Vozes de Emaús: Ligação fé-vida: comunhão e partilha de saberes – um aprendizado permanente. Artigo de Benedito Ferraro

Arte: Laurem Palma | IHU

18 Abril 2026

"Cada pessoa com seu saber intelectual ou prático pode colaborar na análise da realidade social ou eclesial e como grupo ou comunidade encontrar caminhos de libertação sempre inspirados pela presença do Espírito Santo".

Benedito Ferraro (Foto: Arquivo Pessoal)

O artigo é de Benedito Ferraro, professor aposentado da PUC-Campinas. É assessor da Ampliada Nacional das CEBs, da Articulação Continental das CEBs e da Pastoral Operária de Campinas. Presidente do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP).

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.

Eis o artigo.

Participar do Grupo de Emaús, durante algumas décadas, nos proporcionou e proporciona a compreensão da afirmação de Paulo Freire de que "não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes." Em outras palavras, não há um saber superior e outro inferior. Há saberes diferentes e que podem ser complementares. A inteligência pode ser compreendida de maneira abrangente. Uma pessoa pode não saber ler e escrever, mas tem conhecimento sobre como cuidar da natureza, saber plantar, preparar os mais diversos alimentos, cuidar da casa, cuidar de doentes. Pode se comunicar de maneira assertiva. Este foi o aprendizado na convivência deste precioso grupo de pessoas que se reúnem há mais de 50 anos. Neste grupo há economistas, sociólogos e sociólogas, filósofos e filósofas, místicas e místicos, espiritualistas, pastoralistas, historiadores, psicólogos e psicólogas, cientistas da religião, teólogos e teólogas, políticos, jornalistas.

Para ilustrar este processo de aprendizado, quero mostrar a importância de uma análise de conjuntura social e eclesial a partir de uma das características fundamentais das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que é a ligação da fé com a vida. Esta ligação necessita ser analisada a partir de todas as suas dimensões: econômica, social, política, cultural, ecológica, levando-se em consideração as relações de classe, gênero, etnia e, hoje, assumindo como prioritária a relação ecológica. Aqui entra a importância das diferentes mediações: ecológicas, antropológicas, econômicas, sociológicas, políticas, teológicas e teologais (espiritualidade), psicológicas. É neste processo que descobrimos a importância deste Grupo de Emaús por ser composto de pessoas que estão trabalhando estas diferentes mediações e relações. Com esta confluência de saberes, a análise se torna sempre mais consistente. Neste processo, houve e há a recepção do pensamento de Gustavo Gutiérrez que explicita a importância das CEBs e sua inserção nas mais diferentes lutas sociais e a criação da Teologia da Libertação:

A inserção nas lutas populares pela libertação tem sido - e é - o início de um novo modo de viver, transmitir e celebrar a fé para muitos cristãos da América Latina. Provenham eles das próprias classes populares ou de outros setores sociais, em ambos os casos observa-se - embora com rupturas e por caminhos diferentes - uma consciente e clara identificação com os interesses e combates dos oprimidos do continente. Esse é o fato maior da comunidade cristã da América Latina nos últimos anos. Esse fato tem sido e continua sendo a matriz do esforço de esclarecimento teológico que levou à teologia da libertação. Com efeito, a teologia da libertação não é compreensível sem relação com essa prática .

No pensamento de Gustavo Gutiérrez, podemos observar os desdobramentos dessa reflexão na prática dos cristãos e cristãs, na transmissão da fé e na dinâmica litúrgica, pois, com a entrada dos cristãos e cristãs na luta política de libertação dos pobres e excluídos na América Latina e Caribe, o Espírito suscitou uma nova experiência eclesial, definida pela ligação FÉ – VIDA e que gera:

O quadro abaixo ajuda a compreender esta ligação da Fé com a Vida:

Esta ligação FÉ – VIDA nos ajuda a compreender a importância das ações daí decorrentes e que levaram à criação de um novo modo de ser Igreja, como expressou a CNBB no Documento Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil: “Fenômeno estritamente eclesial, as CEBs em nosso país nasceram no seio da Igreja-instituição e tornaram-se “um novo modo de ser Igreja”. Pode-se afirmar que é ao redor delas que se desenvolve, e se desenvolverá cada vez mais, no futuro, a ação pastoral e evangelizadora da Igreja” (CNBB. Documento 25, nº. 3, 1982).

