A guerra contra o Irã e o aumento do preço dos alimentos. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Foto: Fotos Públicas

Mais Lidos

  • Jesuíta da comunidade da Terra Santa testemunha o significado da celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo em uma região que se tornou símbolo contemporâneo da barbárie e do esquecimento humano

    “Toda guerra militar é uma guerra contra Deus”. Entrevista especial com David Neuhaus

    LER MAIS
  • Sábado Santo: um frio sepulcro nos interpela. Comentário de Adroaldo Palaoro

    LER MAIS
  • A ressurreição no meio da uma Sexta-feira Santa prolongada. Artigo de Leonardo Boff

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Abril 2026

O aumento do preço dos combustíveis fósseis e o aumento do preço dos fertilizantes vão ter um grande impacto na próxima safra.

O artigo é de José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia, publicado por EcoDebate, 06-04-2026.

Eis o artigo.

A guerra de Israel e os Estados Unidos contra o Irã, deflagrada em 28 de fevereiro de 2026, gerou um choque energético global de proporções graves, com impactos imediatos e profundos nos preços dos combustíveis fósseis e, consequentemente, em toda a cadeia produtiva de alimentos, pressionando a inflação em todo o mundo.

O principal gatilho para a disparada dos preços foi o ataque ao “calcanhar de Aquiles” da energia global: o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo, do gás natural liquefeito (GNL) e dos fertilizantes e outros insumos agrícolas do mundo. Os ataques militares não se limitaram ao Irã, atingindo campos de gás e instalações energéticas no Catar, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes, além de interromper o tráfego de navios-tanque.

O resultado foi uma escalada vertiginosa nos preços:

a) O preço do barril de petróleo Brent, que estava em torno de US$ 65 antes do conflito, ultrapassou a marca de US$ 100 nos primeiros dias de março, chegando a quase US$ 120 em momentos de pico;

b) O custo do transporte marítimo de GNL disparou, com taxas diárias de afretamento de navios saltando de US$ 40.000 para cerca de US$ 300.000 em uma semana.

O aumento do petróleo não afeta apenas o preço da gasolina na bomba. Ele se espalha por toda a economia, especialmente no setor de alimentos, através de quatro canais principais:

  • Fertilizantes e Produção Agrícola: Cerca de 80-85% dos fertilizantes nitrogenados consumidos no Brasil são importados, e grande parte vem de países do Golfo Pérsico, como Catar e Arábia Saudita. A produção desses fertilizantes é intensiva em energia (gás natural). Com a guerra, o preço dos fertilizantes no Porto de Nova Orleans saltou de US$ 516 para US$ 683 por tonelada em uma semana. Isso torna o plantio da próxima safra significativamente mais caro.

  • Logística e Transporte: O Brasil transporta cerca de 60% de sua carga por caminhões, tornando o custo do diesel um componente crítico. O aumento do diesel, que já registrou alta, impacta diretamente o frete de insumos para as fazendas e de alimentos industrializados e in natura até as prateleiras dos supermercados.

  • Embalagens e Insumos Industriais: O petróleo é a matéria-prima para diversos produtos. O plástico, usado em embalagens de alimentos, e o alumínio, entre outros, ficam mais caros, repassando custos à indústria alimentícia.

  • Efeito-Combustível (Biocombustíveis): Quando o petróleo sobe, a demanda por biocombustíveis como o etanol e o biodiesel aumenta, desviando culturas como milho e soja do setor alimentício para o energético, o que reduz a oferta de grãos e pressiona os preços para cima.

Apesar de ser autossuficiente na produção de petróleo, o Brasil tem vulnerabilidades críticas que o expõem aos efeitos da guerra:

  • Dependência de Derivados: O país ainda importa cerca de 300 mil barris de diesel por dia para suprir o consumo interno, tornando o preço do combustível sensível ao mercado internacional.

  • Dependência de Fertilizantes: Com 85% do consumo de fertilizantes vindo do exterior, o agro brasileiro fica refém da oferta e dos preços globais.

