06 Mai 2026
O Cardeal Gerhard Ludwig Müller, teólogo e editor das obras completas de Joseph Ratzinger (Bento XVI o escolheu como prefeito da Doutrina da Fé), é uma voz muito respeitada no catolicismo conservador dos Estados Unidos. No entanto, quando Trump atacou Leão XIV, ele foi claro: "Ele se considera onipotente, mas só Deus é".
O cardeal alemão também tende a quebrar paradigmas; por exemplo, foi um grande amigo de Gustavo Gutiérrez, o frade dominicano considerado o "pai" da Teologia da Libertação. E ele se mostra sereno em relação a Francisco: "Sim, houve algumas questões controversas, mas em questões de vida e doutrina social, e sobre as guerras, ele agiu muito bem. Como Leão XIV: o Papa testemunha a mensagem de Cristo e só pode pregar a paz entre os povos".
A entrevista é de Gian Guido Vecchi, publicada por Corriere della Sera, 05-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Falar isso poderia ser arriscado para ele; eu não gostaria que Trump se irritasse. Tenho a impressão de que ele é muito ciumento, além de imprevisível...
Como assim, Eminência?
Bem, neste momento Marco Rubio é sem dúvida o interlocutor mais confiável para a Santa Sé.
Como vê a audiência do secretário de Estado americano no Vaticano, a perspectiva de um encontro na quinta-feira com o Cardeal Parolin e o próprio Papa Leão XIV?
Acho que, simplesmente, eles não têm alternativas. Os Estados Unidos não podem ser contra o Papa e o Vaticano; um compromisso é necessário. É também uma questão de prudência; há mais de cinquenta milhões de católicos nos EUA que certamente não devem ter apreciado os ataques ao Papa. Os políticos precisam ser mais diplomáticos, mais razoáveis. Mas não é só isso...
O que mais?
Trump teve uma reação, digamos, emotiva, mas agora deveria olhar as coisas de forma mais racional. A posição da Igreja é muito clara ao relembrar os valores superiores da paz, acima e além da política. Certamente, os Estados Unidos são uma grande democracia e uma potência militar, e podem sentir que têm um papel a desempenhar pela paz, a responsabilidade em conter regimes autoritários e perigosos. Mas os fins não justificam todos os meios.
Leão XIV e a Santa Sé apelam ao diálogo, ao multilateralismo...
Um grande Estado democrático deve se mover dentro de um horizonte que respeite os princípios humanos universais; tem uma responsabilidade ética. Especialmente aqueles que se consideram cristãos, mas não só, devem se precaver contra uma política fechada em si mesma e se abrir para uma perspectiva humanista, para uma política do humanismo. É preciso encontrar uma maneira de superar esses conflitos. Caso contrário, de guerra em guerra, corre-se o risco de chegar a um terceiro conflito mundial.
Francisco já alertava sobre os perigos de uma "terceira guerra mundial aos pedaços". Ele estava certo?
Claro que estava certo. No mundo globalizado, todo conflito faz parte de outro conflito; estão todos interligados. Vivemos uma situação semelhante à que precedeu a Primeira Guerra Mundial. Ninguém queria um conflito mundial até que se tornou inevitável.
Nos EUA, existem cristãos evangélicos que invocam a proteção divina sobre as guerras.
Desenvolveram-se correntes muito diferentes do protestantismo europeu. Algumas dessas seitas têm ume viés fanático.
Instrumentalizam a religião?
Pior: instrumentalizam a política em vantagem de sua visão religiosa. Usam o Estado para afirmar as suas ideias teológicas, como nas teocracias. E isso é muito pior: abusar do nome de Deus para impor suas próprias teorias. Chegam até mesmo ao ponto de rezar pela guerra, quando um cristão deveria rezar para que ela termine, para que as pessoas parem de morrer.
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