Um duelo entre o Papa Leão XIV e os poderes das gigantes da tecnologia: para os padrões econômicos, regulamentar é um sinal do Anticristo. Artigo de Marco Politi

Foto: Tianyi Ma/Unsplash

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13 Novembro 2025

"Mas é sobretudo no tema da inteligência artificial que se desenha o debate/embate de Leão com os interesses das grandes empresas de tecnologia EUA aliadas ao governo Trump. Em jogo está o poder econômico e político em escala mundial e lucros que se medem em trilhões", escreve Marco Politi, em artigo publicado por il Fatto Quotidiano, 08-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Seis meses após a ascensão do novo pontífice, Leão XIV, a escolha do conclave torna-se mais clara.

Os idosos cardeais reunidos na Capela Sistina geralmente parecem ao público como sábios, mas também anciãos, inexoravelmente ultrapassados pelos tempos e pelo desenvolvimento da modernidade.

No entanto, de ciclo em ciclo, esses supostos anciãos provam ser capazes de fazer escolhas estratégicas lúcidas.

Ano 1978: com os Acordos de Helsinque de 1975, a Guerra Fria é definitivamente sepultada, as relações entre o Ocidente e o império soviético tornam-se mais abertas e o mundo entra em uma nova fase. E eis que os cardeais eleitores, após a passagem meteórica de João Paulo I, escolhem como papa um líder religioso do próprio campo soviético. A escolha é visionária. Nenhum outro papa — exceto Karol Wojtyla — poderia ter se posicionado com tanta força no cenário internacional, desempenhando um papel crucial no desmonte do império soviético.

Ano 2025: todos os parâmetros usuais do esquema planetário desapareceram. O estilo prepotente da presidência de Trump, a guerra na Ucrânia, o terremoto no Oriente Médio causado pelo extermínio perpetrado pelo exército israelense em Gaza e pelo delírio de onipotência do governo de Tel Aviv marcam o que o Papa Francisco batizou de mudança de época. Nos Estados Unidos, o sistema liberal-democrático de freios e contrapesos está sendo desafiado pelo autoritarismo de Trump; no eixo atlântico, a ideia do Ocidente vai desvanecendo; no cenário mundial, o multilateralismo está perdendo força e a perspectiva de um clube de grandes potências dominadoras está emergindo. Pode parecer surpreendente, mas, mais uma vez, os vetustos cardeais que se reuniram no conclave de maio de 2025 acertaram em cheio. Eleger um papa africano teria tido um significado meramente simbólico; eleger um italiano teria sido o mesmo que se apegar a antigos hábitos; escolher um europeu teria parecido um ato de autoconfiança: como se somente o Velho Continente pudesse oferecer um líder capaz de sanar as divisões dentro da Igreja.

Diante do poder avassalador do Imperador Trump, os cardeais colocaram à frente do catolicismo um homem nascido em Chicago, alguém que não pode ser considerado antiamericano, ou que não entenda os Estados Unidos, ou que esteja fora de sintonia com a modernidade. O escolhido é uma personalidade perfeitamente consciente da complexidade do sistema econômico, financeiro e tecnológico do século XXI, mas que, ao mesmo tempo, vivenciou no Sul global do planeta, no Peru, o suor, a poeira, a exploração e a pobreza daqueles que estão “abaixo”.

Se os ultraconservadores esperavam impor um papado que retrocedesse no plano eclesiástico ou na abordagem dos problemas políticos, ficaram desapontados. Sim, o Papa Prevost autorizou a celebração da Missa em latim na Basílica de São Pedro, mas não aboliu a bênção de casais homossexuais, o acesso à comunhão para divorciados e recasados continua, assim como a nomeação de mulheres para cargos no topo da Cúria Romana.

Tampouco há qualquer flexibilização no plano social. Seguindo o exemplo de Francisco, o Papa Prevost continua a denunciar firmemente a exploração e a marginalização, atacando o cerne das políticas repressivas de Trump (e dos partidos populistas de extrema-direita). “Segurança nas fronteiras é uma coisa”, disse ele no recente encontro com os Movimentos Populares, “mas com o abuso de migrantes vulneráveis, não estamos assistindo ao exercício legítimo da soberania nacional, mas sim a crimes graves cometidos ou tolerados pelo Estado... (Estão sendo adotadas) medidas cada vez mais desumanas — até mesmo politicamente celebradas — para tratar esses indesejáveis como se fossem lixo e não seres humanos”.

Mas é sobretudo no tema da inteligência artificial que se desenha o debate/embate de Leão com os interesses das grandes empresas de tecnologia EUA aliadas ao governo Trump. Em jogo está o poder econômico e político em escala mundial e lucros que se medem em trilhões.

Leão pretende publicar um documento crucial sobre o assunto, e as poderosas forças da alta tecnologia já estão se mobilizando. Nos Estados Unidos, Peter Thiel, fundador do PayPal, da Palantir e de poderosos fundos de investimento, mentor intelectual de Elon Musk e do vice-presidente estadunidense Vance, lançou um ciclo de palestras pagas abertas a figuras empresariais, religiosas e políticas para argumentar que o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial não devem ser impedidos por regulamentações. A imagem utilizada é a de um Anticristo contrário ao progresso, um Anticristo que espalha visões catastróficas.

O que está em jogo, explica Thiel, é a defesa das liberdades individuais, que devem ser absolutamente protegidas de sufocantes normas impostas em nome de uma suposta segurança coletiva. Como já na época da pandemia da Covid, as forças animalescas da economia rejeitam regras ou proibições, desfraldando o espectro de um obscuro governo mundial centralizado que visa sufocar os indivíduos. É sempre o mesmo esquema: as regras ditadas para o bem comum (defendidas por Francisco ontem e por Leão hoje) são apresentadas como instrumentos diabólicos. Um sinal do Anticristo, segundo Thiel.

O Papa Francisco, porém, na cúpula do G7 na Puglia em 2024, já havia enfatizado a necessidade da política governar o desenvolvimento tecnológico para que fosse orientado ao serviço do ser humano e não desconectado do sentido ética. Nesse capítulo da história inteiramente novo, entende-se melhor por que a escolha de um Papa estadunidense foi visionária.

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