28 Julho 2026
"Se se deve fazer memória, com gratidão, do caminho percorrido, não se pode perder a inquietude e a ousadia necessárias. Ser marginal e abraçar a marginalidade. A Igreja diante das ameaças, alegrias e desafios enfrentados na querida Amazônia, é chamada pelo Deus que se fez Marginal a ser cada vez mais uma Igreja que não teme as margens, tampouco os marginalizados. Uma Igreja que se faz presença nas ribeiras e igarapés, nas aldeias indígenas e nos assentamentos rurais, nas periferias das grandes cidades e nos interiores profundos. Uma Igreja de muitas línguas, rostos e culturas, que dialoga e vivencia a profecia do Bem Viver".
O artigo é de Gabriel dos Anjos Vilardi, jesuíta, mestre em Direito pela Unisinos, bacharel em Direito pela PUC-SP e em Filosofia pela FAJE. É autor do livro Os Povos Indígenas e a defesa da Natureza como titular de direitos na Constituição Federal: uma análise descolonial a partir de Ellacuria.
Eis o artigo.
Introdução
Em tempos de um cristianismo que flerta com o desejo de uma neocristandade triunfante, com uma atração fetichista pelo latim e por vestes litúrgicas espalhafatosas que reafirmam o poder principesco, retomar a essência do Evangelho nunca foi tão fundamental. Como muitas comunidades cristãs localizadas na Ásia, a Igreja da Amazônia compartilha a experiência de ser um pequeno rebanho (Lc 12, 32). Uma Igreja que em razão das circunstâncias geográficas, culturais e políticas se encontra dispersa entre rios e distâncias, buscando viver o desafio de ser uma Comunidade das Margens.
Há muito se diz que na Amazônia há uma Igreja das Fronteiras. Mas as fronteiras parecem distantes e exóticas demais, necessitadas de uma salvação daquele que vem de fora. A tentação de olhar para a região como uma fronteira é querer conquistá-la, dominá-la e transformá-la segundo os padrões e ideias dos centros de poder econômico, político e religioso. É preciso abandonar essa concepção de fronteira para assumir a vocação de ser uma Igreja das Margens.
As Margens, no plural – porque plurais são as periferias –, são um lugar teológico por excelência. Em meio ao desmatamento e as queimadas, à grilagem de terras e ao grande latifúndio, ao garimpo ilegal e à devastação da Casa Comum na querida Amazônia, o Deus de Jesus Cristo não se faz indiferente. Ele se faz Marginalidade pura.
Como não poderia deixar de ser, também a sua Igreja – como um sinal visível do seu compromisso com seu Povo – e ciente de suas muitas fragilidades, tem procurado se fazer tenda, maloca, barraco, tapiri, palafita, barco-casa ali aonde se alegram e sofrem, lutam e são perseguidos, celebram e resistem os herdeiros do povo da Terra Prometida, guardiões de uma imensa riqueza biológica e sociocultural.
Diariamente, leem-se notícias sobre as muitas violações de direitos que ocorrem no território amazônico, em razão da ausência ou da própria ação do Estado. Ter presente essa injusta realidade de marginalização de povos e comunidades inteiras, mais do que uma opção, é dever de todo cristão e cristã. Se essa marginalidade é fruto do pecado social e individual de muitos – e de um sistema econômico –, há uma Marginalidade que salva e precisa ser assumida. Quais dons a Igreja pode e deve partilhar desde as margens amazônicas?
O desafio de ser uma Igreja das Margens passa por assumir três chamados feitos pelo Senhor das Margens: o chamado à santidade marginal; o chamado ao diálogo social e à cultura do encontro, sob uma ótica marginal; e, por fim, o chamado à missão profética sempre mais em direção às margens. Antes de se debruçar sobre esses chamados, as tentativas de resposta e as tensões vividas, impõe-se abordar dois preâmbulos primordiais. Trata-se de considerar o mistério da marginalização (ou da encarnação) em uma história marginal, tecida por seguidores de Jesus marginais e marginalizados.
Um Deus que se marginaliza em Jesus
Em uma Igreja que não teme se reconhecer marginal, “não nos envergonhamos de Jesus Cristo”. O Cristo que não só aponta para a Amazônia, como dizia São Paulo VI, mas que se encarna nesse chão multicultural. Afinal, “para quantos O encontraram, vivem na sua amizade e se identificam com a sua mensagem, é inevitável falar d’Ele e levar aos outros a sua proposta de vida nova: ‘Ai de mim, se eu não evangelizar!’ (1 Cor 9, 16)” (Querida Amazônia, 2020, nº 62). Uma evangelização que não corresponde a pregações moralistas, discursos apologéticos e atos de piedade esvaziados – muitas vezes com o risco de se esgotarem em si próprios –, mas sim uma evangelização que compromete o ser humano, na sua integralidade, a buscar viver a profecia do Reino.