O Índice de Preços dos Alimentos (FFPI) da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) vinha subindo na atual década e atingiu o nível mais alto de todos os tempos em 2022. O FFPI caiu em 2023 e se manteve em níveis elevados em 2024 e 2025. Em 2026, havia uma pequena tendência de alta em fevereiro, mas o preço dos alimentos deu um salto em março de 2026, em função da guerra do Irã.

Os gráficos abaixo mostram que o FFPI atingiu uma média de 128,5 pontos em março de 2026, marcando o segundo mês consecutivo de alta em 2026. Os índices de preços de todos os grupos de produtos — cereais, carnes, laticínios, óleos vegetais e açúcar — subiram em diferentes graus, refletindo não apenas os fundamentos do mercado, mas também as respostas aos preços mais altos da energia, ligados à escalada do conflito no Irã. Em comparação com os níveis históricos, o FFPI ficou 1,2 ponto acima do seu valor de um ano atrás e ligeiramente superior do que o valor de 2023, embora tenha permanecido bem abaixo do valor de 2022, logo após a invasão da Ucrânia.

O Índice de Preços de Cereais da FAO atingiu uma média de 110,4 pontos em março, um aumento de 1,7 ponto (1,5%) em relação a fevereiro e de 0,7 ponto (0,6%) em relação ao mesmo período do ano anterior. O aumento refletiu cotações mais altas para todos os principais cereais, exceto o arroz.

Gráfico do índice de preços dos alimentos da FAO (Fonte: FAO).

O Índice de Preços de Óleos Vegetais da FAO registrou uma média de 183,1 pontos em março, um aumento de 8,9 pontos (5,1%) em relação a fevereiro, marcando o terceiro aumento mensal consecutivo. O índice também ficou 21,3 pontos (13,2%) acima do seu nível de um ano atrás. O aumento contínuo foi impulsionado por cotações mais altas nos óleos de palma, soja, girassol e canola.

O Índice de Preços da Carne da FAO registrou uma média de 127,7 pontos em março, um aumento de 1,2 ponto (1,0%) em relação a fevereiro e de 9,4 pontos (8,0%) acima do nível de um ano atrás. O aumento foi impulsionado principalmente pela alta dos preços da carne suína, juntamente com uma leve alta nas cotações da carne bovina, enquanto os preços da carne ovina e de aves recuaram.

O Índice de Preços de Lácteos da FAO teve média de 120,9 pontos, alta de 1,5 ponto (1,2%) em março, mas permaneceu 27,8 pontos (18,7%) abaixo do nível de um ano antes. Este foi o primeiro aumento desde julho de 2025, impulsionado principalmente por cotações mais altas para leite em pó desnatado (LPD), manteiga e leite em pó integral (LPI), enquanto a queda nos preços internacionais do queijo limitou a alta geral.

O Índice de Preços do Açúcar da FAO atingiu uma média de 92,4 pontos em março, um aumento de 6,2 pontos (7,2%) em relação a fevereiro e alcançando seu nível mais alto desde novembro de 2025, mas permanecendo 24,5 pontos (21,0%) abaixo do nível de um ano atrás.

O aumento do preço dos alimentos vai na contramão da meta número 2 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que trata da “Fome Zero e Agricultura Sustentável” e propõe: “Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável”. O aumento do preço dos combustíveis fósseis e o aumento do preço dos fertilizantes vão ter um grande impacto na próxima safra, afetando o preço dos alimentos durante o ano de 2026.

A guerra expõe a fragilidade de um sistema global ainda excessivamente dependente de combustíveis fósseis concentrados em uma região geopoliticamente instável. A extensão e a duração do conflito definirão se este será um choque temporário ou um ponto de inflexão que acelerará a busca por fontes de energia mais limpas e seguras. Neste sentido, a luta contra a insegurança alimentar e a fome depende cada vez mais da transição energética global.

Leia mais