clima, expressão do equilíbrio dinâmico da terra, é dom precioso e frágil. Santo Agostinho, ao refletir sobre a Criação em De Genesi ad Litteram, reconhecia a harmonia dos elementos como fruto da ação divina. Romper essa harmonia é ofensa contra o Criador.
O descontrole climático é, hoje, consequência da ganância e da idolatria do lucro. As secas, enchentes, queimadas e deslocamentos forçados não são apenas fatos naturais — são feridas morais provocadas por um modelo civilizatório desordenado.
Clamar por justiça climática é clamar por conversão. E tal conversão, como já dissemos, começa no coração e se ordena pelo amor justo.
E finalizaria desse modo:
O caminho da salvação passa hoje também pela conversão ecológica e relacional. Amar a Deus é amar sua Criação; amar sua Criação é defender os mais vulneráveis, os esquecidos, os povos cuja vida clama justiça desde o chão da floresta, das águas e dos cerrados.
Que a voz de Agostinho e o clamor da terra se unam num só chamado: “Ama e faze o que quiseres” — porque o verdadeiro amor ordenado não destrói, mas cuida, protege e restaura.
Conclusão
Diante da crise ambiental que atravessa não apenas os ecossistemas, mas também a interioridade humana, torna-se evidente que soluções exclusivamente técnicas ou econômicas são insuficientes. O colapso ambiental é, antes de tudo, expressão de um colapso ético e espiritual, de uma desordem nos afetos, nos desejos e nas formas de habitar o mundo.
Trata-se de uma emergência ecológica global, em que a tradição agostiniana pode oferecer uma contribuição singular: o chamado à reforma interior do indivíduo como caminho para uma nova relação com a Terra. Um novo Papa agostiniano tem, diante de si, o desafio de articular o legado dos Padres da Igreja com os clamores da contemporaneidade.
Mais do que uma coincidência, essa conexão entre ética agostiniana e crise ambiental trata-se de convergência histórica com potencial transformador, uma oportunidade teológica: de olhar para a criação com reverência, de ordenar os afetos com sabedoria e de agir com responsabilidade sobre o destino do planeta.
Sob essa perspectiva, um Papa agostiniano poderá reforçar dimensões essenciais da ecologia integral: a prudência, a moderação, a interioridade ética e a crítica ao materialismo técnico. Em um mundo dilacerado pela exploração ambiental e pela indiferença moral, essa visão pode atuar como contraponto — convocando fiéis e não fiéis a um novo estilo de vida, centrado na humildade, na gratidão e na responsabilidade.
A ética agostiniana, ao propor uma ordenação do amor (ordo amoris), conceito que é espinha dorsal da ética de Agostinho, oferece uma chave poderosa para repensarmos o lugar do ser humano na criação. Sua distinção entre fruir e usar — entre o que deve ser amado por si mesmo e o que deve ser utilizado com prudência — resgata um princípio fundamental para a construção de uma nova relação com a natureza: a consciência de que o mundo não nos pertence como senhores, mas nos é confiado como meio e sinal de transcendência.
Além disso, a ética agostiniana dialoga com os princípios da justiça ambiental. Santo Agostinho reconhecia, já em seu tempo, a desigualdade estrutural e a necessidade de compaixão ativa com os mais vulneráveis. No cenário atual, os que mais sofrem com as mudanças climáticas são os menos responsáveis por elas. Povos tradicionais, comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas são atingidos em sua integridade ecológica e cultural. O reconhecimento de seus direitos — como demonstrado na tese de doutorado “Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil: aspectos sob o Direito Ambiental Internacional” — é não apenas um dever jurídico, mas um imperativo ético [8].
Essa perspectiva dialoga intensamente com a proposta da Laudato Si’, que convoca todos a uma conversão ecológica integral, capaz de reordenar nossas prioridades, redefinir o progresso e resgatar a espiritualidade como dimensão constitutiva da sustentabilidade. O encontro entre Agostinho e Francisco — entre a interioridade filosófico-teológica e a fraternidade cósmica — revela a potência de um caminho para além da modernidade técnica, em que a justiça ecológica emerge como expressão da justiça divina e social.
