Chile. “A ausência de uma direita democrática produziu um grande vazio de significado”. Entrevista com Ariel Dorfman

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09 Dezembro 2021

 

Ariel Dorfman – escritor, dramaturgo, poeta e professor de origem chilena, há várias décadas radicado nos Estados Unidos – confessou há algumas semanas, em uma coluna escrita para o Los Angeles Times, que a confiança e o otimismo, de alguma forma, turvaram sua visão. “Não deveria ter sido tão otimista”, reconheceu.

 

A reportagem-entrevista é de Héctor Cossio López, publicada por El Mostrador, 03-12-2021. A tradução é do Cepat.



Como pode ser possível que um candidato pinochetista consiga chegar ao poder por eleição popular? Como o Chile conseguiu favorecer, com o seu voto, um político que nunca escondeu – até o momento – sua admiração pela ditadura, sendo que o país e a própria direita lutaram mais de 30 anos para superar o trauma de um regime totalitário e cruel?

 

Nessa entrevista, o professor emérito da Universidade Duke confessa que desde que o Chile recuperou a democracia, em 1990, “sempre me perseguiu o medo de que esses tempos obscuros pudessem voltar”. Apesar de ter plena consciência dos avanços que os governos democráticos tiveram, nesses últimos 30 anos, em espantar aquele fantasma, esse medo não desapareceu completamente a não ser a partir da revolta popular de outubro de 2019.

 

“Os maiores protestos sociais na história do Chile, que levaram o país a apoiar com 80% a possibilidade de derrubar a fraudulenta Constituição de Pinochet de 1980, encheram-me de otimismo”, expressa.

 

Após o resultado das eleições do primeiro turno, no qual José Antonio Kast superou com 28% dos votos o candidato da coalizão Aprovo Dignidade, Gabriel Boric, Dorfman observa vários acontecimentos que podem ter levado a isso. Um dos primeiros – acusa – foi o mau Governo de Sebastián Piñera.

 

Piñera deliberadamente não atendeu às demandas sociais e deixou que a polícia agisse sem controle, depois disso, veio a pandemia e as pessoas foram se cansando e se enchendo de incertezas. E quando não há certezas, as pessoas se refugiam no mais elementar: na segurança. Foi aí que o discurso de Kast conseguiu transformar o conteúdo da demanda por justiça social em uma demanda por ordem”.

 

Nesse momento histórico, segundo o autor de A morte e a donzela – aquela magnífica peça teatral levada ao cinema por Roman Polanski -, para o segundo turno das eleições, em 19 de dezembro, o Chile enfrenta “um problema existencial”.

 

“Uma coisa é que tenha existido um Pinochet que chegou ao poder pela força e outra coisa é que vença um pinochetista, ultraconservador e que vá contra todos os avanços do Chile, nos últimos 30 anos, pela via democrática. Na história do Chile, nunca houve um candidato de direita como ele. Se a maioria dos eleitores do país eleger este candidato e com a vênia de uma direita que se diz democrática e que estava buscando se desfazer do pinochetismo, se o povo do Chile fizer isso, o resultado será nefasto pelas páginas da história e para o futuro”, alerta.

 

Eis a entrevista.

 

Em sua avaliação, como se chega a esse paradoxo?

 

O Chile tem características muito especiais, porque saímos de uma ditadura e derrotamos uma ditadura com mecanismos democráticos, e depois nos governos sucessivos houve um esforço em repudiar a herança da ditadura, mas nesse curso a democracia foi sendo erodida. A democracia imperfeita – como eu a chamo – foi incapaz de responder a muitos dos problemas que as pessoas têm.

Agora, o surpreendente no Chile - e muitos me perguntam como é possível que no Chile sequer cheguem a pensar em votar nesse homem, como conseguiu obter mais de 20% - é que são as crises que impulsionam essas mudanças. O grande perigo é que as crises que virão serão ainda maiores, como a crise climática, a crise dos migrantes, a crise da injustiça e a desigualdade.

 

O momento oportuno para os populismos de direita ou de esquerda...

 

Claro. Diante dessas crises, cria-se uma espécie de vazio e as pessoas desconcertadas dizem: inclinemos para algo que nos dê segurança, e esse é o momento dos charlatões.

 

Falemos do vazio. O que é que se perde para que venha esse vazio?

 

Um dos fatores é a perda de uma direita democrática. E nisso um dos grandes responsáveis é novamente Piñera. Seu chamado era para representar essa direita. Eu gostaria que ele tivesse feito um bom Governo, nunca, por exemplo, fui favorável à sua destituição, mas seu mau Governo fez com que essa direita se fragilizasse e que deixasse esse vazio tão grande, um vazio de conhecimento, um vazio de significado.

 

Os vazios são preenchidos...

 

Sim, o perigo é com o quê. O que Kast está fazendo com a direita política é muito, muito grave. Insisto, uma das coisas que mais falta ao Chile é uma direita democrática, com quem seja possível manter um diálogo com perspectiva, apesar das diferenças, com mínimos comuns democráticos. Agora, mesmo que perca no segundo turno, e obtenha 40% ou 48% dos votos, ou seja o que for, José Antonio Kast já se tornou o líder da direita.

 

O criptofascismo

 

Segundo Dorfman, “a liderança de José Antonio Kast não é propriamente a de um fascismo, que já teve o seu lugar na história, sua liderança é do tipo criptofascista”, ou seja, tendo o pensamento fascista, busca escondê-lo e mantê-lo em segredo para obter resultados eleitorais.

 

Com a clareza de que observar o Chile de longe acarreta desvantagens, porque se perde o “pulso das ruas”, por outro lado existe a vantagem de olhar para o país a partir de um contexto global, “e não me refiro a uma visão regional, mas mundial”, disse. E nesse contexto, o que pode acontecer com Chile não é muito diferente do que acontece na Hungria e Polônia, com Viktor Orbán e Mateusz Morawiecki, respectivamente, ou mais perto, com Bolsonaro no Brasil e com Trump nos Estados Unidos.

 

“O que é verdadeiramente perigoso é quando você olha a história de Trump, a história de Bolsonaro, a de Orbán, percebe que são pessoas profundamente autoritárias, que não entendem a democracia, nem a dor alheia, nem a dimensão humana. E por serem assim, a reação dessas pessoas, diante de uma forte oposição a seus projetos, é utilizar a força do Estado”.

 

É aí que a força das instituições desempenha um papel importante. Trump não conseguiu manter o poder, apesar de não reconhecer a derrota. Acredita que no Chile as instituições são tão frágeis que não possam impedir o abuso de poder?



Primeiro, é preciso perceber que Trump pode voltar ao poder daqui a quatro anos, ou pode vir algo pior do que Trump, como Marco Rubio (o senador republicano que se reuniu recentemente com Kast). Além disso, é preciso ver o que Trump fez para este país, envenenou este país, polarizou-o terrivelmente e deixou muitas dificuldades para Biden realizar o seu projeto transformador.

Agora, é verdade que as instituições nos Estados Unidos têm uma base muito mais forte do que a nossa no consenso geral, embora esteja erodindo. Do mesmo modo penso que no Chile o Congresso, mesmo fragmentado como ficou, pode deter algum descontrole. Isso, sem contar o papel que a nova Constituição desempenhará.

 

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