“Ali onde a humanidade corre o perigo de perder a sua identidade, nós, cristãos, erguemos os olhos para o Deus feito carne, sabendo que ‘o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente’” (Magnifica Humanitas, 2026, nº 1). Nesse sentido, já apontava o filósofo jesuíta Padre Henrique Cláudio Lima Vaz, em texto de 1968 (p. 20), que “é preciso não esquecer que a Fé é um ato do homem sob o influxo de uma graça que o não aliena, mas o realiza”. Trata-se de um dos fundamentos da fé cristã, o mistério da Encarnação.
Essa verdade de fé se concretiza sob a ótica de uma kenosis, ou esvaziamento, que se despoja de todo o poder para assumir a simplicidade e a fragilidade das criaturas. Um marginalizar-se que é permanente e vai se aprofundando ao longo da vida de Jesus. Depois da multiplicação dos pães e sem compreender, as multidões querem fazê-Lo rei. Mas Ele rejeita tal possibilidade e se apressa em mandar os discípulos para a outra margem. Muito provavelmente porque sabia que seriam os primeiros a ceder diante dessa tentação (Mt 14, 22).
Por se importar profundamente com o mundo criado, Deus se faz proximidade radical! Ao deixar o seio da Trindade, comunhão de amor, Ele se marginaliza em direção a uma Criação marginalizada. E ao fazê-Lo, marginalizando-se por amor, Ele se identifica com os marginalizados e os oprimidos que habitam as beiras desse mundo. Mas não só, Jesus, o Senhor das Margens, ao salvar a todos a partir daí, santifica e redime as próprias margens.
Uma história marginal de mártires e comunidades marginais
Para ser uma Igreja que avança entre rios e distâncias, é imprescindível ter um porto de partida. Afinal, como o cristianismo é uma experiência de um Deus que se revela na história e, especialmente, nas margens dessa história, também a Igreja da Amazônia tem uma longa caminhada. Uma caminhada tecida por cristãos e cristãs generosos que formaram as Comunidades Eclesiais baseadas nas Margens e levaram sua vocação até o extremo do martírio.
Tal tradição frutuosa foi encarnada e fortalecida pelo sangue dos mártires. Homens e mulheres que, por amor ao Deus Marginal, identificaram-se com os marginalizados desta terra. Profetas e profetisas, comprometidos com a Boa Notícia que ecoa das Margens. A radicalidade de suas vidas e a fidelidade deles ao Evangelho do Reino são exemplos de que seguir o Deus Marginal leva à marginalização e a um conflito inevitável.
Padre Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo, Padre João Bosco Burnier (1976), Marçal de Souza Tupã-y (1983), Irmã Cleusa Rody, Padre Ezequiel Ramin (1985), Padre Josimo Tavares (1986), Irmão Vicente Cañas (1987), Chico Mendes (1988), Irmã Dorothy Stang (2005), Zé Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo (2011). E tantos outros e outras mais que ousaram dizer não ao anti-Reino e sim ao Deus dos oprimidos. Suas histórias são outros evangelhos encarnados e convites para assumir “as margens nossas de cada dia”. Nesse sentido destacou o papa das periferias:
“As comunidades de base, sempre que souberam integrar a defesa dos direitos sociais com o anúncio missionário e a espiritualidade, foram verdadeiras experiências de sinodalidade no caminho evangelizador da Igreja na Amazônia. Muitas vezes ‘têm ajudado a formar cristãos comprometidos com a sua fé, discípulos e missionários do Senhor, como o testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos dos seus membros’” (Querida Amazônia, 2020, nº 96).
Hoje corre-se o risco de negligenciar esse inestimável tesouro, permitindo que seja engavetado nas brumas do esquecimento entorpecedor. Muitos jovens presbíteros, religiosos e leigos possuem como referenciais figuras midiáticas de padres-celebridade e influenciadores digitais católicos – exemplos de um seguimento espiritualista e desconectado do cristianismo das margens. Recuperar e manter viva essa memória incômoda torna-se um chamado para cada um dos cristãos que percorrem essas paragens amazônicas.
