A guerra na Ucrânia pode desencadear uma crise mundial de alimentos

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25 Março 2022

 

A guerra na Ucrânia abalou os mercados energéticos do mundo. Agora, o planeta enfrenta uma crise mais profunda: a escassez de alimentos.

 

A reportagem é de Jack Nicas, publicada por The New York Times em espanhol, 23-03-2022. A tradução é do Cepat.

 

Uma parte crucial do trigo, milho e cevada do mundo está presa na Rússia e na Ucrânia por causa da guerra, enquanto uma parte ainda maior dos fertilizantes do mundo está obstruída na Rússia e na Bielorrússia. O resultado é que o preço dos alimentos e dos fertilizantes estão disparando no mundo. Desde que a invasão começou, no mês passado, os preços do trigo aumentaram 21%, os da cevada 33% e os de alguns fertilizantes 40%.

A turbulência está sendo agravada por causa de fortes problemas que já estavam aumentando os preços e diminuindo o abastecimento, entre eles a pandemia, as restrições ao transporte, os altos custos da energia e os recentes incêndios, secas e inundações. Agora, os economistas, as organizações de ajuda humanitária e as autoridades governamentais estão alertando sobre as repercussões: mais fome no mundo.

O desastre que se aproxima está expondo as consequências de uma guerra de grande envergadura na era moderna da globalização. Os preços de alimentos, fertilizantes, petróleo, gás e até mesmo de metais como alumínio, níquel e paládio estão subindo rapidamente e os especialistas preveem que a situação piorará conforme os efeitos se propagarem.

“O conflito na Ucrânia apenas misturou uma catástrofe com outra”, opinou David M. Beasley, diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos, a agência da ONU que alimenta 125 milhões de pessoas por dia. “Jamais houve um precedente que tenha chegado perto de algo assim desde a Segunda Guerra Mundial”.

As terras ucranianas estão a ponto de perder períodos cruciais de plantio e colheita. As fábricas de fertilizantes europeias estão diminuindo sua produção de modo significativo por causa dos altos preços da energia. Agricultores do Brasil ao Texas estão cortando os gastos com fertilizantes e isto ameaça o volume das próximas colheitas.

A China, que enfrenta sua pior colheita de trigo em décadas, após uma série de fortes inundações, está planejando comprar uma parte muito maior da minguante oferta do mundo. A Índia, país que costuma exportar pequenas quantidades de trigo, já notou como a demanda estrangeira aumentou mais que o triplo em comparação ao ano passado.

Em todo o mundo, o resultado se refletirá em custos mais altos nos supermercados. Em fevereiro, os preços já tinham aumentado 8,6% em comparação ao ano anterior, o maior aumento em 40 anos, segundo dados do governo. Os economistas esperam que a guerra inflacione ainda mais esses preços.

Em relação aos que vivem no limite da insegurança alimentar, o aumento mais recente dos preços pode levar muitos à beira do abismo. Após permanecer praticamente estável por cinco anos, a fome aumentou 18%, durante a pandemia. Agora, entre 720 milhões e 811 milhões de pessoas passam fome. No início deste mês, a Organização das Nações Unidas declarou que só no mercado mundial de alimentos o impacto da guerra pode fazer com que de 7,6 milhões a 13,1 milhões de pessoas a mais passem fome.

Os custos do Programa Mundial de Alimentos já aumentaram 71 milhões de dólares por mês, o suficiente para reduzir as rações diárias de 3,8 milhões de pessoas. “Vamos tirar comida dos famintos para dar aos famélicos”, comentou Beasley.

O aumento dos preços e a fome também podem trazer um novo prisma à visão que o mundo tem da guerra. Pode alimentar mais ainda a fúria contra a Rússia e as exigências de que alguém intervenha? Ou a frustração pode se concentrar nas sanções do Ocidente, que estão obstruindo a passagem dos alimentos e fertilizantes?

Embora quase todos os países enfrentarão preços mais altos, alguns lugares podem ter dificuldades para encontrar alimentos suficientes de um modo geral.

