África, a guerra do pão. Entrevista com o padre Elio Boscaini

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23 Mai 2022

 

Quais são as grandes repercussões para a África da guerra na Ucrânia? Falamos disso, nesta entrevista, com o Padre Elio Boscaini, missionário comboniano e jornalista da prestigiosa revista “Nigrizia”.

 

A entrevista com Padre Elio Boscaini é de Pierluigi Mele, publicada por Rai News, 21-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Antes de falar da Guerra do Pão, gostaria de lhe perguntar sobre a presença russa na África. Como está se movendo a Rússia? Que objetivos geopolíticos busca?

 

No grande jogo geopolítico pela "conquista" neocolonial da África, não poderia faltar ao lado da China, da Turquia... a Rússia de Putin, habilmente infiltrada onde a presença francesa, herança da colonização, era mais contestada, ou seja, nos países da África ocidental.

 

Há alguns anos se fala da presença russa no continente (de onde nunca havia efetivamente se afastado), ligada em particular aos "mercenários" (o termo certo) do batalhão Wagner (braço armado privado de Moscou ) que correram em ajuda a regimes vacilantes como o de Faustin-Archange Touadéra, presidente desde 2016 da República Centro-Africana (um território que é o dobro da Itália, mas com apenas 6-7 milhões de habitantes), e do Mali do Coronel Assimi Goita (no poder desde agosto de 2020).

 

Mapa da República do Mali (Fonte: Wikimedia Commons)

No Mali (ex-colônia francesa) o Wagner está praticamente substituindo os militares franceses (e outros europeus da missão Barkhane) que em fevereiro formalizaram sua retirada do país onde haviam intervindo em 11 de janeiro de 2013, por ordem do então presidente François Hollande para salvar o governo da época da gravíssima ameaça jihadista.

 

Oficialmente, porém, a presença do Wagner foi negada até hoje. Mas sempre confirmada por Paris. A França vive um psicodrama no Mali onde, depois de perder dezenas de seus homens em combate contra os jihadistas, se vê "destituída" (seu embaixador também foi expulso). Os milicianos do Wagner, é claro, não lutam contra os jihadistas, mas estão no Mali para "neutralizar" a presença francesa.

 

E eles também estão se infiltrando em outros lugares (ver Camarões), onde se abrem falhas entre Paris e os povos de suas ex-colônias que não escondem sua crescente irritação contra o "jugo" militar francês em apoio de seus regimes autocráticos. Enfraquecer a União Europeia, plano estratégico russo, significa, para a Rússia, reduzir o "poder excessivo" francês na África. O fato de muitos países africanos não condenarem abertamente a invasão russa da Ucrânia, mas sim piscam o olho para Moscou, fala o suficiente.

 

A guerra na Ucrânia está atingindo dramaticamente o continente africano. Quanto o conflito está custando para a África?

 

A "crise", como para a Europa, já havia se manifestado na África antes da intervenção russa na Ucrânia. Mas a invasão da Ucrânia, quando se acreditava que uma recuperação estava próxima também para a África, após os dois anos de pandemia (que aparentemente afetou menos o continente africano, mas mesmo assim levou a uma redução geral do PIB), cancela toda esperança.

 

Rússia e Ucrânia são grandes países agrícolas e grandes exportadores de trigo, cevada, milho, sementes de girassol… que também exportam para a África (a Rússia é o principal exportador de trigo para o continente). A guerra interrompeu o fornecimento normal de trigo da Ucrânia e da Rússia, fazendo explodir o preço dos cereais: trigo + 20%, cevada + 33%, fertilizantes + 40% ... Esses aumentos comportam uma elevação geral de preços de todos os alimentos e de todo produto local no mercado. As pessoas não sabem mais como sair disso, principalmente quando os salários ficam estagnados...

 

Quantos e quais países são fortemente dependentes, do ponto de vista das matérias-primas alimentares, da Rússia e da Ucrânia?

 

São 32 países africanos (de 54) que importam altos percentuais de seu consumo de alimentos: 25 países importam um terço de seu trigo da Ucrânia e da Rússia e 15 mais da metade. Os países do Norte de África são há anos quase totalmente dependentes das importações de cereais.

 

Talvez valha a pena lembrar que entre as consequências não intencionais da colonização estava também a “imposição” pacífica do pão como alimento cotidiano (às custas dos mais tradicionais milho, milhete, sorgo, teff, mandioca...). O Egito (100 milhões de habitantes) importa quase 90% de seu trigo da Rússia e da Ucrânia; a Líbia 43%; o Quênia 75%…

 

Podemos citar mais números para tornar mais claro o sofrimento pela fome na África?

