Anistia – o guizo no tempo. Artigo de Luiz Marques

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil | FotosPúblicas

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Setembro 2025

Anistiar golpistas não é pacificação, é capitulação. É conceder impunidade a quem desdenha da democracia e alimentar o espírito golpista para a próxima investida, transformando a lei em mero instrumento de chantagem.

O artigo é de Luiz Marques, professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra, publicado por A Terra é Redonda, 10-09-2025.

Eis o artigo.

Em época de ódio nos olhos daqueles que manipulam as tropas bolsonarista e neopentecostal, os argumentos contrários à punição dos golpistas soam feito notas desafinadas, no ar. O projeto de lei para anistia ampla geral e irrestrita, encampado pelo governador de São Paulo, é um salvo-conduto à impunidade. Trata-se de uma provocação cínica. A extrema direita debocha do Estado de direito democrático e da República. O que apresenta não é uma proposta; é uma chantagem assumida na intimidação transmitida pela secretária de Imprensa da Casa Branca, em uma coletiva oficial.

A pretensa pacificação dá continuidade ao golpe, por outras vias. Os considerandos zombam do bom senso diplomático. Na prática, legitimam a prerrogativa avocada pela ala raivosa da Câmara dos Deputados para aprovar o consenso possível na maioria, em plenário. Afinal, “bandido bom é bandido solto”. O Supremo Tribunal Federal sofre o desaforado eclipse sob tenebrosos conchavos.

Citações descontextualizadas tergiversam o óbice ao STF para julgar os réus; coisa que a defesa nos autos do processo sequer questiona. Transfere-se ao Legislativo o papel de tertius na equação do crime. A proposição é ilógica: a conclusão (desresponsabilização pela tentativa de instalar o regime de exceção) nega a premissa (a letra da Constituição) que valida o julgamento. A instância máxima da magistratura para sentenciar os mentores diretos dos atos de terrorismo em 8 de janeiro de 2023, com a depredação das sedes dos três poderes, é tirada do palco iluminado e empurrada para a coxia.

Classificar a empreitada frustrada de terrorista não é figura de linguagem. Descreve a literalidade dramática da situação. A violência só não causou mais estragos por um detalhe técnico. A bomba em um caminhão de combustível defronte o Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, na véspera do Natal em 2022, falhou por obra da Providência. A explosão acarretaria um número incalculável de vítimas na Capital do país. O clima político propício à intervenção para restaurar a normalidade.

O pressuposto para zerar a polarização (democracia esclarecida versus obscurantismo anticiência) é falso. A ideia de que a paz social pode ser alcançada sem o confronto da norma com os fatos, aponta como inadequada, per se, a penalização de transgressões a mecanismos normativos constitucionais. A solução “centrista” implica jogar a sujeira debaixo do tapete. Para a tradição autoritária, o silêncio é questão de finesse, à espera da volatização espontânea dos conflitos. Melhor aguardar sentados.

Metaforicamente a conciliação advém da reintegração do joio na plantação de trigo. O acolhimento na reconstrução de inimigos impunes, porém, concorre para um inevitável enfraquecimento das instituições, por inoperância. O ajuste alinhavado contém em embrião a preparação de outro putsch, uma vez que a base econômica, política e militar sai incólume da aventura milenarista. O espírito golpista recrudesce e a erosão da democracia aumenta geometricamente. O fiador da sociabilidade e da tolerância já não seria a legislação, mas um conluio de facções criminosas com a Faria Lima.

Abaixo o traidor

Propor ao governo brasileiro entregar “terras raras”, sabe-se lá mais o quê. E, ao sistema judiciário, apagar acusações fundamentadas aos pacientes da justiça para o acordo de tarifas de exportação é ceder os dedos e os anéis. O atestado de minoridade da autodeterminação pátria e de servidão a uma potência estrangeira. Ignomínia execrada e punida no hino norte-americano, convém observar aqui.

“If a foe from within / Strike a blow at her glory // Down, down with the traitor / That dares to defile / The flag of her stars / And the page of her story” (“Se um inimigo de dentro / Golpear a sua glória // Abaixo, abaixo o traidor / Que ousa contaminar / A bandeira das estrelas dela / E a página de sua história”). Para trazer o imperativo categórico kantiano, é preciso agir de modo que nossas ações se transformem em lei universal; não é dado fazer a outrem o que não queremos que façam conosco. Vale para a moral individual e para a relação entre os países que buscam a cooperação.

Donald Trump é o profeta armado de ressentimento dos Estados Unidos, que perderam a corrida comercial e tecnológica para a China. Eduardo Bolsonaro traduz o desespero pelo desmascaramento da famiglia embusteira, que hegemoniza a direita apesar das escroquerias e vilanias conhecidas pela opinião pública. Com suas razões específicas, ambos estão presos ao mesmo imbróglio. O primeiro simula a liderança global que não usufrui. O segundo dissimula o insignificante dublê de Domingos Fernandes Calabar, na vergonhosa traição ao Brasil. A exemplo da canção gauchesca: “Para que digam quando eu passe – saiu igualzito ao pai / Nem me desperte tão cedo do meu sonho de guri”.

As peças no tabuleiro não têm uma natureza moral, senão o sentido de dominação ora geopolítica ora quadrilheira de proteção a interesses particulares escusos. Afrontam tanto a soberania nacional, quanto o código penal. Brandir os “fins” para justificar meios espúrios de atingir a meta alvissareira para a coletividade (leia-se as empresas e os empregos) não é cabível, no caso. O realismo político não se rende à arrogância, tampouco combina com o servilismo. Antes, encorpa o povo na condição de sujeito e torna, os indivíduos, responsáveis por suas decisões e indecisões à luz da Carta Magna.

Em um artigo de 1944, George Orwell ao relembrar versões da Guerra Civil Espanhola declara que, mais que a recordação das bombas, o que o assusta é a “perspectiva de um mundo em que um líder ou um grupo dominante possa controlar não só o futuro como também o passado”. É o desejo dos vira-latas com a gigante bandeira de homenagem ao opressor para pôr o guizo nas dimensões do tempo. A inspiração encontra-se no nazifascismo; a pusilanimidade acha-se nos chamados liberais.

Quem luta em prol de uma autêntica nação, com uma democracia formada por cidadãos e cidadãs, e não servos e servas – temos o dever ético de repudiar o revisionismo ideológico (negacionismo) que abjura ou minimiza fatos com concepções fechadas, onde as convicções substituem os indícios e as provas. A adulteração de fontes e contextos leva a erros propositais. Não é admissível renunciar à verdade para dissolvê-la em narrativas fantasmagóricas que alimentam as teorias conspiratórias, em universos paralelos. Fica então estabelecido: pedra é pedra e anistia não é cobertor para covardes.

Leia mais