Mestre Eckhart: Deus se faz presente enquanto ausência de imagens e de privilégios

Fonte: Cepat

13 Abril 2021

 

Deus, conforme a mística de Mestre Eckhart, se faz presente enquanto ausência de imagens e de privilégios, e o ser humano se torna um ser aberto ao infinito na medida em que acolhe essa ausência, reconhecendo que não há um único caminho que conduza ao seu conhecimento, como também que é Ele mesmo a fornecer as coordenadas desse mesmo caminho”, afirma Matteo Raschietti, doutor em Filosofia, professor na área de Filosofia Medieval, na Universidade Federal do ABC, em artigo escrito especialmente para o encontro [online] intitulado A mística do Ser e do Não Ter em Mestre Eckhart, realizado no último dia 10 de abril.

A atividade promovida pelo CEPAT, contou com a parceria e o apoio do Instituto Humanitas UnisinosIHU, as Comunidades de Vida CristãCVX, Regional Sul, o Conselho Nacional do Laicato do BrasilCNLB, a Iniciativa das Religiões UnidasURI e o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de AlmeidaOLMA.

 

Matteo Raschietti, da UFABC, durante o encontro online "A mística do Ser e do Não Ter em Mestre Eckhart"

 

Eis o artigo.

 

Introdução: o que é mística?

A palavra mística é de origem grega e na sua raiz se encontra o verbo mýein que indica o ato de fechar, aliás de entreabrir, os órgãos dos sentidos. Ligada ao conceito religioso arcaico de “mistério”, indicava uma dimensão não tanto misteriosa quanto iniciática, reservada àqueles que tinham sido adequadamente instruídos, inclusive por um processo de purificação.

Na Idade Média, o uso da palavra mística como substantivo não é comprovado, embora seja possível encontrar raros exemplos de emprego como adjetivo. Nesse caso, “místico” tem a ver com secreto, misterioso, de forma bastante próxima ao significado do mundo grego clássico. Mas aqueles que são considerados grandes místicos medievais – sejam eles homens ou mulheres, religiosos ou leigos – utilizaram muito raramente esse termo, e sempre como adjetivo. Eles, portanto, nunca tiveram consciência de si mesmos como místicos.

Mestre Eckhart, teólogo, pregador e místico, foi um Dominicano alemão que viveu entre 1260 e 1328. Enviado várias vezes à Universidade de Paris (em 1293-94 em qualidade de lector sententiarum, em 1302-1303 e, em 1311-1313, como magister sacrae theologiae), ocupou cargos de primeiro plano na ordem (prior de Erfurt, vigário geral da Turíngia, provincial da Saxônia, vigário geral da Boêmia, vigário geral da Teutônia) e desenvolveu uma atividade intensa como pregador, através da qual entrou em contato com os movimentos populares da sua época (que eram hostilizados pela hierarquia eclesiástica).

Em 1314, foi enviado a Estrasburgo e, dez anos mais tarde, a Colônia, no Studium generale fundado por Alberto Magno, de quem recebeu uma forte influência neoplatônica, mediada pelo Pseudo-Dionísio Areopagita. A brilhante carreira foi interrompida improvisamente pelo processo por heresia que o bispo de Colônia empreendeu contra ele, a partir de uma denúncia feita por alguns confrades (que Eckhart chamou de aemuli, invejosos), que pinçaram algumas frases das suas obras em latim e em alemão e que, descontextualizadas, pareciam ter um sentido herético.

Desfecho disso foi a bula de condenação In agro dominico de 1329 (após a morte de Eckhart, ocorrida provavelmente na primavera do ano anterior), assinada pelo papa João XXII, o mesmo que seis anos antes canonizara Tomás de Aquino (1323). O peso da condenação papal influiu na circulação de suas obras, que chegaram até os dias de hoje de maneira fragmentada. Apesar disso, elas alimentaram uma tradição submersa e eficaz que perpassou os séculos e, desde o começo, se estendeu além das fronteiras da área alemã.

Uma pergunta que não quer calar: é correto afirmar que ele foi, antes de tudo, um místico? Há uma divergência entre os estudiosos hoje: para alguns se trata de um “mito historiográfico”, assim como ao movimento chamado “mística renana”. A palavra mística, por sua vez, pode dar azo a uma espécie de censura historiográfica na medida em que é contraposta à escolástica, considerada por alguns a expressão dominante e mais desenvolvida do pensamento medieval. Esta forma de pensar, além de não fazer jus à complexidade da realidade medieval, contribuiu para alimentar uma interpretação minimalista de Eckhart como um escolástico medíocre, ou como expressão de um pensamento nacional alemão cujo surgimento coincidiu com o fim da escolástica.

