Granum sinapis: O grão de mostarda, de Mestre Eckhart

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30 Outubro 2020

"Este texto de Eckhart, antes que sermão ou tratado, é um poema e tem a forma de um poema. E a pobreza é uma das palavras que o diz, expressando, antes que a ortodoxia ou a verdade de um conteúdo, a própria fonte da poesia: o insondável, o 'que não se pode sondar', entender ou explicar, 'cujo fundo ou limite não pode ser conhecido', explica Jonas Samudio ao comentar o texto Granum sinapis (O Grão de Mostarda), de Mestre Eckhart. 

 

O texto traduzido e o comentário são de Jonas Samudio, escritor e estilista, criador da grife TTERESA, dedica-se às relações entre mística, erotismo e feminino, tecidas no corpo e na escrita. Formado em Filosofia, Teologia e Letras, é mestre e doutor em Estudos Literários. Publicou A mais aberta (Cas’a Edições, 2017), Mão de fora e suas histórias, com ilustrações de Kleriston Kolive (Edição do Autor, 2017), Demasiado alinho sobre TTERESA (2019, Edição do autor, 2019), “Véus seus” (Revista Em tese, 2019) e Pétala pele (Cas’a Edições, no prelo).

 

Eis o texto traduzido.

 

1. Granum sinapis

O grão de mostarda [1]

Mestre Eckhart
(tradução: Jonas Samudio)

 

I
No começo
no alto além do sentido
sendo a Palavra.
Oh rico tesouro
onde começa o começo criança!
Do coração do Pai
fluindo
Palavra e júbilo!
E o seio da verdade
mantendo a Palavra.

 

II
Dos dois, um fluxo
do amor, o fogo
dos dois, um laço
dos dois, conhecido
flui o tão doce Espírito
tudo idêntico
inseparável.
Os três são um.
Sabe tu o que? Não.
Ele o sabe de si o melhor tudo.

 

III
Dos três, o laço
é profundo susto
este giro mesmo
nem um sentido concebe
aqui é um profundo sem fundo.
Fracasso e risco [échec et mat]
de tempo forma lugar!
Anéis maravilhosos
jorrando
tudo se imove no ponto.

 

IV
O monte desse ponto
se escala leve.
Lúcida lucidez!
O caminho é porta
ao deserto maravilhoso
ao largo, ao longe
sem medida se estendendo.
O deserto tem
não tempo, não lugar
é a via inviável.

 

V
Este bem deserto
o pé jamais pisa
o sentido criado
jamais o pega.
É, e ninguém ainda o sabe
aqui lá
longeperto
profundo alto
é assim
não isso não aquilo.

 

VI
Luminoso transparente
totalmente treva
inominável
inconhecido
livre de começo e fim
silenciosamente
nu sem vestes
Quem sabe sua casa?
O que adentra fora
e escreve sua forma.

 

VII
Devém como uma criança
devém surdo cego!
O ser mesmo
deve devir nada
tudo ser tudo nada, banido dele todo sentido!
Abandona lugar, abandona tempo
abandono dom
abandono, a imagem!
Avança sem vias
pelas sendas estreitas
e alcançarás os pés do deserto.

 

VIII
Sai, ó minha alma
e Deus, entre!
Treva tudo, o meu ser
no nada de Deus
treva no seu fluxo sem fundo!
Eu te fujo
tu me vens.
Que eu me perco e
te encontro
por sobre essências!

 

Eis o comentário. 

 

2. Uma tradução pobre – algumas notas do tradutor

Uma tradução pobre, segundo alguns, é aquela que parte de outra tradução. Já de acordo com outros, qualquer tradução é pobre, pois só o original seria capaz de portar a mensagem que alçou o degrau alto da comunicabilidade – aliás, a comunicabilidade seria, para outros ainda, o sinal marcante de uma tradução bem sucedida. Nesses dois sentidos, pois, nossa tradução é pobre: ela não parte do original médio-alto alemão de Mestre Eckhart – que, apesar de anônimo, é considerado, por pesquisadores como Alain de Libera e Kurt Ruh, como de autoria do Mestre –, mas da tradução francesa, realizada por Gwendoline Jaczyk e Pierre-Jean Labarrière. Também no que tange à comunicabilidade, nossa tradução é pobre: preterimos o que se quer dizer em nome da pobreza da forma de dizer – pobreza que, de seu lado, e nisso cremos, é a mais alta riqueza a que pode pretender um poema: “O que adentra fora/ e escreve sua forma” (estrofe VI).

