“O objetivo é nos deixar tão ocupados no trabalho que não nos preocupemos com a ética”, afirma Frank Pasquale

Foto: Pixnio

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30 Julho 2020

Sua voz não soa como outras mil. Frank Pasquale (Dunkirk, Nova York, 1974), professor de Direito na Universidade de Maryland, procura entender o mundo quando acontece. No presente. E, também, quando acontecerá. No futuro. É autor de The Black Box Society (Harvard University Press, 2015). Uma referência a um tempo que já vivemos. Advertiu que os algoritmos cujo funcionamento desconhecíamos podem criar (ou arruinar) reputações (Facebook), decidir o destino de trabalhadores e empresários e inclusive “devastar uma economia inteira”. Qual a melhor imagem do que uma caixa preta [?]. E essa velocidade em que se absorve a luz.

A reportagem é de Miguel Ángel García Vega, publicada por Revista Retina, 26-07-2020. A tradução é do Cepat.

“Os seres humanos estão correndo contra eles próprios como podengos e galgos. A ideia de máquinas competindo contra o homem soa distópica, mas já está aí. Não é difícil imaginar dois programadores da Uber ou Lyft criando um software onde vença o cliente que chegar primeiro”. Agora, Pasquale, nesse momento em que ainda é noite, mas está a ponto de amanhecer, acaba de publicar New Laws of Robotics (Harvard University Press, 2020) e se fixou, sob estas Novas leis da robótica, no controle do ser humano e a história.

Alguns banheiros chineses possuem um software de reconhecimento facial para racionar o papel higiênico. E nos Estados Unidos os empregados só têm o direito de ir ao serviço desde 1998. Há uma pressão cada vez maior de empresas e executivos para que o trabalhador não possa “roubar tempo”. Esta relação entre a velocidade e a distância conduz – reflete o docente – “a uma maior insegurança trabalhista”.

A estratégia da gestão está na ruptura. É pegar um torrão de terra nas mãos e esfarelá-lo. Até que quase não fique nada. Ou muito pouco. “A lógica do chefe automatizado é fragmentar os trabalhos em tarefas e depois em conjuntos menores de ações que possam ser padronizadas e repetitivas. É um princípio fundamental das práticas de gestão “tayloristas” e da maximização da eficiência”, comenta Pasquale.

Não resta nada de Aristóteles e sua Ética a Nicômaco. Suas ideias se pulverizaram. “Cometer uma injustiça é pior que a sofrer”, lê-se. Séculos de humanismos confinados no abandono. “O chefe digital está levando a ética ao limite. Olha para o abismo. O objetivo é garantir que estejamos tão ocupados que nem sequer tenhamos tempo para nos preocupar com a ética”, observa o professor. Valor, competitividade, tecnologia. E novamente o tempo. Desta vez, seu caráter desnecessário.

O livro 24/7, de Jonathan Crary, descreve a longa pesquisa histórica para encontrar fármacos que reduzam ou eliminem a necessidade de dormir. Crary relata que o sono é um imenso luxo para as economias capitalistas e os exércitos. Mas o que revela aos gestores e executivos é que se tornem “riders”. Desempenhar-se sob sua própria queda. Todos os níveis empresariais possuem espaços que podem ser robotizados. “É possível que cada área de gestão esteja planejando automatizar a supervisão do nível seguinte”, adverte o professor da Universidade de Maryland. Nesta corrida de galgos contra podengos robóticos só há uma saída: a criatividade. De Altamira, e a noite dos tempos, a verdadeira condição humana.

 

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