 

1. Sapida scientia

A pessoa e a obra de Mestre Eckhart representam um caso raro de imbricação e síntese feliz entre filosofia, teologia e mística. Para delinear os traços essenciais da mística eckhartiana faz-se mister procurar aquela sapiência que, como diz a etimologia da palavra, é sapida scientia, um conhecimento tão rico de sabor que faz saborear de antemão as delícias das coisas eternas.

É o próprio mestre dominicano que fala da sapida scientia num sermão acadêmico proferido em Paris no dia 28 de agosto de 1302 (ou 1303), em ocasião da festa de Santo Agostinho, a partir da citação do livro do Eclesiástico Vas auri solidum ornatum omni lapide pretioso (Como um vaso de ouro maciço, ornado de toda espécie de pedra preciosa, Eclo 50,10).

O turíngio, com suas palavras, celebra o santo pela “abundância de sapiência e de ciência reunidas sob vários aspectos”. Falando de sapientia e de scientia, Eckhart se refere às faculdades do homem que, para o Bispo de Hipona, são as mais nobres, ou seja, as faculdades intelectuais: uma, a scientia, orientada ao conhecimento enquanto tal, e outra, a sapida scientia, orientada à visão das coisas eternas, como um conhecimento saboroso que, às vezes, introduz no ser humano um desejo profundo.

Essas duas faculdades, conjugadas na etimologia de sapientia, sapida scientia, encontram-se unidas intimamente na mística de Mestre Eckhart: ele foi teólogo de renome e, ao mesmo tempo, mestre de espiritualidade. Nas suas obras, entretanto, ele nunca fala da experiência mística, mas a simples ausência de um discurso sobre a mística não pode constituir uma prova contra ela ou, paradoxalmente, a favor dela (pelo fato de ser uma experiência inefável).

Seja como for, o turíngio pertencia à ordem dos Pregadores, uma ordem de frades pobres e estudiosos que, segundo as intenções de seu fundador Domingos de Gusmão, contemporâneo de Francisco de Assis, deviam pregar a doutrina cristã não só com palavras, mas também com o exemplo de vida, sem as suspeitas de interesses materiais. Assim Mestre Eckhart pregou o nascimento do logos no fundo da alma, o desprendimento, a liberdade infinita do pobre no espírito, a bondade e a justiça divinas, a doutrina do ser humano imagem de Deus, e fez isso num modo enfático e carismático, o que deixa pressupor experiências místicas pessoais que ele, entretanto, silenciou.

Se uma das características da mística é a capacidade de sentir e pregustar in via (isto é, na vida terrena) as realidades eternas alcançáveis plenamente in patria (isto é, na vida eterna) sem perder o horizonte da temporalidade, a vivência de Mestre Eckhart pode ser muito bem chamada de mística. Com efeito, Johannes Tauler, que conviveu com ele e se tornou seu discípulo, no sermão Clarifica me, Pater (n. 15, Glorifica-me, ó Pai), assim descreveu como o mestre foi visto na sua época e de que maneira seu pensamento foi julgado:

“Sobre isso, assim ensina um amável mestre, mas vós não o entendeis. Ele falava do ponto de vista da eternidade, mas vós o interpretastes segundo a temporalidade. [...] Um nobre mestre falou sobre esse pensamento, sem indicação e sem caminhos pré-determinados (para alcançar a verdade suprema). Muitas pessoas entendem isso segundo o modo dos sentidos exteriores e se tornam homens envenenados, e por isso é cem vezes melhor que eles cheguem lá com indicações e caminhos pré-determinados”.

Individuamos três características da mística de Eckhart, a saber: a mística do Ser (essência), a mística do Não Ter (desprendimento) e a mística do Ser e do Não Ter (imagem sem imagem).

 

2. A mística do Ser (essentia)

Mestre Eckhart recupera e valoriza a doutrina da interioridade agostiniana como retorno da alma em si mesma, no seu “fundo” e “castelo”, onde ela se descobre como o lugar do nascimento eterno do logos e da identidade com Deus. Com uma linguagem extremamente rica e fascinante, o turíngio explora num modo inédito a essência daquilo que é mais elevado na alma, seu espírito mais íntimo e profundo, a “centelha” na qual se encontra o Uno, a Deidade, Deus.

