Por que seria inapropriado refletir sobre o estado de saúde do Papa, beirando a ofensa ou a heresia?

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31 Agosto 2021

 

Desde o seu início, a imprensa diária, e antes disso os semanários, foram periodicamente atraídos por notícias sobre a saúde dos Papas e obviamente por narrativas sobre suas doenças e suas mortes. Verdadeiras ou falsas, plausíveis ou falsas, essas notícias, em particular aquelas sobre a evolução das patologias dos Pontífices, até aos dias de hoje estiveram frequentemente presentes nas mídias, mesmo por vezes com perfis escandalosos. Estamos falando de um arco de tempo de mais de dois séculos e meio e de um tema que, nas últimas semanas, tem sido muito relevante para a imprensa mundial, após a cirurgia digestiva a que o Papa Francisco foi submetido com sucesso no dia 4 de julho passado. Paralelamente a esses fatos inesperados, surgiu uma espécie de polêmica sobre uma suposta renúncia papal, até mesmo iminente, bem como sobre inexistentes patologias oncológicas, embora as informações sobre o resultado das análises histológicas tivessem sido divulgadas publicamente.

A reportagem é publicada por Il Sismógrafo, 30-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Na realidade, muitas coisas escritas nos últimos meses em vários jornais - hipotético, provável, possível - nunca tiveram nenhum fundamento sólido e verdadeiro. O Papa, embora convalescente, como ele mesmo admitiu ao explicar no dia 27 de agosto que preferia ler sentado seu discurso aos presentes, continuou o seu trabalho, retomando gradativamente todos os seus compromissos. Entre estes, destaca-se a próxima viagem de 4 dias a Budapeste e depois à Eslováquia, uma peregrinação que, 68 dias após a intervenção, parece penosa. Admitir que o programa poderia ser alterado ou reorganizado em alguns momentos dispararia escândalos midiáticos, exageros, invencionices se eventualmente forem aportadas algumas variações. O Papa Francisco ainda será um paciente convalescente daqui a 68 dias.

No caso deste último debate sobre as condições de saúde do Papa, é surpreendente, por um lado, que alguém quis aproveitar a circunstância para requentar o mantra dos 'dois Papas' e, por outro, que no âmbito do jornalismo católico, alguns tenham considerado quase herético que se fale sobre a saúde e as doenças do Pontífice. Em alguns artigos fica a impressão que estamos escandalizados ou incomodados porque está escrito que o Pontífice tem quase 85 anos, que se submeteu a uma cirurgia para remover um problema intestinal muito grave ("uma estenose diverticular do sigma") e que em sua vida o Papa Bergoglio foi submetido a outras cirurgias, pulmonar e hepática.

Apesar de não termos encontrado, entre os muitos artigos lidos, nem mesmo um que falte com o respeito pelo Santo Padre ou que deliberadamente viole sua privacidade, deixa-nos perplexos a relutância de determinados círculos sobre este assunto que consideramos natural e normal, plenamente humano, e que fazem parte da vida de milhões de seres humanos, ou famílias, quando falam sobre a saúde de seus idosos, pais ou avós. Aliás, muitas vezes esta 'conversa' sobre a fragilidade dos idosos na família evidencia o afeto, a preocupação e a proximidade aos entes queridos que o passar dos anos e as consequentes patologias fragilizaram.

O envelhecimento, as doenças e a morte fazem parte do plano salvífico do Criador. Que um cristão, se tal, não aceite esta realidade é, para dizer o mínimo, surpreendente. Todos nós sabemos que essas realidades são tipo um tabu e isso acontece porque, paradoxalmente, o próprio Cristianismo transmitiu inadequadamente a doutrina a esse respeito, facilitando penetrações culturais insidiosas e ambíguas, bem como inconsistentes.

Os idosos e os avós são temas que o Papa colocou entre as suas prioridades pastorais. No dia 25 de julho, poucos dias após seu retorno da Policlínica Gemelli para Santa Marta, após a hospitalização e a cirurgia, e a seu pedido, a Igreja celebrou o primeiro Dia Mundial dos Idosos e dos Avôs e a Mensagem de Francisco - onde lembra com imenso carinho e cita Bento XVI - é um dos mais belos textos do pontificado.

Envelhecimento, doença e morte são temas sobre os quais o próprio Papa Francisco falou e escreveu com referência à sua vida e em geral à complexa e delicada realidade da velhice. A este respeito, os textos do Pontífice são dezenas. Não só isso. Em 2016, sugeriu pessoalmente ao escritor argentino Nelson Castro que escrevesse um livro sobre a saúde dos papas. O projeto que Castro havia antecipado ao Papa Francisco em 2013 era um livro sobre a morte dos Papas.

Então, por que ter diante de seus olhos a questão da idade do Bispo de Roma, seguir seu envelhecimento e as suas doenças, causa tanto escândalo entre alguns jornalistas católicos?

Perguntamo-nos: mas se esquece que é precisamente a doutrina cristã que dá sentido e significado a toda a nossa existência depois do fim do nosso corpo? E por que não se deveria falar seriamente sobre a fragilidade e a transitoriedade do nosso corpo? Para os cristãos, o envelhecimento e a fragilidade que a doença e seus sofrimentos acarretam são circunstâncias que nos lembram o limite da morte, do trânsito ou passagem, além do qual está o Criador que espera sua criatura.

O que se ganha e, acima de tudo, o que ensina aos outros, quando por cortesia insensata ou analfabetismo religioso se quer passar a ideia de que um Pontífice idoso e doente pode ser comparado a um campeão olímpico? Foi a pergunta sadia e inteligente que Joaquín Navarro-Valls fez quando dizia: “Para alguns o Papa está gravemente doente, mas depois de sua morte”.

A nossa última reflexão aponta diretamente para o Cristo Ressuscitado.

Nos quatro Evangelhos, são amplamente narradas a Paixão e a Morte do Filho de Deus: o escândalo da Cruz. Os evangelistas, inclusive, não poupam detalhes de uma crueza avassaladora. É a economia divina da Encarnação: tornar-se homem em tudo menos no pecado, para realizar, para cumprir a Ressurreição e assim selar, pela graça de Deus, a salvação de todos e de cada um.

 

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