 

Pois este texto de Eckhart, antes que sermão ou tratado, é um poema e tem a forma de um poema. E a pobreza é uma das palavras que o diz, expressando, antes que a ortodoxia ou a verdade de um conteúdo, a própria fonte da poesia: o insondável, o “que não se pode sondar”, entender ou explicar, “cujo fundo ou limite não pode ser conhecido”. [2] E, como fundo ou limite, trata-se sempre de começar o começo do poema, no alto além do sentido, a palavra mais pobre, algumas poucas palavras para dizer o abgeschiedenheit, um dos preciosos vocábulos do léxico eckhartiano: desprendimento, como alguns traduzem, ou despojamento, dizem outros. A essas traduções, acrescento a mais pobre: a pobreza, considerando que, se o prefixo des- porta um sentido de ação contrária, também traz o de cessação de uma situação anterior, o que nos daria uma compreensão de que, nalgum ponto anterior, teríamos conseguido sondar o insondável e que, já agora, por alguma razão, estaríamos privados dessa dádiva. Já a pobreza, articulada ao insondável e à poesia, parece se afirmar de modo peremptório: nasce-se só, de mãos vazias e sem palavras, igualmente se morre só, de mãos vazias e com poucas palavras emudecidas: um “pobre é aquele que nada quer, nada sabe e nada tem” [3], e, acresço, que escreve.

 

O poema poderia ser, pois, o fino trajeto de, entre uma e outra, a vida e a morte, encontrar algumas palavras que se tornarão a calar. E que, noutra voz e noutro gesto, podem, pela leitura e pela escrita, ressuscitar, ser pobremente traduzidas, continuar as mesmas sendo outras, pobres e diferentes.

 

Traduzir, ressuscitar um texto em sua diferença: “o que fala essencialmente nas coisas e nas palavras e na passagem, contrariada ou harmoniosa, de umas às outras, [...] é a própria Diferença, misteriosa por que sempre diferente daquilo que a exprime [...] tal que, mantendo-se indizível, tudo fal[a] por sua causa [4]”: indizível, insondável, poderíamos acrescentar, o poema traduzido seria, a cada vez, mais pobre e improvável fala, no campo das letras, as formas mais pobres, os contornos de uma pobreza mais pobre; uma privação de letras que se traduz em desejo de privação da linguagem, da língua e da experiência – pobreza, privação que avança sobre o poder da linguagem, em sua capacidade de dizer; sobre o da língua, em sua capacidade de determinar o dizer e, ao mesmo tempo, possibilitar aberturas nessa exigência, tais como a poética; sobre a própria experiência da palavra: escrita como a experiência de nada-ter, nada-ser, nada-saber, nada-querer e de tocar o que não é: “Deus não é nem ser nem bondade”, “Deus não é bom, nem melhor nem o melhor”; “Deus é mais silenciar do que falar”; “Deus não é nem isso nem aquilo”; [5] “Deus não é igual a nada”; “Deus não é nem sabedoria nem bondade”; “Deus não é amável, ele está acima de todo amor e de toda amabilidade”; [6] o não da privação e da diferença, uma palavra para quem se situa no lastro dessa pobreza, Deus, homens, mulheres e outrem.

 

Testemunhamos, em nossa tradução pobre, o insondável da escrita e do pensamento, também de Mestre Eckhart. Insondável que, impossível de ser dito e de ser silenciado, encontra o poema como forma e desenho de um perfil, ainda corpo. Na estrofe I, propomos: para “toujours est la Parole”, “sendo a Palavra”; para “d’où en liesse/ la Parole toujours flua”, “fluindo/ a Palavra júbilo”; e, para “a gardé la Parole”, “mantendo a Palavra”. Por ora, destacamos o “sendo”, o “fluindo” e o “mantendo”, o gerúndio repetido, dizendo o indeterminável que é, que flui, que se mantém. Ser, fluir, manter-se: três modos, parece-nos, de se escrever o insondável que impregna e encharca a realidade circundante como o aroma de uma essência – por isso, escrevemos “ô bien suressentiel!” (estrofe VIII) com palavras “por sobre essências!” –, auréola e movimento, permanência do que é próprio e do que é ser, fluir, manter. O gerúndio, pois, o primeiro fio deste comentário que traçamos.