No Sermão alemão nº. 1 (Jesus entrou no templo e começou a expulsar aqueles que vendiam e compravam, Mt 21,12), o dominicano alemão lança mão da imagem do templo como lugar da alma onde se dá a união entre Deus e o homem:

“Lemos no santo evangelho que Nosso Senhor entrou no templo e expulsou os que ali compravam e vendiam; e disse aos outros que ofereciam em pechincha pombas e coisas parecidas: “Levai isso embora, retirai-o para longe!” (Jo 2,16). Por que Jesus expulsou os que compravam e vendiam, e aos que ofereciam pombas apenas ordenou que esvaziassem o lugar? E que, em tudo isso, a sua única exclusiva intenção era querer ter o templo vazio, justamente como quisesse dizer: “Tenho direito sobre esse templo, e nele quero estar só e reinar””.

O mestre dominicano afirma que a igualdade entre o ser humano e Deus, revelada no livro do Gênesis, é alicerçada na propriedade comum de estar vazio e só enquanto o templo (ou seja, a alma) for vazio, pode ser igual e semelhante a Deus. A essência do ser humano, segundo Eckhart, qualifica-se como aquele lugar onde Deus pode dominar absoluta e exclusivamente na medida em que o ser humano se torna vazio, ou seja, renuncia a si mesmo. Esse tornar-se vazio, contudo, não acontece do dia para noite: este é um processo que faz com que o ser humano se liberte, progressiva e gradualmente, daquilo que é alheio à sua verdadeira natureza. Com efeito, em si ele não é nem vazio e nem livre, parecendo-se mais com “as pessoas que compravam e vendiam no templo”:

“Pois, atenção! Quem eram as pessoas que lá compravam e vendiam, e quem são elas ainda? Escutai, pois, com muita precisão! Agora, sem exceção, quero pregar, falando somente de boas pessoas. Desta vez, porém, quero mostrar quem eram e quem são ainda <hoje> aqueles que assim compravam e que ainda o fazem, esse que Nosso Senhor enxotou e expulsou. E isso Ele o faz sempre ainda a todos que compram e vendem, ali nesse templo. Desses, não quer deixar nenhum, nem sequer um único, ali dentro. Vede, mercadores são todos eles, todos que se guardam contra pecadores grosseiros, que gostariam de ser boas pessoas e que praticam suas boas obras para a honra de Deus, como jejuar, vigiar, rezar e toda a sorte de semelhantes boas obras, e o fazem, no entanto, a fim de que Nosso Senhor lhes dê algo em troca ou que Deus lhes faça algo que seja do agrado deles: todos esses são mercadores”.

A expulsão dos vendedores do templo representa a condição comum de todos aqueles que se esforçam para realizar o bem na esperança de obter de Deus algo em troca: este é, para Eckhart, o maior erro, pois quem faz assim não se dá conta de que suas ações são baseadas em pressupostos falsos e enganosos, querendo oferecer a Deus uma bondade que não lhe pertence.

Tudo o que há de bom no ser humano, afirma o turíngio, não vem dele, mas de Deus; mais do que isso: tudo o que o ser humano é essencialmente, e tudo o que ele possui, vem de Deus. Os vendedores sempre operam para uma finalidade, não por amor, e isso é incompatível com a nobreza do templo, ou seja, da alma do ser humano criada à imagem e semelhança de Deus:

“Falei também, além disso, que Nosso Senhor disse aos que ali ofereciam pombas: “Levai isso embora, retirai-o para longe!” A essa gente, Nosso Senhor não escorraçou, nem repreendeu muito, mas falou-lhe até com bondade: “Levai isso embora!”, como se quisesse dizer: “Isso <certamente> não é mau, mas impede a pura verdade”. Toda essa gente são boas pessoas, fazem suas obras puramente só por causa de Deus e nisso nada buscam do que é seu, e, no entanto, fazem-nas com e por vontade própria, ligadas a tempo e a número, a antes e depois. Nessas obras, essas pessoas estão impedidas <de alcançar> da melhor de todas as verdades, a saber, que elas deveriam ser livres e soltas como Nosso Senhor Jesus Cristo é livre e solto, e todo tempo, sem cessar e sem tempo, se concebe novo de seu Pai celeste, e no mesmo instante, sem cessar, perfeitamente de novo, gera a si com louvor e gratidão, para dentro da sublimidade do Pai, em igual dignidade”.

