Sturm und drang: quando um vigário geral abandona a Igreja

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24 Mai 2022

 

Quando um bispo renuncia, isso não vira tanta notícia. Mas quando um vigário geral renuncia para abandonar a Igreja Católica e entrar em outra confissão religiosa, isso é bastante singular. Isso ocorreu na Alemanha, na Diocese de Speyer, onde o vigário geral Mons. Andreas Sturm, 47 anos, renunciou ao cargo, após um ano e meio de tormentos, segundo o que declarou ao jornal Mannheimer Morgen, para aderir à Igreja Vetero-Católica como pastor.

 

A reportagem é de Ludovica Eugenio, publicada em Adista Notizie, n. 19, 28-05-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

O bispo de Speyer, Dom Karl-Heinz Wiesemann, aceitou a renúncia e libertou Sturm de todos os deveres sacerdotais, e nomeou Markus Magin, reitor do seminário, em seu lugar, com efeito imediato.

 

Sturm, vigário desde 2018 e, nessa qualidade, responsável por milhares de funcionários e por um orçamento de milhões, sempre foi o rosto de uma Igreja capaz de se reformar, posicionando-se corajosamente sobre questões como a bênção das relações homossexuais e o celibato.

 

Ele divulgou uma declaração pessoal sobre as motivações que o levaram a dar esse passo, publicada no site da diocese: “Perdi a esperança e a confiança ao longo dos anos de que a Igreja Católica Romana possa realmente mudar”, afirmou ele em uma carta. “Ao mesmo tempo, vejo quanta esperança é depositada nos processos em andamento, como o Caminho Sinodal”, mas ele não se sente mais à disposição para “anunciar essa esperança e apoiá-la honesta e sinceramente, porque simplesmente não a tenho mais”.

 

Em uma carta à diocese, o bispo Wiesemann afirma que aceitou “com grande pesar” a renúncia do vigário, porque havia trabalhado com ele com “profunda confiança”. “Andreas Sturm trouxe muitas coisas positivas para a nossa diocese com o seu estilo pragmático e entusiasmado, e o seu compromisso apaixonado por uma Igreja renovada, que foi tocada por Deus e é próxima das pessoas”.

 

O vigário liderou a Diocese de Speyer por vários meses, durante a ausência do bispo por motivos de saúde. Na sua declaração pessoal, Sturm enfatizou que não vai embora com raiva, “mas com grande esperança para mim e para a minha própria vocação”. Ele pede perdão a todos: “Eu simplesmente não tinha mais forças”.

 

No dia 15 de junho será lançado o seu livro, pelas edições Herder, intitulado “Ich muss raus aus dieser Kirche” (“Devo sair desta Igreja”), no qual desnuda a si mesmo e os abusos na Igreja, fazendo uma avaliação implacável, mas também uma admissão de falência pessoal. O subtítulo do livro é ainda mais expressivo: Weil ich Mensch bleiben will, “Por que quero permanecer humano”.

 

Sturm foi pároco na diocese por 20 anos e, além da pastoral comunitária, trabalhou como guia espiritual da Comunidade dos Jovens Católicos (KjG) e como presidente diocesano da Associação da Juventude Católica Alemã (BDKJ).

 

Por que a escolha de se unir à Igreja Vetero-Católica? Nascida nos anos 1870, em contraste com as resoluções do Concílio Vaticano I (1869-1870) sobre a infalibilidade e o primado do papa, a diocese alemã vetero-católica tem nada menos do que 16.000 membros em 60 paróquias. Nos últimos anos, viu um grande afluxo de membros anteriormente católicos devido à sua abertura em relação a diversos temas: celibato opcional e padres casados, sacerdócio feminino, acolhimento às pessoas LGBTQ e matrimônio religioso para os casais homossexuais.

 

Motivos profundos

 

“Os abusos foram um grande problema”, afirmou Sturm. O relatório do estudo do MHG de setembro de 2018 “despedaçou” a sua visão de mundo. “Sempre pensei que houvesse abusos na Igreja, mas o fato de o percentual de casos ser tão alto em comparação com a sociedade como um todo e ver como é difícil enfrentar o problema na Igreja foi determinante”.

 

O papel das mulheres na Igreja também era um ponto sensível para ele: “Jesus não chamou apenas homens. Nós negamos as vocações femininas”. Há muita pesquisa teológica nesse campo, “nós, em vez disso, continuamos aumentando as paróquias de tamanho apenas porque pensamos que só pode haver, como padres, homens não casados”.

 

Essa consideração leva ao terceiro tema, o celibato obrigatório para os padres. “Homens casados ou que vivem com um homem também não podem ser admitidos?”, perguntou. Ele mesmo admitiu ter violado o celibato: “Mas, acima de tudo, feri pessoas, algo pelo qual lamento muito”. Sturm chamou a atenção em nível nacional quando se opôs à proibição do Vaticano em 2021 de celebrar bênçãos de casais homossexuais e anunciou que continuaria a abençoá-los.

 

No início deste ano, quando 125 pessoas queer a serviço da Igreja – padres, ex-padres, professores, funcionários da Igreja em várias funções, voluntários – “saíram do armário” com a campanha #OutInChurch, pedindo a eliminação de “declarações obsoletas da doutrina da Igreja” sobre questões de gênero, uma bênção na Igreja para os casais do mesmo sexo, uma mudança na lei sobre o trabalho na Igreja, que considera a homossexualidade de seus funcionários uma violação da lealdade, e o fim da discriminação contra fiéis homossexuais, bissexuais e transgêneros, Sturm estava entre aqueles que garantiram a ausência de consequências no direito do trabalho para os funcionários queer da Igreja.

 

Sturm também proferiu palavras de forte crítica quando o Vaticano, em 2020, emitiu a instrução sobre a vida paroquial intitulada “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja”, que enfatizava a centralidade da figura sacerdotal, dizendo-se decepcionado com o fato de que “as tentativas das dioceses de enfrentar de modo construtivo a falta de sacerdotes e de encontrar novas formas de pastoral estão recebendo tão pouco apoio por parte da Congregação para o Clero”.

 

Para ele, a corresponsabilidade entre clero e leigos nas paróquias – uma possibilidade que o Vaticano excluía claramente na instrução – não era “uma ameaça, mas sim uma oportunidade para as paróquias e também para os sacerdotes”, e a partilha dos encargos entre padres, diáconos, religiosos e leigos “fortalece a unidade em uma comunidade e enriquece a paróquia com pontos de vista diferentes”.

 

Comentários

 

A renúncia e a saída da Igreja de Sturm geraram muita repercussão, mas não um espanto excessivo: “A crise da Igreja abala profundamente o povo de Deus neste país e também atingiu o nível da liderança”, comenta Christoph Brüwer no sítio Katholisch.de. “No entanto, essa reação não surpreende.” Certamente, continua ele, é palpável “a desilusão e a decepção entre aqueles que esperam as reformas na Igreja. Para muitos, Sturm foi um pioneiro que, por exemplo, pediu a ordenação de diaconisas”.

 

A sua renúncia – este é o seu maior medo – “significa também um retrocesso para processos de reforma, como o Caminho Sinodal: aparentemente, os altos representantes da Igreja também não acreditam mais que as reformas em discussão serão efetivamente decididas e implementadas em tempo hábil e não podem mais anunciar de modo credível essa esperança. Na próxima assembleia sinodal em setembro, os sínodos terão a oportunidade de contrariar essa sensação e de tomar decisões concretas. Resta saber quantas pessoas receberão coragem e esperança com isso”.

 

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