O gás estadunidense conquista a UE. Virada política, não ambiental

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28 Março 2022

 

"Acima de tudo, os programas de gás terão que se encaixar na transição energética e, portanto, com a meta de zero emissões para 2050. Não é por acaso que ontem von der Leyen e Biden também falaram sobre a colaboração com o hidrogênio, que é a alternativa mais natural para o gás natural", escreve Pietro Saccò, jornalista, em artigo publicado por Avvenire, 26-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Os Estados Unidos preparam-se para se tornar o primeiro fornecedor europeu, substituindo a Rússia. A questão dos custos e os problemas para o clima. Itália como ponte para o Norte da África.

Em poucos anos os Estados Unidos se tornarão o primeiro fornecedor de gás natural para a União Europeia, substituindo a Rússia. O acordo anunciado ontem em Bruxelas por Joe Biden e Ursula von der Leyen marca uma mudança de época no mercado da energia e nos equilíbrios geopolíticos que traz consigo. Um passo surpreendente que teria sido impensável só alguns anos atrás.

O presidente estadunidense Biden apresentou-se ao Conselho Europeu com o compromisso de aumentar o fornecimento de gás natural à Europa em 15 bilhões de metros cúbicos por ano para chegar gradualmente a 50 bilhões de metros cúbicos a mais. Não serão suficientes para substituir totalmente os 155 bilhões de metros cúbicos que a UE recebe hoje da Rússia, mas são um grande passo nessa direção.

Os planos europeus preveem zerar o fornecimento de gás de Moscou "bem antes de 2030", começando com um corte de 50 bilhões de metros cúbicos já este ano. A Itália, segunda maior consumidora de gás russo depois da Alemanha, foi buscar alternativas em países onde era normal procurá-la. A Argélia, à qual o país está ligado há quase quarenta anos pelo gasoduto Transmed, que chega a Mazzara del Vallo, e o Azerbaijão, que abastece a Itália através do Tap, o gasoduto que se liga a Melendugno, perto de Lecce. Mas também o Catar e o Congo, com os quais já existe uma relação consolidada.

Missões do governo tiveram resultados positivos. Nos próximos anos, a Itália poderá cobrir parte do buraco deixado pelo previsível corte de fornecimento da Rússia com novos acordos com esses países. Mas para a Europa o aliado estratégico privilegiado para a energia será os Estados Unidos da América.

Um aliado imprevisível só alguns anos atrás. Os Estados Unidos têm uma longa e bem-sucedida história no campo da extração de hidrocarbonetos, mas nunca foram um grande exportador. Nem de gás nem de petróleo. Da década de 1950 ao início da década de 1980, a produção estadunidense de gás mal cobria as necessidades internas. Nos trinta anos seguintes, não foi mais suficiente e os Estados Unidos se tornaram um grande importador de metano.

Depois descobriram (ou melhor, redescobriram) os hidrocarbonetos “não convencionais”, petróleo e gás de xisto e tight, presos em rochas argilosas ou porosas a alguns quilômetros de profundidade. Com o fraturamento hidráulico, técnica conhecida há quase um século, mas refinada nos últimos vinte anos, as empresas petrolíferas lançam no subsolo à altíssima pressão um fluido feito de água e aditivos químicos que quebra as rochas e libera o petróleo ou o gás natural que então pode ser trazido de volta à superfície. São técnicas controversas: vários estudos chegaram à conclusão de que o fracking poderia contaminar as águas subterrâneas e gerar eventos sísmicos. Em vários países europeus, incluindo a Itália, o fracking é proibido.

Os hidrocarbonetos não convencionais mudaram a história energética dos Estados Unidos. Entre 2010 e 2020, a produção de gás quase dobrou, passando de 575 para 907 bilhões de metros cúbicos por ano, enquanto a produção de petróleo foi ainda melhor, passando de 7,7 para 16,6 milhões de barris por dia. Em 2019, os EUA se tornaram independentes no fornecimento energético, o que não acontecia desde 1957. Essa abundância de matérias-primas transformou os EUA em um grande exportador de hidrocarbonetos, capaz de competir com potências históricas e consolidadas como Arábia Saudita ou Rússia. Como exportadores, porém, os Estados Unidos têm um problema em relação aos seus rivais: estão longe dos territórios que mais precisam de gás e petróleo, ou seja, Europa, Japão e China. Para alcançá-los, precisam atravessar os oceanos.

Washington construiu uma enorme infraestrutura de usinas de liquefação de gás natural:

16 foram construídas nos últimos cinco anos. São usinas que levam o gás natural ao estado líquido: baixam sua temperatura para 162 graus abaixo de zero e reduzem seu volume para um sexcentésimo do inicial. Em seguida, eles o carregam nos navios transportadores que o levam para uma usina de regaseificação, onde o gás é trazido de volta ao seu estado gasoso e injetado na rede de gasodutos. Em 26 de abril de 2016 o petroleiro Creole Spirit descarregou em Sines, Portugal, os primeiros 170 mil metros cúbicos de gás estadunidense exportado para a União Europeia. Parecia mais um experimento do que qualquer outra coisa.