As pombas não são uma parte essencial do templo e, portanto, devem ser retiradas. Como aqueles que ofereciam pombas, também os seres humanos devem retirar aquilo que perturba o sossego do templo que está neles, ou seja, devem renunciar às suas determinações de criaturas que Eckhart, nas obras em alemão, denomina com o termo eigenschaft (propriedade), e nas obras latinas com o termo neutro proprium.

Na realidade, o proprium ou eigenschaft em si não é negativo, como o mestre dominicano ressalta na sua referência às pombas. Mas do ponto de vista do templo, tudo aquilo que pertence ao horizonte da criatura esconde e obscurece o verdadeiro fundamento do ser humano. A essência do ser humano, com efeito, não consiste apenas na sua eigenschaft, na sua determinação espaço-temporal, mas no fato de ser livre e criado à imagem de Deus:

“Em plena verdade: a esse templo ninguém é realmente igual a não ser somente o Deus incriado. Tudo que está abaixo dos anjos não se iguala, de modo algum, a esse templo. Mesmo os anjos, os mais elevados, só se igualam a esse templo da alma nobre até um certo grau, mas não plenamente. Que eles se igualem a alma em certa medida, isso vale para o conhecimento e o amor. Todavia, foi-lhes posta uma destinação; para além da qual não podem ir. Mas a alma pode muito bem ultrapassá-la. Se uma alma – e, a propósito, a <alma> de um homem que ainda vivesse na temporalidade – estivesse na mesma altura que o mais elevado dos anjos, esse homem poderia, assim, sempre ainda, em sua possibilidade livre, alcançar imensuravelmente mais alto por sobre o anjo, a cada instante, de novo, sem número, isto é, sem modo e por sobre o modo dos anjos e de todo o intelecto criado. Só Deus é livre e incriado, e por isso só Ele é igual a ela [a alma nobre] segundo a liberdade, não, porém, em vista da in-criaturidade, pois ela é criada”.

Quando o ser humano aprende a relativizar a própria dimensão limitada e finita, descobre em si um princípio, uma “possibilidade livre”, que o eleva acima do anjo mais nobre. Com efeito, contrariamente ao anjo (ao qual foi atribuído um limite pela eternidade), o ser humano no seu templo é absolutamente livre, indeterminado e – justamente por isso – igual a Deus. A nobreza e a liberdade do templo, no entanto, não são uma prerrogativa dos místicos e tampouco uma recompensa prometida na vida ultraterrena, mas estão ao alcance de todo homem que vive “na temporalidade” que deve apreendê-las e reconhecê-las em si.

Assim, a mística do Ser de Mestre Eckhart é a experiência intelectual de um ser humano que, após entender a nulidade da sua dimensão de criatura, procura um alicerce sólido ao seu ser (que não pode encontrar em nenhuma das dimensões às quais renunciou), descobrindo que é Deus o alicerce, o substrato e o ser da sua alma.

O templo, nestes dias, foi objeto de controvérsia no Brasil depois que o ministro do STF Kássio Nunes Marques permitiu a realização de cultos e missas presenciais em todo o país durante a pandemia, e seu colega Gilmar Mendes proibiu logo em seguida. Hélio Schwartzmann escreveu na Folha de 05 de abril:

Rezar é, de todas as atividades humanas, a mais facilmente adaptável para o home office — se Deus existe e é onipresente, como quer a tradição, ouve preces de qualquer lugar que sejam feitas. Diante de uma entidade assim tão poderosa, o papel que resta às igrejas é muito menos o de estabelecer a comunicação com o divino do que o de favorecer uma vida comunitária significativa para os fiéis. Assim, os religiosos só teriam motivo para queixa se os templos estivessem recebendo das autoridades terrenas um tratamento menos favorável que o dispensado a outros negócios que promovem contatos sociais positivos, como clubes e grêmios recreativos. Não sendo esse o caso, a liminar só cria uma exceção injustificável para templos. Nunes Marques, porém, não está sozinho. Ele e milhões de brasileiros continuam agindo como se a epidemia fosse uma fatalidade imposta por Deus e não a expressão matemática de interações sociais desprotegidas entre portadores do Sars-CoV-2 e suscetíveis. Como ainda permaneceremos meses sem vacinas nas quantidades necessárias, o único jeito de reduzir o contágio é reduzir essas interações. Enquanto os brasileiros, em especial autoridades como Marques, não entenderem isso, continuaremos colecionando milhares de mortos por dia”.

