Netanyahu: o plano louco para derrubar os aiatolás. Artigo de Gad Lerner

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no gabinete de guerra. (Foto: Rede social | Benjamin Netanyahu / via Fotos Públicas)

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16 Abril 2024

"A hábil diplomacia iraniana (é isso mesmo: é possível ser fanáticos obscurantista e dispor de uma renomada escola nas relações internacionais) logo após o ataque com drones e mísseis informou, por intermédio do embaixador na ONU, que não haveria seguimento, incidente encerrado, a menos que...", escreve Gad Lerner, jornalista e escritor, radicado na Itália, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 15-04-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Depois de já ter levado Israel a uma condição de isolamento internacional nunca antes vista, e depois de ter obrigado os seus próprios aliados a distanciarem-se dos crimes cometidos em Gaza, Netanyahu pensou que não lhe restava mais nada a não ser a arma da chantagem: empurrar o Irã para o confronto direto, na crença de que naquele momento os Estados Unidos e a União Europeia, embora recalcitrantes, seriam obrigados a segui-lo na aventura militar. Quanto pior, melhor, em suma.

Ampliação do conflito. Confronto final com o objetivo – nada menos – da derrubada pela via militar do regime dos aiatolás no poder desde 1979.

Bibi colocou certo método nessa loucura. O ataque de segunda-feira, 1 de abril, ao consulado iraniano em Damasco e o assassinato do general dos pasdaran, Mohammad Reza Zahedi, representam um desafio que exigiu que aquele que o recebeu respondesse à altura. Especialmente se o sujeito em questão se considera o líder do Islã antiocidental e, ao mesmo tempo, herdeiro do milenar império persa.

Teerã levou duas semanas antes de reagir com um ataque noturno a Israel, que pretendia ser ao mesmo tempo espetacular, mas contido. Uma guerra sem homens, uma chuva de bombas do céu que pretendia manifestar poder mas respeitar a distância geográfica: Teerã fica a 2 mil quilômetros de Telavive, não há uma fronteira direta onde se enfrentar.

Não só. A hábil diplomacia iraniana (é isso mesmo: é possível ser fanáticos obscurantista e dispor de uma renomada escola nas relações internacionais) logo após o ataque com drones e mísseis informou, por intermédio do embaixador na ONU, que não haveria seguimento, incidente encerrado, a menos que...

A bola de fogo foi assim devolvida às mãos do governo israelense. Que está dividido internamente.

Quando Benny Gantz, o grande rival de Netanyahu, agora escolhido pelos Estados Unidos para o substituir, anuncia que "construiremos uma coligação regional contra a ameaça do Irã e cobraremos um preço na forma e no momento que nos convier", é evidente que está protelando. Porque tal “coligação regional” não existe e não existirá nem mesmo com os países árabes que temem o Irã e que contribuíram para limitar os danos do seu ataque com mísseis. Assim como é claro que os EUA estão fazendo de tudo para evitar a escalada para a qual não querem ser arrastados, nem eles, nem a Arábia Saudita e as petromonarquias do Golfo.

Então a pergunta dramática torna-se: um Netanyahu reduzido ao aventureirismo depois de ter-se atolado em Gaza, poderia dar ouvidos aos encantos dos partidos supremacistas e messiânicos que trouxe para o seu governo e tomar a iniciativa solitária de um bombardeio em massa sobre o Irã? E em tal caso, obedecer-lhe-ia o Estado-Maior das forças armadas israelenses, onde o seu descrédito é absoluto?

Um primeiro-ministro de quem os parceiros ocidentais aprenderam a desconfiar e de quem estão se distanciando, movido pelo desespero, tentará convencê-los de que é possível provocar uma mudança de regime num país de 90 milhões de habitantes. E alguém mais fanático do que ele lhe sugere ao ouvido que se Israel lançar o ataque, os aliados só poderão apoiá-lo. Pouco importa se isso irá alimentar no mundo o estereótipo antissemita segundo o qual “são sempre os judeus que provocam as guerras”. O absurdo dessa extensão do conflito, que tornaria a situação dos palestinos em Gaza e na Cisjordânia ainda mais frágil, é a ausência de um contencioso territorial ou de uma disputa de interesses econômicos entre os dois inimigos mortais. Parece mais que um precisa do outro, no plano ideológico, para se justificar.

O Hamas, que pôs fogo ao estopim, está exultante. O mundo treme.

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