Nos meses seguintes, um segundo navio chegou à Espanha, que possui seis terminais de regaseificação, e um terceiro à Itália, que possui três regaseificadores (um em terra, em Panigaglia, e dois no mar, que são uma plataforma em Rovigo e uma usina flutuante ao largo da costa da Toscana). Em 2017, quinze petroleiros estadunidenses chegaram à Europa, na primeira parte de 2018, apenas três. Em 25 de julho daquele ano, a situação mudou. Em um encontro em Washington, o presidente dos EUA, Donald Trump, e Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, se comprometeram a fortalecer a cooperação energética entre a UE e os EUA. É o início do boom. No primeiro ano do acordo, as importações de gás natural liquefeito dos EUA aumentaram 367%.

Entre 2018 e 2021, o crescimento das importações de gás liquefeito estadunidense aumentou quase 25 vezes. Com 22,2 bilhões de metros cúbicos entregues em 2022, os Estados Unidos se tornaram o quarto maior exportador de gás natural da União Europeia, depois de Rússia, Noruega e Argélia. Com o aumento de 15 bilhões anunciado ontem, eles subirão para o terceiro lugar. Se eles realmente adicionarem mais 50 bilhões de metros cúbicos e, nesse meio tempo, a Europa abandonar o gás russo, os EUA jogarão pela primazia de fornecimento com a Noruega, com boas possibilidades de superá-la.

Somente em janeiro deste ano, 47 navios-tanque estadunidenses atracaram nos terminais de regaseificação europeus, que descarregaram 4,4 bilhões de metros cúbicos de gás por um valor estimado de 4,1 bilhões de euros. Em todo o ano de 2021, chegaram 248. O tráfego de petroleiros entre o Atlântico e o Mediterrâneo nunca foi tão intenso. Existem várias incógnitas sobre as perspectivas da relação energética que Washington e Bruxelas estão construindo. Os primeiros problemas são técnicos. Não está claro o quanto os Estados Unidos podem aumentar a produção de gás natural: as empresas têm dificuldades para encontrar pessoal e matéria-prima necessários para iniciar novos projetos, até porque é claro que os altos preços dos últimos meses (que justificam investimentos) não poderão durar para sempre. Embora seja certo que, pelo estado atual, os terminais de regaseificação da União Europeia não estão organizados para converter 50-60 bilhões de metros cúbicos de gás natural adicional a cada ano.

A Espanha é o único país que possui uma grande capacidade de regaseificação não utilizada (cerca de 40 bilhões de metros cúbicos por ano), mas está mal conectada ao resto da rede europeia de gasodutos. Portanto, não tem como transferir tanto gás para o resto da UE. Uma conexão marítima direta com a Itália está sendo estudada. A Europa vai investir na construção de novos terminais de regaseificação (a Itália está estudando dois temporários, por enquanto), mas leva pelo menos alguns anos para começar.

A rede interna de gasodutos também terá de ser adaptada. Foi construída para um tráfego que ia principalmente de Leste para o Oeste e agora terá de estar preparado para gerir uma situação diferente. Além disso, existe o aspecto ambiental, ligado ao próprio fracking e ao gás natural em geral: se o metano é a fonte fóssil "mais limpa", aquela obtida a partir do fraturamento hidráulico é, sem dúvida, sua versão menos "verde" pelos efeitos que tem sobre o planeta.

Finalmente, há o problema do preço. O gás natural liquefeito para todos os processos de fabricação que envolve é mais caro do que aquele que ficou em estado gasoso e transferido por um gasoduto. É difícil ter números precisos, porque os contratos variam, mas pode-se dizer que em média o preço final é 20% maior.

É uma contabilidade que hoje não é mais válida, porque a invasão da Ucrânia revirou os valores de mercado, mas em 2020, de acordo com as conclusões da BP, o preço por unidade térmica do gás europeu TTF era de cerca de 3,07 dólares, aquele do gás dos EUA de $ 1,99 enquanto o gás natural liquefeito japonês estava em $ 4,39. O gás "made in USA" não poderá deixar de ser mais caro do que aquele da Rússia pré-invasão.

Nesse ponto, o acordo entre os EUA e a UE especifica explicitamente que os preços do gás não poderão ser vinculados aos valores absurdos do mercado das últimas semanas, mas não explicita muito mais. É claro que Bruxelas pretende um desconto e que Washington pode concedê-lo, considerando o quanto os Estados Unidos desejam romper o longo casamento energético entre a UE e Moscou.

A última variável, não pequena, é a dos equilíbrios internos da UE. A Alemanha, com o gasoduto Nord Stream ligando-a diretamente à Rússia, é hoje o ponto de entrada privilegiado do gás na Europa. Com um reequilíbrio de abastecimento “atlântico”, esse papel se desloca necessariamente para o Oeste: para Portugal, Espanha, França. Países que são o primeiro ponto natural de desembarque de navios que chegam do Golfo do México.

Nesta situação, o papel da Itália também pode resultar reforçado. Graças às ligações com o Norte de África e a zona do Cáspio, o país pode tornar-se o principal ponto de entrada europeu do gás mais econômico, aquele que chega do Sul por gasodutos, e rivaliza com os Países Baixos, de onde sai grande parte do gás norueguês.

Todos novos cenários que terão que ser construídos rapidamente. Entre agora e 2030, contará muito a capacidade dos governos de entender a situação e trabalhar para tornar essa transição a mais suave possível.

Acima de tudo, os programas de gás terão que se encaixar na transição energética e, portanto, com a meta de zero emissões para 2050. Não é por acaso que ontem von der Leyen e Biden também falaram sobre a colaboração com o hidrogênio, que é a alternativa mais natural para o gás natural (com emissões zero). De todos os desafios globais energéticos, a neutralidade de carbono continua sendo inexoravelmente o mais complicado.

 

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