A mística do Ser de Mestre Eckhart nos deve provocar a devolver ao templo seu significado mais profundo e verdadeiro.

Matteo Raschietti, da UFABC, e Manoel Pacífico, da URI, durante o encontro online "A mística do Ser e do Não Ter em Mestre Eckhart"

 

3. A mística do Não Ter (Abgeschiedenheit – desprendimento)

Em 1314, Eckhart foi enviado a Estrasburgo, capital da Teutônia, na qualidade de vigário geral do mestre da Ordem. Esse foi um período de atividade intensa que durou dez anos, até 1324. As obras que foram atribuídas a esse período são dois tratados em alemão – O Livro da Divina Consolação e Do homem nobre – que juntos constituem o Liber benedictus. Há outro tratado do mesmo período, cujo título é Do desprendimento (Von Abgeschiedenheit), mas, como não é mencionado nas atas do processo contra Eckhart, sua autenticidade é discutida. A maioria dos estudiosos, entretanto, tendem a atribuí-lo ao turíngio. Em suas primeiras palavras, o mestre dominicano afirma:

“Eu procurei com sinceridade e com todo o empenho a mais alta e a melhor das virtudes, ou seja: a que capacite o homem a melhor e mais estreitamente unir-se a Deus e tornar-se por graça o que Deus é por natureza, e que mais o assemelhe à imagem que dele havia em Deus e na qual não havia diferença entre ele e Deus, antes que Deus produzisse as criaturas. E quando perscruto todos aqueles escritos, tanto quanto a razão mo permite e é capaz de percebê-lo, outra coisa não encontro senão esta: que o puro desprendimento ou total disponibilidade tudo supera, pois de certa forma todas as virtudes visam à criatura, ao passo que o desprendimento está desvinculado de todas as criaturas”.

Nessa noção de desprendimento não é possível separar os significados de técnica mística, de indicação prático-operativa para a perfeição da vida espiritual e de exercício filosófico: o desprendimento é a atividade racional do pensamento na sua finalidade principal de conduzir à união com Deus, através de um modo diferente de se relacionar com as coisas do mundo.

Há um elo profundo entre o Abgeschiedenheit e o nada: “O desprendimento toca tão de perto o nada que não há o que se interponha entre o desprendimento perfeito e o nada; [...] objeto do desprendimento puro não é isto nem aquilo, Ele assenta num puro nada”. O nada da condição perfeitamente conforme ao desprendimento é a reprodução exata do nada divino: com efeito, o próprio Deus é desprendimento: “O ser de Deus, Deus o deve ao seu desprendimento imutável; e do desprendimento Lhe vem a pureza e a simplicidade e a imutabilidade [...]; só o desprendimento conduz o homem à pureza, e da pureza à simplicidade, e da simplicidade à imutabilidade”.

A mística do desprendimento, além de caracterizar todo o pensamento de Mestre Eckhart, dá a possibilidade de fazer um confronto com a espiritualidade e a mística de Marguerite Porete, uma beguina que foi queimada viva na Place de Grève, em Paris, no dia 1º de junho de 1310, junto com seu livro O Espelho das Almas Simples e aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo do Amor.

Segundo a mística poretiana do esvaziamento, se a alma aniquilada participa da potência divina, significa que ela tem a capacidade de conhecer a verdade separando-se das realidades contingentes, que não são apenas as coisas, mas também sua própria natureza de alma. Então, a distância entre a alma e Deus se encurta até anular-se, porque, na união com Deus, a alma torna-se Deus, como ser, verdade e amor infinito. Na mística de Marguerite, a absoluta plenitude do ser das criaturas é consequência da perda total das próprias características individuais: plenitude é, então, a plenitude do ser de Deus, limitado, do ponto de vista fenomênico, somente pelas características da criatura finita. Aparecem, assim, perfeitamente consoantes as afirmações segundo as quais as obras são um nada diante da plenitude de uma vida divina, que se torna possível por meio de uma “via aniquilada”. Aniquilados o nome e a imagem, sinônimos de identidade individual, a alma retorna ao seu primeiro ser:

“Agora essa Alma está no primeiro estado do ser que é seu estado próprio e, assim, deixou o três, e fez de dois somente um. Mas quando se tem esse uno? Esse uno se tem quando a Alma é recolocada naquela Deidade simples, que é um Ser simples de fruição transbordante, na plenitude do saber sem sentimentos, acima do pensamento. Esse Ser simples faz na Alma, por caridade, tudo o que a Alma faz, porque a vontade tornou-se simples. Essa vontade simples não tem nada a fazer nela, depois que venceu a necessidade das duas naturezas, lá onde a vontade foi trocada pelo ser simples. E essa vontade simples, que é a vontade divina, coloca a Alma no ser divino: mais alto ninguém pode ir, nem mais profundamente descer, nem mais desnudo pode estar”.