Chamado à santidade marginal
Ser uma Igreja das Margens é buscar responder ao chamado à santidade, com a liberdade suficiente, que permita “nascer testemunhos de santidade com rosto amazônico, que não sejam cópias de modelos doutros lugares, santidade feita de encontro e dedicação, de contemplação e serviço, de solidão acolhedora e vida comum, de jubilosa sobriedade e luta pela justiça”. Por isso a interpelação que deve questionar a cada batizado e batizada que navega por esses dias e percorre essas distâncias: se é mesmo capaz de imaginar “uma santidade com traços amazônicos, chamada a interpelar a Igreja universal” (Querida Amazônia, 2020, nº 77)?
Ou apenas se pretende seguir pelos caminhos já gastos e mais fáceis, que passam pela repetição estéril de modelos e respostas, muitas vezes, inapropriadas para as realidades locais? Se as tecnologias muito podem ajudar na evangelização, não se pode negar que também oferecem riscos. Um deles é a difusão massiva de padrões exógenos e estranhos a uma fé encarnada nas comunidades eclesiais locais. Quantos presbíteros e lideranças eclesiais são influenciados e querem reproduzir celebrações suntuosas transmitidas pelas TVs de inspiração católica, engessando uma celebração que poderia ser orante e com elementos inculturados?
Mais do que Roma, Aparecida, Trindade ou Cachoeira Paulista, o Deus de Jesus se faz carne e presença concreta em meio a um povo que por muito tempo foi estigmatizado e objetificado em nome dos falsos ídolos do progresso e do desenvolvimento. Um Deus dos Últimos que jamais se esqueceu de ninguém e de nenhum lugar por mais longínquo que seja, nem mesmo das comunidades indígenas e das ribeiras dos rios, das pequenas vilas e das periferias dos grandes centros urbanos, das comunidades tradicionais e dos muitos migrantes que habitam esse território pluridiverso. Um Deus que não teme a diversidade.
Por isso, para alimentar essa santidade amazônica é preciso vivenciar uma espiritualidade inculturada. Ou seja, “uma espiritualidade centrada no único Deus e Senhor, mas ao mesmo tempo capaz de entrar em contato com as necessidades diárias das pessoas que procuram uma vida digna” (Querida Amazônia, 2020, nº 80). Uma vivência que jamais pode ignorar ou sufocar a imensa riqueza das culturas locais, sejam elas indígenas, ribeirinhas ou urbanas.
Há que se atentar ao risco de uma espiritualidade importada, desencarnada e palatável ao gosto de “fieis-consumidores”. Muito comum em alguns círculos e movimentos, deve-se rejeitar uma espiritualidade-sonífero ou uma espiritualidade-narcótico, em que se adormecem consciências e aplacam necessidades egoístas e desordenadas. Para Santo Inácio de Loyola, tais “afetos desordenados” precisam ser identificados e encarados diante de um Deus que nos trata como adultos responsáveis, jamais como crianças mimadas que exigem ser satisfeitas.
A Palavra que vem das Margens questiona, desconcerta, convoca. E muitas vezes não aponta soluções óbvias, mas desafia a ir além do conhecido e compreendido. Como pontua o papa estadunidense que foi missionário no Peru por vinte anos, “a história é um dos lugares onde a Igreja se deixa instruir pelo Espírito Santo sobre a índole humanizante do Evangelho e aprende a ajustar o seu ensinamento ao serviço da dignidade de cada pessoa e do bem dos povos.” (Magnifica Humanitas, 2026, nº 22).
Por causa de uma marginalidade que abre espaço para o não-dado, a Igreja da Amazônia tem muito a testemunhar sobre o que tem aprendido com seus muitos sujeitos e culturas ao longo dos séculos. Com esse fim, é preciso manter tal tensão viva, para que não se feche em certezas opressoras que desconsideram as singularidades desse ethos único e cheio de vida.
Chamado ao diálogo social e à cultura do encontro marginal
“A Amazônia deveria ser também um local de diálogo social”, destaca o Papa Francisco, “especialmente entre os diferentes povos nativos, para encontrar formas de comunhão e luta conjunta”. “Os demais, somos chamados a participar como ‘convidados’, procurando com o máximo respeito encontrar vias de encontro que enriqueçam a Amazônia” – como convidados, não como mestres, vale destacar. O Papa latino-americano coloca o critério central: “se queremos dialogar, devemos começar pelos últimos” (Querida Amazônia, 2020, nº 26).
Uma Igreja dialogante não pode jamais estar encerrada nas sacristias, muito menos preocupada com números – seja dos seus membros ou dos seus recursos financeiros –, mas deve ser uma Igreja que não teme se expor às intempéries do caminho. Afinal, as tempestades e os banzeiros fazem parte da navegação. Uma Igreja que não cai na tentação de uma fé intimista e alienante, mas que se engaja nos limites geográficos e existenciais, onde ninguém valoriza ou sequer chega.
