Os papas e os escândalos silenciados

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24 Janeiro 2022

 

"Em suma, o que está acontecendo hoje é um dos reflexos da revolução do jesuíta que, antes de tudo, não quer mais sofrer passivamente os escândalos, mas tornar-se promotor das investigações. Uma coisa é se defender com embaraço de uma investigação lançada por outras autoridades e Estados, outra é tomar a iniciativa", escreve Gianluigi Nuzzi, jornalista italiano, em artigo publicado por La Stampa, 21-01-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

No final, é sempre uma questão de apóstrofos e acentos. É grave e infame a acusação dirigida contra Joseph Ratzinger de ter encoberto quatro sacerdotes pedófilos quando era arcebispo em Munique entre 1977 e 1982. Pela primeira vez na história recente da Igreja, até mesmo um papa, ainda que emérito, é acusado do pior dos males, de encobrir quem abusa dos pequeninos do rebanho. O mundo está chocado e indignado porque conhecemos as batalhas travadas contra a pedofilia por Bento XVI, a envergadura de um dos mais refinados teólogos vivos, e é surpreendente e desorientador que ele também possa ter sabido e calado. Mas todos nós temos a memória curta. Esquecemos, por exemplo, que naqueles seis anos se alternaram três pontífices no Vaticano: Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II.

E, suspendendo a análise sobre Luciani porque Albino reinou apenas 33 dias, certamente não podemos atribuir a Montini e Wojtyla nenhum mérito na luta contra a pedofilia dentro da Igreja. Todo escândalo era calado, toda vítima silenciada, todo sacerdote indefensável no máximo era transferido. Nesse clima, a ação atribuída a Ratzinger deve ser contextualizada. E a prova plástica disso é que a investigação que acusa o papa emérito não foi iniciada por algum movimento agnóstico insurrecionista, por alguma entidade anticlerical, mas pela igreja alemã. Em particular, é Reinhard Marx, o cardeal no topo da mesma diocese que foi de Ratzinger que determina esses aprofundamentos. E sabe-se que Marx talvez seja o cardeal alemão mais próximo de Bergoglio, que retornou à Alemanha depois de anos na cúria para presidir as reformas do Vaticano pelas mãos restauradoras.

Em suma, o que está acontecendo hoje é um dos reflexos da revolução do jesuíta que, antes de tudo, não quer mais sofrer passivamente os escândalos, mas tornar-se promotor das investigações. Uma coisa é se defender com embaraço de uma investigação lançada por outras autoridades e Estados, outra é tomar a iniciativa.

Aconteceu na investigação sobre a compra e venda do prédio em Londres que envolveu o cardeal Angelo Becciu, com Bergoglio reivindicando aos colaboradores próximos a peculiaridade dessa primeira investigação que parte dos gabinetes judiciais do Vaticano e agora se repete na frente incerta dos crimes sexuais contra menores.

Voltando a Ratzinger, agora o papel e a responsabilidade estarão sendo apurados, há quem instrumentalizará o caso reduzindo tudo ao costumeiro suposto confronto entre papa reinante e papa emérito, mas não se pode esquecer que aquela Igreja é diferente daquela de hoje. Imaginar que na época na Europa um bispo iniciasse uma campanha de limpeza para expulsar e punir os sacerdotes pedófilos de sua diocese é dramaticamente irrealista. Hoje, ao contrário, naquela corrida contra o niilismo que enfraquece a Igreja e de recuperação da credibilidade, chega-se até a apontar o dedo contra um pontífice. E este é um aviso de que nos sagrados palácios faz tremer os cadeados de quem guarda demasiados esqueletos dentro dos armários.

 

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