O sermão eckhartiano que mais reflete as posições do apofatismo poretiano é o . 52 (Beati pauperes spiritu). Nele, o mestre dominicano descreve o homem verdadeiramente pobre como aquele que “nada quer, nada sabe e nada tem”. A ausência da vontade própria, característica da alma aniquilada, torna a pessoa livre não apenas de práticas exteriores de piedade, mas também da imagem de Deus quando Ele é entendido como princípio das criaturas: “Por isso eu peço a Deus que me esvazie de Deus; pois meu ser essencial é acima de Deus, na medida em que compreendemos Deus como origem das criaturas”.

Marguerite, de forma semelhante, “dispensa” a imagem de Deus na experiência do ser Uno, sem porquê, retornando à condição anterior à criação, quando não havia nenhuma determinação e a alma era nua, como o próprio Deus:

“Tudo para ela é uma única coisa, sem um porquê, e ela é nada no uno. Agora ela não tem mais nada a fazer por Deus, nem Deus por ela. Por quê? Porque Ele é e ela não é. Ela não retém mais nada em si, no seu próprio nada, por isso lhe basta, ou seja, Ele é e ela não é. Portanto, ela está despojada de todas as coisas, pois ela está sem ser, lá onde estava antes de ser”.

Se na mística de Marguerite, a absoluta plenitude do ser das criaturas é consequência da perda total das próprias características individuais, das quais fazem parte as distinções de gênero, por que as mulheres ainda são proibidas de receber o ministério ordenado? Em janeiro, o Papa Francisco modificou o § 1 do cânon 230 do CIC (Codex iuris canonici) e autorizou a abertura dos ministérios do Leitorado e do Acolitado a mulheres leigas, o que significa que elas poderão fazer leituras, ajudar no altar durante as missas e distribuir a comunhão (já não faziam isso antes?). Embora o pontífice tenha estabelecido uma comissão para estudar qual era o papel das chamadas diaconisas, ou se elas já existiam nos primeiros anos do cristianismo, a questão da ordenação sacerdotal das mulheres acabou descartada.

Críticos, por sua vez, dizem que isso abriria um precedente perigoso em direção a uma ordenação das mulheres como sacerdotisas no futuro. Lucetta Scaraffia, ex-editora da revista para mulheres do Vaticano, considera as mudanças anunciadas uma “armadilha dupla” para as mulheres na Igreja: ela diz que, enquanto é uma mera formalização de uma prática já existente, a decisão também deixa claro que o diaconato é um ministério reservado para homens. Padre Robson, o cardeal Bertone et caterva podem dormir sonos tranquilos....

A mística do Não Ter de Eckhart deveria ensinar o desprendimento do poder e dos privilégios acumulados em milênios de história.

 

4. A mística do Ser e do Não Ter (imagem sem imagem)

A mística de Mestre Eckhart, por um lado, segue o rastro de uma antiga tradição segundo a qual o ser humano é criado “à imagem e semelhança de Deus” (Gen. 1,26) e o Filho é “imagem perfeita do Pai” (Col 1,15). A intensidade com a qual o mestre dominicano faz referência a esse segundo aspecto, por outro lado, é reveladora da originalidade de seu pensamento: se o Filho e a geração são únicos, não é mais possível distinguir duas modalidades diferentes de ser imagem, uma plenamente realizada, própria do Filho de Deus, e a outra que indica o devir do ser humano em vista da realização escatológica. Esse é um dos aspectos nos quais o turíngio, conscientemente, se distancia da tradição. No Sermão 50 (Eratis enim aliquando tenebrae), o dominicano escreve:

“Já tenho dito muitas vezes que é da obra em Deus e do nascimento que o Pai gera seu Filho unigênito. É desse eflúvio, que floresce o Espírito Santo, de tal modo que o Espírito <eflui> de ambos, e nesse eflúvio a alma salta <como> efluxo, e a imagem da deidade é impressa na alma. Nesse efluir e refluir das três Pessoas, a alma é influída e de novo in-formada para dentro de sua primeira imagem sem imagem”.