Para ser uma Igreja do diálogo é preciso saber ouvir com real e profunda abertura, não chegar com verdades pré-concebidas e desconexas com as complexidades das experiências particulares. Nesse sentido, sublinha o Papa argentino que “a realidade é superior à ideia” (Evangelii Gaudium, 2013, nº 233). De outra forma, nunca é demais lembrar que o seguimento de Jesus não consiste simplesmente em repetir os conceitos e as regras do Catecismo e do Código de Direito Canônico, como se fossem um manual de sobrevivência. O discipulado do Mestre Marginal passa pelo duplo movimento: em direção à relação profunda com Ele e, concomitantemente a esse amor transformador, ao serviço amoroso do próximo marginalizado.
Uma intuição confirmada pelo Papa Leão, ao afirmar ser o diálogo “parte integrante da vocação da Igreja, pois ela, constituída ‘em Cristo, é como que o sacramento […] da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano’, reconhece a história como o lugar onde o Evangelho interpela e acompanha a experiência humana” (Magnifica Humanitas, 2026, nº 2). Uma Igreja aberta ao diálogo com todos, mas que possui interlocutores preferenciais (os marginais), que jamais podem ser tratados como espectadores ou coadjuvantes. Assim pontua o Papa que insistiu na Igreja para “todos, todos, todos”:
“O diálogo não se deve limitar a privilegiar a opção preferencial pela defesa dos pobres, marginalizados e excluídos, mas há de também respeitá-los como protagonistas. Trata-se de reconhecer o outro e apreciá-lo ‘como outro’, com a sua sensibilidade, as suas opções mais íntimas, o seu modo de viver e trabalhar. Caso contrário, o resultado será, como sempre, ‘um projeto de poucos para poucos’, quando não ‘um consenso de escritório ou uma paz efêmera para uma minoria feliz’. Se tal acontecer, ‘é necessária uma voz profética’ e, como cristãos, somos chamados a fazê-la ouvir” (Querida Amazônia, 2020, nº 27).
Antes de ser um lugar da amizade social – tão bem trabalhado pela Fratelli Tutti –, resultado natural do diálogo apontado pelo pontífice, a Amazônia tem sido constantemente minada e posta sob destrutivas ameaças de mais do que inimizade, do ódio biossocial. Sem se reconhecerem como convidados da mesa do banquete do Reino, oferecido pela generosidade amazônica, muitos portam-se como verdadeiros intrusos e saqueadores dos dons da sociobiodiversidade oferecidos pelo Deus que habita nas ribeiras dos rios.
A Igreja das Margens não pode jamais silenciar diante do pecado ecológico e dos ataques cometidos contra as comunidades indígenas e demais comunidades tradicionais. Uma Igreja que não se isenta de participar das discussões políticas que afetam o cotidiano de seus membros e que sabe nomear os projetos de morte que atentam contra a vida dos amigos prediletos do Senhor Marginal.
“O Evangelho propõe a caridade divina que brota do Coração de Cristo e gera uma busca da justiça que é inseparavelmente um canto de fraternidade e solidariedade, um estímulo à cultura do encontro”, sublinha a Querida Amazônia. Não uma cultura fundada na competição falsamente meritocrática e no insaciável lucro concentrador de riquezas. “A sabedoria do estilo de vida dos povos nativos – mesmo com todos os limites que possa ter – estimula-nos a aprofundar tal anseio” (Querida Amazônia, 2020, nº 22), o de uma cultura da maloca. Espaço privilegiado para a reunião da comunidade, escuta profunda do outro e tomada de decisões coletivas em vista do bem comum.
Na maloca do encontro sempre há espaço para mais um e os convidados de fora da comunidade são recebidos com hospitalidade. É nesse locus que o tempo ganha outra dimensão, para além dos prazos e a aceleração cronológica de uma sociedade apressada e exausta. No Kairós da maloca, o ritmo do Bem Viver é outro, permeado por longos silêncios e esperas que consideram as necessidades que não são escravas do capital.
Ali também acontecem as festas e as celebrações de um povo que sabe cantar e dançar suas vitórias e derrotas, seus encantos e frustrações, suas tradições e sua fé. Os dons e frutos da terra são partilhados entre todos, com generosidade e sem cálculos mesquinhos de uma cultura acumuladora. Na cultura do encontro amazônico, os espaços comuns são abundantes, e os encontros também se dão nos igarapés e praias, nas praças e parques, nas canoas e barcos. E assim na marginalidade do tempo ocidental de uma sociedade do cansaço, a Igreja das Margens na Amazônia pode testemunhar, a partir de seus povos, que a Palavra se encarna nos múltiplos encontros do Bem Viver.
