21 Fevereiro 2026
Documentos publicados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelam que o ex-conselheiro da Casa Branca discutiu com o financista de estratégias para se opor ao pontífice. “Derrubar” o Papa Francisco, grande opositor do soberanismo, por meio de um filme baseado no livro-escândalo “Sodoma”, do francês Frédéric Martel, segundo o qual 80% do clero do Vaticano é homossexual, mas mantém isso em segredo. E com uma ajudinha, inclusive financeira, do bilionário Jeffrey Epstein, amigo de ricos e poderosos. Sim, existe também o sonho de Steve Bannon de humilhar o Vaticano no mar de arquivos de Epstein. Mensagens enviadas a Epstein em diversas ocasiões que refletem a aspiração, senão a própria conspiração, de enfraquecer e causar constrangimentos a Bergoglio.
A reportagem é de Anna Lombardi, publicada por La Repubblica, 15-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Não está claro até que ponto o financista pedófilo, na época já ciente das investigações contra ele (escreveu sobre isso para Bannon em um chat), de fato pretendia ajudá-lo. O tom da troca de mensagens é, por um lado, exaltado e, por outro, irônico. Por exemplo, em setembro de 2018, ao amigo que se empenha em lhe enviar artigos sobre a condenação do Vaticano ao "nacionalismo populista" tão caro a ele — chegando a enviar um do jornal La Repubblica ("Bannon, o europeu, abre a fortaleza populista em Bruxelas") —, Epstein responde citando versos sobre a expulsão de Satanás de "Paraíso Perdido", de John Milton: "Melhor reinar no inferno do que no Paraíso". Uma referência, talvez, ao fato de o guru da extrema-direita estadunidense ter acabado de perder o cargo de Conselheiro de Segurança Nacional, tendo também sido demitido da revista que dirigia “Breitbart”, devido a uma rixa com Ivanka, a filha de Donald Trump. A resposta é igualmente irônica: “O importante é reinar...”, escreve Bannon, já ocupado tecendo a rede dos soberanistas europeus: “Estou focado em arrecadar fundos para Le Pen e Salvini para que possam concorrer com chapas completas”, escreve, de fato, em uma das mensagens contidas nos arquivos. Apesar das várias referências ao Vaticano ocorrerem em contextos mais amplos, onde outros assuntos também são discutidos — incluindo garotas —, Bannon frequentemente lamenta em suas mensagens o empenho do Papa contra a xenofobia, o racismo e o populismo, bem como as relações da Santa Sé com a China. E, por fim, ele explicita claramente suas aspirações em uma conversa datada de 19 de junho de 2019, realizada no iMessage apenas duas semanas antes da prisão de Epstein. "Will take down Fancis", escreve: uma frase sem sujeito, e portanto não fica claro se ele quer dizer "nós" vamos derrubar Francisco, ou "it", ele, entendido como o livro ou o filme. Em seguida, lista todos os "inimigos": "Os Clintons, Xi, Francisco, a UE. Vamos lá, irmão", ele o incentiva.
Os dois certamente já haviam conversado sobre o livro. De fato, os arquivos também contêm uma nota datada de 1º de abril de 2019, enviada por Epstein para si mesmo, com o título em inglês "In the Closet of the Vatican" (No Armário do Vaticano). Convencido de que ele poderia ser útil à causa, Bannon queria o próprio Epstein como financiador. Sempre o repete, entre uma frase e outra: "Você agora já é praticamente o produtor executivo da Itcotv", escreve. E quando Epstein responde com um ponto de interrogação, Bannon lhe explica que é o acrônimo do título completo. O financista, no entanto, não dá continuidade. Passa a outro assunto, pedindo-lhe para entrevistar outro amigo, que também pertence ao campo oposto: o linguista e filósofo de esquerda Noam Chomsky. Bannon não desiste. Ele se encontra com Martel em Paris e lhe pede para lhe vender os direitos. Mas Martel não pode: "pertencem à editora francesa". Nada será feito: Epstein morre na prisão em 10 de agosto daquele mesmo ano.
Nos três milhões de arquivos, há outras referências ao Vaticano. Em sua maioria, irreverentes. Como quando, durante a viagem papal aos Estados Unidos em 2015, Jeffrey escreve ao seu irmão Mark: "Está hospedado perto da minha casa. Pensei em convidá-lo para uma massagem": e se seguem comentários obscenos. Na realidade, ele tinha algum interesse nos assuntos do Vaticano: as finanças. Alguns arquivos fazem referência ao livro "Who Killed God's Banker?: A 30 Year Investigation" de Edward Jay Epstein (não parente), que detalha a estrutura financeira do banco do Vaticano, a quebra do Banco Ambrosiano de 1982 e a morte de Roberto Calvi, encontrado enforcado sob a Ponte Blackfriars, em Londres.
É fato conhecido, por outro lado, que Bannon nutria ojeriza pelo Papa Francisco: em um artigo no jornal ultraconservador The Spectator, ele o acusou de se aliar às "elites globalistas". Incentivando - de acordo com o site investigativo "SourceMaterial" - tmbém Matteo Salvini a atacá-lo. "Bannon pretendia constrangê-lo e prejudicá-lo ao pedir uma nova pureza da Igreja. Acho que ele interpretou de forma equivocada a natureza do livro e do pontífice", explica Austen Ivereigh, biógrafo do Papa, à CNN. A emissora, que também conversou com o ex-diretor da Civilização Católica, o jesuíta Antonio Spadaro: "Essas mensagens demonstram um desejo de fundir 'autoridade espiritual e poder político para fins estratégicos'”. O falecido Papa, explica Spadaro, opôs-se a esse vínculo: "O que as mensagens revelam não é simplesmente hostilidade contra um pontífice, mas uma tentativa mais profunda de instrumentalizar a fé como arma — a própria tentação que ele buscava desarmar".
De fato, entre 2018 e 2019, houve um intenso esforço de bispos estadunidenses ultraconservadores contra ele. Isso culminou no dossiê publicado em agosto de 2018 pelo então arcebispo Carlo Maria Viganò, na época já ex-núncio apostólico nos Estados Unidos, acusando-o de não ter enfrentado os abusos cometidos pelo cardeal Theodore McCarrick. O Papa foi exonerado por uma investigação sucessiva do Vaticano. Viganò, no entanto, foi excomungado em 2024 por não reconhecer a legitimidade do Papa Francisco, a validade do Concílio Vaticano II e por separar suas posições da Igreja Católica.
O desejo de Bannon de transformar o livro de Martel em filme fez com que ele perdesse um poderoso aliado no Vaticano: o cardeal ultraconservador Raymond Burke, adversário de Francisco, sim, mas retratado de forma pouco lisonjeira naquele texto. O religioso acabou, portanto, rompendo vínculos com o Dignitatis Humanae, o instituto fundado pelo britânico Benjamin Harnwell, colaborador próximo de Bannon na Itália. O mesmo instituto com o qual o estadunidense havia colaborado para criar a academia para líderes nacionalistas-populistas na “Certosa di Trisulti”, que recentemente voltou aos noticiários. Harnwell, de fato, acaba de recorrer da decisão do Tribunal Administrativo Regional de anular a atribuição daquele mosteiro a eles.
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