Armênia, Mongólia, Cazaquistão e Eritreia importam quase todo o seu trigo da Rússia e da Ucrânia e precisam encontrar novas fontes. No entanto, estão competindo com compradores muito maiores, como Turquia, Egito, Bangladesh e Irã, que adquirem mais de 60% de seu trigo dos dois países em guerra.

E todos eles levarão a uma oferta ainda menor, uma vez que se espera que a China, o maior produtor e consumidor de trigo do mundo, neste ano, compre muito mais do que o habitual nos mercados mundiais. No dia 5 de março, a China revelou que as graves inundações do ano passado atrasaram o plantio de um terço da safra de trigo do país, e agora a próxima colheita parece pouco promissora.

“É possível dizer que a situação das plântulas deste ano é a pior da história”, disse o ministro da Agricultura da China, Tang Renjian.

Há tempo, o aumento dos preços dos alimentos tem sido um catalisador de revoltas sociais e políticas nos países pobres árabes e africanos, e muitos deles subsidiam alimentos básicos como o pão para evitar tais problemas. Não obstante, segundo alguns economistas, suas economias e orçamentos – já limitados por causa da pandemia e os altos custos da energia – agora correm o risco de sucumbir com o custo dos alimentos.

A Tunísia lutava para pagar algumas importações, antes da guerra, e agora tenta evitar um colapso econômico. A inflação já desencadeou protestos no Marrocos e está contribuindo para o descontentamento e as repressões violentas no Sudão.

“Muitas pessoas acreditam que isto só significa que suas rosquinhas ficarão mais caras. Claro, é verdade, mas não se trata disso”, opinou Ben Isaacson, que trabalhou durante muito tempo como analista do setor agrícola no Scotiabank. Desde os anos 1970, o norte da África e o Oriente Médio enfrentam protestos recorrentes. “O que realmente faz com que as pessoas saiam às ruas para protestar?”, questionou Isaacson. “Tudo começa com a escassez de alimentos e a inflação de seus preços”.

Os países que sofrem conflitos prolongados, entre eles Iêmen, Síria, Sudão do Sul e Etiópia, já estão enfrentando graves emergências alimentares que os especialistas temem que, em pouco tempo, podem piorar.

No Afeganistão, os trabalhadores de organizações de ajuda alertam que a guerra na Ucrânia já exacerbou a crise humanitária e dificultou ainda mais a alimentação de cerca de 23 milhões de afegãos – mais da metade da população – que não têm o suficiente para comer.

Nooruddin Zaker Ahmadi, diretor da Bashir Navid Complex, uma empresa de importações afegã, disse que os preços aumentaram de forma generalizada. Neste mês, precisou de cinco dias na Rússia para encontrar óleo de cozinha. Comprou caixas de 15 litros por 30 dólares cada uma e as venderá no mercado afegão por 35 dólares. Antes da guerra, ele as vendia por 23 dólares.

“Os Estados Unidos acreditam que penalizaram apenas a Rússia e seus bancos”, disse. “Mas os Estados Unidos penalizaram o mundo todo”.

No mercado mundial de alimentos, são poucos os países com os quais é pior estar em conflito do que com a Rússia e a Ucrânia. Nos últimos cinco anos, em conjunto, representaram quase 30% das exportações de trigo no mundo, 17% do milho, 32% da cevada, uma fonte crucial para a ração dos animais, e 75% do óleo de semente de girassol, um óleo de cozinha muito utilizado em algumas partes do mundo.

Em grande parte, a Rússia não pode exportar alimentos devido às sanções que, essencialmente, a desligaram do mundo em termos financeiros. Enquanto isso, a Ucrânia foi fisicamente desligada. A Rússia bloqueou o Mar Negro para as exportações e a Ucrânia não tem vagões de trem suficientes para transportar alimentos por terra.

Neste momento, o mais preocupante é a próxima colheita, em particular a ucraniana. No dia 11 de março, o ministro da Agricultura da Ucrânia suplicou aos aliados por 1900 vagões de combustível, pois tinha acabado nas propriedades agrícolas do país, após o fornecimento ter sido desviado para o Exército. O ministro destacou que, sem esse combustível, os agricultores ucranianos não podem plantar e nem colher.