Chamado à missão profética em direção às margens
É preciso ter muita clareza de que não será o modelo extrativista, devorador do Bem Viver, que promoverá qualquer tipo de prosperidade econômica na região. Renunciar ao mito de desenvolvimento que destrói a Natureza e afeta os modos de vida tradicionais dos povos locais impõe-se como uma necessidade inadiável. Trabalhar para formar consciências e ajudar as comunidades a ler criticamente a realidade faz parte do terceiro chamado da Igreja da Amazônia, que encarna a sua marginalidade mais radical: o chamado à missão profética.
Responder a esse chamado exige sair da letargia e do comodismo dos lugares-comuns, para contemplando profunda e criticamente a realidade deixar-se interpelar pelo Jesus Marginal. E, para tanto, é imprescindível rejeitar um modelo eclesial e missionário que reproduz a síndrome de Babel, nos termos conclamados pelo Papa agostiniano:
“Evitemos, portanto, a ‘síndrome de Babel’: a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa. Este é o risco da desumanização: construir o futuro excluindo Deus e reduzindo o outro a um meio; uma tentação tão antiga e tão nova, que hoje assume também uma faceta técnica. Pelo contrário, escolhamos o ‘caminho de Neemias’, que destaca o valor do trabalho conjunto para garantir a segurança da cidade de Deus aos exilados que regressavam. Reconstruir hoje significa reconhecer, na pluralidade de vozes e visões que por vezes lembra a dispersão das línguas, a existência duma possibilidade luminosa: a de edificar juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade. No âmbito desta obra partilhada, os cristãos encontram a sua forma específica de construir: orientar a ação para Deus, de modo que, à sua luz, o pluralismo não se disperse na desordem, mas, pela prática da sinodalidade, se torne o lugar onde a humanidade reencontra os seus sólidos alicerces e o seu fim último” (Magnifica Humanitas, 2026, nº 10).
Uma humanidade que precisa enfrentar um antropocentrismo perverso e idolátrico que, absolutizando-se a si, quer destruir o Evangelho da Criação. Sem medo de ser contracultural tal qual é a Boa Nova das Margens, a Igreja amazônica pode ajudar o mundo a ampliar o olhar e a perceber a importância da Comunidade Ecocêntrica, formada por outros seres viventes e seus ecossistemas.
Quão profético seria se a Igreja da Amazônia colaborasse para amplificar as vozes dos povos originários e das comunidades tradicionais, para encampar a discussão sobre um Direito da Natureza que reconhece a dignidade dos seres não humanos, segundo um paradigma ecocêntrico. Ser uma aliada da defesa da Casa Comum e da ecologia integral é requisito de credibilidade de uma Igreja que anuncia a vida em abundância prometida por Jesus.
Uma missão que, ao ter como centro Jesus – o Deus sempre em saída, não evita as barrancas nem as turbulências das águas turvas de um território-povo sob constantes ameaças. O Papa da ecologia integral é claro, “neste momento histórico, a Amazônia desafia-nos a superar perspectivas limitadas, soluções pragmáticas que permanecem enclausuradas em aspetos parciais das grandes questões, para buscar caminhos mais amplos e ousados de inculturação” (Querida Amazônia, 2020, nº 105).
Testemunhar o Evangelho do Deus que habita as margens e os igarapés amazônicos significa ter um coração sensível e os olhos bem abertos para as ordens econômico-políticas locais, nacional e internacional idolátricas, em que o capital e o lucro são absolutizados. Certamente seria negar a fé em Jesus Cristo se as comunidades cristãs se contentassem em se trancar nos templos para seus rituais, enquanto a região arde e sufoca submetida aos arautos do progresso.
É possível adorar o Senhor enquanto se é indiferente aos garimpos que envenenam os rios e as comunidades indígenas e ribeirinhas? Pode-se evangelizar e ser surdo aos gritos dos trabalhadores rurais escravizados pelo latifúndio ou aos dos posseiros expulsos pelos jagunços dos coronéis-fazendeiros? Como pregar a Palavra e ser conivente com a situação de periferias urbanas inteiras privadas do saneamento básico mínimo?