A verdadeira imagem de Deus é aquela em que desapareceram todas as outras imagens, que em si representam uma espécie de ídolo com o qual o Absoluto pode ser confundido. Por isso, a mística da imagem do mestre dominicano pode ser comparada à maestria do escultor que, como ele mesmo escreve no tratado Do homem nobre, apara as lascas que ocultam e encobrem aquela que é a verdadeira imagem:

“Quando um mestre faz uma imagem de madeira ou de pedra, ele não introduz a imagem na madeira; o que ele faz é aparar as lascas que ocultavam e encobriam a imagem; não dá coisa alguma à madeira, mas lhe tira e escava a cobertura e afasta a ferrugem, fazendo aparecer o brilho do que jazia oculto debaixo dela”.

Na mística eckhartiana, o ser humano é uma imagem especular de Deus, um verdadeiro espelho através do qual Ele se torna visível. Na imagem refletida, a unidade com o modelo tem precedência sobre a distinção. O olho de Deus e o olho do homem são a mesma realidade, como afirma no Sermão 12: “O olho com que eu vejo Deus, é o mesmo olho com que Deus me vê; meu olho e o olho de Deus são um olho, um ver, um conhecer e um amar”.

O ser humano é aspectum de Deus e Deus é respectum do ser humano: os dois formam uma única realidade, da mesma forma em que o modelo e a imagem são unum, e não há intermediação que os separe, nem tempo, nem espaço, nem vontade, nem qualquer outra potência. Consequentemente, para o ser humano realizar sua vocação profunda de ser unum com Deus, tem que fazer retorno para Ele.

O nascimento eterno e o nascimento no tempo fazem parte de um duplo movimento em que a imagem revela uma dúplice possibilidade de interpretação, passiva e ativa: a primeira considera o ser humano quando é gerado por Deus “à sua imagem”, comunicando-lhe sua essência; a segunda contempla o ser humano na sua dimensão de criador que, “no mesmo instante em que recebe a si mesmo, gera a si mesmo e não só isso, mas também a Deus e a criatura”.

Há alguém que possa decidir qual ser humano é uma imagem especular de Deus e qual não é, quem pode ser abençoado e quem não pode? Parece que sim. A Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, no dia 15 de março, decretou que “não é lícito conceder uma bênção a relações, ou mesmo a parcerias estáveis, que implicam uma prática sexual fora do matrimônio”. A reportagem de Christopher White, cuja tradução foi publicada pela revista IHU-Online de 16 de março de 2021, cita Natalia Imperatori-Lee, professora de estudos religiosos do Manhattan College que se especializou em sexualidade e teologia, segundo a qual Francisco “fez muito para nos afastar da linguagem 'inerentemente desordenada' que a teologia católica tradicionalmente usa para descrever pessoas homossexuais”. Mas o novo decreto equipara o casamento entre pessoas do mesmo sexo ao pecado, disse ela. “Isso vai contra a ideia de que as pessoas LGBTQ são feitas à imagem de Deus”.

De acordo com o professor de teologia da Fordham University Patrick Hornbeck (citado na reportagem), “no contexto de todas as coisas que o papa parece ter feito em nome e com as pessoas LGBTQ, é difícil não considerar isso uma condenação desnecessária de relacionamentos que muitas pessoas consideram profundamente doadores de vida”.

Deveras, a mística da imagem de Mestre Eckhart deve nos trazer de volta à antiga tradição e aos ensinamentos da Sagrada Escritura.

Matteo Raschietti, da UFABC, Igor Borck, do CEPAT e Jonas Jorge, do CEPAT, durante o encontro online "A mística do Ser e do Não Ter em Mestre Eckhart"

 

Conclusão

Seria muita pretensão afirmar que esta abordagem da mística de Mestre Eckhart esgota toda possibilidade de interpretação. No entanto, ela pode ser útil para ensejar uma nova possibilidade de um discurso sobre Deus hoje, mesmo quando toda teo-logia parece ter esgotado seus argumentos teóricos para convencer o ser humano do século XXI da existência do Deus absconditus, e as religiões são sentenciadas de morte por uma parte considerável do pensamento científico (e que, mesmo assim, continuam digladiando-se nas arenas confessionais e teológicas para impor a própria imagem de Deus).