 

O segundo fio, tal como o ser, o fluir, o se manter, o gerúndio em todas as coisas, é a linha do paradoxo que as mantém, e a si, apartadas: “Deus não pertence a ninguém, e ninguém lhe pertence”. [7] Nesse espírito, propomos, por exemplo: para a estrofe VII, “tout être, tout néant, bannis de là tout sens!”, “tudo ser tudo nada, banido dele todo sentido!” e acrescentamos “abandono dom”. De um lado, o encontro com o insondável, em todas as coisas, é um modo de perdê-lo, perdendo-se nele, sem sair das coisas, sem dele sair: “há na alma uma pujança, uma centelha e um a mais, um fundo secreto onde Deus é eternamente presente, não como Pessoa ou como Essência, mas como Unidade absoluta”. [8] Insondável, aquela que é em tudo, em nada fixo, e mesmo o perder-se e o encontrar-se são a “experiência de união que se marca em seu fracasso, por um movimento de aprofundamento incessante, [...] a sempre colocar em questão o que avança, justamente o que lhe leva a avançar. [...] cada etapa da ascese corresponde a outra etapa que a nega e a torna derrisória”. [9] Ser, fluir, manter, não se soltar do paradoxo de um pensamento que se dá escrito, se dá poema, e é testemunho do insondável continuamente a ultrapassar sua passagem em cada coisa, sendo, em cada passagem, toque que a marca. De outro lado, nosso acréscimo, “abandono dom” pode ser compreendido, pelo menos, em três sentidos: no primeiro, o de que o abandono é o próprio dom – aqui, dom seria a entrega, o abandonar-se, próprio da alma, conforme Eckhart, próprio também de Deus que com ela se une, que está em seu interior: Deus nascendo na alma, “esse nascimento que doa ser, todo o restante perece. Nesse nascimento participas da influência divina e de todos os seus dons. Ele não pode ser recebido pelas criaturas nas quais não se encontra a imagem de Deus, pois a imagem pertence exclusivamente a esse nascimento eterno”; [10] no segundo sentido, se lermos em voz alta e, na leitura, situamos, ao final de “abandono”, um artigo definido “o” elidido, podemos ler: “abandono o dom”, reconhecendo, talvez, uma das expressões mais concernentes à obra eckhartiana: a pobreza que é despojar-se de tudo, inclusive da própria doação da deidade. Disso, chegamos ao terceiro sentido possível: abrir mão do dom, abri mão de Deus e, nesse despojar-se, encontrar o próprio dom, a própria deidade que se doa; haja vista que, no interior da própria palavra “abandono” há, sonoramente, a palavra “dom”: abandono, que reiteramos em seu sentido pela repetição: “abandono dom”, tal qual “um dom em que, com o mesmo gesto, o impensável nos dá um nome como aquele em que se dá e como dom dado pelo impensável, que só se retira na distância do dom”. [11] À distância, o dom segue sendo, fluindo, se mantendo, e o “abandono, [eis] a imagem!” (estrofe VII) desse doar-se.

 

A voz das palavras ecoando o fluir, como também pretendemos na tradução, na estrofe III, do verso “tout immobile se tient son point” por “tudo se imove no ponto”, marcando, com essa escolha, ainda outra vez, o fluir do paradoxo da mística que a poesia de Eckhart testemunha. A poesia de Mestre Eckhart, e isso desejamos, se mistura com a tradução que dela fazemos: uma poética da pobreza, em que o literal da letra testemunha a palavra, tal qual a vemos: e recolhe aquilo que sendo e se mantendo, flui. E o recolhendo, é dito com a fluência de uma escrita que, também nossa, assume a sintaxe como forma de suspensão da linearidade do discurso em prol de sua fluidez. Então, escrever o que flui é testemunhar a fluência do poema que, despojado de um ímpeto comunicacional, não é sem implicações sobre a língua, e testemunhando a experiência que é sua origem. Assim, ainda na estrofe III, traduzimos “échec et mat” por “fracasso e risco”; para isso, partimos da expressão usada no jogo de xadrez que indica o lance que o encerra, no instante em que o rei sofre um ataque certeiro. Desse modo, ao invés de usar a transliteração da expressão, “xeque-mate”, menos poética e mais direta, optamos pela apropriação de dois significados indiretos – pois, sendo um contínuo risco, o xeque-mate também indica o fracasso das jogadas e, no sentido que lhe damos, que o fracasso e o risco acompanham a pobreza do poema como um dom que brota do jogar, como, talvez, um infinito lance de dados.