Esta afirmação foi confirmada no Documento de Medellín (1968) ao afirmar que “a comunidade cristã de base é, assim, o primeiro núcleo eclesial, que deve em seu próprio nível responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também do culto que é sua expressão. Ela é, pois, célula inicial da estrutura eclesial e foco de evangelização e, atualmente, fator primordial da promoção humana e do desenvolvimento” (Med. 15,10).

No Documento de Aparecida (2007), nº. 178-179, afirma-se que “as comunidades eclesiais de base permitiram ao povo chegar a um conhecimento maior da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho e muitos o fazem como “testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue”. Recentemente, na 1ª. Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, há um testemunho da importância das CEBs:

É importante revitalizar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), uma forma de ser Igreja onde se vive a sinodalidade, como um espaço de inclusão da diversidade e de superação do clericalismo. Nelas, a Palavra de Deus é o centro da comunhão, um espaço é oferecido ao povo concreto em seus contextos e uma melhor resposta é dada aos gritos dos marginalizados de nosso tempo. Uma característica das CEB é a vivência da opção preferencial pelos pobres, personificando os princípios e valores da doutrina social da Igreja.

Este testemunho é retomado no Sínodo da Sinodalidade: “Em muitas regiões do mundo, as pequenas comunidades cristãs ou as comunidades eclesiais de base são o terreno onde podem florescer relações intensas de proximidade e reciprocidade, oferecendo a ocasião de viver concretamente a sinodalidade”.

Esta ligação da FÉ – VIDA nos ajuda também a compreender a gênese da Teologia da Libertação, pois a fé é vista como visão global da vida, da história e do universo. Nada escapa à sua percepção, pois tudo o que é humano, ou se relaciona com o humano, lhe diz respeito. Neste sentido, como nos afirma o Vaticano II, "a fé esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do ser humano. E por isso orienta a mente para soluções plenamente humana”. (Gaudium et Spes, 11)

A fé está ligada à vida dos homens e mulheres de todos os tempos. Preocupa-se com ela, pois a vida é a mediação fundamental do encontro com Deus. Por isso, a fé está sempre visando encontrar caminhos de libertação para que a vida seja plenamente vivida. Nesta busca de solução para os problemas humanos, a fé encontra na reflexão teológica seu instrumento privilegiado de contribuição com o gênero humano. Como nos ensina Juan Luis Segundo, a Teologia busca sempre traduzir a revelação, para que se torne elemento de compreensão e de solução dos problemas levantados na e pela história humana. Tudo o que é humano interessa à fé e, por esse mesmo motivo, diz respeito à teologia. A teologia busca sempre uma resposta convincente, utilizando-se, para isso, de todos os meios e possibilidades humanas que estão disponíveis, graças ao desenvolvimento das ciências. A teologia mostra que a fé não teme a ciência, pois vê nela o fruto da inteligência criada por Deus.
Como consideramos acima, esta reflexão sugerida a partir da afirmação de Paulo Freire de que "não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes", pode nos abrir o caminho para compreender o aprendizado que o Grupo de Emaús nos proporciona para a compreensão da realidade social e eclesial a partir de diferentes mediações e saberes. Esta experiência de análise poderá ser feita em comunidade, reconhecendo nas pessoas diferentes formas de compreensão da realidade e que podem, através de uma roda de conversa, encontrar caminhos para entender o que se passa em nossa cidade, no país e no mundo. Cada pessoa com seu saber intelectual ou prático pode colaborar na análise da realidade social ou eclesial e como grupo ou comunidade encontrar caminhos de libertação sempre inspirados pela presença do Espírito Santo.

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