Notas do cardeal Bergoglio lidas em 9 de março de 2013 durante uma Congregação pré-Conclave

Cardeal Bergoglio. (Foto: Reprodução | Vatican Media)

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15 Março 2023

O cardeal Bergoglio antes de sua eleição disse: "Pensando no próximo Papa: um homem que, através da contemplação de Jesus Cristo e da adoração de Jesus Cristo, ajude a Igreja a ir além de si mesma em direção às periferias existenciais".

As notas são publicadas por Il sismógrafo, 14-03-2023. A tradução é de Luisa Rabolini

Tradução das notas do então Cardeal Bergoglio doadas ao coirmão arcebispo de Havana, Cardeal Jaime Ortega (falecido em 2019) e que anos atrás foram publicadas com a autorização do agora Papa Francisco. O Cardeal Bergoglio usou essas notas em seu discurso em 9 de março de 2013 em uma das Congregações pré-Conclave.

Texto integral das notas do cardeal Bergoglio (Roma, 9 de março de 2013).

Fez-se referência à evangelização. É a razão de ser da Igreja. “A doce e reconfortante alegria de evangelizar” (Paulo VI). É o próprio Jesus Cristo que, de dentro, nos impulsiona.

1) Evangelizar implica zelo apostólico. Evangelizar pressupõe na Igreja a "parrésia" de sair de si mesma. A Igreja é chamada a sair de si mesma e ir para as periferias, não só aquelas geográficas, mas também aquelas existenciais: aquelas do mistério do pecado, da dor, da injustiça, aquelas da ignorância e da ausência de fé, aquelas do pensamento, aquelas de todas as formas de miséria.

2) Quando a Igreja não sai de si mesma para evangelizar, torna-se autorreferencial e então adoece (basta pensar na mulher curvada sobre si mesma do Evangelho). Os males que, ao longo do tempo, afligem as instituições eclesiásticas têm raízes na autorreferencialidade, numa espécie de narcisismo teológico. No Apocalipse, Jesus diz que Ele está na soleira e chama. Evidentemente o texto se refere ao fato de que Ele está do lado de fora da porta e bate para entrar... Mas às vezes penso que Jesus bate de dentro, para que nós o deixemos sair. A Igreja autorreferencial pretende manter Jesus Cristo dentro de si e não o deixa sair.

3) A Igreja, quando é autorreferencial, sem perceber, acredita ter luz própria; deixa de ser o "mysterium lunae" e dá lugar àquele grave mal que é a mundanidade espiritual (segundo De Lubac, o pior mal em que a Igreja pode incorrer): aquele viver para dar glória uns aos outros. Simplificando, há duas imagens de Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si mesma; aquela do "Dei Verbum religiose e audiens et fidenter proclamans" (a Igreja que religiosamente escuta e fielmente proclama a Palavra de Deus), ou a Igreja mundana que vive em si, por si, para si. Isso deve iluminar as possíveis mudanças e reformas a serem realizadas para a salvação das almas.

4) Pensando no próximo Papa: um homem que, através da contemplação de Jesus Cristo e da adoração de Jesus Cristo, ajude a Igreja a ir além de si mesma rumo às periferias existenciais, que a ajude a ser a mãe fecunda que vive "da doce e reconfortante alegria de evangelizar".

Roma, 9 de março de 2013.

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