Cardeais, jornalistas e prelados: a rede ultraconservadora que conspirava contra Bergoglio

Steve Bannon | Foto: Nordiske Mediedager | Flickr CC

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21 Fevereiro 2026

"Pois uma bênção papal teria consagrado o projeto dos soberanismo estadunidense, mas a presença de Francisco no trono de Pedro, na época, e de Leão XIV, hoje, representa um obstáculo incontornável", escreve Iacopo Scaramuzzi, vaticanista de La Repubblica e autor de vários livros historicamente focados no atual papado, como, Il sesso degli angeli: pedofilia, feminismo, LGBTQIA+: il dibattito nella Chiesa, em artigo publicado por La Repubblica, 15-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Bem antes de Donald Trump conquistar seu primeiro mandato e ser chamado à Casa Branca, em 2014, Steve Bannon expôs sua visão de mundo – o “conflito sangrento” necessário para preservar o Ocidente judaico-cristão, uma mistura de desconfiança e admiração pela "cleptocracia" de Putin, a sintonia com os movimentos de direita europeus — tudo isso em uma longa videoconferência com o Vaticano. A ocasião era um encontro promovido pelo Instituto Dignitatis Humanae, um think tank católico ultraconservador com conexões no Estado pontifício, e marcava a aurora de uma atenção quase obsessiva no mundo trumpiano pelo Palácio Apostólico.

Pois uma bênção papal teria consagrado o projeto dos soberanismo estadunidense, mas a presença de Francisco no trono de Pedro, na época, e de Leão XIV, hoje, representa um obstáculo incontornável. E assim, ao longo dos anos, Bannon e comparsas se empenharam em dirigir a Roma zombarias, críticas e ameaças, que reapareceram inclusive do turbilhão dos arquivos Epstein.

Durante o primeiro mandato de Trump, Bannon podia contar com três homens na Itália. Havia Thomas Williams, correspondente em Roma na época do Breitbart News, o site de notícias estadunidense de extrema-direita que serviu de trampolim para a entrada de Bannon na política. Havia também o Cardeal Raymond Leo Burke, líder da oposição curial a Francisco, que mais tarde rompeu com Bannon quando este começou a considerar a produção, com a ajuda de Epstein, de um filme sobre "Sodoma", o livro investigativo do escritor francês Frédéric Martel sobre a generalizada homossexualidade encoberta existente no Vaticano (Burke aparecia nas páginas do livro).

O próprio Martel explicou recentemente ao Religion News Service que nunca aceitou a proposta de Bannon e que não teve nenhum contato com Epstein. Por fim, em Roma, havia Benjamin Harnwell que, como chefe do Instituto Dignitatis Humanae, promoveu a tentativa de Bannon de se apoderar da Cartuxa de Trisulti, em Ciociaria, para transformá-la em uma escola para soberanistas. O caso se arrasta até hoje, já que o Ministério do Patrimônio Cultural primeiro concedeu o mosteiro a Harnwell, mas depois revogou a concessão por supostas declarações fraudulentas. Contudo, o homem de Bannon, nesse ínterim, foi absolvido dessas acusações e agora voltou novamente à com tudo recorrendo ao Tribunal Administrativo Regional do Lácio.

Steve Bannon certamente tinha como alvo o Papa Francisco, seus apelos em defesa dos migrantes e suas aberturas ao Islã e à China. Foi naqueles anos — conforme relatado pelo site source-material.org — que ele aconselhou Matteo Salvini a "atacar" Francisco como uma tática infalível para vencer as eleições. Para ilustrar a alta tensão entre os Estados Unidos e o Vaticano, durante aqueles mesmos anos, o então núncio apostólico nos Estados Unidos, D. Carlo Maria Viganò, acusou Bergoglio de ter acobertado as denúncias de abusos sexuais de menores realizados pelo Cardeal Theodore McCarrick, acusações posteriormente desmentidas por um detalhado relatório publicado pelo Vaticano em 2020. Agora que Francisco não está mais entre nós, a atenção de Bannon pelo Vaticano não diminuiu. Enquanto outros membros da galaxia trumpiana, a começar por JD Vance e Marco Rubio, tentam entretecer relações cordiais com o Pontífice nascido em Chicago, Bannon definiu Leão XIV como "papa anti-Trump", a "pior escolha para os católicos MAGA", o Pontífice que "Bergoglio e sua camarilha queriam". Prevost, por sua vez, já deixou claro que este ano, contrariamente às expectativas, não visitará os Estados Unidos.

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