A relação entre política e religião. Artigo de Giovanni Maria Vian

Foto: Javad Esmaeili | Unsplash

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18 Março 2026

"Da mesma forma que não existem autoridades centrais nas outras religiões, com exceção da Igreja Católica. Apenas um dos ensaios do livro é explicitamente dedicado ao catolicismo, estudando a oposição ao Concílio Vaticano II e o extremismo teórico dos lefebvrianos", escreve Giovanni Maria Vian, historiador e ex-diretor do L'Osservatore Romano, em artigo publicado por Domani, 17-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A atenção pública sobre um tema tão antigo como a relação entre política e religião se reacendeu, especialmente pela evolução dramática de pelo menos três cenários: a guerra no Oriente Médio, a agressão russa contra a Ucrânia e os recorrentes massacres de cristãos na Nigéria.

Estudos e intervenções valiosas multiplicaram-se, especialmente nos Estados Unidos, onde o componente religioso permanece muito importante, e na França; aqui, fenômenos notáveis são a descristianização — mas também um ressurgimento inesperado do interesse pela fé católica — e a presença de uma consistente minoria islâmica.

De modo bem geral, enquanto as sociedades ocidentais são dominadas por uma secularização materialista sobre a qual João Paulo II alertou na segunda metade de seu pontificado, a presença religiosa está profundamente enraizada no resto do mundo. Em todos os lugares acentua-se o radicalismo religioso, como documentam agora dezessete especialistas (cientistas políticos, sociólogos, historiadores) em um livro (Radicalités religieuses, Albin Michel) coordenado por Alain Dieckhoff, que estudou principalmente a sociedade israelense e a "guerra sem fim" árabe-israelense.

"Mutação mundial"

Embora não seja fácil reduzir a explicações inequívocas a radicalização das religiões, descrita como uma "mutação mundial", recorrentes são a sua instrumentalização, a relação com a violência e com os nacionalismos. O panorama é muito diversificado: desde a criação de um "escritório da fé" pela flutuante e imprevisível administração estadunidense na Casa Branca, até as referências religiosas que permeiam o feroz conflito entre o Hamas e Israel (onde ao sionismo de origem secular se misturam messianismos políticos radicais), do banho ritual do primeiro-ministro indiano no Ganges durante o Kumbh Mela, considerado a maior peregrinação do mundo, aos nacionalismos hindus, que visam transformar a sociedade, ao nacionalismo budista, que persegue a minoria muçulmana rohingya no Mianmar, que representa menos de 5% da população.

Em 1991, logo após o fim da primeira Guerra do Golfo, o estudioso do Islã Gilles Kepel publicou seu livro sobre "a revanche de Deus", no qual descrevia cristãos, judeus e muçulmanos "reconquistando o mundo". Eventos subsequentes e mais recentes confirmam, segundo Dieckhoff, esse "retorno da força" da religião no cenário internacional.

Nova "efervescência"

Trata-se de uma nova "efervescência", cada vez mais entrelaçada com a política. O fenômeno desmente completamente a visão simplista de uma modernidade alheia à religião, que se recompõe sob formas intransigentes. "O fundamentalista é um tradicionalista resoluto que ignora, sem saber, o quanto é moderno ", escreveu Marcel Gauchet, citado pelo sociólogo Paul Zawadzki em um dos três estudos gerais sobre radicalismos presentes no livro.

O historiador Denis Pelletier, admitindo francamente sua incapacidade de explicar a razão última da violência que invoca a religião, destaca as limitações do debate entre os diversos especialistas e as fragilidades dos vários métodos empregados. Ele relembra o comentário de René Girard no Le Monde de 6 de novembro de 2001, algumas semanas após o ataque da Al-Qaeda no coração dos Estados Unidos. O Islã "carece do elemento essencial do cristianismo: a cruz. Assim como o cristianismo, o Islã reabilita a vítima inocente, mas o faz de maneira guerreira", escreveu o antropólogo, indo direto ao cerne da questão. Mais diretamente, um livro do jesuíta alemão Felix Körner sobre cristianismo e islamismo (Religione e politica, Queriniana) conclui que "uma religião só é fiel a si mesma se afirmar seu poder de configuração do mundo, não pela violência, mas sim pelo reconhecimento do outro".

Além das discussões teóricas, os estudos reunidos por Dieckhoff examinam quinze casos, sendo bastante significativo que sete deles sejam dedicados ao Islã: no Egito, Arábia Saudita, Irã, Turquia, África Ocidental, Índia e Paquistão, e Afeganistão. Embora a atualidade, constelada de notícias quase sempre dramáticas, tenha acostumado a opinião pública a uma aparente familiaridade com os radicalismos islâmicos, os sete estudos demonstram, ao contrário, a diversidade dos casos examinados. Em um universo religioso onde — vale lembrar — não existe uma autoridade central, apenas a grande divisão entre 85% de sunitas e 15% de xiitas (majoritários no Irã e no Iraque).

A Igreja Católica

Da mesma forma que não existem autoridades centrais nas outras religiões, com exceção da Igreja Católica. Apenas um dos ensaios do livro é explicitamente dedicado ao catolicismo, estudando a oposição ao Concílio Vaticano II e o extremismo teórico dos lefebvrianos. Este, porém, é descontroladamente amplificado pelas redes sociais, como demonstra agora uma análise de Roberto Rusconi (A destra di Dio, Morcelliana). Quanto ao papado, Prevost, mesmo antes de sua eleição no conclave, "opôs-se à concepção estritamente nacionalista de caridade defendida por J.D. Vance em nome de uma leitura superficial de Santo Agostinho", escreve Pelletier. E pode-se acrescentar que da mesma forma instrumental do vice-presidente estadunidense, no que diz respeito ao conceito de "anticristo", se move um influente apoiador do atual governo estadunidense, Peter Thiel, que desembarcou recentemente em Roma.

Muito mais inquietantes, em apoio à política russa, são os discursos radicais defendidos pela Igreja Ortodoxa liderada pelo Patriarca Kirill, estudados por Kathy Rousselet. Como aparece claramente na "instrução", aprovada em 2024, do Conselho Mundial do Povo Russo.

"De uma perspectiva espiritual e moral, a operação militar especial é uma guerra sagrada na qual a Rússia e seu povo, defendendo o espaço espiritual da Santa Rússia, cumprem a missão do katéchon ["aquilo que detém" o Anticristo, segundo a Segunda Carta aos Tessalonicenses], protegendo o mundo do ataque do globalismo e de uma vitória do Ocidente, que mergulhou no satanismo." É o que diz o texto, onde o misticismo do Terceiro Reich se mistura com ideias religiosas.

Em uma entrevista sobre messianismos político-religiosos publicada no jornal La Croix em 10 de março, o intelectual ortodoxo Jean-François Colosimo lembrou os perigos de várias formas de fundamentalismo. Portanto, são importantes as tentativas de mediação e os apelos à moderação por parte das autoridades religiosas mais responsáveis, "última defesa contra a guerra declarada de 'todos contra todos'".

A respeito das tendências identitárias cristãs irreligiosas na Europa de hoje, o cientista político Olivier Roy observa, contudo, que nesses casos não se trata de radicalização da religião mas, precisamente do oposto. Porque "é a ausência de religião que leva à radicalização, ou pelo menos a ausência daquilo que a religião poderia trazer de positivo: a esperança".

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