Nesse sentido, a eventual eleição de um Papa de formação agostiniana pode representar não uma ruptura, mas um aprofundamento da visão ecológica iniciada com Francisco. Seria a possibilidade de um novo olhar, não apenas pastoral, mas ontológico e contemplativo, sobre o drama ambiental que vivemos.
Portanto, este novo texto se propõe como um prognóstico espiritual: o novo pontificado poderá não apenas continuar os passos da Laudato Si’, mas também ampliar sua profundidade através de uma ética agostiniana da criação. Uma ética que reconhece na natureza um espelho da ordem divina, e que vê no cuidado com a Terra um ato de reverência ao Criador.
Por fim, essa reflexão não se encerra em si mesma, mas aponta para um horizonte de síntese entre tradição e atualidade, fé e razão, espiritualidade e política. Uma síntese que já é vivida, de forma encarnada e silenciosa, por inúmeros povos tradicionais que — como Agostinho — sabem que a verdade não está fora, mas no fundo da alma. E que a Terra, só se revela plenamente àqueles que a contemplam com amor, humildade e reverência.
Como escreveu Agostinho, “tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova”. Talvez ainda haja tempo — se formos capazes de reencontrar, na interioridade e na contemplação, o amor pela beleza da Terra que nos sustenta.
[1] MONTEMOR, Silmara Veiga de Souza Calestini. Povos e comunidades tradicionais do Brasil: aspectos sob o direito ambiental internacional. Tese (Doutorado em Direito Ambiental Internacional) – Universidade Católica de Santos, 2019.
[2] Agostinho de Hipona. De vera religione, p. 39.
[3] Francisco, Laudato Si, 2015, p. 82.
[4] ZHANG, Jinrong; XUE, Caixia; HOU Guangjian. The Impact of Chinese Public Environmental Awareness on Environmental Behavior: An Analysis Based on China National Surveys in 2003, 2010 and 2021. College of Economics and Management, Northwest A&F University, Yangling 712100, China. Land 2024, 13(9), 1418; https://doi.org/10.3390/land13091418, Set 2024. Disponível aqui. Acesso em 28 mai 2025.
[5] TRAN, Lan; MCCANN, Laura; SU, Ye. Consumer preferences for produce grown with reduced pesticides: a choice experiment in Missouri. Published online by Cambridge University Press: 01 December 2023. Disponível aqui. Acesso em 28 mai 2025.
[6] Francisco, Laudato Si, 2015, p. 84.
[7] 7 MONTEMOR, Silmara Veiga de Souza Calestini. Povos e comunidades tradicionais do Brasil: aspectos sob o direito ambiental internacional. Op. cit.
[8] 8 MONTEMOR, Silmara Veiga de Souza Calestini. Povos e comunidades tradicionais do Brasil: aspectos sob o direito ambiental internacional. Op. cit.
AGOSTINHO. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Paulus, 1997.
AGOSTINHO. De vera religione.
FRANCISCO. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulus, 2015.
MONTEMOR, Silmara Veiga de Souza Calestini. Povos e comunidades tradicionais do Brasil: aspectos sob o direito ambiental internacional. Tese (Doutorado em Direito Ambiental Internacional) – Universidade Católica de Santos, 2019.
TRAN, Lan; MCCANN, Laura; SU, Ye. Consumer preferences for produce grown with reduced pesticides: a choice experiment in Missouri. Published online by Cambridge University Press: 01 December 2023. Disponível aqui. Acesso em 28 mai 2025.
ZHANG, Jinrong; XUE, Caixia; HOU Guangjian. The Impact of Chinese Public Environmental Awareness on Environmental Behavior: An Analysis Based on China National Surveys in 2003, 2010 and 2021. College of Economics and Management, Northwest A&F University, Yangling 712100, China. Land 2024, 13(9), 1418. Disponível aqui. Acesso em 28 mai 2025.