O sinal esperado por cristãos e islã. Artigo de Franco Cardini

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08 Março 2021

"O Papa no Iraque para encoraja os poucos e temerosos cristãos; mas também os muçulmanos. De paz, todos precisam (e nós também)", escreve Franco Cardini, historiador, em artigo publicado por La Stampa, 07-03-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

O encontro em Najaf entre o Papa Francisco e o aiatolá Al-Sistani, que ocorreu no mesmo dia da manifestação pública que viu o Papa em diálogo com o os mais altos representantes das etnias das confissões religiosas presentes no Iraque, tem sido da maior importância tanto do ponto de vista político como para o equilíbrio religioso do país.

O Iraque, cuja população na estimativa mais recente (2017) chegava a quase 28 milhões de habitantes, é composto do ponto de vista étnico por 65% de árabes, 23% de curdos (indo-europeus) e quase 6% de azerbaijanos (turcos). Do ponto de vista religioso, mais de 62% são muçulmanos xiitas duodecimanos (da mesma confissão que seus vizinhos iranianos, mas pertencentes à "escola de Najaf" que é um pouco diferente daquela de Qom), cerca de 24% sunitas (como são em grande parte os curdos) e poucos são os Yazidis frequentemente perseguidos que se estabeleceram nas montanhas curdas no nordeste.

Os cristãos, divididos nas duas Igrejas caldeia (católica) e assíria (nestoriana), ambas de língua ritual aramaica, eram mais de 5% antes da agressão dos Estados Unidos em 2003. Naquela época, o regime de orientação "laico"-socialista de Saddam Hussein, apesar de estar implantado num sistema autoritário de partido único (o Baath), insistia no primado do princípio nacional sobre o confessional e considerava todos os cidadãos iraquianos da mesma forma (o vice-presidente, Tariq Aziz, era um cristão caldeu). Naquela época, a população cristã ultrapassava 5% dos habitantes. Hoje, depois de várias perseguições, a minoria cristã caiu para 1%, o equivalente a cerca de 30.000 pessoas.

Após o colapso do regime de Saddam, os ocupantes estadunidenses e seus aliados perceberam que suas teóricas intenções de "exportação da democracia" os haviam lançado em um impasse: a maioria do país era xiita, o que significa quase autonomamente que simpatizava mais com os correligionários iranianos do que com os ocupantes ocidentais. Desde então, iniciou-se uma crise feita por mudanças frequentes de governo e lutas civis entre grupos étnico-religiosos opostos. Como a permanência da ocupação é uma causa contínua de descontentamento e inquietação, Obama já na época havia ordenado a retirada do contingente estadunidense em 2011; Trump e Biden renovaram o empenho, que no entanto não foi cumprido até ao momento: pelo contrário, parece que chegaram ao país alguns agentes da CIA encarregados de missões especiais.

A preocupação dos estadunidenses é obviamente que o governo iraquiano se abstenha de se aproximar demais das posições iranianas. Por outro lado, vale acrescentar que os xiitas iraquianos, adeptos da "escola de Najaf", são muito menos inclinados que aqueles iranianos da "escola de Qom" a vincular a religião à política. Seu líder espiritual, o venerado Ayatollah Al-Sistani, 90 anos, tem constantemente condenado o terrorismo como uma posição contrária à moral do Islã e interveio repetidamente pedindo harmonia e tolerância entre xiitas e sunitas. Mas o primeiro-ministro atualmente no cargo, Mustafa al-Kadimi, foi nomeado em maio passado diretamente pelo Presidente da República Salih em vez de uma consulta eleitoral e é um "homem de serviços" implicitamente saudado pelo governo estadunidense, Arábia Saudita e até mesmo pelos extremistas sunitas. Isso constitui um fator de insegurança em um país onde, especialmente no Sul, as milícias armadas xiitas pró-iranianas são muito fortes e aguerridas.

Esta é a situação: extremamente delicada e sempre a ponto de voltar a ser dramática, conduzindo a uma nova guerra civil. Já dura há dezoito anos e a população, sunita, xiita e cristã, não aguenta mais. O aiatolá Al-Sistani, que mantém distância de seus correligionários iranianos para não sobrecarregar o clima político, assinou de fato um documento de amizade fraterna entre as duas religiões irmãs, a cristã e a muçulmana, junto com o Papa Francisco: algo semelhante ao assinado pelo pontífice meses atrás no Egito com o Grande Imã da escola corânica de al-Azhar. Mas Al-Sistani fez questão de esclarecer que - embora se declare certo de uma constante unidade de intenções com os irmãos xiitas iranianos - ele pretende empenhar apenas os xiitas iraquianos com sua assinatura. Uma posição de grande equilíbrio, que foi muito apreciada mesmo que exponha o aiatolá à retaliação dos grupos xiitas intransigentes. O Papa está no Iraque para encorajar os poucos e temerosos cristãos; mas também os muçulmanos. De paz, todos precisam (e nós também).

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