A Igreja na Amazônia estaria desfigurada sem a atuação imprescindível de tantas pastorais e organismos eclesiais, tais como: a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em defesa dos trabalhadores rurais e posseiros; o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), junto das comunidades indígenas; o Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), em favor dos ribeirinhos; os círculos bíblicos e uma reflexão bíblica popular promovida pelo CEBI; as Escolas de Fé e Política, com a conscientização das lideranças eclesiais; a Pastoral da Juventude com sua mística encarnada nas juventudes plurais; a Caritas, com o serviço da caridade aos empobrecidos de múltiplos contextos; as visitas missionárias e articulações da Equipe Itinerante; a Pastoral dos Migrantes, acolhedora e servidora dos irmãos que chegam fragilizados e em busca de melhores chances de sobreviver. Uma missão dinâmica que não pode se contentar em reproduzir estratégias exitosas de décadas passadas, mas que, atenta aos sinais dos tempos, deve seguir avançando.
Nos anos recentes, impulsionadas pelo Espírito que paira sobre as águas destes grandes rios, novas estruturas foram criadas para servir à missão profética e inculturada nesta Igreja das Margens. A Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), a Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama), o Programa Universitário da Amazônia (Puam), a Rede de Educação Intercultural Bilíngue Amazônica (Reiba), são todas iniciativas que florescem neste solo fértil e multicultural. Segundo o esquema apresentado por Padre Lima Vaz, SJ, trata-se de uma Igreja-fonte e não de mera Igreja-reflexo.
O Papa Leão XIV aponta critérios de discernimento importantes para uma missão que se pretende profética: o respeito pela “dignidade da pessoa, destinação universal dos bens, opção pelos pobres, cuidado da Casa comum, paz” (Magnifica Humanitas, 2026, nº 14). Em tempos em que o fundamentalismo político avança como um fenômeno global, o risco de querer transformar a Igreja em trincheira de uma guerra cultural é grande, como observa o pontífice:
“Na mesma linha, reiterei que a Igreja ‘não quer levantar a bandeira da posse da verdade’, porque esta não é um território a defender, mas um bem a partilhar. A mesma perspectiva foi resumida pelo Papa Francisco nas famosas palavras, segundo as quais ‘o tempo é superior ao espaço’: antes de mais, não conta ocupar espaços de poder ou presidir a bastiões culturais, mas iniciar processos de bem e deixá-los amadurecer; assim, a verdade do Evangelho não se impõe de cima, mas cresce no tempo, no entrelaçar-se concreto das vidas, das comunidades e das culturas. É uma verdade que não teme a diversidade, mas a acolhe e ordena; que não elimina os conflitos, mas os transfigura; que recompõe aquilo que a história tende a dispersar. Daí também a imagem do poliedro, uma figura com muitas faces, nas quais se reflete, sob diferentes ângulos, a mesma verdade do Evangelho” (Magnifica Humanitas, 2026, nº 25).
Ser promotor da unidade e buscador da paz não implica optar por um caminho dúbio, covarde e repleto de concessões aos projetos do anti-Reino. “As tensões e as diferenças não devem intimidar, pois, quando orientadas por uma responsabilidade comum, podem tornar-se forças criativas” (Magnifica Humanitas, 2026, nº 13). Tentar evitar o conflito pode significar compactuar com as injustiças, inaceitáveis aos olhos do Amigo dos Marginalizados. Esse Deus que escolheu nascer nas margens do Império Romano pede à sua Igreja que não seja morna (Ap 3, 16), mas que tome posição. Uma posição a favor dos últimos e dos excluídos da história.
“As verdadeiras soluções nunca se alcançam amortecendo a audácia, subtraindo-se às exigências concretas ou buscando culpas externas” (Querida Amazônia, 2020, nº 105). Ser um pequeno rebanho nas margens imensas do caminho possibilita abraçar não só os fragilizados, mas as próprias fragilidades e contradições. Afinal, diz Leão:
“A Igreja recorda – com voz humilde, mas firme – que a verdadeira realização não nasce da supressão das fragilidades, mas de um crescimento harmonioso: onde a liberdade e a responsabilidade se entrelaçam com o cuidado recíproco e a verdadeira solidariedade, e onde o progresso se mede pela dignidade de cada um e pelo bem dos povos” (Magnifica Humanitas, 2026, nº 12).
Com esse propósito de responder ao chamado a uma missão profética, essa Igreja que se encarna na Amazônia possui forte protagonismo laical e feminino. São as matriarcas indígenas, ribeirinhas e das periferias urbanas que, na sua grande maioria, lideram as comunidades eclesiais. O desafio que deve continuar inquietando a todos é como abrir espaço nas altas esferas da Igreja institucional, tanto no nível local quanto no regional.