Esse Deus, porém, conforme a mística de Mestre Eckhart, se faz presente enquanto ausência de imagens e de privilégios, e o ser humano se torna um ser aberto ao infinito na medida em que acolhe essa ausência, reconhecendo que não há um único caminho que conduza ao seu conhecimento, como também que é Ele mesmo a fornecer as coordenadas desse mesmo caminho. Seu ponto de chegada, segundo o turíngio, é o silêncio, única forma de expressão possível para quem conhece a Deus como desconhecido e não cognoscível. Na esteira do mestre dominicano, Anthony de Mello, um jesuíta indiano autor de inúmeras obras traduzidas no mundo inteiro (repletas de elementos oriundos da espiritualidade cristã, islâmica, budista e taoísta entre outras), escreveu:

“Vocês estão cercados por Deus e não O vêem, porque vocês ‘sabem’ a respeito de Deus. A última barreira que impede a visão de Deus é o conceito que vocês têm de Deus. Vocês deixam escapar Deus porque vocês acham que sabem. Este é o aspecto terrível da religião. Isto é o que falavam os Evangelhos: os religiosos ‘sabiam’ e por isso se libertaram de Jesus. O maior conhecimento de Deus é conhecê-lo como o incognoscível. Hoje se fala demasiadamente sobre Deus: o mundo não aguenta mais. Há pouca consciência, pouco amor, pouca felicidade, mas nem utilizamos mais essas palavras. Há pouco abandono das ilusões, dos erros, dos desafetos e das crueldades, demasiadamente pouca consciência. O mundo sofre por causa disso, não por falta de religião”.

Ponto de chegada dessa abordagem da mística de Mestre Eckhart é a descoberta do fim derradeiro do ser humano em busca do Absoluto: a união da alma com Deus, o ápice do conhecimento que é um tornar-se a mesma “imagem sem imagem”, simbolizada pelo turíngio no Sermão 80 com a metáfora da gota no mar bravio:

“Por isso, diz um profeta que, em face de Deus, todas as coisas são tão pequenas como uma gota de água diante do mar bravio (Sb 11,23). Se derramássemos uma gota no mar, a gota se transformaria no mar e não o mar na gota. Assim acontece também à alma: quando Deus a atrai para si, ela é transformada em Deus, de modo que a alma se torna divina, e não que Deus se transforma na alma. Então, a alma perde seu nome e sua força, mas não sua vontade e seu ser”.

No fundo da dissimilitudo infinita, onde ser e o nada convergem como em um abismo insondável, entre o fundo da alma e o fundo de Deus não há mais distinção: “aqui o fundo de Deus é meu fundo, e meu fundo é o fundo de Deus” (Sermão 5b). Precisamos redescobrir isso, calar mais sobre Deus, voltar ao Evangelho: o que significa ser cristão hoje no Brasil e no mundo?

Karl Rahner (1904-1984), um teólogo católico alemão dos mais influentes no Concílio Vaticano II e do século XX, em 1965 publicou o livro “O Cristão do Futuro”, no qual fez uma série de reflexões sobre o resultado do concílio e suas expectativas para a Igreja e para os cristãos do futuro. Uma de suas frases mais conhecidas é aquela que diz que “o cristão do futuro, ou será místico ou não será cristão”. Esta frase foi retomada no filme “Bonhoeffer” de Eric Till (2010), que retrata a vida do teólogo luterano alemão protagonista da resistência ao nazismo, que foi enforcado no campo de concentração de Flossembürg, na alvorada do dia 09 de abril de 1945, poucos dias antes do fim da Segunda Guerra Mundial:

“Eu me perguntei qual o significado de Cristo no futuro ... Precisaremos de uma nova forma de Cristianismo, numa época em que o mundo mudou ... Acredito que a religião tem apenas um propósito no mundo moderno: ensinar as pessoas a compartilhar o sofrimento dos outros e de Deus em um mundo sem Deus. Uma religião que é apenas formal não é mais suficiente, precisamos da fé com Jesus Cristo no centro. O verdadeiro cristianismo significa compartilhar a dor dos outros. Não cabe a nós profetizar o dia em que os homens irão pedir a Deus mais uma vez para mudar o mundo e renová-lo, mas quando esse dia chegar, haverá uma nova linguagem, talvez até não muito religiosa, que expressará essa redenção e libertação contida na mensagem de Jesus. As pessoas serão atingidas pelo seu poder. Será a linguagem de uma nova verdade que proclamará a paz entre Deus e os homens”.

Quiçá que a mística do Ser e do Não Ter de Mestre Eckhart nos ensine esta nova linguagem.

 

Eis a íntegra do encontro.

 

 

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