 

Deve ficar claro imediatamente que a carestia já havia sido anunciada há alguns meses. Hoje a FAO fala de 340 milhões (!) de africanos subsaarianos expostos a uma grave insegurança alimentar.

 

Chifre da África (Fonte: Wikimedia Commons)

A seca afeta a região do Sahel, Níger e Mali em particular, como nunca antes, mas a seca também atinge severamente os países do Chifre da África (é a quarta estação que não se verificam chuvas regulares: Somália e Etiópia vivem um desastre em níveis insustentáveis) e até o Sudão do Sul (também culpa da situação de insegurança generalizada, mas lá sofrem 7,7 milhões de pessoas, ou seja, 70% da população!) e o Madagascar. As zonas áridas estão crescendo assustadoramente em todo o continente

 

Haverá uma "guerra do baguete"? O que está acontecendo?

 

Desde sempre na África, sobretudo nos países mediterrânicos, o aumento do preço do pão provocou revoluções... até às "primaveras árabes" dos anos 10 do nosso século. No passado, as guerras do pão levaram à queda de regimes ou confrontos políticos na Tunísia, Argélia, Egito e até o Sudão.

 

No entanto, embora os preços dos cereais tenham disparado entre 20% e 50% em média, estou entre os que acreditam que desta vez a sociedade civil já não tem mais forças para se rebelar: demasiada violência por parte das forças de segurança dos regimes cada vez mais violentos e ditatoriais acabaram por esgotar o sopro de rebelião, sobretudo dos jovens que constituem metade ou mais da população africana. Uma aposta?

 

Como está a situação no campo dos hidrocarbonetos?

 

A África, grande produtora de petróleo e gás, depende do petróleo refinado. A importação de produtos refinados é quase total. Claro que os países produtores de hidrocarbonetos (da Argélia, à Líbia, ao Egito e até à Nigéria, Angola, Congo, Guiné Equatorial, Gabão...) se aproveitam com o maná de agora, ou seja, um petróleo a 100 dólares euros por barril. Mas as pessoas não vão tirar proveito disso...

 

Os lucros serão principalmente para os oligarcas africanos... E, além disso, quanto vai durar? Deve ficar claro que os países produtores vão gastar (e ainda bem...) a maior parte das receitas para aliviar o custo dos alimentos importados e aliviar o sofrimento do povo (Argélia, Egito, Nigéria fazem isso regularmente...).

 

Mapa da Nigéria (Fonte: Wikimedia Commons)

Mas o exemplo emblemático das contradições africanas continua sendo a Nigéria: primeiro produtor de petróleo (1,31 milhão de barris por dia no final de 2021... mas eram 2,51 em 2005) e primeira economia da África , importa a maioria de seu combustível devido à insuficiente capacidade de refinar (hoje só há uma refinaria funcionando…). Assim, o preço do combustível dobrou, semelhante ao que nós italianos conhecemos na bomba! Mas nós não temos petróleo e pagamos impostos especiais de consumo…

 

Como os governos africanos estão respondendo a esta terrível crise?

 

Os governos africanos também estão se empenhando para "acalmar" esse aumento dos preços. Normalmente, porém, os países africanos não possuem reservas significativas para um verdadeiro controle de preços. Os vários bônus, superbônus e subvenções estão fora de seu alcance. Além disso, o risco de um financiamento prolongado de bens alimentares é a... falência, o calote à vista... e nem sequer conseguir pagar os salários dos funcionários públicos, reserva de votos para os governos...

 

Qual poderia ser um papel positivo da Europa para superar esta crise humanitária?

 

A Europa tem uma grande responsabilidade para com os países africanos, todos eles. Mesmo que a culpa do caos atual não seja "nossa culpa". Nosso primeiro dever é interromper a guerra, conseguir impor um cessar-fogo e trazer os contendores para a mesa de negociações.

 

Mas os pequenos "ditadores" da África e os outros chefes de Estado mais ou menos "democráticos" poderiam, por sua vez, apresentar uma fatura ao chefe do Kremlin, informando-o das nefastas consequências de seu espírito belicoso.

 

Eles não irão fazer isso, é óbvio, porque muitos deles também recebem armas da Rússia e, portanto, piscam o olho para ela. Mas se essa "crise" continuar a durar, contaríamos aos milhões (especialmente entre as crianças) as vítimas da África. Somente a paz, entre muitas outras coisas, também garante uma alimentação adequada.

 

 

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