 

Destacamos, ademais, a opção tradutória, na estrofe V, de “c’est loin, c’est près” por “longeperto”, termo retirado da obra mística O espelho das almas, de Marguerite Porete, beguina do século XIII, contemporânea de Eckhart. E o fazemos, tanto em consideração pela proximidade espiritual dos dois místicos, quanto, e sobretudo, pela força poética da imagem de Porete, que porta o paradoxo imanente ao poema de Eckhart: a deidade segue sendo na concomitância do mais longe e do mais perto. Dentre vários modos, ela assim o expressa: “o arrebatador longeperto, o qual chamamos uma centelha pela forma de abertura e rápido fechamento”, [12] o que nos leva a essa escolha: se irmãos poemas, se irmãs escritas, as obras de Eckhart e Porete testemunham dois místicos da centelha, numa comunidade mística que abrange ainda outros – Ângelus Silesius, Hadewich da Antuérpia, Henrique Suso, Jan van Ruysbroeck, entre outros – que, mirando o longeperto, escrevem a distância que flui em direção a ele. Distância arrebatada, para a qual o poema diz: “avança sem vias/ pelas sendas estreitas/ e alcançarás os pés do deserto” (estrofe VII), e que, ao lado do fluir e com a fluência, também aponta para a afluência: “Deus é em todas as coisas essencialmente, atuante e com poder, mas é só na alma que ele é gerador. Pois todas as criaturas são um vestígio de Deus, mas a alma foi formada naturalmente segundo Deus”. [13] O insondável, no abandono de si, como destinação da alma dedicada ao seu caminho sem caminho, é a via para onde aflui todos as vias, e todas foram abertas por esse arrebatamento.

 

Por fim, poderíamos dizer, com essas, a tão grande pobreza dessa tradução pobre: o poema também não é o poema, e isso só pode ser dito por meio dessas palavras.

 

Referências:

[1] ECKHART, Maître. Les traités et le poème. Trad. Gwendoline Jaczyk ; Pierre-Jean Labarrière. Paris : Albin Michel, 1996, p.195-198

[2] INSONDÁVEL. In: AULETE. Dicionário online. Disponível aqui. Acesso em 20 out. 2020.

[3] ECKHART. Sermões alemães: vol.1, p.287.

[4] BLANCHOT. A conversa infinita 2: a experiência limite, p.19.

[5] Respectivamente: ECKHART. Sermões alemães: vol.1, p.85; p.213; p.284.

[6] Respectivamente: ECKHART. Sermões alemães: vol.2, p.56; p.77; p.118.

[7] ECKHART. Mística de ser e de não ter, p.165.

[8] BLANCHOT. Faux pas, p.34. Tradução nossa.

[9] BLANCHOT. Faux pas, p.33. Tradução nossa.

[10] ECKHART. Sermões alemães: vol.2, p.201.

[11] MARION. El ídolo y la distancia, p.143. Tradução nossa.

[12] PORETE. O espelho das almas, p.111. Nesta obra, da beguina Marguerite Porete, Longeperto pode ser compreendido como um dos nomes com os quais a alma designa Deus.

[13] ECKHART. Sermões alemães: vol.2, p.200.

 

Bibliografia:

AULETE. Dicionário online. Disponível aqui

BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita 2: A experiência limite. Trad. João Moura Jr. São Paulo: Escuta, 2007.

BLANCHOT, Maurice. Faux pas. Paris: Gallimard, 1971.

ECKHART, Maître. Les traités et le poème. Trad. Gwendoline Jaczyk; Pierre-Jean Labarrière. Paris : Albin Michel, 1996.

ECKHART, Mestre. A mística de ser e de não ter. trad. Raimundo Vier; Fidelis Vering; Leonardo Boff. Petrópolis: Vozes, [s/d].

ECKHART, Mestre. Sermões alemães: vol.1 (Sermões 1-60). Trad. Enio Paulo Giachini. Petrópolis; Bragança Paulista: Vozes, Editora Universitária São Francisco, 2006.

ECKHART, Mestre. Sermões alemães: vol.2 (Sermões 61-105). Trad. Enio Paulo Giachini. Petrópolis; Bragança Paulista: Vozes, Editora Universitária São Francisco, 2008.

MARION, Jean-Luc. El ídolo y la distancia: cinco estudios. Trad. Sebastián M. Pascual; Nadia Latrille. Salamanca: Sígueme, 1999.

PORETE, Marguerite. Espelho das almas simples e aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo do Amor. Trad. Sílvia Schwartz. Petrópolis: Vozes, 2008.

 

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