O caso Lintner. Artigo de Marcelo Neri

Foto: Karl Fredrickson | Unsplash

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

01 Julho 2023

O poder substancialmente discricionário de limitar a liberdade de pesquisa teológica, garantido também no nível do direito público pelo regime concordatário, deveria ser usado com extrema atenção e sabedoria pelo magistério católico, e não apenas por uma questão de imagem.

O artigo é de Marcello Neri, teólogo e padre italiano, professor da Universidade de Flensburg, na Alemanha, publicado por Settimana News, 29-06-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Apesar da explícita vontade do interessado e do bispo de Bressanone, Ivo Muser, expressada na “renúncia ao direito de recurso hierárquico”, a decisão sancionatória do Dicastério para a Cultura e a Educação Católica de não conceder ao Prof. Linter o “nada obsta” para sua nomeação como reitor da Faculdade Teológica Acadêmica de Bressanone gerou, de fato, um caso.

E não podia ser diferente, por muitas razões. O motivo alegado para a rejeição do “nada obsta” se encontraria “nas publicações do Prof. Lintner sobre questões de moral sexual católica” – afirma o lacônico comunicado de imprensa publicado no site da faculdade (assinado pelo bispo e pelo atual reitor).

Uma razão que surpreende o próprio corpo acadêmico que o elegeu: “Soubemos com grande pesar que o nihil obstat não foi concedido ao nosso colega. Não conseguimos compreender essa decisão e deploramos a falta de transparência em fornecer motivações. Estamos à disposição para uma conversa esclarecedora com as autoridades vaticanas competentes. Estimamos muito o Pe. Lintner como homem e teólogo, e compartilhamos o reconhecimento de que ele goza na comunidade científica internacional. Apreciamos sua elevada competência no campo da teologia moral, sua fidelidade à Igreja, suas argumentações moderadas, seu constante empenho orientado ao sensus ecclesiae” (declaração das professoras e dos professores da Faculdade Teológica Acadêmica de Bressanone, assinada pelo atual reitor, Norbert Notdurfter).

Deve-se levar em conta também a particularidade do Faculdade Teológica Acadêmica de Bressanone no contexto das faculdades teológicas italianas. Em primeiro lugar, no que diz respeito à transparência dos procedimentos – sendo substancialmente a única realidade acadêmica em Itália que, por exemplo, realiza concursos públicos regulares para a nomeação dos professores. Um segundo aspecto diz respeito ao vínculo natural com o mundo teológico de língua alemã – com uma autocompreensão da teologia católica como disciplina ancorada nas universidades públicas.

E é de fato dessas regiões que vieram as vozes mais preocupadas. “Do nosso ponto de vista, a rejeição do ‘nada obsta’ à nomeação como reitor da Faculdade Teológica Acadêmica de Bressanone está em contradição com o que é afirmado no proêmio da constituição apostólica Veritatis gaudium (em particular o n. 3). No corpo acadêmico, o Prof. Lintner é um colega altamente estimado, competente e renomado. Uma voz importante no debate público e no teológico-moral, que em suas publicações sobre ética relacional procura desenvolver a moral sexual católica para que esta possa representar uma contribuição construtiva, fecunda e próxima das situações de vida dos homens e das mulheres do nosso tempo” (Conselho das Faculdades Teológicas Católicas de Língua Alemã).

“Como presidentes da Associação Internacional para a Teologia Moral e a Ética Social e de ambas as associações alemãs dessas disciplinas, expressamos a nossa solidariedade incondicional ao Prof. Martin Lintner, OSM (…). Não compreendemos a rejeição do ‘nada obsta’ para a nomeação do Prof. Lintner como reitor da Faculdade Teológica Acadêmica de Bressanone. Criticamos a intervenção disciplinar do Dicastério para a Cultura e a Educação Católica por ser profissionalmente inadequada e injustificada (…). Nenhum argumento foi oferecido para essa decisão. A falta de transparência tanto no procedimento quanto no que diz respeito à própria decisão não deixa outra possibilidade senão a de ver nessa forma de proceder uma demonstração de poder curial”.

Também neste caso capta-se uma evidente contradição entre a decisão do dicastério vaticano e o proêmio da Veritatis gaudium: “A castração da autodeterminação institucional de uma instituição de ensino e de pesquisa vai em sentido contrário ao que é afirmado nos números 3 e 5 da Veritatis gaudium. O modo curial de proceder só prejudica profundamente o crédito da disciplina teológica no concerto dos saberes públicos”.

Até o dia 29 de junho, segundo seu site e seu blog Moralia, reina um silêncio absoluto dentro da Associação Teológica Italiana para o Estudo da Moral (ATISM). Assim como ficou em silêncio todo o mundo teológico italiano, tanto em nível de indivíduos quanto de associações.

Na declaração das associações para a teologia moral e a ética social, evidencia-se como essa decisão do Dicastério para a Cultura e a Educação Católica mina a liberdade acadêmica da teologia no contexto dos saberes público. Nada a contestar: de fato, é exatamente isso.

A liberdade acadêmica da teologia católica é uma liberdade limitada em sua raiz, dado seu atual quadro enquadramento concordatário no contexto das universidades públicas e seu quadro disciplinar no das universidades católicas.

Antes de imaginar emancipações pós-concordatárias, porém, é preciso lembrar que se há, em alguns países, uma teologia católica nas universidades públicas é justamente pelo mesmo vínculo que a limita em sua liberdade de investigação, pesquisa, ensino, participação no debate público.

Intervenções da Cúria vaticana como a que atingiu o Prof. Lintner certamente cria um vulnus em relação à presença pública da teologia católica, um vulnus que pode ter todas as razões jurídico-canônicas internas à Igreja Católica, sem, contudo, tirar o fato de que elas não apenas limitam a liberdade acadêmica da teologia, mas também não fazem bem à própria Igreja.

O poder substancialmente discricionário de limitar a liberdade de pesquisa teológica, garantido também no nível do direito público pelo regime concordatário, deveria ser usado com extrema atenção e sabedoria pelo magistério católico, e não apenas por uma questão de imagem.

A esse respeito, pode-se dizer duas coisas. Na esquizofrenia da Veritatis gaudium, venceu a parte jurídica (como era imaginável). O proêmio acrescentado às pressas pelo Papa Francisco encontra-se, assim, desautorizado pelo magistério mais alto de um dicastério vaticano.

A decisão tomada por Dom Muser, em concordância com o Prof. Lintner, de renunciar ao recurso hierárquico é compreensível como forma de proteção da Faculdade Teológica Acadêmica de Bressanone. Mas essa decisão também não faz bem nem para a teologia nem para a Igreja Católica italiana.

Se há o reconhecimento de que um posicionamento curial contradiz tanto o magistério de um bispo local quanto o procedimento sinodal de uma instituição teológica dentro dele, não se pode recuar em um passo em relação ao fato de proceder nas formas contempladas pelo próprio Direito Canônico e pelos textos jurídicos eclesiais sobre a matéria.

A submissão para proteger aquilo que resta de liberdade de uma Igreja local e da liberdade acadêmica de sua instituição teológica corre o risco de legitimar o modo de proceder expressado na decisão do Dicastério para a Cultura e a Educação Católica.

O poder da chantagem preventiva paira como uma obscura sombra ameaçadora sobre a teologia italiana, no grande silêncio obsequioso de que ela é esplendidamente capaz.

Leia mais