A catástrofe tática dos EUA no Irã. Artigo de Davide Assael

Donald Trump (Foto: Gage Skidmore | Flickr cc)

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21 Março 2026

"A ação bélica deveria ser acompanhada por uma enorme ação diplomática para isolar o Irã, mas aqui surge uma questão: quem se compromete em garantir a segurança de Israel? Nem em Gaza, nem no Líbano e agora nem no Irã (resta o problema do urânio enriquecido a 60%), ninguém moveu um dedo, ao chegar ao ponto principal", escreve Davide Assael, judeu italiano, fundador e presidente da associação lech lechà, professor de filosofia e escritor, em artigo publicado por Domani, 18-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Reduzir o atual conflito no Oriente Médio aos interesses ou personalidades dos líderes é simplista demais. Não explica uma trajetória estratégica estadunidense que pretende estabilizar a região por meio do eixo Israel-mundo sunita, que vem sendo trilhando por ambos desde o início da década de 1990. Os frutos desse trabalho diplomático são tangíveis: a paz com a Jordânia, Madri e Oslo.

O objetivo é uma clara operação de desengajamento imperial do Oriente Médio, para concentrar suas forças no Extremo Oriente, visto, conforme o momento, como novo parceiro estratégico ou rival do próximo século. Essa trajetória sofreu um desvio significativo com Obama, que, por meio do passo histórico do acordo nuclear com o Irã, pretendia — e acredito que com razão — incluir o Irã no processo de estabilização da região, ciente do risco que excluí-lo acarretaria.

Além disso, dois enormes reveses: o 11 de setembro de 2001 e o 7 de outubro de 2023, quando o processo já havia encontrado novos acertos formais com os Acordos de Abraão de 2020, agora direcionados para a Arábia Saudita. Ambas as datas haviam demonstrado que a nova trajetória histórica criava espaço para a propaganda jihadista encarnada pelos grupos fundamentalistas sunitas e pela República Islâmica.

Esses destinos foram se entrelaçado cada vez mais, com o Irã engajado, justamente a partir da década de 1990, no financiamento do jihadismo sunita. Contudo, sempre mantendo o sunismo numa posição de subordinação, assim frustrando as expectativas de imãs que estavam elaborando, no plano mais estritamente teológico, um percurso de resolução da fitna, a guerra civil que assola o mundo islâmico desde o século VII. Acima de todas, destaca-se a figura de Yusuf al-Qaradawi, figura proeminente da Irmandade Muçulmana e muito próximo do Hamas. Ter uma estratégia não significa saber acompanhá-la com uma tática eficaz: o que estamos vendo na nova guerra no Oriente Médio é a enésima catástrofe tática com a marca EUA. Depois das guerras insanas de W. Bush, depois da humilhante retirada de Biden do Afeganistão, agora temos o Irã de Trump. Israel, por sua vez, não tem em sua doutrina de guerra ambições de mudança de regime; estas existem apenas na mente paranoica de Netanyahu, determinado em buscar algum escalpo para agradar os eleitores em sua guerra contra todos os poderes do Estado.

Tendo percebido a situação e aniquilado literalmente todas a reserva antiaérea inimiga e quase todo o seu arsenal militar, as Idf concentraram seus esforços no Líbano, onde parecem estar preparando uma operação terrestre em grande estilo para acertar as contas com os remanescentes do Hezbollah. Errar é humano, insistir no erro é diabólico: o cenário de Gaza demonstra mais uma vez que o jihadismo, que elevou o conceito de guerra assimétrica à arte, não pode ser derrotado apenas por meios militares. Pode sofrer um golpe duríssimo, mas nunca fatal. Afunda, até mesmo por anos, mas depois ressurge das cinzas com novos nomes e líderes.

A ação bélica deveria ser acompanhada por uma enorme ação diplomática para isolar o Irã, mas aqui surge uma questão: quem se compromete em garantir a segurança de Israel? Nem em Gaza, nem no Líbano e agora nem no Irã (resta o problema do urânio enriquecido a 60%), ninguém moveu um dedo, ao chegar ao ponto principal. Será que realmente acreditam que essas milícias criminosas, que tratam seus próprios povos como bucha de canhão, se desarmem sozinhas? Enquanto essa pergunta não for respondida, haverá só a guerra, porque Israel, com razão, não se sacrifica como vítima sacrificial no altar das hesitações alheias. Ainda mais se forem daquelas chancelarias ocidentais incapazes de combater os instintos antissionistas- antissemitas que se acumularam em suas opiniões públicas ao longo de dois milênios de antijudaísmo cristão.

Uma última observação para o Irã: rebus sic stantibus, um país sem futuro. Massacrado militarmente, com sua liderança dizimada, reduzido a se comportar como uma milícia terrorista qualquer, sem mais proxies (Hamas e Houthis não apareceram), sem aliados na região. Só poderá governar na base de uma repressão cada vez mais feroz, no aguardo de uma revolta popular que, diga-se de passagem, caso perder essa oportunidade de apoio externo, só poderá se concretizar a um custo tremendo. Para um país assim, valem as palavras de Spinoza, referidas à Turquia de sua época: "Mas se escravidão, barbárie e solidão devem ser chamadas de paz, então nada é mais miserável para os homens do que a paz".

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