Mesmo porque uma Igreja de rosto amazônico, espraiado por todo o território, não pode desconsiderar suas filhas e sábias:
“Uma Igreja de rostos amazônicos requer a presença estável de responsáveis leigos, maduros e dotados de autoridade, que conheçam as línguas, as culturas, a experiência espiritual e o modo de viver em comunidade de cada lugar, ao mesmo tempo que deixem espaço à multiplicidade dos dons que o Espírito Santo semeia em todos. Com efeito, onde houver uma necessidade peculiar, Ele já infundiu carismas que permitam dar-lhe resposta. Isto requer na Igreja capacidade para abrir estradas à audácia do Espírito, confiar e concretamente permitir o desenvolvimento duma cultura eclesial própria, marcadamente laical. Os desafios da Amazônia exigem da Igreja um esforço especial para conseguir uma presença capilar que só é possível com um incisivo protagonismo dos leigos” (Querida Amazônia, 2020, nº 94).
Quantas mulheres atuam como Chanceleres, Assessoras, Coordenadoras de Pastorais, Diretoras das Escolas de Formação e das Faculdades de Teologia na Pan-Amazônia? Qual o efetivo espaço de decisão que as companheiras dessa Caminhada Marginal partilham em uma Igreja que tanto deve ao seu empenho pastoral e generosidade missionária?
Mesmo que a carência de presbíteros torne a Igreja mais aberta a ouvir vozes diversas, o clericalismo e os abusos persistem como uma chaga que mina a vitalidade da marginalidade eclesial. São os homens ordenados que seguem tomando as decisões e, muitas vezes, ignorando solenemente as mulheres da Igreja. Um dos riscos de querer controlar as margens a partir dos centros de poder é reproduzir uma centralização que asfixia o Espírito.
Em que pese ser valoroso buscar o fortalecimento de organismos com o rosto amazônico, outra tentação é querer multiplicar complexas e pesadas estruturas que demandam todos os tipos de recursos. Assim, facilmente pode-se transformar em uma igreja-escritório, presa a relatórios e intermináveis reuniões. Uma Igreja das Margens é uma Igreja que não tem onde reclinar a cabeça (Mt 8, 20), com uma presença ágil e sempre a caminho das margens. Por isso, desponta como necessário apostar “em grupos missionários itinerantes e ‘apoiar a inserção e a itinerância dos consagrados e consagradas ao lado dos mais desfavorecidos e excluídos’” (Querida Amazônia, 2020, nº 98).
Conclusão
É importante frisar que, ainda que pudesse ter acesso a recursos econômicos suficientes e a alguns milhares de presbíteros a mais, isso não tornaria simplesmente a Igreja da Amazônia uma comunidade mais fiel ao coração de Cristo. Ser uma Igreja das Margens é, definitivamente, uma bênção-vocação, jamais uma condição a ser superada, muito menos lamentada. A fidelidade ao projeto de Deus passa justamente por acolher esses chamados vindos das margens.
Margens que, como os rios, vão se remodelando e transformando ao longo do tempo. Assim, é imperioso reconhecer a vasta tradição das matriarcas e dos patriarcas da Igreja da Amazônia, que, diante de tanto bem feito nesse território marginal, conferiram a essa Igreja particular uma credibilidade-autoridade invejável. Junto a isso, as responsabilidades e as expectativas para bem cultivar toda essa herança também são imensas (Lc 12, 48).
Para o Cardeal José Tolentino Mendonça (2026, p. 252), em seu poema Fronteira, “em qualquer parte buscamos um rastro ardente/ pela menor fenda pode olhar-se a fronteira/ e às vezes é aterrador/ esse fundo de deserto”. A fronteira assumida como margem é essa perspectiva privilegiada pela qual se pode ler a realidade e encontrar o Deus Marginal, vislumbre de um Amor diversamente Outro. Uma Igreja de mãos vazias, que ao não carregar fardos pesados, permanece disponível para partilhar e receber os dons que lhe são apresentados.
Se se deve fazer memória, com gratidão, do caminho percorrido, não se pode perder a inquietude e a ousadia necessárias. Ser marginal e abraçar a marginalidade. A Igreja diante das ameaças, alegrias e desafios enfrentados na querida Amazônia, é chamada pelo Deus que se fez Marginal a ser cada vez mais uma Igreja que não teme as margens, tampouco os marginalizados. Uma Igreja que se faz presença nas ribeiras e igarapés, nas aldeias indígenas e nos assentamentos rurais, nas periferias das grandes cidades e nos interiores profundos. Uma Igreja de muitas línguas, rostos e culturas, que dialoga e vivencia a profecia do Bem Viver.
