Entre a "igreja profunda" e a guerra cultural: O cerco midiático aos papas na era MAGA. Artigo de Marco Baratto

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05 Março 2026

"O verdadeiro desafio para a Igreja não é apenas resistir a ataques, reais ou imaginários, mas escapar da lógica da polarização permanente. Numa época em que todas as instituições são arrastadas para contendas ideológicas, preservar a autonomia espiritual torna-se um ato de resistência", escreve Marco Baratto, analista italiano, em artigo publicado por Focus Mediterraneo, 16-02-2026.

Eis o artigo.

A eleição do Papa Leão XIV (Cardeal Robert Prevost) em maio de 2025 desencadeou imediatamente uma nova cisão entre o Vaticano e um segmento do conservadorismo político americano. Entre os mais vocais estava Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump, que classificou a eleição como uma das piores possíveis para os católicos ligados ao movimento MAGA. Segundo Bannon, o novo papa representaria a continuidade da abordagem pastoral do Papa Francisco: atenção aos migrantes, crítica à economia financeira global, sensibilidade ambiental e abertura às periferias.

Para além das declarações controversas, o caso revela uma questão mais profunda: a transformação do papado num campo de batalha nas guerras culturais ocidentais. A categoria de "papa anti-Trump" não surge nos círculos teológicos, mas sim nos círculos políticos e mediáticos. Trata-se de uma leitura do pontificado através das lentes da polarização americana.

A narrativa da “igreja profunda”

Bannon falou de uma "igreja profunda" ou "facção Bergoglio", sugerindo que a eleição de Leão XIV foi uma manobra para combater o populismo nacional. Essa narrativa espelha a retórica do "Estado profundo", mas a aplica à estrutura eclesiástica. Nesse arcabouço interpretativo, a Igreja não é mais uma comunidade universal, mas um campo de batalha ideológico, com facções assimiladas a partidos políticos.

Essa interpretação se encaixa em uma ruptura já evidente durante o pontificado de Francisco. A insistência em acolher migrantes foi interpretada por alguns círculos conservadores como interferência moral na política de fronteiras; a crítica ao capitalismo desregulamentado, como um ataque ideológico; o diálogo inter-religioso, como relativismo. Nesse clima, a eleição de um papa percebido como "em continuidade" reforçou a crença em um inevitável choque com uma futura Casa Branca trumpista.

No entanto, falar de um "cisma americano" continua sendo uma expressão jornalística. Não há uma ruptura formal entre a Igreja Católica americana e Roma. Existe, sim, uma divisão narrativa: uma parcela do catolicismo americano tende a interpretar o papado dentro das categorias de soberania nacional e identidade cultural, enquanto a tradição católica mantém uma visão universalista e supranacional.

O caso Epstein e a tentação do escândalo

Este é o contexto do ressurgimento dos chamados "arquivos Epstein", que trouxeram à tona as trocas de mensagens entre Bannon e Jeffrey Epstein. Alguns e-mails sugerem discussões sobre a produção de um filme baseado no livro "No Armário do Vaticano", do jornalista francês Frédéric Martel. O livro, publicado em 2019, afirma que uma porcentagem muito alta do clero do Vaticano é gay e descreve o Vaticano como uma das maiores comunidades gays do mundo.

O livro teve um enorme impacto na mídia, mas também foi alvo de críticas metodológicas e protestos internos dentro da Igreja. A ideia de transformá-lo em filme teria representado um salto ainda maior: do escândalo editorial à narrativa audiovisual global, com potencial multiplicador.

É importante, contudo, distinguir entre sugestão e implementação. Os documentos divulgados publicamente não fornecem nenhuma evidência concreta de que o projeto tenha entrado na fase de implementação. Os e-mails indicam discussões, não um plano estruturado. Numa era de hiperpolarização, o risco é transformar cada troca controversa em prova de uma conspiração sistêmica.

Deslegitimação e comunicação agressiva

A história mostra como a batalha não é apenas teológica, mas também comunicativa. Atacar um papa não significa necessariamente contestar seus ensinamentos com argumentos doutrinários; pode significar minar sua autoridade simbólica por meio da suspeita, do escândalo e do questionamento de sua credibilidade moral.

A linguagem do escândalo é particularmente poderosa no ecossistema digital. Um filme baseado em um livro controverso, relançado nas redes sociais, poderia ter alimentado uma narrativa de deslegitimação. Não é necessário demonstrar uma conspiração centralizada para reconhecer a existência de uma lógica: deslocar o debate para um nível emocional e sensacionalista.

Ao mesmo tempo, a reação oposta — ver toda crítica como um ataque orquestrado contra a Igreja — corre o risco de resvalar em teorias da conspiração simétricas. A polarização produz simetrias: de um lado, aqueles que falam de uma "igreja profunda"; do outro, aqueles que imaginam uma única matriz oculta por trás de cada voz conservadora.

Bento XVI "puxado pela batina"

Outro elemento recorrente é o uso simbólico do Papa Bento XVI (frequentemente por jornalistas que são nossos próprios Dan Browns). Mesmo após sua morte, seu nome é invocado para contrastá-lo com Francisco e agora com Leão XIV, como se ele representasse a "verdadeira" tradição alternativa contra uma suposta deriva progressista. Na realidade, o pontificado de Bento XVI foi teologicamente sofisticado e complexo, não se reduzindo a uma bandeira de identidade.

A exploração póstuma do papa emérito demonstra como figuras eclesiásticas são, por vezes, transformadas em símbolos de partidarismo. Este é um mecanismo típico de culturas políticas polarizadas: simplificar, opor e criar ícones antagônicos.

Uma igreja em meio à tempestade cultural

O ponto crucial é entender que a Igreja Católica, como entidade global, inevitavelmente se cruza com tensões geopolíticas e culturais. Mas reduzir o papado a uma variável na política americana é minar sua natureza. Um Papa não é o líder de um partido transnacional, nem aliado ou adversário de um presidente.

A eleição de Leão XIV, interpretada como "anti-Trump", reflete as tendências do debate americano mais do que a dinâmica interna do conclave. Da mesma forma, as suspeitas sobre operações midiáticas anti-Francisco demonstram como o papado se tornou alvo e símbolo nas guerras culturais contemporâneas.

Existe, sem dúvida, uma teoria da conspiração católica que vê traição em todo lugar; existe também um anticatolicismo cultural que usa o escândalo como arma. Mas a realidade parece mais complexa do que narrativas binárias. Os e-mails em disputa não demonstram um plano coordenado; as críticas de Bannon, por mais duras que sejam, fazem parte de uma dialética política.

O verdadeiro desafio para a Igreja não é apenas resistir a ataques, reais ou imaginários, mas escapar da lógica da polarização permanente. Numa época em que todas as instituições são arrastadas para contendas ideológicas, preservar a autonomia espiritual torna-se um ato de resistência. E talvez seja precisamente essa autonomia, mais do que posições individuais sobre migrantes ou finanças, que seja difícil de aceitar para aqueles que concebem o mundo exclusivamente como um campo de batalha político.

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