Vozes de Emaús: Césio-137: os pobres, sempre os pobres. Artigo de Celso Pinto Carias

Foto: Lauren Palma | IHU

01 Abril 2026

"É evidente que acidentes acontecem, mas existe uma desigualdade estrutural que faz os “acidentes” serem mais corriqueiros entre os pobres, sobretudo os mais vulneráveis entre os pobres. Sim, a luta pela sobrevivência pode entorpecer e justificar comportamentos degradantes. Porém, tal realidade tem levado muitos a justificar inclusive a eliminação sumária de quem chega a este ponto, pois a análise fica na superfície do fenômeno. Cria-se um conjunto de argumentos para penalizar as vítimas e deixar quem tem um pouco de humanidade ainda com a consciência tranquila"

O artigo é de Celso Pinto Carias (o "Mendigo de Deus"), doutor em teologia e professor na PUC-Rio, assessor da Ampliada Nacional das CEBs e do Setor CEBs do Comissão Pastoral Episcopal para o Laicato da CNBB.

Celso Pinto Carias | Foto: Arquivo Pessoal

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo.

Uma determinada plataforma de streaming lançou uma série sobre o desastre radioativo acontecido em Goiânia, GO, em setembro de 1987. O maior acidente radiológico acontecido no mundo fora de uma usina nuclear. Quatro vidas, em poucas semanas foram ceifadas, e, segundo algumas projeções, talvez as vítimas fatais tenham chegado a 100 até o presente.

Não vamos analisar a série em si, embora consideremos de boa qualidade. Mas o enfoque escolhido pelo seriado é o que nos interessa. Entre dados reais e ficção, a série acerta em uma conclusão possível, isto é, quem ou quais pessoas sempre são as mais prejudicadas em desastres de grande proporção, sejam naturais ou não? Os pobres, sempre os mais pobres, essa é a resposta.

Uma das vítimas da primeira hora foi a menina Leide das Neves, de seis anos. O pai, “todo bobo” chegou em casa com o “pó magico” que brilhava no escuro e ofereceu alegremente para filha. O pai, que sobreviveu por alguns anos, carregou a culpa entre depressão e sequelas até morrer.

Toda vez que a menina aparecia na série vinha à mente minha netinha de cinco anos. A dor da mãe Lourdes das Neves, que precisou ficar afastada da filha e a enterrou em um caixão blindado. A dor no rosto das vítimas, pois havia uma incompreensão do que realmente estava acontecendo. O sorriso no rosto do catador que levou o pesado cilindro para o ferro velho, pois ganharia um “bom dinheiro”, sobreviveu, mas voltou para casa sem um braço. Enfim, dor, dor, e mais dor.

Não se pode, evidentemente, deixar de mencionar muitos profissionais que trabalharam incansavelmente para diminuir o impacto da tragédia, sobretudo o pessoal da área médica. Porém, uma pergunta extremamente angustiante é: que mundo os humanos estão construindo para as futuras gerações? E as explicações mais estapafúrdias de muitos, quando dizem: “Poxa, eles deviam ter tomado mais cuidado”, encobrem as razões de fundo. Quem paga o alto preço de decisões equivocadas dos que dirigem a sociedade? Quem tem pago o preço maior, por exemplo, dos desastres das mineradoras em Minas Gerais? Nas guerras então, quem mais morre? Quem mais fica sequelado?

Uma antropóloga brasileira, Carmem Cinira, falecida de forma precoce há algum tempo, escreveu um artigo ainda em 1994 extremamente interessante chamado “Anseios e utopias de vida na sociedade atual”. Neste artigo ele constatava uma verdade: a sociedade cria processos de naturalização de situações que não são nada naturais. Coloca-se na estrutura biológica de grupos humanos “qualidades” degradantes como preguiça, indolência, entre outras, para justificar a desigualdade social.

É evidente que acidentes acontecem, mas existe uma desigualdade estrutural que faz os “acidentes” serem mais corriqueiros entre os pobres, sobretudo os mais vulneráveis entre os pobres. Sim, a luta pela sobrevivência pode entorpecer e justificar comportamentos degradantes. Porém, tal realidade tem levado muitos a justificar inclusive a eliminação sumária de quem chega a este ponto, pois a análise fica na superfície do fenômeno. Cria-se um conjunto de argumentos para penalizar as vítimas e deixar quem tem um pouco de humanidade ainda com a consciência tranquila.

Um determinado pensador do século dezenove, odiado pelo capitalismo, comparava os trabalhares de sua época a escravos que apanhavam e ainda diziam: “bate mais”. Este mesmo pensador dizia que era possível oferecer “drogas” que manteriam a classe trabalhadora sem vontade de reagir, contando inclusive com o apoio das religiões. Hoje, muitas “drogas”, não as ilícitas, são oferecidas à população, possibilitando um diagnóstico chamado pela psiquiatria de “dissonância cognitiva coletiva”, isto é, a pessoa passa a justificar atrocidades como parte do processo de “defesa da vida” em sociedade. Foi exatamente o que aconteceu com a maioria do povo alemão na segunda guerra mundial frente ao Nazismo.

Na série, as vitimas foram abrindo os olhos e verificando as contradições que justificavam a sua situação. Mas o poder dominador é muito forte. Promete e não cumpre. Ilude. Faz acreditar que a vida irá melhorar por conta de retirada de direitos, por exemplo. Assim, Dona Lourdes, mãe da menina símbolo, Leide, com a casa demolida, o marido que ficou doente e morreu em 2003, o filho mais velho que sobreviveu, mas ficou com sequelas graves, vivem hoje com menos de mil reais por mês como indenização do Estado. Ela desabafou em uma entrevista recente: “Eu só quero ter um final de vida digno”.

Que Deus não seja instrumentalizado para justificar tanta crueldade. Que sua luz possa nos curar das dissonâncias. Que tenhamos a fibra do pastor Martin Luther King, assassinado 1968 com 38 anos nos EUA, por conta da luta contra o racismo estrutural estadunidense, quatro anos depois de ser o primeiro negro e a pessoa mais jovem a ganhar o prêmio Nobel da Paz e que disse uma vez: “Temos de aprender a viver todos como irmãos ou morreremos todos como loucos”.

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