Existem outros obstáculos. A Organização das Nações Unidas estimou que até 30% das terras de cultivo ucranianas podem se tornar zonas de guerra. E pelo fato de milhões de ucranianos estarem fugindo do país ou se somando à frente de batalha, há muito menos pessoas para trabalhar no campo.

O trigo russo e ucraniano não pode ser substituído com facilidade. Os estoques já estão ajustados nos Estados Unidos e no Canadá, segundo a Organização das Nações Unidas, enquanto a Argentina está limitando suas exportações e os envios da Austrália já estão em sua plena capacidade. No último ano, os preços do trigo aumentaram 69%. Entre as outras exportações importantes de alimentos procedentes da Rússia e da Ucrânia, os preços do milho aumentaram 36% e os da cevada 82%.

A guerra também ameaça produzir outro impacto, a longo prazo, para os mercados de alimentos: a escassez de fertilizantes.

Matt Huie, um agricultor que mora perto de Corpus Christi, Texas, comentou que os preços exorbitantes já tinham feito com ele parasse de utilizar fertilizantes nas pastagens que alimentam suas centenas de bois, razão pela qual estarão mais magros quando chegar o momento de ser sacrificados. Agora, Huie também está preocupado se terá que diminuir o fertilizante para sua próxima safra de milho, pois castigaria sua produção. “Entramos em um território desconhecido”, comentou.

A Rússia é o maior exportador de fertilizantes do mundo, pois é responsável por cerca de 15% do abastecimento mundial. Neste mês, justamente quando os agricultores internacionais estavam se preparando para plantar, a Rússia disse a seus produtores de fertilizantes para interromper as exportações. As próprias sanções dificultaram essas transações.

As sanções também atingem o aliado mais próximo da Rússia, a Bielorrússia, um dos principais produtores de fertilizantes com potássio, crucial para muitos cultivos importantes, como a soja e o milho. No entanto, mesmo antes da guerra na Ucrânia, as exportações de fertilizantes da Bielorrússia já estavam bloqueadas por causa das sanções impostas pela prisão de um dissidente expatriado, que era passageiro em um avião da Ryanair que foi obrigado a aterrissar no país.

Em outro sinal preocupante para os clientes de fertilizantes, neste mesmo mês, os produtores europeus de fertilizantes anunciaram que diminuiriam ou interromperiam a produção por causa dos altos preços da energia. Muitos fertilizantes são fabricados com gás natural.

No último ano, o preço dos principais fertilizantes do mundo dobrou ou triplicou.

O Brasil, principal produtor de soja no mundo, compra quase metade de seu fertilizante da Rússia e Bielorrússia. Atualmente, tem apenas três meses de reservas. A associação nacional de produtores de soja solicitou que seus membros utilizem menos fertilizantes, ou nada, neste período. Agora, é provável que o cultivo de soja no Brasil, já reduzido por causa de uma forte seca, seja ainda menor.

“Estão impedindo que os fertilizantes cheguem aos países produtores”, afirmou Antonio Galvan, presidente da associação da soja, para criticar as sanções internacionais. “Quantos milhões de pessoas morrerão de fome pela falta desses fertilizantes?”.

O Brasil vende a maior parte de sua soja para a China, que utiliza grande parte dela para alimentar o gado. Uma soja mais escassa e mais cara pode obrigar os pecuaristas a cortar esse tipo de alimentação animal, o que significaria bois, porcos e frangos menores, e preços de carne mais altos.

Jon Bakehouse, agricultor de milho e soja em Hastings, Iowa, disse que no final do ano passado pagou antecipado pelo fertilizante, pois estava preocupado com a escassez que se aproximava. Seu fertilizante ainda não chegou, e agora tem menos de um mês para aplicá-lo em sua plantação de milho. Sem ele, disse, seus rendimentos podem cair pela metade.

“Sabe quando mostram carros saltando em câmera lenta e os passageiros em seu interior estão no ar? É isso o que se sente”, disse. “Estamos todos suspensos no ar, esperando que o carro aterrisse. Ninguém sabe se será uma aterrissagem agradável e suave ou se será uma queda de bico na vala”.

 

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