“Mãos vazias são salva-vidas para tempos difíceis/ uma afeição a salvo dos especuladores/ o seu vazio é uma pedra/ e se observares bem ela flutua/ as mãos vazias são selvagens na sua beleza/ duras mesmo se vulneráveis/ são o esconderijo ideal para guardares relâmpagos/ e verdades ferozmente concisas/ as mãos vazias esperam não o fim/ mas a fresta alagadas na ferrugem/ e preferem enlouquecer a acreditar/ que a realidade é só aquilo que se vê” (Mendonça, 2026, p. 1194). Oxalá a Igreja da Amazônia possa seguir de mãos vazias, sempre das margens e para as margens, encarnando-se cada vez mais em profundidade na história dos marginalizados, por amor ao Jesus Marginal!

Referências
FRANCISCO. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia. Vaticano: 2020.
FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Vaticano: 2013.
LEÃO XIV. Carta Encíclica Magnifica Humanitas. Vaticano: 2026. Veja aqui.
MENDONÇA, José Tolentino. Os enigmas singulares: antologia poética. São Paulo: Círculo de Poemas, 2026. E-book.
VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Igreja-reflexo vs Igreja-fonte. 1968.
Leia mais
- A natureza como sujeito de direitos: os povos indígenas como seus legítimos representantes. Artigo de Gabriel Vilardi
- Igreja das Margens, testemunha do Deus escondido. Artigo de Gabriel Vilardi
- Gabriel Vilardi. Os povos indígenas e a defesa da natureza como titular de direitos na Constituição Federal: uma análise descolonial a partir de Ellacuría. Prefácio de Luis Ventura Fernández
- Giovagnoli sobre o cisma: "A extrema-direita e os tradicionalistas são os motivos de uma atração fatal"
- José Tolentino de Mendonça, cardeal: “Falta carne à inteligência artificial”
- ''Os ocidentais não são donos da Igreja''. Entrevista com Eleazar López
- A memória do Ser em plena civilização científico-tecnológica. ‘Antropologia Filosófica’ de H.C. de Lima Vaz, 25 anos depois
- Papa Francisco: uma voz que clama no deserto. Artigo de Gabriel Vilardi
- Topologia da revelação? Uma teologia sinodal das margens. Artigo de Christian Bauer
- Um padre alemão e um indígena a caminho da beatificação
- Romaria dos mártires da caminhada. Artigo de Francisco de Aquino Júnior
- Modelos de Missão Indígena na Amazônia: Burnier e Vicente Cañas (Kiwxi). Artigo de Aloir Pacini
- Martírio e profecia na Amazônia: testemunhos para os nossos tempos. Artigo de Gabriel Vilardi
- Evento faz memória dos 40 anos do assassinato de Marçal de Souza Tupã’i
- 28 de abril de 1985
- Dia dos Missionários Mártires, a recordação de Ezequiel Ramin assassinado na Amazônia
- De uma Igreja-mestra patriarcal para uma Igreja-aprendiz feminista. Artigo de Gabriel Vilardi
- Vicente Cañas. Manter um processo vivo por trinta anos é uma vitória no país da impunidade. Entrevista com Michael Nolan e Ricardo Pael Ardenghi
- IHU Cast – Especial Irmã Dorothy Stang. 20 anos de martírio e profecia
- A historicização dos Direitos Humanos: os mártires da UCA e a resistência de Chico Mendes. Artigo de Gabriel Vilardi
- Cuidado da casa comum e fé inculturada, elementos decisivos de uma Igreja com rosto amazônico
- Cristina Inogés-Sanz: “A sinodalidade convida a sair dos muros da Igreja”
- Influenciadores digitais católicos em debate no IHU. Uma comunicação para o amor? Artigo de Gabriel Vilardi
- Zé Cláudio e Maria: quando a violência dá lugar à esperança
- Das periferias ao centro, a Igreja das margens
- Querida Amazônia e o resistente etnocentrismo: onde está o teu irmão indígena? Artigo de Gabriel Vilardi
- "Não precisamos duma Igreja sentada e desistente, mas duma Igreja que acolhe o grito da humanidade e uma Igreja que suja as mãos para servir o Senhor", diz o Papa Francisco no final do Sínodo dos Bispos
- Teólogas respondem à desmasculinização da Igreja, o pedido do Papa Francisco
- Inácio de Loyola em tempos sombrios. Artigo de Gabriel Vilardi