A corrida armamentista contagia a África e alimenta a espiral dos conflitos

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19 Mai 2022

 

Os gastos militares também crescem na África. Em linha com a tendência global da corrida a toda forma de armamentos para garantir uma segurança supostamente maior - amplamente desmentida pela checagem de fatos (não é correndo às armas que salvaremos o mundo) - também o continente africano registrou um aumento de 1,2 por cento e alcançou um gasto total de 39,7 bilhões de dólares em 2021.

 

A reportagem é de Luca Attanasio, publicada por Domani, 18-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

O aumento dos gastos em 2021 na África Subsaariana, o primeiro desde 2014, foi principalmente impulsionado pela Nigéria, o país que mais gasta (+ 56%, 4,5 bilhões de dólares).

 

Região da Subsaariana da África. (Foto: Wikimedia commons)

 

Um orçamento, como aponta Nigrizia, destinado a crescer devido à recente compra de 12 helicópteros de ataque AH-1Z Cobra dos Estados Unidos e outros de origem russa e italiana como Mil Mi-24/35 "Hind" e Agusta A109 (vendas que vão contra o Tratado de Comércio de Armas que proíbe o envio para locais de instabilidade política). Os dados mais chamativos dizem respeito a Uganda, que nos últimos dez anos registou um crescimento de 203 por cento.

 

Gastos menores, mas muitas guerras

 

Se os escassos 40 bilhões de dólares africanos (1,9% dos gastos mundiais) forem comparados com o resto do planeta, se descobrirá, obviamente, o quanto os gastos militares do continente são decididamente menores do que em qualquer outra área.

 

As Américas, por exemplo, chegam a 883 bilhões de dólares e uma participação de 42%, seguidas pela Ásia e Oceania (586, 28%), Europa (418, 20%) e Oriente Médio (186, 8,8%). A Itália sozinha, só para exemplificar, tem um gasto militar próximo ao de toda a África, 32 bilhões. No top 40 dos países que gastam e usam armas, aparece apenas um estado africano, a Argélia, 26º (9,1 bilhões de dólares), mas em decréscimo em relação ao ano anterior (-6,1%). Igualmente, o crescente interesse dos governos pelos armamentos, num continente que deve acertar as contas com várias pandemias e com sistemas sanitários, educativos e econômicos frágeis, desperta preocupação.

 

Mas, para além das estatísticas, precisamos nos deter naquele que provavelmente é o dado mais alarmante. Embora gastando menos que todos em armas, a África é, sem dúvida, o continente mais oprimido por conflitos. Dos 70 países em que se travam guerras, 31 são africanos (em alguns há mais de uma). E das 875 milícias irregulares em ação no mundo, cerca de 300 circulam pelo continente. Como afirma o Serviço Internacional de Informação sobre a Paz (IPIS), a maior parte dos suprimentos vem de fora do continente, pois a produção local é relativamente limitada.

 

Principais países da África que atualmente estão em conflito: Egito, Sudão, Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos, Somália, Uganda, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Saara Ocidental, República Democrática do Congo e Chade. (Foto: Reprodução | Wikimedia commons)

 

Um dos principais problemas subjacentes ao fenômeno é uma circulação cada vez mais capilar de armas, fruto de comércios irregulares que veem na África enormes oportunidades de negócio. O outro é o fato de que, em geral, a coleta de dados sobre crimes, violência e comércio de armas pequenas no continente é pouco documentada. Nos últimos anos, armas sofisticadas estão aparecendo de forma rápida e generalizada na África, como os drones exportados pela Turquia e China que ajudaram o primeiro-ministro etíope Abiy na sangrenta guerra no Tigray, só para citar um dos muitos exemplos.

 

A isso junta-se o principal problema que está na base de conflitos, confrontos, guerras locais, ou seja, a elevada e rápida capacidade de comércio ilegal das chamadas SALW (armas pequenas e leves). Devido à herança da dominação colonial, à porosidade das fronteiras e à competição por recursos naturais, a maioria das nações africanas tem dificuldade para estabelecer sistemas regulatórios eficazes. A má gestão e a corrupção no abastecimento, bem como o tráfico transfronteiriço e a instabilidade política, contribuem para o desvio dessas armas para uma infinidade de mercados ilícitos e para as mãos do crime organizado e de grupos terroristas. O custo desse fenômeno é altíssimo, com áreas inteiras sob controle de grupos armados que bloqueiam o desenvolvimento e a economia.

 

Além disso, há a questão da chamada "dispersão". Na Líbia, no Mali, assim como em outros países, as intervenções internacionais, uma vez concluídas, além de heranças questionáveis, deixam uma enorme carga de armas. Mas mesmo as armas em poder das várias organizações de manutenção da paz estão cada vez mais circulando entre grupos terroristas ou traficantes criminosos, contra os quais essas mesmas operações haviam sido direcionadas.

 

Conforme denúncia do Centro Africano de Estudos Estratégicos, a perda de equipamentos pertencentes a contingentes de paz ocorreu em pelo menos 20 operações em 18 países africanos. O material letal perdido nos últimos 10 anos inclui muitos milhões de munições, milhares de armas leves e de pequeno calibre e possivelmente centenas de sistemas de armas pesadas.

 

A Iniciativa Silenciar as Armas

 

A esperança reside na capacidade dos estados africanos, também apoiados pela iniciativa da União Africana Silencing the Guns, para enfrentar desafios decisivos como a governança dos recursos naturais, a questão das fronteiras porosas, bem como as perdas das escoltas oficiais (exércitos regulares e ONU) e o armamento desconhecido de grupos de oposição nos estados vizinhos. E que o mundo pare de dar todo esse crédito às armas.

 

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